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Temperaturas na Terra e o Aquecimento Global


Temperaturas na Terra durante o Fanerozoico. Fonte: Glen Fergus.

A Terra está a aquecer, e tal é tão-somente um facto e não uma mera teoria. Todavia, há quem aponte o facto de a Terra ter tido temperaturas no passado bem mais quentes do que as que tem hoje. E tal também é verdade. O gráfico acima aponta estimativas para a temperatura no planeta Terra nos últimos 540 milhões de anos, ou seja, desde que existe vida multicelular, fazendo referência ao éon Fanerozoico (que significa do Grego "vida evidente"). De salientar que o Fanerozoico representa apenas 12 porcento da história da Terra, considerando que a Terra tem cerca de 4,5 mil milhões de anos.

A Terra Bola de Neve no Proterozoico e a Realimentação Positiva

O Fanerozoico foi precedido pelo Proterozoico; e antes do Fanerozoico, mais precisamente no Neoproterozoico, compreendido entre mil milhões e 540 milhões de anos atrás, a Terra passou pelo período denominado Terra Bola de Neve, em que as temperaturas globais deverão ter atingido vários graus negativos, mesmo nas zonas equatoriais. O que fez a Terra passar por temperaturas tão gélidas mesmo no equador, tendo ficado toda coberta por camadas de gelo com espessuras de vários quilómetros, foi de facto o abaixamento do CO2 na atmosfera, levado a cabo pela meteorização e pela respetiva remoção do CO2 da atmosfera (chemical weathering), vindo o CO2 a ficar depositado nos solos e no fundo dos oceanos através das rochas calcárias. O CO2 ao baixar drasticamente fez diminuir o efeito de estufa, baixar a temperatura e por conseguinte aumentar o nível de gelo nos pólos. E esse aumento na superfície de gelo, fez por conseguinte aumentar a reflexão que a luz solar fazia na Terra. Ou seja, enquanto o gelo reflete muito a luz solar, os oceanos absorvem-na. Este conceito de reflexão da luz e da energia provinda do sol, denomina-se de albedo ou coeficiente de reflexão; e enquanto o gelo e a neve são das superfícies naturais com maior percentagem de albedo, podendo atingir cerca de 90%, os oceanos líquidos são das superfícies naturais com a menor percentagem de albedo, ou seja, cerca de 10%. À medida que o CO2 ia baixando na atmosfera, o efeito de estufa ia diminuindo, o que fazia diminuir as temperaturas e aumentar as superfícies de gelo, que por sua vez aumentava o albedo médio da Terra fazendo com que esta absorvesse menos calor, o que por sua vez diminuía a temperatura e aumentava as camadas de gelo, e por aí adiante num processo denominado de realimentação positiva (positive feedback).

Climatologistas soviéticos já tinham estudado este fenómeno, e segundo as suas teorias, se o gelo da Antártida chegasse à África do Sul, o planeta entraria num ponto criogénico de não retorno, devido ao sistema dinâmico inerente e à realimentação positiva. De salientar que a realimentação positiva também funciona no sentido contrário, isto é, para o aquecimento da Terra, e tal estamos a vê-lo neste momento. Com o derretimento do gelo nos pólos através do aumento da concentração de CO2 e consequente aumento do efeito de estufa e temperatura, diminui a superfície de gelo, que por sua vez diminui o albedo médio da Terra, o que significa que a Terra passa a absorver mais calor através dos oceanos visto que passa a haver mais superfície planetária de oceanos líquidos e menos de gelo, que por sua vez aumenta a temperatura, que por sua vez diminui a superfície de gelo nos pólos, e assim sucessivamente no denominado processo dinâmico de realimentação positiva.

Mas em suma, é verdade que durante a Terra Bola de Neve no Neoproterozoico a temperatura da Terra atingiu vários dezenas de graus negativos. Mas todavia a vida unicelular continuou embrenhada no gelo, e com o degelo que sucedeu no fim deste período, os níveis de oxigénio na atmosfera aumentaram de 1% para os 20%, o que permitiu a explosão da vida multicelular, e posteriormente a explosão cambriana, que mais tarde no Carbonífero deu origem aos primeiros mamíferos e muito posteriormente aos primatas e finalmente ao Homem.

O Fanerozoico e os Ciclos de Milankovitch 

No Fanerozoico, que abrange os últimos 542 milhões de anos, surge a vida multicelular, que vai incluir, por exemplo, todos os animais e seres vivos que conseguimos observar hoje a olho nu. Mas no Fanerozoico as temperaturas do planeta também oscilaram grandemente, e de facto, apesar do recente aquecimento global, as temperaturas já estiveram muito mais altas. No Cretáceo (entre 145 milhões e 66 milhões de anos atrás), por exemplo, havia mares tropicais na Holanda e Inglaterra. Na época do Eoceno (entre 55 milhões e 36 milhões de anos atrás) as temperaturas chagaram a ser, por exemplo, em média 14 graus acima do que são hoje. Também no Devoniano (entre 416 milhões e 359 milhões de anos atrás) as temperaturas chegaram a estar, em média, 14 graus acima das que temos hoje. Já no Pleistoceno, ou seja, no último milhão de anos, as temperaturas estiveram mais abaixo do que estão hoje, devido a sucessivas pequenas idades do gelo.

Neste momento o ângulo entre o eixo de rotação e o
plano de translação/orbital da Terra, é cerca de 23,5 graus.
Mas este valor muda ligeiramente com os milénios, devido
ao campo gravítico dos outros planetas, alterando a radiação
de luz solar nos pólos, e por conseguinte o clima, dando
origem aos ciclos das idades do gelo. Milankovitch estudou
estes e outros ciclos da Terra no princípio do século XX.
Como foi anteriormente referido, há vários fatores que influem na temperatura da Terra, o sobejamente mais conhecido de todos, é a concentração de gases com efeito de estufa, sendo o Dióxido de Carbono (CO2) e o Metano (CH4) os gases mais comuns, tendo este último um efeito de estufa por unidade de massa, cerca de 30 vezes superior ao CO2. Além dos gases com efeito de estufa, influem naturalmente também no clima da Terra, a radiação solar (solar input) que é acima de tudo influenciada pelos denominados ciclos de Milankovitch, em homenagem a um matemático sérvio que estudou no princípio do século XX as variações dos ciclos orbitais da Terra e a sua influência no clima. Os ditos ciclos analisam as variadíssimas combinações orbitais a que a Terra está sujeita na sua órbita substancialmente plana e elíptica, em torno do Sol. Mas pequenas variações, por exemplo, no ângulo entre o eixo de rotação da Terra e o seu plano de translação (ou o plano orbital ou plano da eclíptica), podem aumentar ou diminuir a quantidade de energia solar que é irradiada sobre os pólos terrestres, alterando o ponto de estabilidade climática da Terra. Os ciclos de Milankovitch são por exemplo, os principais responsáveis pelas várias idades do gelo.

O clima muda e as espécies extinguem-se

O clima da Terra sempre mudou, e mudou por vezes drasticamente, fazendo com que as recentes alterações climáticas sejam insignificantes, quando comparadas com as quais a Terra já esteve sujeita. Todavia, o trágico da questão, é que mais de 95% das espécies que já existiram, foram extintas, e sempre que houve alterações climáticas fortes e severas, várias espécies foram levadas à plena extinção. Vejamos por exemplo a transição entre o Paleozóico e o Mesozóico que levou 95% de todas as espécies marinhas à extinção, com um enorme aquecimento global levado a cabo pela atividade vulcânica que fez aumentar drasticamente os níveis de CO2 na atmosfera. Aliás, as fronteiras entre as diversas eras geológicas envolvem normalmente extinções em massa, por norma devido a cataclismos ou alterações climáticas.

Se é verdade que as alterações climáticas foram um fenómeno muito recorrente e catastrófico na História da Terra, também é verdade que as mesmas levaram várias espécies à extinção, sendo também ainda verdade, ironia da Ciência, que muitas dessas extinções permitiram que outras espécies prosperassem, das quais nós descendemos. Vejamos o caso do cataclismo que marca o final do Mesozoico, e que levou os dinossauros à extinção, devido a um asteróide que provocou várias alterações climáticas e consequentemente, alterações profundas no ecossistema do planeta. Essa extinção dos dinossauros permitiu que os mamíferos, até então meras presas dos dinossauros, pudessem prosperar visto que eram mais pequenos e consumiam menos energia, já não tendo tão omnipresentes os seus clássicos predadores. E perante uma escassez aguda de alimentos ao longo da cadeia alimentar, sobreviveram os que consumiam menos, que são por norma, por motivos metabólicos, os mais pequenos. E a evolução por seleção natural escolhe os mais aptos, e não os mais fortes.

Conclusão

Se é verdade que o clima da Terra mudou muito desde há 4,5 mil milhões de anos, e particularmente desde que há vida multicelular, há cerca de 540 milhões de anos, também é verdade que neste período sempre que mudou, várias espécies foram extintas. E o problema adicional, como explanado, é que a realimentação positiva associada ao sistema climático, torna-o num sistema instável, ou seja, pequenas variações tendem a ser amplificadas. Considerando que hoje temos o planeta repleto de Homo Sapiens, seria uma tragédia humana sem precedentes para a espécie reinante, alterações climáticas mesmo que ténues em comparação com as do passado da história da Terra. Mas desta desta vez, ironia da Ciência, a espécie que é a principal afetada, é cumulativamente a principal responsável!

Da imigração económica, da xenofobia e da psicologia evolutiva


Indubitavelmente que a imigração ilegal é um problema para a Europa, que não pode ser olvidado pela classe política europeia dirigente; todavia questiono-me se merece a atenção quase apocalíptica que tem tido nos meios de comunicação social. Dir-me-ão que a Política, como é o seu papel, e por arrasto a comunicação social, obedece aos “anseios” das populações. Interessa então analisar cientificamente em que se baseiam tais anseios antropossociológicos. Por outro lado, existe uma visão humanista demasiadamente pueril e demagoga que, como é típico nas pessoas que se deixam levar pelas emoções, humanistas, misantrópicas ou xenófobas, ignoram objetivamente os factos.

Da Economia e da imigração (i)legal

A Europa tem um problema demográfico sério e portanto
precisa urgentemente de muitos imigrantes, mas é
duvidável que nas economias europeias modernas, a entrada
indiscriminada de pessoas com muitas baixas qualificações,
traga quaisquer benefícios económicos, visto que essa classe
social nativa já padece de um problema grave de desemprego
e já recebe por conseguinte muitos apoios sociais.
Créditos do gráfico: Nuno Serra.
Para que possamos comparar o caso das imigrações ilegais para a União Europeia, podemos a título de exemplo, apresentar o caso da Austrália. A Austrália é uma nação que também tem fronteiras externas marítimas sendo um país geograficamente imenso, com pouca densidade populacional, economicamente pujante e por isso, um forte polo atractor para muitos imigrantes, essencialmente da Ásia. De facto a Austrália tem uma enorme comunidade de imigrantes, e de acordo com algumas fontes como a BBC, nesta nação da Oceânia 25% da população é imigrante ou descendente de imigrantes em segunda ou terceira gerações. Mas a Austrália é conhecida por ter fortes restrições à entrada ilegal de pessoas pela via marítima, tendo um acordo com a Papua-Nova Guiné, em que reencaminha para este país a maioria dos imigrantes ilegais e dos requerentes de asilo que entram pelas suas fronteiras marítimas, sendo que não abre quaisquer tipo de exceções. A Austrália recebe todavia por ano muitos imigrantes, mas obedece a um sistema de pontos, em que são contabilizadas a idade, a fluência em Inglês ou as qualificações académicas do requerente, visto que estes são fatores que vão influenciar em muito a produtividade do indivíduo. Por isso, ao contrário de alguns estudos que ditam que a absorção de imigrantes traz benefícios económicos, duvido que tal se aplique, independentemente das qualificações académicas do indivíduo. Considerando que a grande maioria dos imigrantes que vem da África subsariana é pouco qualificada ou mesmo analfabeta, o indivíduo terá nas respetivas economias de mercado, uma produtividade muito baixa, portanto, ou não trará benefícios para a economia ou poderá ser mesmo um fardo para os respetivos sistemas de providência social. Além disso, as camadas da população europeia com baixas qualificações, já sofrem largamente com o desemprego.

Milton Friedman tem uma abordagem, ora interessante, ora diria mesmo desumana, sobre a imigração, legal ou ilegal. Como um dos fundadores do pensamento neoliberal, e sendo obviamente liberal assumido, referia que a imigração não era de todo um problema; considerando até que os liberais mais radicais defendem mesmo a abolição das fronteiras, sendo estas uma afronta à liberdade de movimento. Friedman referia que a imigração, legal ou ilegal, sempre foi considerada positiva para os EUA até aos anos 1930, data a partir da qual, passou a ser encarada como menos positiva e a ter de ser sucessivamente controlada ou mesmo barrada. A diferença, de acordo com Friedman, está no facto de que em 1930, no seguimento da Grande Depressão, os EUA implementou o New Deal que estabeleceu um salário mínimo, o subsídio de desemprego e os primeiros sistemas de pensões, ou seja, a partir de 1930 passa a existir uma providência social com gastos para o erário público, independentemente da produtividade do indivíduo e do seu contributo para a economia. A partir de então a imigração para dentro dos EUA passou a ser encarada como negativa, até do ponto de vista económico por parte de alguns setores, porque o Estado Providência passaria também a ter encargos com os imigrantes, caso estes não fossem bem sucedidos ou produtivos. Na prática Friedman, um (neo)liberal assumido, referia que a inexistência de estado social “filtrava” quais os imigrantes que seriam mais bem sucedidos, sem quaisquer encargos para o estado, visto que os imigrantes mal sucedidos não teriam quaisquer apoios públicos, e por isso, até aos anos 1930 a imigração para os EUA sempre foi encarada de forma muito positiva por parte de todos os quadrantes políticos, pois além de os imigrantes não representarem quaisquer encargos adicionais para o erário público, o país acolhia por norma pessoas bem mais dinâmicas e empreendedoras que os nativos. 

Obviamente que não defendo a extinção do estado social, e julgo que a Europa tem um sistema de providência, herdado da social-democracia, que é um marco civilizacional; reafirmo apenas, que é mesmo muito duvidoso, que imigrantes analfabetos e sem quaisquer qualificações, sejam uma mais-valia económica para o estado que os acolhe, considerando que os nativos com poucas qualificações já representam um fardo para o estado providência, dada a elevada taxa de desemprego e de apoios sociais nestes setores da sociedade, considerando ademais que as economias modernas apresentam mais-valor quase sempre no conhecimento, e por conseguinte, na formação académica dos trabalhadores. E os dados recentes das despesas públicas da Alemanha, referem exatamente o que tento expor, que o quase um milhão de refugiados e imigrantes que a Alemanha acolheu, são um encargo para o erário público que não é negligenciável. Fica então a Questão Maior, a questão que também define obviamente a cultura europeia, que está plasmada nos Direitos do Homem. Mas neste ponto precisamos de ser objetivamente racionais. O que move o imigrante económico já não é a guerra ou a fome, mas a miséria. É perfeitamente legítimo alguém que viva uma vida miserável procurar condições de vida mais condignas à sua condição humana, mas o que a grande maioria dos humanistas olvida, é que mais de metade da população do mundo, aos padrões europeus, vive na miséria. A Europa representa apenas 7% da população mundial, e por conseguinte, não pode acolher todos os miseráveis do planeta, sob pena de colocar em causa o próprio tecido civilizacional europeu como o conhecemos.

A Europa precisa de imigração, pois tem um problema demográfico sério, por isso, estava na altura de a classe política europeia pensar em adotar o modelo australiano. Um modelo organizado, dentro do quadro legal e do estado de direito, em que se valorizariam as qualificações do requerente, a sua idade e o seu conhecimento linguístico, sendo que tais requerimentos poder-se-iam fazer em qualquer embaixada ou consulado de um qualquer estado-membro da União Europeia. Pelo contrário, estamos a adotar o modelo caótico sobre a capa de humanista, de aceitar qualquer um que tenta a arriscada viagem de atravessar o Sara e o Mediterrâneo, ao mesmo tempo que declinamos vários pedidos oficiais e organizados junto das embaixadas e consulados espalhados pelo mundo. Parece que há só duas formas para um não europeu entrar na União Europeia: ou arrisca a vida num périplo desértico-marítimo extremamente perigoso e com um destino incerto, ou paga meio milhão de euros por um visto doirado. Confesso que o meu espírito humanista tende a preferir aceitar o primeiro em detrimento do segundo visto que demonstra extrema motivação, mas a racionalidade económica dita o contrário. Já ao comum dos medianos que se situam no meio-termo, falantes de Inglês ou Português e com formação superior, espalhados pela América do Sul, África ou Ásia, que queiram vir trabalhar e viver na Europa, está-lhes vedada a entrada, mesmo que muitos destes também tenham uma vida miserável, como por exemplo na Índia ou no Paquistão.

Da xenofobia e da psicologia evolutiva

À luz da mitologia populista explicada pela Psicologia Evolutiva,
este barco está repleto de "machos jovens invasores, que tomarão
de assalto as nossas casas, violarão as nossas fecundas filhas e nos
roubarão os recursos mais preciosos do nosso ancestral território;
tudo, com a complacência dos vis traidores que os auxiliam".
A seleção natural escolhe os mais aptos, não os mais fortes. Numa ninhada existe variabilidade nos traços fenotípicos (aparência visível por fora) e genéticos. Numa geração de indivíduos de uma mesma família alargada essa variabilidade é ainda maior, basta pensarmos que se já somos diferentes dos nossos irmãos, somos ainda mais diferentes dos nossos primos direitos, e assim sucessivamente à medida que se afasta o grau de parentesco. Essas diferenças obedecem a mutações genéticas que por sua vez obedecem a processos estocásticos (aleatórios), que são definidos durante a conceção, e assim sendo, são por sua vez transmissíveis para as gerações vindouras. Apenas são transmissíveis os traços genéticos que são definidos na conceção e não aqueles cujas mutações aparecem posteriormente. Ora há traços, genéticos ou fenotípicos, que aumentam a adaptabilidade (fitness) do indivíduo, visto que o indivíduo que sobrevive é aquele que tem filhos e que por sua vez transmite esses mesmos traços para as gerações vindouras. Este processo, denominado de Seleção Natural, visto que a adaptabilidade do indivíduo é definida em função do meio natural envolvente, foi descoberto e analisado por Charles Darwin, e está mais que estabelecido na comunidade científica, embora Darwin não conhecesse os processos genéticos subjacentes, apenas os relacionados com os traços fenotípicos.

Por sua vez António Damásio, em o “Erro de Descartes”, esclarece-nos que existe uma quantidade muito pequena de genes associadas ao cérebro, para a quantidade imensa de neurónios que o indivíduo possui, o que deixa a entender, que muitos dos processos psicológicos do indivíduo são de facto mais influenciáveis pela educação ou meio envolvente do que propriamente pela genética. Todavia a genética, ou o seu legado, não pode ser desprezada, principalmente na parte do cérebro mais antiga, a mais interior, e que muita da qual é comum a todos os mamíferos, como por exemplo o sistema límbico que é responsável pela agressividade, pela sexualidade ou pelo medo. Se são traços comuns a todos os mamíferos, é natural que obedeça a processos genéticos e por sua vez evolutivos. Ora sendo o Homo Sapiens também um mamífero que é parcialmente explicado, tal como os outros seres vivos, por um processo de seleção natural, é expectável que muitos dos processos psicológicos, principalmente os mais primários, aqueles que não advêm dos lobos frontais, obedeçam a processos genéticos e por sua vez, evolutivos. Assim, surgem já no século XX os primeiros estudos sobre psicologia evolutiva, que propõem explicar características mentais e psicológicas, tais como memória, perceção, ou linguagem, como adaptações evolutivas; sendo a mente, principalmente na sua vertente mais primária, o resultado da seleção natural e da seleção sexual. A psicologia evolutiva propõe assim que a psicologia clássica pode ser mais bem compreendida à luz da seleção natural. A psicologia evolutiva nas sociedades modernas é mais bem compreensível nos meta estudos, que envolvem uma enorme quantidade de indivíduos, visto estudar mecanismos genéticos que são o resultado da seleção natural, e por conseguinte são comuns a uma grande maioria da população, sendo assim mais facilmente identificáveis em fenómenos de massas.

É neste ponto que entra a xenofobia, um sentimento claramente primário despoletado pelo medo ao indivíduo ou indivíduos, classicamente das outras tribos ou etnias. A psicologia evolutiva estuda assim muito bem este fenómeno. Reparemos que apesar de eu considerar que a imigração ilegal é um problema para a Europa, está longe de ser um problema que represente o apocalipse político em que presentemente se vive. A classe política tenta obedecer aos anseios das populações, mas porque motivos as populações temem um problema, que apesar de existir, é bem menor do que aquele que parece de facto ser? A psicologia evolutiva há muito que estuda estes fenómenos. Durante o Paleolítico o Homo Sapiens (homem moderno) viveu em tribos ou grandes famílias, que estima-se, teriam a dimensão de cerca de duzentos indivíduos. Apesar do Homo Sapiens ter sempre migrado, desde África para a Europa e para a Ásia, durante gerações seguidas vivia sempre na mesma região, e por isso tornou-se bastante territorial. Batalhas tribais, massacres, violações ou homicídios eram muito comuns no Paleolítico, principalmente entre membros de tribos diferentes. Ou mesmo extermínios, tal como o extermínio que o Homo Sapiens fez ao Homem de Neandertal, apesar de hoje se saber, através dos estudos genéticos, que também houve cruzamentos entre estes dois hominídeos. Mas indubitavelmente que perante invasões do território da tribo, por parte de outras tribos ou mesmo de outros hominídeos, a seleção natural escolheu aqueles membros daquela tribo que, de forma agressiva e guerreira, resistiram e combateram os invasores. Reparemos, e aqui a parte interessante da matéria científica à luz da psicologia evolutiva, que estes traços psicológicos não obedeceram a processos racionais de decisão em defender a tribo e o território da tribo inimiga, mas resultaram de processos evolutivos, ou seja, perante a variabilidade genética afeta aos neurónios, a seleção natural escolheu os indivíduos que possuíram traços neuronais que apresentavam maior agressividade perante os invasores alienígenas, sendo que aqueles que apresentaram maior complacência ou brandura foram eliminados e por conseguinte não deixaram linhagem. Considerando que estes fenómenos se davam numa tribo geneticamente homogénea, tal também explica a enorme agressividade que os xenófobos têm perante os da mesma tribo, ou na modernidade, da mesma nação, que demonstram benevolência perante os alienígenas.

Logo, na mitologia populista mais primária, sendo que a mitologia, tal como Freud preconizava, obedece a processos psicológicos primários, o “alienígena macho, jovem e negro que pelas nossas praias entra, é aquele que tomará de assalto as nossas casas, roubará os nossos recursos e violará as nossas fecundas filhas, poluindo o seu sangue e a nossa linhagem; escravizará os nossos filhos, matará os nossos compatriotas guerreiros e demonstrará tamanha crueldade perante os nossos pais; é este o negro alienígena, a besta que entra pelas nossas praias, sob a complacência vil dos traidores da nossa tribo que o auxilia”. Este retrato mitológico da xenofobia mais primária e populista, obedece de facto a um processo evolutivo. Foram esses os indivíduos selecionados, o que explica também porque motivo o Homo Sapiens é um animal tão agressivo perante o seu semelhante Homo Sapiens, principalmente aquele que for cultural e etnicamente distinto, o que explica ainda no meu entender, o facto de o estado ter um papel tão importante na manutenção da ordem pública, e o facto de todas as experiências anarquistas apenas terem sido bem sucedidas em pequenas comunidades etnicamente homogéneas. O Homo Sapiens, tal como muitos outros mamíferos, fez o seu périplo evolutivo na busca de recursos, considerando que sempre foi caçador-recoletor. E os recursos no Paleolítico, ao contrário do que a indústria hoje nos providencia, eram bastante escassos. Combater por recursos naturais era assim vital para as tribos no Paleolítico, daí o Homo Sapiens ser também um animal bastante territorial, o que explica as diversas guerras travadas durante a História por pedaços de terra, muitas vezes com valor económico insignificante. Ao ser extremamente territorial, guardou um forte traço psicológico na defesa desse mesmo território contra invasores alienígenas, considerando que o território era a fonte para os seus recursos e por conseguinte para a sua sobrevivência.

Por conseguinte, ao contrário do que muitos xenófobos julgam, o seu pensamento está também fortemente deturpado e “poluído” pelos processos neuronais explicados pela psicologia evolutiva, sendo que não é propriamente um pensamento racionalmente “puro”, parafraseando Kant. E embora os dados estatísticos apontem que há maior índice de população prisional nas comunidades de imigrantes, ou que, proporcionalmente há maior índice de criminalidade nas comunidades de imigrantes; o sal, o açúcar ou os automóveis matam indubitavelmente muito mais nativos que quaisquer imigrantes, e todavia não denotamos nas massas uma raiva acéfala e irracional contra o junk food ou o excesso de automóveis nas nossas cidades, que matam imensos inocentes por atropelamento. De facto, é também a seleção natural que explica a atração irracional do palato pelas comida com elevado teor de gordura ou açúcares, exatamente porque no Paleolítico os recursos naturais eram muitos escassos, e portanto, foram selecionados aqueles que deram preferência à comida mais calórica, sendo que os demais morreram famélicos. Mas o problema da modernidade nas sociedades ocidentais é exatamente o oposto, sendo que é o excesso de açúcares e o excesso de gorduras que mata, e não o inverso. Mas a nossa mente está desenhada para sobreviver no Paleolítico e não no Neolítico. Explico noutro texto este anacronismo evolutivo.

Após o Neolítico surgiram então as primeiras civilizações, e nas civilizações convivemos com outros Homo Sapiens etnicamente bem distintos de nós, sendo que na grande maioria dos países e cidades, vivem pessoas etnicamente muito diferentes, em paz, ordem e harmonia. Tal apenas foi possível devido à Justiça, ao Estado e à Lei. E a Racionalidade dita que os imigrantes estão muito longe de representar qualquer problema para a grande maioria dos cidadãos dos países que os acolhem, sendo que a grande maioria dos “anseios” das populações, obedece unicamente a processos psicologicamente evolutivos, que são catapultados pela comunicação social, qual grito e berro de um nosso antepassado que vigiava o nosso território perante ameaças de invasão alienígena, e que por conseguinte, exigia a nossa vigilância e prontidão máxima para uma reação rápida e agressiva. A xenofobia é assim perfeitamente explicável à luz da psicologia evolutiva, e também explica o medo e ódio que tais processos psicológicos representam. Há que combatê-los no quadro de uma sociedade democrática, urbana e civilizada. E a melhor forma de combater o medo e por sua vez o ódio, tal como um adulto que não tem medo do escuro pois ao contrário de uma criança já tem desenvolvidos os seus lobos frontais, é fazendo uso da Racionalidade, e portanto, da Ciência.

Dos rankings dos exames nacionais


Mais um ano letivo e mais um ranking onde se compara, objetivamente e de forma imparcial, o conhecimento científico que os vários alunos de várias escolas do país detêm. Reparai que não menciono sucesso escolar, nem aquisição de conhecimento; pois um aluno pode ter entrado numa determinada escola já com notas elevadas, e ter efetuado o exame nacional tendo obtido um resultado similar; em contraste com outro aluno que possa ter tido um progresso assinalável, sem todavia no exame nacional ter obtido uma nota muito alta. Assim, os exames nacionais mensuram, de forma clara, objetiva e justa, o conhecimento científico dos alunos. Esta métrica não considera o estrato social, a região do país, as condições de literacia dos pais, se a escola é dos subúrbios ou dos centros urbanos, a estabilidade laboral dos professores, nem outros fatores que podem influenciar a métrica. Também não mensura o conhecimento numa lógica mais ampla e humana, cingindo-se ao conhecimento de cariz científico. Todavia não deixa de ser uma métrica objetiva e justa, na medida que é igual para todos. Alguma da esquerda, na sua sanha tirânica anti-métricas, em vez de relevar os fatores anteriormente mencionados, mais não faz que simplesmente lutar para que se abula a referida métrica. A métrica não deve ser abolida, deve ser analisada, e ademais, devem-se criar outras métricas que mensurem por exemplo os resultados dos exames nacionais, ponderando os factores sociais ou de literacia dos pais. E o ministério da educação tem-nas, como por exemplo com a métrica que mensura o sucesso escolar.

Portugal tem na educação, tal como em outras matérias consideradas fundamentais como na saúde,  um sistema similar ao praticado na América Latina, que se tem revelado socialmente extremamente iníquo. Nem temos um sistema comunista, que até seria preferível ao presente sistema, na medida que proibiria escolas e colégios privados, forçando por conseguinte a igualdade de acesso a qualquer escola do país, nem temos um sistema, muito usado nos países nórdicos, onde o estado oferece aos pais um cheque-ensino para que estes possam colocar os filhos onde quiserem. Temos assim um sistema misto, que é mais usado nos países sul-americanos, conhecido por criar enormes clivagens sociais, que na prática, excetuando honrosas e particulares exceções (como a escola pública do Restelo, num bairro repleto de diplomatas e casas de milionários), resume-se à dicotomia da escola pública para pobres e privada para ricos. Este sistema agrada profundamente ao status quo vigente, quer à burguesia que pode colocar os filhos nos colégios privados e assim evitar que a sua prole se relacione com os "filhos do povo", quer ao sindicalismo pequeno-burguês, encabeçado por Mário Nogueira, cujo último interesse em qualquer uma das sua reivindicações é defender o sistema público de ensino, mas tão-somente, legitimamente como qualquer corporação, os seus benefícios e benesses salariais; garantindo acima de tudo, não que os alunos adquirem conhecimento, mas que são bem-pagos e que as paredes e infraestruturas das escolas do país são detidas pelo estado. Mas as paredes das escolas serem públicas ou privadas, em nada altera o conhecimento adquirido pelos alunos; já as sucessivas greves de professores, deterioram esse mesmo conhecimento. O status quo assim mantém-se, porque é um sistema que de facto agrada a todos os que têm voz. Vejamos o exemplo do humorista Ricardo Araújo Pereira, que muito prezo, homem de esquerda confesso que na última polémica sobre o financiamento a colégios privados manteve a sua posição ideológica junto da do governo, mas que refere publicamente que as suas filhas frequentam apenas colégios privados. E quem tem voz na comunicação social, ou são os membros dos sindicatos ou forças dos partidos de esquerda que têm uma preocupação sindical notória e vincada, mormente com referência ao setor público; ou a burguesia endinheirada que se pode dar ao luxo sem qualquer constrangimento financeiro, de colocar os seus filhos nos colégios privados, numa espécie de reduto seguro contra as "más influências", e assim assegurar o sucesso profissional da sua prole. O sistema português agrada assim cumulativamente a quem tem dinheiro e quem tem voz, sendo que a ideologia serve apenas de procuração retórica. O sistema de ensino em Portugal é assim, mais socialmente iníquo, do que o de Cuba ou Holanda, por motivos ideológica e diametralmente opostos. O sistema holandês apresenta resultados nos testes PISA, bem superiores aos de Portugal.

Digo-o, pois confesso que fiquei escandalizado com os últimos resultados, que referem que as primeiras trinta escolas no ranking são totalmente privadas. E este fosso tem-se acentuado de ano para ano. Este sistema acentuará ainda mais o círculo vicioso, visto que há mais que literatura social que demonstra que a educação é dos fatores mais importantes para o sucesso profissional do indivíduo, e por conseguinte para o seu estrato social. Obviamente que estou ciente, que a grande maioria dos colégios privados não tem alunos cujos pais têm problemas e carências sociais e financeiras. Também não me surpreenderia que os colégios fizessem algum tipo de filtragem étnica na aceitação dos alunos. Quantos negros ou ciganos encontramos nos ditos colégios privados? Ademais, os estudos sociais mais que demonstram, que existe uma correlação e causalidade entre literacia e salário, isto quer dizer que não só os filhos dos ricos, podem andar num colégio privado, como podem ter apoio pedagógico em casa de forma muito mais acessível, ou também por exemplo explicações particulares. O círculo vicioso, por conseguinte, acentua-se, criando-se aquilo que chamamos no controlo, de realimentação positiva. Aqui na Holanda donde escrevo, dois terços das escolas da rede pública, são de facto detidas e geridas unicamente por entidades privadas. Qualquer entidade privada pode fundar um escola, desde que naturalmente cumpra os critérios pedagógicos e educacionais impostos pelo governo. O estado oferece por conseguinte um cheque-ensino aos pais, por cada criança, e estes podem escolher a escola que bem entenderem para os seus filhos. Se as propinas da referida escola ultrapassarem o valor do referido cheque-ensino dado pelo estado, os pais deverão colocar a diferença. São unicamente os pais quem decide em que escola querem colocar os seus filhos, sob a máxima premissa liberal que são os pais quem melhor sabe o que é melhor para os seus filhos. O estado apenas providencia o cheque, que naturalmente apenas pode ser usado na educação dos filhos. O estado também garante, através da lei da escolaridade obrigatória, que todas as crianças têm de facto educação, evitando por conseguinte eventuais fraudes na utilização dos dinheiros públicos. Este sistema é aplicado em quase todos os países nórdicos, classicamente atribuídos às virtudes da social-democracia. Este sistema permite que os pobres, possam assim frequentar os colégios privados, sendo por conseguinte, um sistema socialmente mais justo no acesso à educação.

Concluo, a bem da desejável igualdade do acesso à educação, que o sistema de ensino em Portugal apenas pode tomar dois caminhos possíveis, no meu entender fundamentais, ou o comunismo ou o liberalismo. Ou o sistema igualitário e de qualidade vigente em Cuba, ou o sistema neoliberal vigente na Holanda, Dinamarca e Suécia. Se continuarmos com o presente sistema de ensino, que agrada ao status quo, mas não agrada à educação, dentro de anos teremos um sistema de ensino tão ou mais iníquo que o brasileiro ou o argentino. Já agora, deixo a pergunta: nos afamados testes PISA, que tanto agradaram o ministério de educação e a classe educativa em geral, qual terá sido a percentagem de alunos portugueses provenientes dos colégios privados?

Why pornography and violence on media are so harmful for one's mind?


I seek humanity in mysterious ways

One of the major problems of dealing with the harmful effects of pornography, for instance, is that the individuals that seek to debate about such subject, normally put into the reasoning theological or religious precepts contaminating therefore a pure scientific approach on the subject. I will not at all on this text evoke any religious or theological arguments. There are mainly, according to psychoanalysis, three levels of driven works and thoughts in one's mind, the consciousness, the preconsciousness and the unconsciousness. All the primary instincts come mainly from the so called limbic system, and they do operate not only on the pre- and conscious level, but they are much more powerful on the unconscious level. When one fells hungry, even if one tries to counterbalance such primary instinct with a rational and logical thought, one's mind will be absorbed unconsciously by that specific feeling of hungriness and his apparently rational choice will indeed be biased by a primary instinct. It's an illusion so that the individual, in his ego, may suppose he's making a free choice purely driven by freewill. It's not a question of destiny nor fate, it's simply a drive that works on the unconscious level and bias one's apparently rational choice. Two mathematicians from the same school and with the same methodology solving the same equation most likely would use different mathematical approaches if one is immensely hungry and the other is sexually aroused. Indeed that's what defines the true human nature, a mix between logical abstraction of thoughts and primary instincts evolved from natural selection.

As Freud clearly puts it, in his Civilisation and its Discontents, people seek happiness through satisfaction of sexual and other primary instincts. The remaining people are the source of unhappiness in the sense that other people block one's primary intentions and block one's drives to seek those primary instincts. Indeed when you, an heterossexual man for example, desire a woman, the main true feeling that prevents you from copulate with her is fear. Your fear the consequences even if you don't consciously realise it. You fear her husband, her father, you fear the lawful consequences, the authorities, you fear your family or the reprimand from society. That's fear the counter psychoanalytical drive that stops you from ravish and eventually raper her. That counter force is very powerful and efficient because it works on the same level of the sexual primary instincts. As sexual drive is very powerful, fear is efficient because it uses the same primary methodology and operation, since both drives come from the limbic system and both operate on the unconsciousness. One will never admit that is fear, what truly prevents him from ravish another human being into the most primary actions like forced intercourse or even murder. This balance between two primary opposite drives, brings humanity into the society. Plato, in his Phaedrus, presents us with the same paradigm in a more philosophic and literate presentation when Socrates tell us that, when the individual is strongly in love with someone, he's like a coach pulled by two horses, a white one and a black one. The black horse pulls the individual strongly and instinctively, without concern with the status quo or social rules, towards the loved one; whilst the white horse cools down these instincts and brings rationality into the drive. Religion, as Freud puts it and Freud was an atheist, is thus a very efficient means for harmony in the society since religion normally, with the notion of guilt and sin, indeed embeds fear in one's mind. Not fear from the society but fear from an imaginary almighty father. Another religious methodology is prohibition. By simply forbidding sexual intercourse or sexual pleasure like masturbation, on so many different circumstances, and stages of life, religion was efficient in bringing harmony into the society. If it is true for the majority, indeed religion brought as well tremendous attacks for the freedom of the individual, even if such freedom is only partially apparent. And one of the most iniquitous attacks performed by religion, is the freedom of thought.

If she, the hypothetical lusty lady, doesn't want you, and you, a heterossexual man as a mere example, do not fear her father, husband, family or law, because you are either brave or mad, you most likely will have then the consequences through another primary feeling: pain. Either the father or the husband will beat you, either you will be incarcerated or you'll be ostracised by your family, friends or society; in any case the consequences are the painful effects that such violence, lack of liberty or ostracisation implies. Obviously the majority of the people are civilised, and through the smoothly abolition of fear, respecting all the cultural and societal rules, the majority of the men engage therefore romantically and sexually with a partner through socially acceptable means. But that demands time and effort, whilst technology provides immediate sexual pleasure through pornography. Why losing time and effort for the same sexually intense pleasurable goal? If one can obtain the same intense sexual satisfaction, as a pure voyer of sexual intercourse, being completely sure that one disguises oneself as being a totally anonymous viewer, the fear fully disappears remaining only the guilty and the sinful thoughts brought by religion and education. If one has no religious beliefs or one doesn't have them as being that important or relevant, one most likely will let oneself be absorbed by those consequences-free and immediate sexual pleasures. Pornography pays then back, as it provides the viewer a powerful sexual satisfaction without fearful or painful consequences. Then, you know you may advance, since nothing stopped you from that specific primary satisfaction. Therefore you seek the next step of satisfaction, either by seeking more violent sexual intercourses or more humiliating scenes for the passive actor or actress. The common and exemplary sexual intercourse doesn't satisfy you anymore. Your wife or girlfriend doesn't satisfy you anymore which may also explain the enormous divorce rate in western societies. Then you seek younger or more sexually attractive actresses to see, even more beautiful or voluptuous than the previous ones, since the previous do not satisfy you anymore. What would stop you according to psychoanalysis? Fear or pain, and you have neither. The borderline to reach pathology, vice or unlawful media content might be easily reached, since nothing is able to stop those ravish instincts. Since sexuality and violence play on the some level on the primary instincts, because in the Paleolithic and a feature common to most mammals, sexual intercourse was made most likely through the use of violence against other males; you'll seek more violent movies, series or video games, since the previous ones become boring, i.e., without the violent content that truly satisfy you. You'll tend to go into extreme ideologies too, since fear from other individuals was also brought from this mix of instincts and all this media content has distorted your notion of the outer realm. Probably either you'll start to defend extreme left ideologies and you'll start to hate all the human beings that have more money or power than you, being those the potential male competitors in the Paleolithic which you have to kill to obtain power and females; or you'll tend to extreme right and you'll start to hate and despise immigrants and minorities, since violent instincts haven taken your thoughts.

Da diferença e da igualdade de sexo


O ser humano é um animal político

Tenho refletido muito sobre a questão da denominada igualdade de género, e claramente trata-se, posta a questão nesses termos, de uma questão meramente político-ideológica e com uma abordagem muito pouco científica, mormente quando falamos do ramo da Biologia e da Psicologia Evolutiva. É natural e compreensível que os indivíduos inseridos numa sociedade tendam a promover a paz social e a igualdade, e por conseguinte, a plasmar princípios ideológicos na doutrina política. Assim, é natural que pessoas com mediatização tendam a aproximar o discurso público, a um discurso politicamente ponderado, visto que tais manifestações públicas são auscultadas por muita gente, particularmente tanto homens como mulheres. O "politicamente correto" não deve ser encarado de forma pejorativa, pois trata-se muitas vezes de expressar as ideias de forma um pouco mais diplomática. Mas negar as diferenças biológicas ou psicocognitivas, em média e em termos estatísticos, entre homens e mulheres, é simplesmente negar as evidências científicas a bem do status quo político-ideológico.

Os homens, em média, são mais altos que as mulheres

Distribuição normal da altura de homens e mulheres.
Fontes: [1] [2] Departamento Americano de Saúde.
Para que possamos entender esta abordagem estatística, adoto aqui uma variável que, julgo, não provoca qualquer celeuma político-ideológico. Os homens são, em média, mais altos que as mulheres. Mas a expressão "em média", precisa de ser tida em consideração, para que não façamos generalizações universais, e para que não caiamos no ruído ideológico. O facto de o homem ser, em média, mais alto que a mulher, não impede, tal como é visível no gráfico, que haja muitas mulheres mais altas que muitos homens. Aliás, tal como pode ser visto no gráfico, pode-se dizer grosso modo, que há cerca de 1/3 de mulheres que são mais altas que 1/3 de homens. Falamos das mulheres que têm mais de 1,70 metros de altura, sendo que há cerca de 1/3 de homens que tem menos de 1,70 metros de altura, tal como se pode ver a partir do ponto de interseção das duas linhas. Esta métrica ideologicamente neutra, serve de base para toda a abordagem seguinte, ou seja, a palavra média deve ser tida em conta, em relação ao seu significado biológico e científico, sem nunca menosprezar que as médias não são generalizações universais, são indicadores meramente estatísticos.

O homem médio e a mulher média são bastante diferentes

Os homens e as mulheres, em média, são diferentes, psicológica e morfologicamente. As diferenças são tantas e tão evidentes, que a lista de diferenças é enorme. E não se resumem naturalmente apenas à genitália. Os homens, em média, têm mais altura, musculatura e capacidade de raciocínio abstrato e analítico; e as mulheres, em média, têm mais capacidades sociais e maior tolerância à dor, devido ao parto. As referidas diferenças devem-se a motivos unicamente antropoevolutivos. O homem saía para caçar, tinha pois por conseguinte de procurar caminhos e não se poderia perder no labirinto da floresta, tendo apenas sobrevivido aqueles que conseguiram a capacidade abstrata para encontrar o caminho correto. A mulher ficava no local da tribo, junto dos outros em comunidade, e também em momentos de crise, o que lhe permitiu ser uma ótima gestora de conflitos e de interações sociais. A função primária do homem era caçar e combater para proteger a prole, daí a força, agilidade e musculatura; já a função primária da mulher, era procriar e cuidar da prole, daí ser mais baixa, para baixar o centro de massa aquando da gestação do feto. Devido ao facto da mulher gerar uma criança durante nove meses, e precisar do homem para a proteção da criança, fez com que a mulher, em média, nas relações amorosas, se tornasse mais dependente do homem. Devido ao facto do homem poder conceber um número elevado de mulheres num curto espaço de tempo, se força, agressividade e musculatura tivesse para tal, para vencer os outros machos rivais, fez com que o homem fosse, em média, menos apegado a relações amorosas. 

Certos estudos relacionais, ditam portanto que, em média, as mulheres procuram homens que lhes confiram segurança e estabilidade; assim como os homens procuram mais aspetos físicos da mulher. Ou seja, enquanto os homens tendem a ser mais carnais na relação amorosa, as mulheres tendem a ser mais sentimentais. Tal diferença remete-nos mais uma vez para motivos antropológicos. O homem poderia conceber com um número elevado de mulheres enquanto que a mulher, sendo concebida por um homem, precisaria sempre da sua guarida, pois na selva, jamais sobreviveria sozinha com uma cria, considerando ademais que outros homens jamais aceitariam cuidar de um filho que não era seu, considerando a evolução por seleção sexual. Assim, a única proteção que a mulher encontrou, foi o apego ao homem, através do ardil e não da força, para que este pudesse ficar consigo protegendo-a. Assim também se explica, que em média, as mulheres aceitem com maior complacência o adultério, que os homens, assim como se explica que certas culturas punam de forma totalmente desproporcionada o adultério, em função do sexo do adúltero. No Paleolítico, a poliginia era a norma e não a exceção. Assim, também se explica, que os maiores consumidores de pornografia sejam homens, e que os maiores consumidores de música, dita romântica, sejam mulheres. Não é pois de estranhar também que estudos estatísticos sobre divórcios ditem que as mulheres, em média, dão como motivo principal para o divórcio, o facto do marido não cuidar financeiramente da família, ou seja, a clássica proteção que outrora era feita com os músculos, nas sociedades contemporâneas é feita com o sucesso profissional e com o capital; sendo que os homens dão como razão principal para o divórcio, o facto de não sentirem mais atração pelas suas mulheres, ou seja, tendo já concebido uma fêmea, o macho sente o desejo primário de procurar outra fêmea para conceber. 

Não falar destas diferenças estatísticas em nome do politicamente correto, é de facto, faltar à verdade científica. Até porque estes dados e estudos fazem-se desde o princípio do século XX, principalmente por antropólogos ao serviço de empresas de publicidade. Sempre me estranhou o facto, de as grandes empresas de publicidade terem nos seus quadros antropólogos qualificados. Mas a resposta após muita leitura, é bem evidente. O caso da indústria automóvel é paradigmático. Enquanto o carro desportivo tem obrigatoriamente de ser desenhado para o homem, relevando sinais como virilidade, o carro feminino deve ser mais pequeno e compacto, relevando a mulher autónoma e atraente que pode escolher o seu homem, pela via da seleção sexual no ato da aceitação ou recusa. Darwin apresentou-nos a seleção natural, em que os mais aptos eram selecionados em função do meio envolvente, mas pouco depois desenvolveu-se claramente a noção da seleção sexual, característica obviamente dos seres sexuados, havendo seleção ativa, pela via da procura que o homem faz por mulheres, e a seleção passiva, pela via da recusa ou aceitação que a mulher faz de homens que a procuram. A felicidade que o sistema capitalista oferenda ao indivíduo pela via da publicidade, remete-nos por conseguinte sempre para a psicologia evolutiva. A mulher feliz, a que usa determinado produto ou serviço, é a mulher atraente e voluptuosa, e por conseguinte é aquela que atrai muitos homens; sendo que o homem feliz, é aquele atraente e musculado que pode escolher várias mulheres para conceber.

Profissional e estatisticamente, constata-se também, que em média, há mais enfermeiras, educadoras de infância e amas mulheres, e há mais polícias, militares, taxistas e matemáticos homens. Estando a mulher mais tempo junto da tribo, e sendo a mulher que no Paleolítico cuidava sozinha das crias, é natural que evolutiva e profissionalmente tenha alcançado maior aptidão para o cuidado ao próximo, daí a caridade e o cuidado serem características femininas, havendo muitas mais enfermeiras, educadoras de infância ou hospedeiras mulheres, do que homens. Já a diferença entre o número de matemáticos e matemáticas é tão clara e evidente, que tal diferença não se pode dever apenas a motivos culturais ou heteropatriarcais. A diferença, de facto, deve-se unicamente a motivos biológicos e evolutivos. A matemática envolve uma enorme capacidade de raciocínio abstrato e espacial, para que diversos encadeamentos lógicos possam fazer sentido num determinado hiperespaço racional. Pela mesma razão, a diferença no número de taxistas homens e mulheres, é ela também colossal, que não pode apenas ser explicada pela via da cultura. Como anteriormente explanado, na tribo, durante o Paleolítico, era o homem quem caçava, e para caçar, precisaria de sair da zona ou do local da tribo. Há mesmo estudos antropológicos que referem que a própria inteligência e coordenação surgiu com a necessidade de caça, pois é necessário efetuar predições e cálculos para estabelecer possíveis movimentos futuros da presa. É certo que vários animais não racionais caçam, mas o Homem foi o único animal a caçar outros animais com porte bem superior ao seu. E da mesma forma que os roedores, apesar de serem não racionais, têm uma enorme capacidade para encontrar caminhos em labirintos, pois sempre viveram em galerias subterrâneas labirínticas, também no caso dos seres humanos, a seleção natural escolheu os homens que caçavam de forma mais eficiente, e aqueles que melhor conheciam os trilhos e os meandros da zona. Por isso, no caso de mapas e por conseguinte de taxistas, apesar de muitos taxistas terem um nível académico muito baixo, é impressionante a capacidade que têm para otimizar percursos ou para conhecer as diversas vias de uma determinada urbe. E a grande maioria são homens. E é também essa capacidade espacial, que permite ao homem, em média, ser mais douto na matemática e na física, ciências que exigem uma enorme capacidade abstrata e espacial.

Somos todos iguais, pois somos todos seres humanos

Mas acima de tudo somos todos seres humanos. E nesse ponto somos iguais. Felizmente que a sociedade evoluiu bastante desde o Paleolítico, e um dos marcos fundamentais das sociedades ocidentais após o Iluminismo, que nos trouxe o Humanismo, foi exatamente o princípio da igualdade. Resume-se então tudo à velha máxima de todos diferentes, todos iguais. Por conseguinte devemos ser todos tratados pelo estado da mesma forma, e, logo, considero que quaisquer diferenças apresentadas pelo estado ou alguma instituição em função do sexo, são desapropriadas. Por questões de justiça e de humanismo. Por questões de justiça, pois como vimos pelo gráfico que apresentava a distribuição estatística das alturas em função do sexo, a média é uma métrica muito torpe, visto que há muitas mulheres muito mais dotadas que muitos homens em vários domínios. Há muitas mulheres mais racionais, mais altas, mais fortes e com maior capacidade espacial, que muitos homens. A média é apenas uma métrica e todas as diferenças acima plasmadas, são sempre consideradas em média, sem qualquer generalização universal. Por questões de humanismo, pois somos todos seres humanos e o estado e as instituições devem tratar todos por igual à luz dos princípios constitucionais da igualdade. 

A Natureza e o capitalismo já incutem as suas diferenças, por isso os negros, em média, têm salários mais baixos que os brancos, assim como as mulheres, em média, têm salários mais baixos que os homens, pois as mulheres têm, em média, menor propensão biológica para liderar (no mundo dos primatas, não há fêmeas alfa). Todavia, não precisamos por conseguinte, de, na senda do Humanismo, acentuar tais diferenças a priori, porque elas existirão, em médiaa posteriori. O Estado deve, assim, tratar todos os seres humanos de forma totalmente igualitária, e jamais deve fazer quaisquer discriminações em função do sexo. Mas também jamais devemos, em função da ideologia, negar a Ciência.

Ainda sobre a xenofobia e a psicologia evolutiva



A xenofobia foi positiva para o Homem no Paleolítico

De acordo com os estudos antropológicos mais recentes, consta que no Paleolítico o Homem vivia em tribos, ou grupos, e de acordo com alguma literatura, que fez o estudo ao número de indivíduos em várias comunidades de primatas, cada tribo no Paleolítico tinha aproximadamente cerca de 200 indivíduos. É preciso assinalar que a xenofobia ou qualquer grupo-fobia foi de facto vantajosa no Paleolítico, daí a termos herdado evolutivamente, estando bem vincada no nosso sistema límbico. E a xenofobia foi vantajosa porque os da outra tribo (etnia ou grupo étnico; porque normalmente a um cristão devoto não lhe indigna ver um muçulmano louro de olhos azuis), eram estatisticamente aqueles que copulavam com as nossas fêmeas, raptavam as nossas crianças, roubavam os nossos recursos alimentares e ocupavam o nosso território. Se o Homem da atualidade, cívica e culturalmente evoluído e apetrechado com jurisdição que rege as relações internacionais, ainda é territorial, e tem-no plasmado no conceito de soberania territorial, muito mais territorial o eram os hominídeos no Paleolítico. Um bom exemplo é o caso das relações entre indivíduos de aldeias diferentes no meio rural, ou da relação de vários indivíduos de famílias diferentes na mesma aldeia. O "sangue" ao qual pertencemos, através da emoção, toma um papel extremamente importante nas decisões que tomamos. O nosso território deveria por conseguinte ser expurgado e protegido de ameaças exógenas, num tempo em que havia apenas barreiras naturais, e quando estas não existiam, restava ao Homem, a força, a violência e a agressividade, para que possa defender "a sua casa e os seus". Qualquer eventual compaixão de um membro do nosso grupo perante esses outros, deveria ser fervorosamente abolida e reprimida, em prol do interesse grupal. Daí por exemplo, a miscigenação, do ponto de vista estatístico, continuar a ser uma raridade no universo matrimonial, porque é contra-natura. 

Mas todavia já não nos indignamos contra os criadores do automóvel, mesmo que mate mais de um milhão de seres humanos por ano, incluindo obviamente os da nossa tribo, da nossa família, exatamente porque não havia automóveis no Paleolítico, da mesma forma que não nos indignamos contra os criadores da bomba atómica. Porém, ficamos temerosos perante vespas gigantes (que possuem veneno que poderia ser fatal), tememos eventuais situações noturnas em densas florestas enubladas (nos homens devido ao perigo eminente de ataque de fera ou de elementos de outra tribo; nas mulheres o mesmo, acrescentando-se ainda o medo latente de violação de um outro que "poluiria" o sangue da tribo), tememos por lidarmos com mortos (questões de salubridade na presença de cadáveres, por isso desde há cem mil anos que enterramos os mortos) ou por termos a sensação de que o nosso território está a ser invadido por outros indivíduos que não partilham connosco os mesmos traços físicos ou fenotípicos. Surge-nos então um sentimento irracional, proveniente do sistema límbico e catapultado na presença das massas, que nos transmite cumulativamente medo e ódio, perante esse referido invasor. À luz desse sentimento primário, juntamo-nos a exércitos arriscando a própria vida, pois em última análise estamos a salvar a pátria, cujo termo congénere no Paleolítico era apenas o território; mesmo que para salvar a pátria tenhamos de combater a milhares de quilómetros de casa, como fizeram os alemães em Estalinegrado ou como fazem agora os americanos na Coreia do Norte ou fizeram no Vietname. 

Um exemplo muito interessante de atestar na atualidade o legado do Paleolítico, é verificar que o turismo na Europa declinou abruptamente devido aos ataques terroristas, continuando todavia em alta no Brasil. Mas enquanto na Europa morreram 170 pessoas no ano passado devido a ataques terroristas, no Brasil existem 60 mil homicídios por ano. Pergunto-me então, o que é mais seguro para um americano, mediana e intelectualmente não muito prodigioso, e que passa o dia a visualizar a comunicação social para as massas, se visitar a Europa ou o Brasil. No Paleolítico a maioria dos assassinatos deveria ocorrer entre membros de tribos diferentes, tal como hoje continua a acontecer entre membros de famílias diferentes. Logo, a um estrangeiro, estatisticamente, é muito mais perigoso visitar o Brasil que a Europa, e todavia o turismo tem declinado bastante na Europa e não no Brasil. Outro exemplo é atestar que muitas pessoas têm medo de andar de avião, porque o meio natural do Homem é o solo, todavia o automóvel mata muito mais pessoas que a aviação, mesmo considerando mortes por quilómetro percorrido. O Paleolítico deixou-nos um legado psicológico, que é muito fácil de verificar no comportamento das massas.

Na civilização, a xenofobia é além de anacrónica, perigosa

A palavra civilização vem do Latim, civitas, ou seja, cidade. E de facto as cidades foram o berço da civilização, processo que se deu após a Revolução do Neolítico, quando o Homem descobriu a agricultura e passou a domesticar animais, tendo-se tornado sedentário. Ao tornar-se sedentário, pois já não precisava de migrar na busca de alimentos ao longo das diversas estações do ano, ou de seguir as rotas migratórias dos animais que caçava, o Homem, que antes vivia em clãs ou tribos, passou a viver em aldeias. Com o sedentarismo, surgiu a escrita, a arte, a lei, as primeiras profissões e a hierarquia institucionalizada. Mas no início do Neolítico, que ocorreu aproximadamente em 10.000 aC, apesar de já estar sedentário e ter meios de subsistência para o ano todo, o Homem ainda vivia em comunidades em aldeias, que partilhavam os mesmos traços étnicos. A tribo tinha apenas ficado sedentária. As primeiras cidades surgiram todavia apenas na Suméria em cerca de 5.500 aC., mas foram os clássicos gregos e romanos que deram às cidades, a noção de civilização que hoje conhecemos. Em Português temos palavras interessantes, que provêm desse étimo de cidade, como cívico, urbanidade ou civismo, qualidades que se exigem aos cidadãos ou políticos, ou seja, respetivamente os habitantes da cidade romana ou grega.

Com o surgimento das cidades por certo surgiu um problema muito delicado de gerir por parte do governador. Como lidar com a presença de pessoas de etnias ou clãs diferentes, que outrora viviam nas suas aldeias separadas? A religião e os costumes foram, de facto, os primeiros aglomeradores para a integração cultural. Os cristãos não eram bem vistos na Roma Antiga, essencialmente porque prestavam culto a um Deus que não representava os deuses oficiais do estado. O mesmo sentiam os judeus, quer na civilização grega, quer romana. Todavia, os romanos e gregos, com a sua noção clássica de Lei e Ordem, que de certa foram foram os pilares fundadores para o muito posterior estado de direito, conseguiram preservar amiúde a Paz nos territórios por si ocupados. As referidas leis romana e grega, estratificavam e discriminavam os habitantes em função da nacionalidade, do género, da riqueza pessoal ou da prestação de serviço militar, mas não o faziam normalmente em função da etnia. O cidadão na Grécia antiga era apenas o homem livre adulto e nascido na pólis. Na Roma antiga, em acréscimo, exigia-se ao cidadão o cumprimento do serviço militar. Mas sabe-se que na Roma antiga, uma forma de pacificar o Império, foi atribuir nacionalidade romana a todos os indivíduos das colónias, que eram nascidos de cidadão romano, normalmente militares destacados. Os mesmos critérios de atribuição de cidadania, eram normalmente válidos em todo o Império, independentemente da etnia. Obviamente que era difícil a alguém que nascesse escravo, obter a liberdade, mas não era raro que tal acontecesse. O mesmo para a civilização grega.

Com o surgimento das cidades e por conseguinte a civilização, surge então pela primeira vez a convivência regular de pessoas com traços fenotípicos e de etnias diferentes. Sentimentos xenófobos obviamente que sempre existiram, mesmo nas civilizações, mas normalmente foram sempre catapultados e usados por líderes demagogos para fazer a guerra entre as referidas cidades, tal como por exemplo as guerras púnicas entre Roma e Cartago, ou entre Esparta e Atenas. Mas o sentimento de pertença já não eram normalmente o fenotípico ou étnico, era normalmente o cultural ou religioso. Pela mesma razão os impérios Português e Espanhol, conseguiram expandir de forma tão eficaz a sua hegemonia cultural em povos com etnias tão distintas, ou seja, porque fizeram uso da religião. Pela mesma razão o Islão, espalhou-se de forma tão eficaz, de África à Indonésia. A cultura (em Alemão a palavra die Kultur tanto significa cultura como civilização), onde a religião tomou um papel fundamental, passou a ser o traço identitário de um povo, mesmo que o referido povo fosse, do ponto de vista étnico, bastante heterogéneo. Os sentimentos xenófobos, apesar de encontrarem os seus fundamentos nos traços fenotípicos de natureza étnica, passaram a ser canalizados para questões de natureza religiosa ou cultural, mesmo, paradoxalmente do ponto de vista evolutivo, entre pessoas da mesma etnia.

O que fez singrar a civilização, foi por conseguinte a imposição de Ordem e Lei, que para funcionarem de forma eficaz, tinham de preservar de forma o mais pacífica o quanto possível, a convivência no mesmo espaço público, de indivíduos de etnia diferentes, algo impensável no Paleolítico. Talvez para resolver este paradoxo evolutivo, é também no Neolítico que surge pela primeira vez a noção de propriedade privada. Posso conviver com o outro que abomino, mas a Ordem Cívica deve pelo menos garantir-me, um espaço que me pertence e onde o outro está interdito de entrar. Todavia, no espaço público, a convivência entre indivíduos de etnias diferentes, teve de ser uma condição essencial para a preservação da ordem pública. Caso assim não fosse, considerando que todos partilhavam a mesma cidade ou a mesma pólis, a guerra civil seria uma inevitabilidade, e por conseguinte a cidade, no caos, jamais conseguiria prosperar. Por conseguinte, com a criação da cidade, o sentimento xenófobo, apesar de ter sido positivo no Paleolítico, passou a ser contraprodutivo na cidade, tendo sido normalmente prostrado pela Lei. Posteriormente o Iluminismo e o Racionalismo, foram mais longe, ao introduzirem a Laicidade. Com a laicidade, a religião deixou de ser o cânone que molda os traços comuns que definem um povo, tendo obviamente ficado o seu legado. Mas o republicanismo precisou também do simbolismo para definir os ícones comuns dos membros que pertencem à mesma pátria, entre os quais, a figura quase deificada do presidente, a bandeira, o hino, e obviamente, normalmente a língua.

Já no início do século XX, com o surgimento das sociedades da comunicação e de propaganda, líderes extremamente astutos e demagógicos, conseguiram fazer uso do sentimento primário, que é a xenofobia, e que é exatamente catapultado pela presença de massas, para não só chegarem ao poder, mas para levar os seus países para a guerra. A história da Europa do século XX é um exemplo paradigmático, de tal mecanismo. Porque a comunicação para massas que difundem sentimentos xenófobos, terá sido o "alerta perante o invasor", que o nosso antepassado remoto no Paleolítico, por certo fazendo uso de berraria sonora, usaria para avisar a tribo, que estaríamos a ser invadidos. E perante esse estado de alerta, a nossa reação imediata só pode ser a agressividade e a violência, para estarmos preparados para uma feroz batalha para a defesa da nossa família e do nosso território. Mas se o nosso antepassado, com o seu estridente grito de alerta, conseguia avisar apenas as pessoas até onde o poder da sua voz alcançava, a comunicação social do séc. XX, conseguiu espalhar de forma nunca antes vista, a mensagem de alerta, deixando todo um povo em estado permanente de agressividade e prontidão. Este processo foi claro e evidente na Alemanha Nazi, ou na União Soviética Estalinista, e não muito diferente nos EUA, nos mecanismos que despoletaram o ódio do povo americano perante os povos cujo território os EUA invadiram.

A xenofobia continua em cada um de nós, que ninguém duvide. Como diz um provérbio japonês, é mais fácil mover rios e montanhas que a natureza humana. A xenofobia continua latente no nosso sistema límbico, a parte do nosso cérebro evolutivamente mais antiga, porque não destituímos um sentimento em 5 mil anos, que foi o resultado de pelo menos 200 mil anos de evolução. E perante um "grito de alerta", é-nos praticamente impossível não reagir. Resta-nos como seres civilizados, usarmos os nosso lobos frontais, e analisarmos de forma fria e crua, quão perigoso é de facto tal evento cujo o alerta denuncia. E perante o próximo, com traços fenotípicos diferentes dos nossos, devemos pensar cruamente que o referido indivíduo não é de todo perigoso, nem para nós, nem muito menos para a nossa tribo, e que por certo mais perigoso para todos nós, são as alterações climáticas ou o arsenal bélico das grandes potências. Mas esses, nunca foram um perigo no Paleolítico, e por isso, infelizmente, não os tememos na devida proporção.

A Energia: a da Ciência e a do Esoterismo


Um amigo meu numa conversa de café, amigo esse que tem uma formação académica fortemente científica, fazia uma crítica acérrima à terminologia adotada pelas denominadas ciências esotéricas, pois segundo ele, toda aquela terminologia e conceitos, não passavam de uma "treta". Expliquei-lhe; considerando que apesar de também ter uma forte formação académica na área científica, não sou um cético nestas matérias; que para o caso do conceito de "energia", na Ciência e no Esoterismo, apesar de fazerem uso da mesma palavra, os conceitos são distintos mas não incompatíveis. Referi-lhe que o termo energia no Esoterismo não é para ser interpretado no sentido da Física ou da Mecânica Clássica (calor, massa e velocidade, mensurada em Joules), mas no sentido psicológico. Apresentei-lhe então uma metáfora de café.

- "Quando vês uma “gaja muita boa”, mesmo que seja ao longe, existe uma “energia” transmitida por ela, que mexe e remexe no teu corpo, sem que todavia tivesse havido contacto. Essa “energia” que dela provém, atravessa o "éter” do espaço que vos separa e entra na tua “alma”, e pelo facto de mexer contigo, de te criar por vezes convulsões ou alterações de humor, denomina-se “energia”, porque te provocou alterações ou movimentos. É sempre nesse sentido mais lato ou poético se quiseres, ou até mesmo psicanalítico, de “energia”, em que se baseiam quase todas as pseudociências. As "más energias" são estímulos que por vezes são funestos ou malignos, já as "boas energias" são estímulos que são benignos, que nos trazem pensamentos positivos ou que nos oferecem tranquilidade ou felicidade".

Continuei: - "Mas claro, dou-te razão, numa linguagem estritamente científica e rigorosa à luz dos princípios da Física na qual o conceito de energia é rigoroso e está bem definido, este tipo de argumentos justificativos do Esoterismo, não têm qualquer validade. Para a Ciência, foram apenas meros fotões que provindos de uma fonte de luz, no corpo da mulher refletiram, e que viajando a uma velocidade de 300 mil quilómetros por segundo até ti, foram absorvidos pelas tuas retinas, cuja informação correspondente foi processada pelo teu córtex visual, estabelecendo padrões e cores. Milhões de anos de evolução desde os primeiros hominídeos e o teu sistema límbico reconheceu, através das suas feições corporais, que havia altas probabilidades de ser uma mulher profícua para reprodução, e assim sendo, o teu corpo, através do teu sistema endócrino e despoletado pela tua orientação sexual, reagiu em conformidade".

Concluí então: - "Ou seja, temos duas explicações para a mesma coisa, sendo que a primeira é mais fácil de explicar a leigos".

Os antieuropeístas xenófobos são, taxonomicamente, nacional-socialistas


À luz dos critérios taxonómicos da Ciência Política,
o partido de Geert Wilders, o PVV, é considerado
um partido de centro ao longo do eixo esquerda-direita.
Já Marine Le Pen é claramente de esquerda. 
Um dos erros comuns da elite política portuguesa, assim como de muitas pessoas que opinam no espaço público, é considerar que os movimentos políticos extremistas na Europa, que têm um discurso marcadamente xenófobo e antieuropeísta, são de extrema-direita. Tal não poderia ser mais enganador. Lemos Rui Tavares no jornal Público ou vemos Francisco Louçã no seu espaço de comentário televisivo a criticar estes movimentos, alegadamente de extrema-direita, para assim, estando lá longe no outro extremo, se distanciarem desse tipo de movimentos político-partidários que promovem a xenofobia e a intolerância perante os estrangeiros ou certo tipo de minorias religiosas.

Todavia, é preciso enquadrar politicamente estes movimentos à luz de critérios científicos o mais rigorosos quanto possível, dentro da ciência política. Reduzir um certo ideal a um eixo ideológico esquerda-direita, é além de redutor, cientificamente incorreto tal a complexidade do ideário dos partidos na atualidade. A noção de esquerda e direita no espectro político surge com a revolução francesa, quando os representantes da sociedade, na recém-criada assembleia republicana, se dividiam em função do estrato da sociedade. Do lado esquerdo sentavam-se os representantes do povo e do lado direito os representantes da aristocracia. Desde então tendeu-se a associar que a esquerda teria uma maior comiseração e solidariedade perante os mais pobres e que a direita teria uma visão mais centrada na economia ou nos detentores do capital. Mas à luz dos pressupostos históricos contemporâneos do século XX, é fácil encontrar alguns regimes tirânicos que se enquadram em dipolos opostos no eixo político esquerda-direita, tal como o estalinismo ou o fascismo. Estes dois regimes, além de estarem em dipolos ideológicos opostos, eram militarmente inimigos; mas ambos tinham algo em comum, nos dois funcionava um regime tirânico onde as liberdades individuais dos cidadãos, como de pensamento, de livre associação ou de movimento, não eram respeitadas pelo estado.

Percebemos com o caso anterior, que é necessário estabelecer um segundo eixo político, que mensura não só a influência que o estado deve ter na economia da sociedade, mas também o quão liberal ou conservador se deve ser nos costumes ou na forma como o estado lida com o cidadão. Além disso, mesmo nesta análise politicamente o mais imparcial possível, muitas vezes a forma como os partidos lidam com o antieuropeísmo ou com a xenofobia, não está propriamente bem enquadrada na taxonomia político-ideológica. Ou seja, um partido pode ser enquadrado em qualquer ponto no espectro político-ideológico e todavia ter ou não ter uma visão xenófoba ou intolerante perante o estrangeiro. Mas há um padrão claro, parece-me. Em todos estes movimentos protecionistas e antieuropeístas na Europa, de facto, se quisermos ser cientificamente rigorosos com referência à Ciência Política, denotamos que estes partidos, como de Marine Le Pen na França ou de Geert Wilders na Holanda, não são de extrema-direita, são de facto, nacional-socialistas. Muitas das propostas da Frente Nacional em França são exatamente iguais ou mais ousadas ainda que as da extrema-esquerda, como o controlo do banco central, a redução da idade da reforma para os 55 anos, o aumento substancial dos salários na função pública ou a redução do horário de trabalho para as 30 horas por semana. A Frente Nacional não é de extrema-direita, é totalmente incorreto do ponto de vista taxonómico, assim categorizá-la. A Frente Nacional de Marine Le Pen é marcadamente antiliberal, protecionista e com uma visão em que deve ser o estado a ter controlo hegemónico na economia e na política monetária, podendo-se assim afirmar, e tal não o é afirmado publicamente pois além de ser ilegal é politicamente incorreto, que a Frente Nacional tem um ideário marcadamente nacional-socialista. É isso que estes partidos antieuropeístas normalmente são: nacional-socialistas. Defendem um estado muito presente na economia e na vida dos cidadãos, estado que supostamente redistribui diversos apoios sociais a nacionais, e ao mesmo tempo com um ideário de ideologia marcadamente nacionalista e xenófoba. 

Logo, no plano político-ideológico com dois eixos, em que no horizontal temos esquerda-direita, sendo a esquerda defensora de políticas com maior presença do estado e a direita defensora de maior soberania financeira dos cidadãos em questões fiscais e económicas; e no plano vertical o eixo que define a vertente conservadora-liberal, podemos, se quisermos ser rigorosos, dizer que Wilders ou Le Pen, são de centro ou mesmo de esquerda, mas com um visão mais conservadora da sociedade. Ou seja, lamento desiludir as pessoas de esquerda, mas ideologicamente falando, os extremistas xenófobos que temos visto ascender na Europa não são de extrema-direita, muitas vezes são de centro ou de extrema-esquerda, o que os distingue dos demais partidos, não é o eixo da esquerda-direita, mas o eixo do liberalismo-conservadorismo. Neste aspeto há claramente um denominador comum em todos estes movimentos, e esse denominador comum é o populismo. E o populismo consegue ser maximizado numa ideologia que busque o que há de mais populista em todo o espectro político. Assim, estes movimentos nacional-socialistas, tal como o seu original nazi, obtêm quer ideais da extrema-esquerda na noção de que o estado deve servir de garante social para todos os cidadãos nacionais independentemente das suas ações ou produtividade, quer ideais do nacionalismo xenófobo, protecionista e intolerante à diferença. É esta mescla populista e pouco racional, de maximizar junto das massas o populismo em todas as frentes ideológicas, que definiu o nacional-socialismo e que define estes movimentos antieuropeístas.

Do "machismo" gramatical da língua portuguesa


A morfologia do Português é patriarcal

Recentemente o Prof. de linguística João Veloso, antigo presidente da Associação Portuguesa de Linguística, no seu blogue, fez uma análise científica, refutando a ideia de que a língua portuguesa seja "machista" e "heteropatriarcal". Refere o académico que a concordância, no caso do Português em género e em número, é uma propriedade universal de todas as línguas, e que declinando as palavras, servem para categorizá-las todas num mesmo grupo, grupo esse cujos elementos partilham denominadores comuns. Dá o seguinte exemplo:

       O novo professor inglês de Matemática chegou ontem

Repare-se que estando "o professor" no masculino singular, ou seja, o substantivo; também o artigo definido "o", e os adjetivos "inglês" e "novo", concordam em género e número com a palavra "professor", sendo que normalmente nas línguas, é o género do substantivo quem dita o género das palavras ao qual estão associadas. Repare-se todavia, que apesar de a concordância poder existir em abstrato em todas as línguas do mundo, ela é, de facto, transparente no Inglês. Usando do próprio exemplo do académico, na língua inglesa ter-se-ia:

       The new English teacher of Math arrived yesterday

Não há informação nesta frase em Inglês, sobre o género das palavras, apenas sobre o número, e mesmo no número não há lugar a concordância porque em Inglês os adjetivos (e por norma os nomes) não declinam em função de género ou número. 

Já em Alemão, existem três géneros (der, die, das), o que evita em grande parte a denominada gramática "heteropatriarcal", visto que existe em acréscimo o género neutro. Obviamente que quando se trata de pessoas, a declinação existe também em género e em número, existindo também o facto de que, num grupo onde haja apenas um elemento do sexo masculino, a declinação do substantivo é a masculina. No caso da palavra cidadão, que deu tanto que falar devido à polémica lançada por um partido político que mencionava que a palavra cidadão era masculina, logo machista, e que por conseguinte se deveria mudar o cartão de cidadão para cartão de cidadania, temos em Alemão também as quatro variantes em função do género e do número:

       der Bürger | die Bürgerin  Pl.: die Bürger, die Bürgerinnen

Mas interessantemente, em Alemão, o artigo definido plural é único, não havendo no plural variação em função do género, sendo que é igual ao artigo definido feminino no singular, ou seja die. O mesmo fenómeno acontece para o pronome pessoal feminino singular, ou seja, sie, que é igual ao pronome pessoal no plural, que também é único e não depende do género, ou seja, sie. Isto é, para a "pluralidade", em Alemão, adotou-se o feminino e não o masculino.

Já no neerlandês, e nas línguas nórdicas germânicas, num processo evolutivo, o género feminino foi fundido com o género masculino criando um género "hermafrodita", tendo todavia permanecido nestas línguas, o género neutro. Assim, em neerlandês diz-se de vrouw e de man para "a mulher" e "o homem" respetivamente. Já, "a criança", tal como em Alemão das Kind, adota o género neutro, neste caso em neerlandês, het kind. Ou seja, apesar de no neerlandês e nas restantes línguas nórdicas germânicas haverem dois géneros, esses dois géneros não são de facto o masculino e o feminino, são um que resulta da fusão do masculino e do feminino, sendo que o outro é o neutro. Logo, diria que numa análise sintática mais objetiva, pode-se afirmar que de facto existe uma certa gramática "patriarcal" na língua portuguesa e restantes línguas neolatinas, visto que são línguas que têm apenas dois géneros, sendo que é o género masculino quem domina.

Ainda em relação à questão do termo "género gramatical", o académico refere que é apenas uma infelicidade taxonómica de um legado antigo indo-europeu e que deve ser abandonada. Parece-me todavia que o autor quis acima de tudo incutir no público uma visão politicamente correta e não discriminatória da língua Portuguesa. De facto, o género gramatical é um legado do proto-indo-europeu que não pode ser ignorado, como está patente na grande maioria das palavras que fazem referência a seres animados providos de género biológico, como em gato e gata, menino e menina, porco e porca, galo e galinha, cão e cadela, etc., sendo que, a grande percentagem das palavras em Português assinalam o género gramatical em função da letra [o] ou [a], sendo as palavras sofisma, problema, tribo ou planeta, apenas raras exceções. Em Português aliás, esse género estritamente morfológico é mais evidente devido à própria terminação da palavra com as letras [o] ou [a], que são mais determinantes para a definição do género gramatical, do que propriamente a atribuição zoomórfica ou antropomórfica de marcas animadas e humanas a entes inanimados ou não humanos, plasmados em tal palavra.

Uma análise psicanalítica à ortografia

Todavia, permiti-me, porque também me interesso muito pelo estudo da psicanálise, uma análise gráfica mais profunda sobre a questão psicanalítica da ortografia, mais concretamente com referência ao género. Na língua portuguesa, claramente que a letra [A], é a letra que marca maioritariamente o género feminino, sendo que a letra [O], marca o género masculino, sendo que estas duas vogais são usadas amiúde para assinalar o género de quase todas as palavras, declinando-as, independentemente das funções sintáticas de tais palavras. Mas se analisarmos graficamente com minúcia e detalhe, repararemos que a letra [A], do ponto de vista gráfico e psicanalítico, obedece a uma estrutura fálica, sendo assim masculinizada. Pelo contrário, a letra [O], por ser graficamente e constantemente curvilínea, obedece, não tendo qualquer protuberância fálica, do ponto de vista psicanalítico, a uma estrutura visual efeminada.

Assim, permiti-me a observação, mas de facto, numa análise estritamente morfológica, pode-se afirmar que a língua Portuguesa, assim como o Espanhol, é uma língua "heteropatriarcal". Todavia, numa análise mais psicanalítica (alguns diriam mais críptica), estas línguas são na realidade "matriarcais", pois concedem a virilidade máscula e fálica, tradicional e culturalmente associadas ao poder e autoridade, ao género feminino. Dito de uma forma mais plebeia e pouco rigorosa do ponto de vista científico, pode-se afirmar que a língua portuguesa, do ponto de vista exotérico (visto de fora) é uma língua marcadamente patriarcal, dada a sua semântica e morfologia, mas do ponto de vista esotérico (visto de dentro), pode-se afirmar, considerando a questão gráfica e do que se conhece da psicanálise, que a língua portuguesa é de facto matriarcal.

Entender os casos em Alemão (parte II) - o Hino do Brasil


Noutro texto havia explicado, de modo geral, o motivo da existência dos casos em Alemão. De forma sintética pode-se dizer, que em Alemão, tal como por exemplo no Latim, nas línguas Eslavas ou no Grego, os casos, fazendo uso de declinações, servem para assinalar a função sintática da palavra; isto é, se a dita palavra ou conjunto de palavras representam o sujeito, o complemente direto, complemente indireto, etc. Tal mecânica sintática, permite atribuir maior liberdade à posição das palavras, sem que o significado da oração se torne críptico. Embora em Português, a regra da posição das palavras seja menos restrita, fica por vezes complexo identificar numa determinada frase, a função sintática de cada uma das palavras, quando estas fogem à ordem a qual estamos habituados a ouvir.

Um caso que acho muito interessante refere-se à letra do hino do Brasil, mais particularmente às duas primeiras estrofes:
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heroico o brado retumbante
Faço uma pergunta ao caro leitor: consegue de forma imediata, identificar nos versos acima, o sujeito, o complemento direito e indireto? Caso todavia reordenemos as palavras para a posição mais comum que têm considerando as suas funções sintáticas, fica mais fácil a compreensão da oração:
As margens plácidas do Ipiranga ouviram 
o brado retumbante de um povo heroico 
É um clássico na Poesia, reordenar o sentido normal das palavras, sendo que a língua Portuguesa é muito flexível no que toca às regras para as posições das palavras, como se constata nos dois versos acima. Mas também é um facto que quando reordenamos uma frase em Português, tornamo-la por vezes críptica ou em certos casos quase impercetível. Ora vejamos um exemplo. Nas seguintes frases com o mesmo significado, quantas combinações sintáticas podemos estabelecer sem alterar o significado da oração. 
Posso recomendar-te uma boa bicicleta
Uma boa bicicleta posso recomendar-te
Recomendar-te posso uma boa bicicleta
Uma bicicleta boa recomendar-te posso
Em Alemão, pelo facto de se fazer uso de casos com declinações, as frases, mesmo reordenadas, ficam sempre claras. Não esquecer todavia que em Alemão, o verbo surge sempre na segunda posição.
Ich kann dir ein gutes Fahrrad empfehlen
Ich kann ein gutes Fahrrad dir empfehlen
Ein gutes Fahrrad kann ich dir empfehlen
Dir kann ich ein gutes Fahrrad empfehlen
Embora alguns dos exemplos acima sejam menos usados, estão gramaticalmente corretos e são claros não levantando ambiguidade. Os casos, tal como no Latim, têm assim a vantagem sintática, de permitir maior combinatória das diversas palavras numa determinada oração, sem perda inerente de clareza. No exemplo acima, o nominativo, ou seja, sujeito, é a palavra "eu" (Ich), o verbo é "poder recomendar" (empfehlen können), "a bicicleta" é o predicado, complemente ou objeto direto, estando assim no acusativo (das Fahrrad); sendo "tu" (dir), o complemente ou objeto indireto, estando logo no dativo.

Voltando ao exemplo inicial do Hino do Brasil, podemos assim referir que "as margens", sendo o sujeito, estariam no nominativo; "o brado retumbante" no acusativo; e quer o "Ipiranga", quer o povo heróico estariam no genitivo, pois fazem referência a posse, ou seja, possuem respetivamente "as margens" e "o brado retumbante". Assim, uma tradução possível para Alemão seria:
Die gelassene Ufer des Ipirangas hörten
den dröhnenden Schrei eines heroischen Volks
Considerando que grito em Alemão, tal como em Português, é uma palavra masculina (der Schrei), fica no caso acusativo den Schrei. Repare-se como em Ipiranga, adiciona-se a letra [s] no final, para se fornecer o caso genitivo, um pouco como em Inglês com o [s] seguido de apóstrofo; tendo eu assumido neste caso que Ipiranga seria uma palavra masculina, pois é um riacho (der Wasserlauf). Já no caso da palavra "povo" (das Volk), não basta adicionar o [s] no final, considerando que a palavra é antecedida do artigo indefinido "um" (ein), e como em Alemão a declinação faz-se, para cada caso, quer no artigo, quer no adjetivo (neste caso heroisch), quer no nome, fica então neste caso eines heroischen Volks. 

Recorde-se a parte I deste artigo onde apresento a tabela para as diferentes combinações para os artigos, adjetivos e nomes, em função de género, caso e número. Agora, havendo declinação para cada palavra, considerando a respetiva função sintática, pode-se então reordenar as palavras dos dois versos, sem perda de sentido, respeitando assim o espírito original da letra do Hino do Brasil.
Des Ipirangas hörten die gelassene Ufer
eines heroischen Volks den dröhnenden Schrei