Ponte Vasco da Gama vs. Ponte do Øresund




A reação imediata do leitor comum, poderá ser evocar os salários na Dinamarca ou na Suécia, em comparação com os de Portugal, para tentar justificar a diferença colossal entre as portagens destas duas obras de arte da engenharia civil. Mas não, não há Paridade-Poder-de-Compra que justifique um rácio de praticamente 30 vezes entre o preço da portagem ida-e-volta na Ponte do Øresund entre Copenhaga e Malmö, e as portagens da Ponte Vasco da Gama entre Lisboa e o Montijo. Não somos assim tão pobres e os dinamarqueses não são assim tão ricos para um rácio de 29 entre o trajeto de ida-e-volta ao longo das referidas pontes. O salário mensal médio líquido de Portugal é de 846 euros, enquanto na Dinamarca é de 3100 euros, dando um rácio de cerca de 3,6 vezes, que compara com um rácio de 29 vezes com referência ao custo das portagens, para uma viagem ida-e-volta. Podemos assim concluir, já considerando as assimetrias salariais, que atravessar a Ponte de Øresund é oito vezes mais caro que atravessar a Ponte Vasco da Gama. 

Esta dualidade comparativa é muito interessante de atestar, porque foram duas pontes praticamente construídas na mesma altura, a Vasco da Gama em 1998 e a de Øresund em 2000, tendo os tabuleiros de ambas sido colocados pela mesma empresa. Quando a referida empresa concluiu os seus trabalhos na Ponte Vasco da Gama, dirigiu-se então para o estreito de Øresund, para começar a nova ponte entre Copenhaga e Malmö. O estreito de  Øresund separa a ilha dinamarquesa de nome Zelândia, onde se situa Copenhaga, do condado da Escânia na Suécia, onde se situa Malmö. Há todavia algumas diferenças construtivas. A ponte Vasco da Gama, com os seus 12,3 km de comprimento, que se dividem em 0,8 km de ponte principal e 11,5 km de viadutos, é considerada a mais longa ponte da Europa e uma das mais extensas do mundo. Já a Ponte de Øresund, tem apenas 7,8 km, tendo todavia em acréscimo do lado dinamarquês, uma ilha artificial com cerca de 4 km, mais um túnel submarino com 3,5 km, perfazendo o complexo no total, um comprimento de 16 km, tal como na Ponte Vasco da Gama. Ademais, a Ponte de Øresund, tal como a Ponte 25 de Abril em Lisboa, é uma estrutura rodoferroviária.

Mas a grande diferença é mesmo a cultural: enquanto os dinamarqueses e suecos não sacralizam o automóvel, para muitos portugueses, o carro é tão-somente uma continuação do próprio corpo. Por conseguinte, para muitos portugueses, taxar o automóvel e a sua utilização, independentemente dos seus custos ou externalidades, é como taxar a própria respiração.

12 comentários:

  1. Hà uma diferença e bem grande: enquanto a ponte VG separa uma àrea metropolitana e pessoas que residem na cidade do seu local de trabalho, a ponte dinamarquesa separa dois países diferentes.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O facto de estarem entre dois países diferentes é totalmente irrelevante. Viajar entre Copenhaga e Malmö é como viajar entre Elvas e Badajós. As cidades fazem ambas parte do espaço Schengen, e já nem sequer existe posto fronteiriço. Aliás, a fronteira "oficial" é no meio da ponte, e só os olhares mais atentos é que a denotam, numa simples e quase impercetível placa informativa. Acredite que a diferença é mesmo cultural e política. Taxar o automóvel e tudo o que ao carro diz respeito, nos países do sul, é crime lesa-pátria. Já confiscar salários e pensões, é o "prato do dia". Nas paragens nórdicas, é precisamente o inverso.

      Estive em Copenhaga a semana passada e dou-lhe outro exemplo. Estacionar no centro de Copenhaga na rua (leu bem na rua), custa cerca de 60 euros por dia (leu bem, sessenta euros por dia para estacionar na rua).

      Eliminar
    2. Mas há uma diferença de facto, a bem da Verdade. A ponte Vasco da Gama é apenas rodoviária e a ponte do Øresund é rodoferroviária. A elevada portagem rodoviária tem como objetivo incentivar as pessoas nas suas viagens diárias, a adotar o comboio ou autocarro. Mas mesmo neste caso, repare que a Ponte 25 de Abril é também rodoferroviária e a portagem da 25 de Abril é ridiculamente baixa, comparado com o preço do bilhete de comboio entre Entre Campos e Feijó, e repare ainda que há transportes coletivos que passam a ponte Vasco da Gama. Mais uma vez, as assimetrias devem-se quase exclusivamente a questões culturais.

      Eliminar
    3. Há muita gente que vive em Malmo e trabalha em Copenhaga, portanto sim é comparável.

      Eliminar
  2. A ponte Oresund tem diversas modalidades de preço. Por exemplo se atravessar a ponte mais de 16 vezes por mês pode chegar aos cinco euros.
    Se quiser fazer uma análise mais detalhada tem aqui os preços e modalidades:https://www.oresundsbron.com/en/prices

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Verdade. Mas atenção que tem de pagar o passe anual que custa 41 euros. Ademais o custo é 5 euros por viagem, ou seja 10 euros ida-e-volta e só a partir da viagem mensal número 17 até à 51. A partir da 51. viagem mensal volta a ser 22 euros a portagem, ou seja 44 euros ida-e-volta.

      Eliminar
    2. Eu concordo que o preço se calhar é demasiado baixo. Mas continua a ser mais caro vir de carro mesmo com esses preços. Se calhar é preciso também reforços nas alternativas.

      Lá me cima diz que é irrelevante a ser entre dois países mas vejamos em Janeiro 2017 atravessaram a Oresund 511 474 veículos contra 1 557 249 na Vasco da Gama. Pode ser devido ao preço, à falta de alternativas ou simplesmente mais pessoas a fazer commute. Ou seja as oito vezes mais cara já se começam a diluir com estas duas questões (o passe commuter e o número de pessoas). Se calhar a 25 de Abril é que deveria ser mais cara uma vez que tem mais alternativas.

      Nota final: Eu sou a favor de incentivar o transporte público e deixar de dar prioridade ao transporte individual e a análise que fez é válida. Agora temos de considerar todos os factores que têm importância. Não me parece que taxar mais só porque sim e para tornar a vida dos automobilistas um inferno faça sentido. A isso se chama o reforço negativo. Por outro lado temos o reforço positivo que passa por ter alternativas viáveis, mais económicas, mais fiáveis e mais "agradáveis" que o automóvel. (e mais rápidas!).

      Eliminar
    3. Julgo que a diferença a que se refere no número de veículos, considerando que os números que me apresentou estão certos, deve-se a dois princípios de economia: elasticidade preço da procura e a procura induzida.

      Se o preço de um produto ou serviço é mais baixo, numa lógica de mercado onde há várias alternativas, esse produto ou serviço é mais adquirido ou usado, respetivamente, porque a utilização desse produto ou serviço, neste caso a utilização de uma infraestrutura de transportes, obedece a uma elasticidade no preço. Ou seja, pequenas alterações no preço da portagem, promovem pequenas alterações no número de atravessamentos da ponte. Não há razão nenhuma para assumir que um determinado produto ou serviço, quando há várias alternativas no mercado, seja inelástico. A inelasticidade apenas ocorre quando há monopólio e o serviço é fundamental. Se por hipótese houvesse apenas um fornecedor de água para consumo (beber), e o preço da mesma não fosse regulado, o fornecedor poderia aplicar o preço que quisesse, que teria sempre praticamente o mesmo número de litros vendidos, porque o ser humano precisa de uma determinada quantidade de água para viver. A mobilidade é um bem fundamental, mas ter e usar carro não. O carro é um de muitos meios de transporte à disposição do Engenho do Homem.

      O outro motivo económico óbvio que mencionou é a procura induzida. Se estiver com sede e for a uma máquina de bebidas onde há apenas coca-cola, é plausível que a sua escolha seja coca-cola, mesmo que não goste de coca-cola. As pessoas têm necessidades de transporte, e se a ponte Vasco da Gama é apenas rodoviária, é natural que tenha um número de atravessamentos substancialmente superior a uma ponte congénere que seja rodoferroviária, ou seja, onde há duas alternativas. De facto a hegemonia do automóvel no século XX baseou-se nesse princípio básico de economia chamado procura induzida, por isso, é paradoxal e até irónico, serem muitas vezes aqueles mais defensores do liberalismo económico e da escolha do consumidor, os maiores defensores dessa tirania estatal que nos impôs a todos o automóvel como modus movendi.

      Em relação à fiscalidade, não se taxa "só porque sim", como explanei, à luz do princípio da elasticidade-preço, se o preço de um produto é mais alto, a sua utilização diminui. A alternativa é o comunismo, que simplesmente ou proíbe ou tem regras burocráticas na atribuição de quem pode ou não pode passar a ponte, um pouco como na América Latina na questão das matrículas par e ímpar nos acessos à cidade.

      Eliminar
  3. Existem outras alternativas para atravessar para além desta ponte? E as outras alternativas são mais económicas?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Existe o comboio que também segue ao longo da ponte.

      Eliminar
  4. Nem tudo o que se lê na net, pode ser despejado à toa para todo lado sem se questionar primeiro:
    Contrariamente a este texto, existe sim, um posto fronteiriço do lado Sueco. A placa está no meio da ponte, mas chegando a terra do lado sueco, têm polícia a fazer controlo de viaturas, identificañçao dos passageiros, motivo e duração da visita e isto em carros de matrícula Dinamarquesa!...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois eu atravessei a ponte de carro em família (éramos cinco num carro alugado de matrícula holandesa) e não vimos nada nem ninguém nos mandou parar. Operações stop há em todo o lado, podendo haver com maior frequência junto às fronteiras.

      Eliminar