O aquecimento global em Portugal


O título da publicação poderá parecer paradoxal, na medida que faz referência ao um evento que é conhecido por ser global, mas que no título se cinge a uma determinada região geográfica; todavia, quando nos referimos ao aquecimento global, referimo-nos a um aumento da temperatura média à superfície do planeta ao longo do tempo. Ou seja, fazemos referência não só a um fenómeno global, mas essencialmente temporal, na medida que em média as temperaturas têm aumentado nas últimas décadas. Assim, fazer medições locais ao longo de um período de tempo considerável desde a industrialização do pós-guerra, pode ser um bom indicador para atestar que o aquecimento global é deveras um facto. E é! Na verdade, o aquecimento global há muito que deixou de ser uma teoria científica, na medida que há muito que deixou de ser uma mera hipótese, para ser tão-simplesmente um facto mensurável, atestado e comprovado.

Temperatura do ar

Assim sendo, apresenta-se no seguinte gráfico, apenas mais um pequeno alicerce científico para esse, há muito que comprovado, simples facto: o mundo está a aquecer. Acedi aos dados do PORDATA, que por sua vez os obteve do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, e coligi os dados da temperatura média do ar em diversas estações meteorológicas de Portugal, desde 1960. Depois tracei numa linha (a laranja) a média, em cada ano, dos cinco anos precedentes, e noutra linha (a vermelho) a média em cada ano dos quinze anos precedentes; aplicando, aquilo que no processamento de sinais se denomina por filtro passa-baixo. A tendência é evidente e podemos atestar, que em Portugal Continental, as temperaturas médias, quando a média é medida quer temporalmente, quer espacialmente ao longo do território de Portugal Continental, subiu perto de um grau °C entre 1970 e 2015, atestando aproximadamente o que a comunidade científica internacional desde há muito reconhece.

Média aritmética das temperaturas médias anuais das sete estações meteorológicas de Portugal Continental.
Fonte: PORDATA - Instituto Português do Mar e da Atmosfera.

Embora o aquecimento seja global, a medição local das temperaturas médias no território de Portugal Continental ao longo de mais de 55 anos, é de facto uma excelente amostra para as referidas alterações climáticas que sucedem a nível global.

Nível do mar

Mas Portugal, pelo facto de estar defronte do oceano Atlântico, é também um bom local para fazer medições com referência ao nível médio do mar. Para o efeito temos em Portugal o marégrafo de Cascais, construído em 1877 em Paris e instalado nessa vila piscatória portuguesa em 1882, tendo sido um dos primeiros sistemas de recolha de dados sobre o nível do mar na Europa. Um marégrafo é na prática constituído por um poço com ligação inferior ao mar, que possui no seu interior uma boia, estando essa boia ligada a um sistema de medição. Como o referido poço está ligado ao mar através de um canal no seu fundo, pelo princípio dos vasos comunicantes, o nível da água dentro do poço é igual ao nível do mar exterior, sendo que o poço tem a função de absorver as variações rápidas provocadas pela ondulação, funcionando como um filtro mecânico passa-baixo.

Dados do marégrafo de Cascais.
in: Aula 5 do seminário de Maria Araújo da Univ. do Porto.

Dados do marégrafo de Cascais.
in: "Variações do Nível Médio do Mar em Cascais: Características e Tendências";
António da Silva, Elisabete Freire e Gonçalo Crisóstomo, APEQ, Porto, 2008.

Os dados obtidos pelo marégrafo de Cascais, removendo as variações sazonais e as provocadas pelo natural efeito gravítico da Lua, que provoca por exemplo as conhecidas marés; aplicando-se por conseguinte uma regressão linear ao longo de um século desde a sua instalação em 1882, mostram que de facto o nível médio do mar está a aumentar na costa portuguesa, e, por lógica e científica inferência, no mundo. De acordo com alguns trabalhos académicos o nível médio do mar subiu cerca de 195 milímetros desde 1870, o que de certa forma coincide com a subida de cerca de 120 milímetros observada pelo marégrafo de Cascais desde 1882, como se pôde ver no primeiro gráfico dos dois gráficos anteriores referentes ao marégrafo de Cascais.

Conclusão

Por norma em Ciência, é incorreto fazerem-se análises globais, apenas através de amostras locais. Todavia, o que se pretende com os dados coligidos no território de Portugal Continental não é tecer novas teorias científicas, ou seja, apresentar novas hipóteses, mas apenas atestar, com uma amostra geograficamente confinada, mas temporalmente alargada, o que a comunidade científica desde há muito confirmou, ou seja, que o aquecimento global e o consequente aumento do nível médio do mar através do derretimento das calotas polares e da expansão térmica dos oceanos, são desde há muitos anos, tão-simplesmente, factos insofismáveis.

Veganism is like a Religion


I start my text with Logic using the what I call the vegan paradox:

If everyone in the world were to be vegetarian only drinking one drop of milk per year each, the world would be totally sustainable without harming any animal, and though there would not exist any vegan in the world.

Veganism in this sense uses the same methodology as any religion, it gives one plausible and truthful arguments so that one can act radically in their habits, hence simply and totally stopping eating and consuming any animal products, regardless of how they were collected. For the sake of understanding my point of view, we might give alcohol prohibition as an interesting comparison. It is known that alcohol provokes a series of social and health problems to several communities and individuals respectively and that's why there was a prohibition in United States, and several other Christian cultured countries, in some period of time of their histories, forbid the consumption of alcohol. While in western societies such problems regarding the consumption of alcohol were ruled by civil and criminal laws, in secular Arabic countries, such alcohol prohibitions were set by religious laws and inquisitional traditions, but the causes for such usage forbiddance is exactly the same, whether a religious or a civil law is applied. Forbidding anything for being evil is much easier for transmitting a rule to other individuals than explaining how to act and that the consequences of such action might be harmful to oneself and others. It is believed that it is due to the same scientific reasons, that Muslims and Jews don't eat pork, since pigs were animals that during several centuries, mainly in hot climates, were transmitters of several diseases, such diseases at the time more present in animal blood; explaining also why the religious practises demand that they pour the blood out from the slaughtered animal before the meat is prepared for eating. Sacralizing those habits, acts and prohibitions into the religious patterns, laws and rules, was the most effective method to transmit the public order and the healthy habits into the non scientifically cultured and illiterate population. Religion always played an important role in that sense, since it is very effective in transmitting good habits to the population without the usage of police enforcement units. One might call it mass behavioural control when television and mass media didn't even exist.

I abstain myself from eating meat for several years. I simply don't eat it because despite the environmental and health issues, I don't think there is a fair usage of meat, since it always demands in any case, animal killing. If I eat a portion of pork or beef, I immediately and directly contribute to the slaughter of an animal. Though if I drink a glass of milk per week, the direct link is much harder to logically sustain, as theoretically it is possible to have cows just for the unique purpose of milk production. In that sense the problem, as investigators sustain, is not milk per se, it is though the amount of milk and dairy products our society consume and how the livestock industries are organised. But a vegan simply and radically abstain himself of drinking any drop of milk, or eating any egg, facing such rules, as a Muslim religious believer faces the rule of not drinking alcohol, even if such alcohol is totally inoffensive, like the one it is used for cooking same dishes.

Nevertheless these critics, I partially understand those radical approaches. I, for example, smoked one pack of cigars per day for several years, and I'm perfectly aware of the harm that such consumption provoked on me, and I'm also aware that the tobacco consumption provokes a strong neurochemical addiction. In that sense, my own personal "religion" dictates me, that I shall never again smoke any cigar in my life, even a simple blow, because I'm already aware of such health damages and addiction. Having a binary or an on/off approach to habits, is much simpler and easier than rule oneself on the consumption, usage or acting on several different aspects of life. Take another example, for instance the sexual relations. According to several theological works written by Christian men in the past, mainly in the Middle Age, delivering oneself to lusty practises, was immoral since such actions would destroy the pillar of the family and would therefore rotten the society. Practically what those theological men wanted, in a time where mortality was very high, was population growth. And instead of proposing moderate sexual habits before marriage for example, the theological writers simply linked such deeds with sin and totally forbid them, creating the notion of the lusty sin of fornication, i.e., sexual intercourse before marriage and hence punished by God.

I truthfully respect vegans, because they are a powerful counter-force in a world dictated by profit where animals are nothing but transmissible money-measurable assets or commodities in a global economy. Sometimes we need extreme actions in a world dictated by extreme generalised habits. But the vegans chose the path that religious men have for many centuries chosen in the past, they abandoned reasonable and wise consumption habits and they adopted the radical approach, i.e., the total abstinence of animal products consumption even if such consumption, theoretically, is completely sustainable and it doesn't harm any animal. In that sense, they adopted the same behavioural technique the Muslims, Christians and Jews adopted in the several periods of their lives, because as said before, it is much easier to pass and carry on an habit with simple binary rules than learning how to have a moderate, frugal and sustainable life style.

A era da Demagogia digital


Na Grécia clássica, aquando da criação primordial da democracia e da fundação de muitos dos valores ocidentais, o sistema democrático era todavia substancialmente diferente do atual. A diferença mais relevante prende-se com o facto de hoje termos uma democracia representativa, sendo todavia muito mais universal do que a democracia grega. Essa democracia representativa foi de certa forma fundada pela república romana, tendo os ingleses posteriormente já no séc. XIII refundado a ideia de democracia representativa. Assim, havia já nos clássicos, dois tipos distintos de democracia, a democracia direta, levada a cabo pelos Gregos e a democracia representativa ou indireta, usada amiúde pela república romana, sendo a República, a par com a Monarquia e o Império, uma das três principais fases da civilização romana.

A grande diferença entre estes dois tipos de democracia prende-se com o facto de que na direta, os cidadãos decidiam diretamente nas decisões governativas da pólis, ou da cidade-estado, ou seja, pode-se dizer que os cidadãos gregos reunidos em assembleia eram de facto o órgão decisório para quase todas as políticas públicas levadas a cabo pelos órgãos executivos, não delegando tais tarefas decisórias a representantes. Em certa medida, pode-se afirmar, que os cidadãos na antiga Grécia, eram também o órgão executivo da cidade, na medida que tomavam parte de todas as decisões importantes da gestão da pólis, mesmo que não fossem os executantes diretos das mesmas. Naturalmente, para não se criarem entropias no processo legislativo e nos trabalhos das assembleias, a noção de cidadão era muito mais restrita do que hoje, e na prática apenas os homens livres, maiores de idade, não analfabetos e nascidos na pólis, poderiam participar nas assembleias. Todavia há registos de que as assembleias chegaram a ser compostas por cerca de 20 mil cidadãos, o que, presume-se, deveria degenerar numa certa entropia na execução dos trabalhos da dita assembleia, desde o mantimento do silêncio para que os oradores se pudessem pronunciar, até à contagem dos votos, visto que os votos eram naquele tempo, naturalmente, contados um a um.

Na democracia indireta, mais usada pela República de Roma e seguida por todos os modelos democráticos ocidentais, pelo contrário existia um senado, composto de senadores. Os senadores eram nomeados pelos cônsules, que por sua vez eram eleitos na denominada Assembleia das centúrias. A Assembleia das centúrias constituiu a primeira assembleia nacional do Reino de Roma, fase civilizacional ainda anterior à República, mas que se prolongou durante esta. Cada uma das classes nessa assembleia se dividia em várias centúrias, cujo número total na assembleia era de 193, sendo que a divisão era feita em função das contribuições fiscais de cada cidadão, agrupando-os em seis classes distintas, de acordo com os seus patrimónios. Eram considerados por norma cidadãos apenas os homens maiores que tivessem prestado serviço militar. Os que não possuíam bens eram colocados entre as classes inferiores. Esta assembleia elegia os altos magistrados romanos como os cônsules e os pretores, figuras congéneres aos contemporâneos governadores estaduais, juízes de tribunais superiores ou generais, ou seja os órgãos executivos, legislativos e militares. Estes altos magistrados, durante a República de Roma, nomeavam também os senadores, e quando estes magistrados deixavam de exercer funções, tinham por norma também lugar automático como senadores. Considerando que o senado era o órgão com mais poderes na administração da República de Roma, e que os senadores eram antigos altos magistrados ou nomeados por estes, sendo que os altos magistrados eram nomeados pelos cidadãos, pode-se assim de certa forma afirmar que a República de Roma foi a fundadora da Democracia indireta ou representativa.

Os dois sistemas têm naturalmente vantagens e desvantagens. A Democracia direta é mais democrática, mas exige mais presença e estudo por parte dos cidadãos. Na Democracia indireta votamos nas pessoas as quais partilhamos algumas ideias estruturantes, para depois nos representarem numa assembleia, num senado ou num órgão executivo. Naturalmente que esta taxonomia na divisão dos dois modelos não é cristalina podendo haver sistemas mistos. Mas o que queria enaltecer, é como é que surgiu a figura do demagogo. O demagogo (do Grego, líder das massas) surgiu exatamente na democracia direta grega, que pelo facto de ser direta e de possuir assembleias com milhares de cidadãos onde todos podiam exercer a sua voz, aumentou a entropia e o caos dos trabalhos da assembleia. Surge então alguém, que baseando o seu discurso não na dialética ou na razão, apela às massas fazendo uso do preconceito e da ignorância para daí tirar proveitos políticos. Pode-se em certa medida afirmar que Hilter foi um demagogo durante a República de Weimar, um período democrático na Alemanha entre as duas grandes guerras. De salientar que o demagogo surgiu num regime democrático e não num regime tirânico, exatamente por haver democracia participativa, pois numa tirania o líder pode usar meios mais agressivos e despóticos para tomar diversas medidas sem consultar os cidadãos. O demagogo surge exatamente porque o líder precisa do apoio direto dos cidadãos eleitores, sem os quais não pode levar a cabo as ações que considera importantes.

E é exatamente no meu entender, o que temos presenciado nas democracias modernas e no mundo cibernético das redes sociais e da Internet. Indiscutivelmente a Internet e as suas plataformas das redes sociais, são meios democráticos, na medida que todos podem participar e fazer ouvir a sua voz. Mas como em muitas plataformas não se faz qualquer tipo de restrição no acesso, na moderação do discurso, no número mínimo de caracteres ou até em considerações tão simples como uma correta ortografia e uso da língua, o caos e a entropia nas relações entre os diversos intervenientes tende a aumentar. As pessoas partilham cada vez mais emoções e cada vez menos ideias. E é neste contexto entrópico entre os diversos intervenientes desse espaço democrático que é a Internet, carregada de intervenções curtas, não fundamentadas, muitas vezes irascíveis, e não ponderadas, que surge a figura do demagogo digital, aquele, que tal como na Grécia antiga nas assembleias de milhares de cidadãos, faz uso do preconceito e da ignorância, para que possa obter o maior número de "gostos" ou de "polegares para cima"! 

A Internet levou a democracia ao extremo, alargou-a a toda a população, mas acentuou os perigos inerentes desse alargamento, alavancando os instintos imponderados das massas. Falta então também na Internet outras plataformas mais ponderadas, mais racionais e mesmo mais elitistas, que incentivem os intervenientes a tomar posições mais estruturadas e acima de tudo, que usem o pensamento, a Análise e o Racionalismo crítico, não se limitando a alinhar nos rasgos ideológicos da vox populis. E nessas plataformas são necessários os meios e ferramentas cibernéticas para que sejam essas as intervenções valoradas e não as curtas e demagogas. Nesse dia, teremos certamente uma democracia não só universal mas muito mais rica e madura.

O aquecimento global e os incêndios


Não é preciso ser-se académico nem meteorologista, para se constatar que o Aquecimento Global tem um papel muito importante no fenómeno dos incêndios que têm devastado o país. Entretanto, continuaremos todos com o mesmo estilo de vida e com hábitos motorizados, a criticar, eventualmente de forma injusta, o governo pela sua eventual incompetência, desconsiderando que hoje temos muito provavelmente o mesmo número de pirómanos do que tínhamos há dez anos a esta parte, tendo forças de combate aos incêndios muito mais bem preparadas e com melhores equipamentos do que tínhamos nessa altura.

Os especialistas em climatologia citados pelo jornal Público referem que cada vez mais estarão reunidas em Portugal as condições da regra dos três trinta. Ou seja, mais de 30 km/hora de vento, 30% ou menos de humidade e 30 graus Celsius ou mais de temperatura. Esta regra dos três trinta é um perigoso condicionante de incêndios, condicionante esse que é acentuado pelo fenómeno do Aquecimento Global e alterações climáticas, visto que o efeito de estufa, coloca mais energia no sistema climatérico, aumentando não só a temperatura média anual à superfície, mas também a velocidade dos ventos, que com o aumento da temperatura, tornam-se ventos mais secos, ou seja, com menor humidade. O gráfico seguinte é da NASA e apresenta a variação da temperatura média anual à superfície do planeta Terra.


Já o gráfico seguinte apresenta a frequência de tempestades tropicais no Atlântico Norte, havendo por conseguinte uma determinada correlação com a velocidade média dos ventos, ou pelo menos, com a forma como a variação da velocidade dos ventos está distribuída ao longo do ano, principalmente para o caso em apreço, no verão.


É a sobrepopulação do mundo um embuste?


Necessidades de água e comida,
de toda a população mundial vs.
de todo o gado mundial.
Fonte: cowspiracy.com
Vivemos num mundo, onde desde há vários anos se tem transmitido a tese, de que o planeta está sobrepovoado, e por conseguinte, existe a necessidade de proceder em larga escala, a medidas contracetivas para que se possa realizar o devido controlo populacional. Os membros da Igreja por exemplo, por uma questão de convicções teológicas na defesa da vida, têm-se oposto a este tipo de políticas públicas, não mencionando todavia, no meu entender, alternativas cientificamente credíveis e exequíveis. A título de exemplo, na última encíclica de Bento XVI (CARITAS IN VERITATE), muitos dos problemas do mundo moderno são abordados, mas não se descura, pela sua leitura, um caminho objetivo de como podemos, enquanto Humanidade, desmontar o sofisma relativo à tese que defende que o mundo está sobrepovoado.

Assim sendo, permiti-me caros leitores que estabeleça a título de exemplo alguns cálculos elucidativos. A cidade de Amesterdão, independentemente de ser conhecida pelo facto de as suas práticas venéreas e de consumo de estupefacientes estarem regulamentadas, oferece, tal é do senso comum, uma boa qualidade de vida e do espaço público aos seus habitantes, sendo que por esse motivo o preço do metro quadrado para aluguer ou compra de habitação no mercado livre, é dos mais elevados da Europa. O município de Amesterdão tem uma densidade populacional de cerca de 5000 habitantes por quilómetro quadrado, sendo que o planeta tem uma população de cerca de 7,3 mil milhões de pessoas. Concluímos que com a densidade populacional de Amesterdão, capital do país que se encontra no quarto lugar a nível global do Índice de Desenvolvimento Humano, toda a população mundial conseguiria viver com uma boa qualidade de vida, em cerca de 1,4 milhões de quilómetros quadrados, as áreas juntas de apenas Espanha, França e Alemanha, e menos de 1% de toda a superfície seca do planeta Terra.

Concluo, permiti-me a ousadia, que a tese que advoga que existe sobrepovoamento do mundo, é um dos maiores sofismas da era moderna, sendo para mim evidente, que a questão é de recursos e como eles estão distribuídos, mas também o consumo de carne e politicas económicas expansionistas baseadas no consumismo como fator propulsor do crescimento económico. Perguntemo-nos então por exemplo o que é que a cidade de Amesterdão tem de especial que outras cidades não têm, para que várias pessoas consigam viver com uma qualidade de vida bastante razoável, numa cidade tão compacta ou densa. A resposta é clarividente: enquanto na maioria das cidades do mundo, a repartição modal alocada à bicicleta é de menos de 5%, tendo Lisboa por exemplo, segundo os últimos censos do INE, cerca de 0.5%; na cidade de Amesterdão a percentagem de pessoas que usa a bicicleta para deslocações diárias chega a atingir os 60%.

Recordo que num espaço onde cabe um automóvel, cabem 9 bicicletas, e 30 bicicletas podem mover-se no espaço que exige a deslocação de um único automóvel. Os estudos relacionados com a capacidade e fluxo de tráfego, ditam que são precisas três vias de um determinado tamanho para mover 40000 pessoas através de uma ponte em uma hora fazendo-se uso do comboio, quatro vias para movê-las em autocarro, doze vias para movê-las em automóveis, e apenas duas vias para deslocá-las pedalando em bicicleta. Lisboa por seu lado, comporta diariamente 700 mil automóveis, e se os quisermos estacionar todos, considerando um lugar de estacionamento padronizado, ficaríamos com uma área correspondente à segunda maior freguesia de Lisboa. 

O automóvel, sendo um autêntico sorvedouro de recursos naturais, como energéticos, de espaço ou ambientais, é por conseguinte, de facto, um dos principais sustentáculos da tese, de que o mundo está sobrepovoado e por conseguinte as instituições políticas internacionais, ficam no dever moral de proceder à promoção em larga escala de diversos métodos contracetivos para controlo populacional. Logo, necessitamos de uma economia global verdadeiramente eficiente e não baseada no consumismo desenfreado ou na denominada obsolescência programada, onde os produtos não são desenhados e concebidos para serem duradouros, mas para que alimentem um ciclo económico expansionista, que paradoxalmente, e tal é clarividente pela indústria automóvel, obedece ao mais ineficiente de todos os modelos económicos possíveis. A ineficiência deste modelo, no campo da mobilidade, pode ser plasmada a título de exemplo, num simples comparativo. No outro dia enquanto tomava café com um colega de trabalho, o mesmo confessou-me que o seu automóvel era extremamente eficiente por ser híbrido, mas perguntei-lhe cordialmente se não seria simplesmente mais eficiente alugar ou comprar uma casa a dois quilómetros do trabalho e vir de bicicleta, a usar um carro eficiente e habitar a 30 km do local de trabalho. Além disso alocar a potência de noventa cavalos para locomover um indivíduo jamais pode ser em engenharia denominado de eficiência. Compreendo a posição do meu colega pois reflete o modelo de desenvolvimento insustentável e sorvedouro de recursos que enveredámos no pós-guerra, com o denominado espalhamento urbano, onde os percursos ficaram em média, para o cidadão mediano, cada vez mais longos; ou seja, à medida que a tecnologia automóvel progredia e fazia os carros circularem em média a velocidades mais elevadas, o cidadão mediano ia habitar cada vez mais longe do seu local de trabalho, normalmente na periferia da cidade. O espalhamento urbano alimentado pela política da promoção do automóvel é de facto um sorvedouro de recursos, como energia e espaço.

Mas há de facto outros problemas mundiais, porque mesmo que a Holanda, por exemplo, seja eficiente na sua mobilidade, não é sustentável nos seus recursos, ou seja precisa de muito mais espaço por cidadão, do que aquele que a sua superfície pode comportar, e o problema principal além do elevado consumismo, prende-se também com o consumo de carne. Consta, que para produzir um quilograma de carne de vaca, são necessários em média, 15 mil litros de água, 6 quilos de colheitas e 330 metros quadrados de terreno. Por conseguinte, a abstinência, mesmo que parcial, à carne de vaca, é não só uma questão de saúde, de respeito pelos animais, mas também uma questão muito pertinente a nível ambiental, até porque a pecuária é a maior responsável pelo efeito de estufa, devido ao metano emitido pelo sistema gástrico do gado bovino. Claro que, como ambientalista, não demonizo a indústria, pois é a mesma que nos providencia muitos bens que fizeram aumentar a qualidade de vida ao cidadão comum, mas o problema é que muita da indústria, devido ao modelo económico vigente, é de facto a principal responsável pelo facto de haver teorias, aparentemente coerentes, de que o mundo está sobrepovoado. Se a tecnologia industrial for usada, para aumentar verdadeira e tecnologicamente a eficiência do sistema produtivo, num modelo unicamente pragmático e técnico, e não num modelo baseado no consumismo desenfreado de bens rapidamente perecíveis, diria, que o mundo poderia comportar muitos mais seres humanos, sem se levantar qualquer questão de falta recursos. Paradoxalmente então, as visões teológicas do mundo, coincidem parcialmente com as dos ambientalistas.