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Regras para a construção de ciclovias


Diversas cidades tendem, com a mudança de paradigma que valoriza os modos ativos em detrimento dos modos motorizados, a fazerem cada vez mais investimentos em ciclovias e outras formas de promoção da mobilidade em bicicleta. Todavia, dada a patente inexperiência de muitos técnicos municipais sobre esta matéria, os resultados acabam por ser mais prejudiciais que benéficos, pois tendem a acentuar conflitos entre modos ativos de mobilidade, mormente entre pedestres e ciclistas urbanos, visto que muitas ciclovias têm sido construídas sobre o espaço pedonal ou roubando espaço ao modo pedonal.

No passado, fui dirigente da MUBi - Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta, e tenho sido ativista em defesa dos modos ativos, como a mobilidade em bicicleta e a pedonalidade, desde há vários anos. Em acréscimo a minha formação em engenharia e o facto de residir há alguns anos na Holanda usando a bicicleta como modus movendi, permite-me, respetivamente, compreender alguns conceitos mais técnicos e ter a experiência na primeira pessoa das consequências de algumas opções de mobilidade em bicicleta.

Assim, apresento cinco linhas orientadoras que cada município deve ter sempre presentes, quando constrói ou planeia ciclovias:
  1. Colocar ciclovias sempre a cotas diferentes da zona pedonal e com delimitação física desta; e sempre que possível à cota da rodovia.

  2. Obter espaço para a sua construção sempre à custa da remoção do espaço alocado ao automóvel e nunca do pedestre. Caso tal não seja politicamente possível, simplesmente não fazer nada.

  3. Fazer ciclovias contínuas e sempre com um número de interrupções igual ou menor que o trajeto equivalente de bicicleta pela rodovia.

  4. Fazer preferencialmente, sempre que possível, ciclovias unidirecionais, uma para cada sentido, do lado direito.

  5. Nunca construir ciclovias, em que do lado direito destas, estejam lugares de estacionamento.

Regra 1
Colocar ciclovias sempre a cotas diferentes da zona pedonal e com delimitação física desta; e sempre que possível à cota da rodovia.
Ciclovia unidirecional com cota diferente do passeio;
mais precisamente à cota da rodovia. Foto: WP.
Ciclovia bidirecional com cota bem distinta do passeio;
sendo que o diferencial entre as cotas da ciclovia e do passeio,
assemelha-se ao diferencial entre as cotas dos passeios
e das rodovias convencionais. Foto: David Hembrow.
Ciclovia à cota da rodovia, com separação visual desta, bem vincada.

Ao se colocar a ciclovia a cotas diferentes da zona pedonal, tal incute no pedestre uma noção psicológica, implícita e latente, de que aquele espaço não lhe pertence. Ao se colocar em acréscimo a ciclovia à cota da rodovia, tal incute no pedestre que aquele espaço mais não é que a continuação da rodovia, e por conseguinte os eventuais conflitos entre ciclistas e pedestres são minorados ao máximo. Inclusivamente, quando se coloca a ciclovia à cota da rodovia, transmite-se à comunidade a noção correta, considerando que uma bicicleta à luz das diversas leis da estrada, é considerada um veículo e como tal tem direito pleno para circular na rodovia com os demais veículos motorizados.

As ciclovias no passeio e a Câmara de Municipal de Lisboa - Carta pública


Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Fernando Medina
Exmos. Srs. responsáveis pelos espaços verdes e pela mobilidade
Exmos. Srs. Técnicos Inferiores, responsáveis pelo projeto municipal que envolve mais 150km de ciclovias

Consta, refere a mui credível comunicação social, que V. Exas. planeais construir mais cerca de 150 km de ciclovias pela capital do Quinto Império. Venho assim, através deste meio eletrónico, fazer um pedido a V. Exas.

Tenho plena consciência, que dirigir-me a V. Exas., é em muitas situações, sintaticamente em género e em número, similar a dirigir-me a uma qualquer mediana porta cá de casa. Todavia permiti-me a ousadia ao insistir no repto já por tantas vezes anteriormente dirigido a V. Exas., para que não construais, nem sequer projeteis ciclovias à cota do passeio, ou seja, sobre a zona pedonal. Faço este repto como ex-dirigente da MUBi - Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta, como pseudo-investigador na matéria e como lisbonês habitante na Holanda que só usa a bicicleta no dia-a-dia, ou seja, uso-a como modus movendi

Rogo por conseguinte a V. Exas., que se estiver na mente de algum Técnico da edilidade, projetar ciclovias sobre o espaço pedonal, ou seja, ciclovias à cota do passeio, para que os ditos técnicos, cujo título profissional denominativo indica que são superiores, atentem simplesmente para a beleza da mescla etimológica da Língua Portuguesa, e mais particularmente para o étimo de ciclo. Ciclo provém do Grego, kyklos, e significa tão-somente roda, aquilo que um peão por natureza da sua atividade enquanto caminhante não possui, a não ser, que V. Exas. estejais interessadas em oferendar a cada munícipe um par de patins. A palavra ciclovia é assim Bela, uma cópula linguística entre Cícero e Homero, o ciclo de Homero e a via de Cícero, uma mescla dos clássicos Grego e Latino, que a nossa literata língua tão sapientemente absorveu no vernáculo popular.

Se ciclo significa tão-somente roda, como nos aponta a magna língua de Sócrates, não o ex-presidiário 44, mas o Ateniense, convém que V. Exas. tão-simplesmente percebais, que deveis fazer ciclovias à da cota da rodovia.

Com os meus mais cordiais e saudosos cumprimentos

João Pimentel Ferreira

 
 
 
 
 
 

O aborto urbanístico denominado ciclovia da Expo


Exmos. Senhores do Jornal do Parque das Nações

Venho por este meio, reportar a V. Exas. o estado lastimável e completamente inadequado da ciclovia principal do Parque das Nações, ao longo da Alameda dos Oceanos, entre a rotunda dos Vice-Reis e a rotunda inferior da Av. de Ulisses.

Esta ciclovia com cerca de um quilómetro e meio, é uma autêntica anedota urbanística, e um autêntico aborto em termos de mobilidade. Acreditem que não deverá existir nem um único velocipedista, que tenha conseguido percorrer de bicicleta este quilómetro e meio. Percorrer esta pseudociclovia é mais árduo e desgastante que percorrer o mais temeroso e irregular trilho de BTT. Os blocos do asfalto provocam um desgaste no ciclista e na bicicleta que tornam extremamente difícil percorrê-la.

Ando de bicicleta todos os dias, e faço deste meio de transporte o meu modus mobili; moro na zona de Braço de Prata e os meus pais moram na zona norte do Parque das Nações. Em tempos tentei percorrer um pouco esta ciclovia, mas confesso que mesmo apesar do enorme esforço que fiz, não consegui percorrer nem 50 metros. A irregularidade do asfalto, onde chega a haver blocos contíguos que distam em altura cerca de 3 cm, torna este percurso extremamente tortuoso. Os braços tremelicam fortemente, os pulsos estremecem e quanto mais força se faz para agarrar nos punhos da bicicleta mais árduo se torna o percurso, ficando o ciclista com as mãos completamente inchadas e avermelhadas devido à irregularidade do pavimento, mesmo que use o mais eficaz e protetor par de luvas.

A razão para tal idiotice urbanística prende-se essencialmente com a conversão que a Parque Expo, fez em tempos na Alameda dos Oceanos. Até há poucos anos, nesta alameda, estava completamente proibida a circulação automóvel. Mas como o poderio automóvel fala mais alto, a Parque Expo lá decidiu abrir esta via ao trânsito automóvel. Mas para ficar bem na fotografia, disse publicamente que em paralelo faria também duas ciclovias paralelas ao longo da Alameda dos Oceanos. Mas na prática, nada fez, limitou-se a colocar alguma sinalética vertical, e uns pequenos sinais no asfalto, criando este autêntico aborto em termos de mobilidade.

Eu rogo-vos: citem-me um único ciclista que tenha conseguido fazer este quilómetro e meio de pseudociclovia. Percebe-se muito facilmente que quem comanda os desígnios do Parque das Nações, por certo que anda bem montado no seu veículo motorizado e de ciclovias e de mobilidade suave, percebe muito pouco. Aliás basta atestar pelas etiquetas de metal colocadas na calçada à portuguesa que supostamente definem os trilhos onde se poderá andar de bicicleta no Parque das Nações. São trilhos que ninguém usa e ninguém respeita.

É lamentável, que nem numa zona nobre e planeada, como o Parque das Nações, se tenha dado o devido respeito à mobilidade suave. Fica o repto para que a gestão do Parque das Nações coloque um pavimento decente e apropriado para a ciclovia principal desta zona nobre da cidade.

Muito obrigado pela atenção prestada.

João Pimentel Ferreira

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missiva enviada ao Jornal do Parque das Nações,
à Associação de Moradores do Parque das Nações
e à gestão da Parque Expo



ATUALIZAÇÃO

O autor deste texto refere que criou uma ocorrência no portal da CML "A minha Rua" a que foi atribuído o número OCO/38867/2012 com o intuito de solucionar esta situação.

OCO/38867/2012 OCORRÊNCIA:
Manutenção ou falta de ciclovias
DESCRIÇÃO: Pede-se POR FAVOR para renovarem a pseudo-ciclovia da Alameda dos Oceanos. Como ciclista utilitário e NÃO de mero lazer, devo dizer que esta ciclovia em condições daria mesmo muito jeito a todos os moradores desta zona. Neste momento trata-se apenas de uma aberração ciclável, a que alguém teve a ousadia de chamar ciclovia.

Muito obrigado