Fátima, o culto fálico ao bezerro de ouro da Cova da Iria


 Não procuro aplausos, procuro obedecer à Verdade
        Bento XVI

Fui a Fátima neste domingo último, dia 12 de maio, numa peregrinação de bicicleta que partiu de Lisboa. Mais precisamente da Azambuja, pois fomos de comboio de Lisboa até Azambuja. No essencial fomos um grupo de seis cristãos devotos, conscienciosos do mundo que nos rodeia e respeitadores perante a mãe natureza, obra divina. Fomos peregrinos zero emissões, pois usámos o comboio, que se move por meios elétricos e bicicleta. Fizemos cerca de 100km de bicicleta por paisagens idílicas e edénicas, ao longo de duas serras (dos Candeeiros e de Aire). Passámos pela nascente do rio Alviela, percorremos os caminhos de xisto mais árduos ao longo de trilhos exigentes e onde a taxa de inclinação das subidas chegava aos 20 por cento. Descemos escarpas perigosas pelo meio da serra, e na maioria dos casos, tivemos de sair da bicicleta e subir com ela à mão. A grande parte do circuito foi feita fora do alcatrão, em caminhos pouco próprios para bicicletas, aliás seguimos escrupulosamente os caminhos de Fátima, que são essencialmente caminhos exclusivamente pedonais e não estão de todo adaptados para quaisquer tipo de veículos dada a sua irregularidade e o mau estado do piso. Na zona da Azambuja, na zona da lezíria do Tejo, contemplámos as paisagens deveras maravilhosas e vimos o brilhar do Tejo, de fronte das nossas vistas, à medida que acompanhávamos o seu trajeto.

Todavia, travo um combate com Fátima, um combate entre a razão e a paixão. Sou um homem fortemente dotado pela razão pura, pela análise, pela dialética, pela Filosofia, pela Verdade, pela Matemática. O matemático, em grego, não era aquele que lidava com números (esse título demos a Vítor Gaspar), o matemático, era o “estudioso do conhecimento” onde naturalmente os números eram apenas a ferramenta para compreender o universo e o mundo que nos rodeia.

Fátima surge então como um autêntico paradoxo teo-racional com que lido todos os dias. E passo a detalhar os diversos pontos de vista.

A minha visão dialética e racional

Fátima é um embuste, é a maior tanga nacional do século XX, a maior cena teatral que a Igreja concebeu em Portugal desde a fundação em 1143. Basta um pouco de análise filosófica para percebermos que coincidentemente os “milagres” de Fátima surgem em 1917, muito pouco tempo depois da implantação da República e exatamente no ano da revolução bolchevique. Lembremo-nos que a Primeira República era marcadamente anticlerical e laica. São conhecidos pensamentos marcadamente anticlericais nos homens da República, como a famosa previsão de Afonso Costa em acabar com o Catolicismo em três gerações. Fátima surge assim, especulativamente, através dos pensadores mais maquiavélicos da Igreja, no ano da revolução vermelha, como um contra-ataque à República e aos ideais comunistas que se aproximavam. A Igreja tornava-se cada vez menos apelativa nos seus discursos e rituais, mais hermética, menos emocional na sua doutrina, mais formal; o concílio Vaticano II, que aproximaria bastante os fiéis da Fé, seria apenas mais de 40 anos depois. Portugal tinha uma população marcadamente iletrada, rural e analfabeta. Interessava assim criar nos crentes uma entidade aglomeradora de paixão e fé, mais palpável e tangível, algo a que os homens e mulheres menores se pudessem agarrar, algo sensível aos sentidos.

A propaganda da República, assim como a do Socialismo era vincadamente emocional. Discursos apoteóticos, braços direitos no ar, cânticos, marchas, hinos, enquanto a Igreja continuava num marasmo emocional ligada a rituais quase crípticos difundidos em Latim, que o comum dos mortais não acolhia. Fátima surge então como o catalisador emocional para juntar todo uma igreja com pouca Fé. Ali está Nossa Senhora, é algo com quem podemos contar. Fátima surge assim como o catalisador dos descendentes de São Tomé.

Mas não deixa de ser um embuste, uma peça de teatro orquestrada pelas mais altas instâncias da Igreja para combater o anticlericalismo republicano e mação. Esta é a razão histórico-política, crua e dura, mas há mais.

O local e a época

Haveria que escolher um local e não poderia ser qualquer um. Se o milagre fosse em Bragança coitados dos peregrinos do Algarve, se fosse no Algarve, seria mais árduo para os de Bragança. Pensaram os “matemáticos” da Igreja que estatisticamente obteriam muitos mais peregrinos, se o local de culto ficasse no centro do país, para que as probabilidades de obter mais crentes fossem maiores. Cálculo estatístico e probabilístico do mais elementar. É o princípio contrário ao de Santiago de Compostela. Neste último caso, a cidade espanhola encontra-se numa ponta da Europa, como contraste à peregrinação que era vigente então, que era a peregrinação à Terra Santa. Santiago surge assim como a senda peregrina Europeia, para canalizar o fluxo de peregrinos para a Europa, contrastando com Jerusalém, no médio Oriente. O princípio de Fátima é mais simples, encontra-se a apenas 60km de Vila de Rei, centro geodésico de Portugal e na mesma latitude mas mais voltada para o litoral, zona mais povoada, aumentando assim as probabilidades de obtenção de fiéis em busca de Fé.

A questão da época tem o mesmo sentido matemático e probabilístico. Se você quiser criar um local de culto e quiser aumentar a probabilidade de obter fiéis, e precisar de uma data considerando a meteorologia mediterrânica, não a vai fazer no inverno, quando faz frio e muita chuva, nem a fará no verão, quando o calor é abrasador, fá-la-á no alvorecer da primavera, quando os campos desabrocham, quanto a Natureza é mais bela, quando a maioria das árvores dá fruto e quando as plantas estão em flor. Ora, para que as peregrinações dos fiéis fossem mais esplendorosas e para que houvesse maior afluência ao santuário, a efeméride não poderia ser nem no inverno, nem no verão, mas somente na primavera devido a fatores climatéricos.

A própria estória dos pastorinhos está muito mal contada. Dois morreram bem cedo. Qual a probabilidade de duas crianças no fulgor da idade morrerem com tamanha tenra idade? E qual a probabilidade de serem logo duas em três? Bem sei que os cuidados de saúde de então eram deficitários mas dá uma probabilidade de sessenta e seis por cento de mortandade juvenil, a qual considero muito alta, mesmo para os padrões da época em questão. Já a terceira pastorinha foi colocada num convento, e por lá ficou enclausurada em voto de silêncio até à sua morte! Toda a história de Fátima é um teatro de má qualidade, que põe o Filósofo a bradar aos céus. É uma novela da TVI, com um cariz ritualístico e uma pitada de misticismo.

A visão psicanalítica

Não vou evocar Freud, porque já o fiz, e a matéria já é deveras polémica, mas Freud no meu entender é estranhamente ostracizado, quem sabe propositadamente, pois os seus conhecimentos são no meu entender poderosíssimos, e ao conhecimento que dá poder, normalmente requer-se discrição, ou mesmo secretismo. Mas para a minha dialética, toda a aparência da estátua de Fátima é não-mais que um simples falo disseminado numa imagem de uma humilde mulher que ora ao seu Deus. Sim, reafirmo-o, a estátua de Nossa Senhora de Fátima é um falo, um simples falo, e é esse caracter fálico, que ao se introduzir na psique, no inconsciente coletivo, provoca tantos milagres e tanto bem-estar. Não farei aqui um tratado de psicologia evolutiva, até porque tenho escrito deveras sobre o tema neste blogue, mas estou em crer que Freud e o psicólogo evolutivo mais sapiente entenderiam de forma cristalina a que me refiro. Os nossos olhos dividem as imagens em cores e contornos e processam estas duas vertentes visuais de forma distinta. Ora se analisarmos apenas o contorno da estátua da Nossa Senhora de Fátima, desconsiderando a coroa, e considerando que tem as mãos bem unidas, temos unicamente uma estrutura fálica, com uma ponta meio amarelada no topo, contrastando com um corpo de uma tonalidade mais clara.

A minha cristandade teológica

Do ponto de vista teológico, o culto a Fátima é uma heresia, é o lado mais idólatra, profano e nefasto que a cristandade pode conceber. Em Mateus 4:10 é-nos dito claramente que apenas “ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto”. Eu iria mais longe e evocaria quem sabe o bezerro de oiro (Êxodo 32) para questionar se Fátima não se terá tornado num novo bezerro de oiro da Lusitânia a quem os fieis se podem agarrar. Quão idólatra é ver milhares de fiéis seguirem apenas e só apenas um pedaço de loiça pintada. Sacralizar um objeto, como é sacralizada aquela estátua em Fátima vai contra todos os preceitos bíblicos, quer da tradição hebraica, quer da tradição dos evangelhos. Ver milhares de pessoas seguirem um pedaço de loiça só pode mesmo ser idolatria e da mais herética. Deus, na Sua sabedoria e eterna Bondade, não se apresenta aos homens em bocados de loiça pintada de branco.

E reparai que tenho um enorme respeito e consideração por Maria, a progenitora do Messias. Maria foi uma mulher divinal, uma excelente mãe, carinhosa, dedicada, afetuosa e doutrinou no Messias a caridade (‘compaixão’ para os ateus), o Amor, que fez do Messias um génio, uma Luz, uma referência que sigo, um farol pelo qual me guio e rejo. Mas Maria concebeu, e concebeu um Bem Maior, concebeu Jesus, e concebeu naturalmente como todas as mulheres concebem, concebeu com um homem, de seu nome José. E foi essa família; a estrutura grupal mais importante duma sociedade, pois é a que se segue imediatamente a seguir do ponto de vista numérico, à individualidade; que educou o Messias para ser o Filho de Deus. Foi José e Maria que lhe ensinaram a compaixão e a caridade, a bondade do perdão, o não julgamento dos outros, enfim o Amor de Cristo.

Reduzir Maria, a uma estátua na Cova da Iria é além de idólatra, muito redutor.

E o meu lado mais esotérico, o que diz?

A psicologia evolutiva, a psicanálise, a sociologia, a astronomia e a antropologia, formam um conjunto de ciências que são os pilares mestres das ditas ciências esotéricas, ou também denominadas por pseudociências. Comecemos pelo dia, o dia 13. Bem já expliquei que o número 13 é um número marcadamente feminino devido ao facto de a mulher ter em média 13 períodos por ano, que está em sintonia com a periodicidade da Lua. Sendo Maria, uma mulher, o dia 13 evoca assim a feminilidade, a fecundidade e a criatividade de Maria, daí o 13 de maio.

Adicionando algum caracter histórico, estou também em crer, usando ainda da dialética e de alguma especulação, que o próprio nome Fátima, ou seja, a escolha do topónimo Fátima não surge por acaso. Para quem não sabe, estranhamente, Fátima era não mais que a filha mais adorada de Maomé, o Profeta fundador do Corão. Aliás, o próprio nome Fátima é de origens Árabes e não Indo-europeias. Assim, porquê a escolha do nome da filha predileta do Profeta Maomé, para uma entidade sacra em Portugal. Deduzo que seja um perdão generalizado pela chacina da Reconquista. Poucos sabem e muito há por descobrir, e tenho lido sobre o assunto. A Reconquista cristã foi das empresas mais bárbaras e sanguinárias da história. A título de exemplo reparai que em Portugal, praticamente não há vestígios de relevo de sete séculos de presença moura. Há azulejos, tapeçaria, alguns verbetes do dicionário e pouco mais, claramente muito pouco de um povo, uma cultura e um língua que ocupou Portugal durante sete séculos. E porquê pergunta o mais curioso. Penso que a razão é simples e os factos históricos confirmam. A Reconquista foi das cruzadas mais bárbaras da história da humanidade. Lembremo-nos que os soberanos cristãos eram não mais que descendentes dos povos bárbaros que haviam sido convertidos séculos antes. Eram homens deveras rudes, iletrados e sanguinários. Crê-se por exemplo que o primeiro rei não analfabeto foi D. Dinis. Já os mouros, eram povos muito mais tolerantes e civilizados, naquele tempo já haviam feito desenvolvimentos consideráveis na astronomia (para se orientarem no deserto), na aritmética, na trigonometria e na alquimia (a predecessora da Química moderna). A mesquita era o local onde os discípulos aprendiam todas estas ciências e onde se aprendia também filosofia. Os mouros eram tolerantes perante os cristãos, havendo até o chamado moçárabe, ou seja o cristão que vivia entre os mouros. Durante a ocupação moura os cristãos podiam prestar o seu culto, e as igrejas não eram destruídas, e sabe-se que Lisboa tinha até um bispo aquando da ocupação afonsina em 1147, o que revela que até uma certa hierarquia cristã podia ser mantida aquando da ocupação moura. Esse mesmo bispo foi executado pelos exércitos cristãos durante a invasão de Lisboa.

Escolher então em princípios do séc. XX o nome de Fátima, para uma deidade cristã, é do ponto de vista esotérico, o pedido de perdão que os cristãos fazem à barbárie que foi a Reconquista. Se algum dia Cristo, tivesse presenciado as cenas da Reconquista e as cruzadas que a Igreja fez em Seu nome, tinha bradado ao Pai, para não ser ele o Messias pois nunca queria ter sido corresponsável por tais hediondos massacres. Fátima, a filha predileta de Maomé, é a mãe de Cristo, então Cristo só pode ser neto de Maomé, e nesta mescla cultural nasce a religiosidade lusitana.

E porque fui eu então à Cova da Iria?

Em 2003, em meados de Julho tive uma doença muito grave, à qual tive de ser internado por longo período. Temi pela vida, sofri bastante, e num momento de desespero vi Deus lá tão longe e encontrei tão pouco para me agarrar. Nesse momento a Nossa Senhora de Fátima, através da tradição cultural lusitana, apareceu-me no coração (metaforicamente claro está pois eu sou matemático), e então, depois de chorar desenfreadamente qual bebé que anseia pela mãe, qual animal instintivo que teme pela vida, encontrei algo a que me agarrar, algo palpável, algo tangível, e prometi que se sobrevivesse faria uma peregrinação a Fátima. Passados dez anos, cumpri essa promessa. Temo que tivesse sido menos racional, ou será que fui apenas um ser humano?

Perdoai-me as minhas ofensas, assim como perdoo a quem tenha ofendido

4 comentários:

  1. Caro João Pimentel Ferreira, é certamente uma mente brilhante, eu não conseguiria por mais que tentasse escrever um texto tão complexo como o seu. Começo por lhe dizer que acredito nas mensagens, por uma razão simples, nenhum padre, bispo, português ou um grupo deles naquela época seria capaz de congeminar essas aparições e a sua formação de cultura científica se se libertar de considerandos vários concluirá isso mesmo.

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    1. Fátima e a Ciência são forças antagónicas! Alguns conhecimento de Geografia, Psicanálise e História desconstroem todos os "milagres" de Fátima!

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  2. Caro, João Ferreira,apenas quero deixar a seguinte questão, que gostaria de ver explicada . - Se afirma que.- “Fátima é um embuste, é a maior tanga nacional do século XX, a maior cena teatral que a Igreja concebeu em Portugal desde a fundação em 1143, - Que segundo a sua dialética.- Toda a aparência da estátua de Fátima é não-mais que um simples falo disseminado numa imagem de uma humilde mulher que ora ao seu Deus. Sim, reafirmo-o, a estátua de Nossa Senhora de Fátima é um falo, um simples falo, e é esse caracter fálico, que ao se introduzir na psique, no inconsciente coletivo, provoca tantos milagres e tanto bem-estar. Que - "Fátima surge como um autêntico paradoxo teo-racional com que lido todos os dias." - Se no seu ponto de vista teológico. - O culto a Fátima é uma heresia, é o lado mais idólatra, profano e nefasto que a cristandade pode conceber. E vai mais longe dizendo ainda que. - Evocaria quem sabe o bezerro de oiro (Êxodo 32) para questionar se Fátima não se terá tornado num novo bezerro de oiro da Lusitânia a quem os fieis se podem agarrar. Quão idólatra é ver milhares de fiéis seguirem apenas e só apenas um pedaço de loiça pintada. Sacralizar um objeto, como é sacralizada aquela estátua em Fátima vai contra todos os preceitos bíblicos, quer da tradição hebraica, quer da tradição dos evangelhos. Ver milhares de pessoas seguirem um pedaço de loiça só pode mesmo ser idolatria e da mais herética. - Porque que é que em certa altura da sua vida afirma e declara-nos que “ Encontrei algo a que me agarrar, algo palpável, algo tangível, “ Fátima.” Afinal no que é que fica ……….??????

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    1. A questão responde-se simplesmente com a velha dicotomia entre a Razão e a Paixão. Quantas pessoas no dia-a-dia se apaixonam por outras, que racionalmente sabem que o que o outro quer delas é pouco lícito? Quando contudo se dedicam à reflexão, constatam que o sentimento passional que nutriam, era enganador! A minha paixão por Fátima obedeceu às mesmas premissas!

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