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Do neoliberalismo e das bicicletas partilhadas


A propósito das bicicletas partilhadas levadas a cabo por uma empresa privada, que está impedida de operar por parte da autarquia de Lisboa, que também providencia um serviço "público" de bicicletas partilhadas, impera salientar que os porcos burocratas da edilidade de Lisboa estão a agir como uma matilha de comunistas raivosos, por verem que o seu fiasco de bicicletas partilhadas da EMEL, que nos custou a todos 20 milhões de euros, teria concorrência dos "estrangeiros capitalistas", num serviço mais barato para o utilizador esporádico e de borla para o contribuinte. Assim, a matilha vermelha que reina na Câmara Municipal de Lisboa agiu em conformidade, fazendo a necessária purga à iniciativa privada, com argumentos de bradar aos céus, pois as bicicletas estavam alegadamente "desreguladas". Não limpam o lixo das ruas, não multam os carros sobre os passeios, não desimpedem o espaço pedonal de todo o tipo de obstáculos, mas agem de forma expedita perante a bicicleta chinesa anárquica, porque estaciona algures junto a um poste da via pública. A mediocridade vermelha camarária não tem limites. Esta estória de mediocridade governativa, também releva a velha máxima, que para a corja de burocratas algures sentados numa secretária dos paços do concelho, mais vale haver massas fecais na via pública bem reguladas e autorizadas em conformidade pela administração, do que rosas, tulipas ou malmequeres anárquicos e neoliberais que brotam na via pública sem pedir a devida autorização à entidade correspondente. 

O espaço público em Lisboa, grosso modo, mete nojo tal a quantidade colossal de carros e respetiva poluição e ruído. Mas como estão “regulados”, nada a salientar por parte da edilidade avermelhada, cujo supremo interesse está em "regular e autorizar", para se fazerem sentir úteis no saque que fazem diariamente ao erário público. Já a bicicleta, que ocupa incomensuravelmente menos espaço, não polui, não faz ruído e não provoca um rombo na balança comercial, merece ser expurgada da república vermelha lisbonesa, porque o projeto "capitalista" ousou nascer sem requerer a devida autorização, a quem de direito, ao grande líder Medina. Esta pequena estória acentua, como verdadeiro ambientalista que sou, os meus mais temerosos receios. A esquerda é mais perigosa ao ambiente do que a direita. Não, a direita também não nutre qualquer apreço pelo ambiente, pois primeiro vem sempre o dinheiro, e só depois o planeta. Mas a esquerda é mais perigosa, porque o lobo mais perigoso, é o que se faz passar por ovelha. Outra perversidade, mais ímpia que a dos Bórgias, é a autarquia de Lisboa fazer cumulativamente o papel de regulador e de operador no mercado das bicicletas partilhadas. A autarquia opera o seu negócio através da EMEL, e cumulativamente impede um operador privado de operar. Fenómeno a relembrar os tempos áureos do estalinismo.

Ademais, ainda ninguém me explicou, porque raio há de o estado de fornecer bicicletas aos cidadãos? Então o tuga mediano tem dinheiro para comprar carros novos, e precisa porventura que o estado lhe alugue bicicletas, quando uma bicicleta custa 200 euros num qualquer supermercado? Na Holanda, o sonho molhado para qualquer ciclista, não há dessas benesses socialistas. Aliás, essas benesses socialistas não resolvem o problema de fundo porque ninguém vai passar a andar de bicicleta porque o estado lhe aluga uma, da mesma forma que o estado não aluga carros, e não é por isso que o país não está repleto deles. Os "xuxalistas", com a sua retórica "verde" de lançar dinheiro para tudo o que é problema, têm de facto destruído o ambiente e o planeta. O estado não tem restaurantes. O estado não tem lojas de roupa. Mas o estado precisa de alugar bicicletas? O que impede as pessoas de usarem a bicicleta é a insegurança e o excesso de lataria perigosa, poluidora, volumosa e ruidosa na via pública. O cidadão não precisa que o estado faça este tipo de incentivos idiotas e completamente desadequados. Assim, a EMEL, é a empresa mais insignificante e incompetente à face do planeta, porque providencia serviços de luxo aos cidadãos, num estado que nem sequer consegue proteger as pessoas de fogos. Porque raio não se foca o estado em tarefas essenciais, e nessas fá-las bem? Precisa o estado de fornecer estacionamento? Se o fornecesse, é para subsidiá-lo, porque o lusitano miserável da favela, no dia que se dirige à segurança social para requerer o Rendimento Social de Inserção, é o mesmo dia em que se dirige às instalações da EMEL, para pedir o dístico de residente para ocupar 12 metros quadrados de espaço público de borla 24 horas por dia, 365 dias por ano.

Com 29 milhões de euros que o foi o valor inicial de adjudicação, a 0,10€/km, temos 290 milhões de km. Divididos por 10 anos temos 29 milhões de km por ano. Considerando que cada ano tem 255 dias úteis, temos cerca de 110 mil km por dia útil. Considerando por hipótese que um ciclista, em média, pedala 5 km por dia (valor já mais alto que a média da UE), tínhamos dinheiro suficiente para pagar as viagens diárias de 22 mil ciclistas urbanos. Considerando que Lisboa tem uma população de meio milhão de habitantes, e que tem uma repartição modal alocada à bicicleta de 0,5% (Censos 2011) falamos de cerca de 2500 ciclistas por dia, de forma permanente, na cidade de Lisboa. Caso fossem 22 mil por dia, quase que multiplicava por 9, vindo a repartição modal da capital a ser 4,4% em vez de 0,5%. Ademais, Lisboa não tem as coisas mais basilares da mobilidade em bicicleta, como lugares de estacionamento em segurança, ou ciclovias seguras e bem desenhadas, que custariam várias centenas de vezes menos ao erário público; 20 milhões de euros, numa cidade sobre-endividada e com tantas carências sociais, é um valor astronómico e desumano; não é com este tipo de apoios, que as pessoas vêm para a rua pedalar, pois não resolvem o problema da segurança rodoviária no espaço público nem do fim da hegemonia automóvel; este tipo de apoios, reforça a ideia para a opinião pública, totalmente errada, que a bicicleta, ao contrário do automóvel, é apoiada pelo Estado; este tipo de medidas, não toca no essencial: retirar espaço e direitos ao automóvel; esta medida das bicicletas partilhadas é puro greenwashing da EMEL, acrónimo cujo M passou recentemente também a significar “Mobilidade” além de “Municipal”, ou seja EMMEL. Um coio de extorsionistas do erário público a bem da "mobilidade verde"; e eu, que não tenho carro e apenas ando de bicicleta, defeco neles com todas as minhas fezes.

Do neoliberalismo e da anarquia


Há muitas pessoas que se questionam constantemente, porque motivo os estados recentemente tiveram de proceder a diversos cortes de apoio social ou ou nos restantes itens do orçamento de estado. A forma mais fácil é atribuir o epíteto de neoliberal, a tais medidas ou a tais políticos, que tentam travar o aumento gradual da despesa pública. Parece-me, que com a evolução da língua e das diversas crises político-económicas, a palavra neoliberal, adotou a mesma terminologia pejorativa que a palavra anarquia recebeu no princípio do século XX.  Quando os primeiros movimentos anarquistas surgiram no princípio do precedente século, obtiveram, justamente no meu entender, algum apoio popular, porque de facto, havia uma enorme exploração dos trabalhadores e da restante classe operária. O patronato e o grande capital, ao depararem-se que a tomada de poder pelas massas descontroladas, poderia gerar o caos e a desordem, e porque esses grandes detentores dos meios de produção poderiam ficar sem as suas posses, lentamente, começaram a associar, através da respetiva propaganda, a palavra anarquia à ausência de regras ou a ausência de leis e ao consequente caos. 

A Anarquia funciona, mas com regras inteligentes

A anarquia não implica a ausência de regras, nem muito menos o caos, longe disso. Tenho para mim, que uma anarquia para funcionar, aliás, necessita de regras bem mais inteligentes e mais bem estruturadas, que um sistema político convencional. A palavra anarquia vem do Grego, e significa tão-somente sem líder, e em termos latos, é definida apenas como uma forma de governação, onde não haja um líder ou uma entidade governativa centralizada. Num caso extremo, advoga mesmo o fim do Estado, pois este representa o poder centralizado no seu auge. Mas há diversos sistemas anárquicos, principalmente nas comunidades da Internet, que funcionam perfeitamente e com resultados extremamente promissores. O caso da plataforma stackexchange, onde milhares de voluntários respondem a qualquer tema de forma gratuita; a Wikipédia; diversos fóruns da Internet; ou mesmo a divisa Bitcoin; são tudo formas e sistemas, onde não há um líder centralizado que define que direção deve tomar o grupo ou a comunidade. Mas não há ausência de regras, nem ausência de hierarquia. Longe disso, as regras estão muito bem definidas, e a hierarquia atinge-se por mérito, através de trabalho prestado à comunidade. Mas ao contrário de uma organização convencional, pública ou privada, não há nenhum líder (em Grego archos), nem nenhum conselho de administração, nem muito menos governo. As decisões são tomadas pela comunidade, através de meios eletrónicos. Aquilo que era quase impossível de fazer, devido a limitações técnicas, torna-se assim, hoje em dia, através de plataformas cibernéticas para o efeito, realizável. E os resultados são um sucesso.

A divisa Bitcoin é, por exemplo, um sucesso de um modelo anárquico. Sem um banco central que dite a quantidade de moeda que existe no mercado, e por conseguinte, sem um banco central que dite qual será a taxa de juro aplicada à referida divisa em cada ano, a Bitcoin tem regras muito bem definidas, sendo que para a obtenção desta divisa, é necessário "miná-la", através de processadores de sinal para o efeito. Mas à medida que a minagem é realizada, e que a obtenção de divisas aumenta, a complexidade da minagem também aumenta, como que para se obter o ouro de uma mina, fosse necessário escavar cada vez mais fundo. Ademais, as regras do Bitcoin ditam que há um limite físico, algures a ser alcançado no próximo século, para o número máximo de unidades em circulação. Assim como há um limite físico da quantidade de ouro que há no mundo, quer em circulação, quer por minar. Ao contrário do caos, esta divisa trouxe confiança e segurança para os seus detentores, porque não depende de uma organização como um banco central, que imprime moeda segundo critérios muitas vezes dúbios ou herméticos, considerando ademais que o padrão ouro para as divisas há muito que foi abandonado. Neste modelo anárquico de política monetária, um único Bitcoin vale neste momento que escrevo, cerca de 2700 euros. As regras anárquicas da divisa Bitcoin, inteligentemente, simulam um ativo raro existente na natureza, e o respetivo comportamento humano perante o mesmo. 

Outro exemplo de como a anarquia é um excelente modelo, quando as regras estão bem definidas, está na anteriormente referida, plataforma stackexchange. Nesta plataforma de perguntas e respostas, onde se abordam todos os temas, desde Matemática, Programação, Língua Portuguesa ou Aviação, há cerca de 500 mil utilizadores registados. Mas ao contrário do Facebook, cuja natureza da interação social, normalmente se resume ou a opinar de forma curta ou a observar frivolidades, e cujos servidores são detidos por uma empresa privada sediada nos estados unidos; na plataforma comunitária do stackexchange, os membros fazem perguntas de natureza relevante, e outros apresentam as respetivas respostas. As respostas são avaliadas pela comunidade e pelo consulente, e à medida que as respostas de um certo utilizador são apreciadas de forma positiva pelos demais utilizadores, este vai recebendo créditos, estabelecendo-se assim a hierarquia dentro da comunidade. Estes créditos não podem ser comparáveis ao dinheiro, porque os referidos créditos são pessoais e intransmissíveis, muito menos são vendáveis ou herdáveis. Para se atingir créditos, e por conseguinte, uma alta hierarquia, é preciso ser-se reconhecido, de forma gradual pela comunidade, através das respetivas contribuições. E mesmo as decisões de natureza macro, são sempre tomadas pela própria comunidade e não por uma entidade centralizada. Ou seja, este modelo anárquico funciona, porque há regras bem definidas, mas acima de tudo, inteligentes, que incentivam a contribuição construtiva do indivíduo para a comunidade, e acima de tudo, que premeiam de forma justa, objetiva e transparente, aqueles que mais contribuem para a comunidade.

Do neoliberalismo e da sua conotação pejorativa

Da mesma forma que há "medo" perante a anarquia, existe um "medo" generalizado perante o neoliberalismo. O medo, em Grego fobia, provém numa sociedade, quase sempre da ignorância. A título de exemplo, a deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua, num debate televisivo e a propósito da crise na Venezuela, referiu que a culpa da pobreza na América Latina e em África, estava no neoliberalismo. Apesar de, no meu entender, esta afirmação não fazer qualquer sentido, pois muitos dos problemas económico-sociais que afetam estes dois continentes são estruturais e endémicos, revela que o próprio termo político-ideológico está a tomar proporções de natureza pejorativa, associando-se o neoliberalismo a um regime ou modelo político, onde impera o caos, a ganância, os instintos selváticos dos indivíduos, a competição sem escrúpulos, e a incomensurável exploração dos mais pobres e dos mais fracos. Da mesma forma que a anarquia não significa caos ou falta de regras, o neoliberalismo não significa uma selva financeira. Mas o método da imposição do medo nas massas acéfalas, é o mesmo, ou seja, é associar qualquer ideologia ao caos e à desgraça. O neoliberalismo de facto, na sua génese, tentou ser a terceira via nos remotos anos 1930, para a dualidade que então vigorava entre o liberalismo clássico menos regrado do século XIX, e o intervencionismo estatal que se veio a concretizar em quase todos os países da Europa a partir dessa década de 1930, através do fascismo, nazismo e socialismo. O neoliberalismo procurou assim, estabelecer um modelo político, onde cada indivíduo tem a liberdade para estabelecer as relações de natureza económica que bem entender, com a mínima intervenção do estado, e obviamente, sempre dentro do quadro legal. Mas ao contrário do liberalismo oitocentista, o neoliberalismo estabelece entidades reguladoras, que servem exatamente para estabelecer regras sob as quais os intervenientes económicos devem atuar.

Um país com uma forte tradição neoliberal, onde o neoliberalismo funciona desde há várias décadas, é a Holanda. Na Holanda, não há SNS público e a saúde funciona apenas através de seguros privados, mas o estado assegura que quem não tem condições financeiras, possa ter um seguro de saúde. Na Holanda, não há juntas de freguesia ou instituição equivalente, obedecendo à premissa de "menos estado". Na Holanda, quem regula o trânsito, verifica multas de estacionamento ou limpa o espaço público, são empresas privadas com mandato público. As empresas de transporte público são geridas por entidades privadas, sob concurso público. Todos os carteiros, são profissionais liberais, ou seja, recebem por carta e usam a sua própria bicicleta para as entregas. Os holandeses têm uma legislação laboral muito mais liberal que a portuguesa, e até estranhamente no que concerne à idade, pois pode-se trabalhar a partir dos 14 anos de idade. Todavia, na Holanda o salário médio líquido mensal é cerca de 2150 euros, que compara com cerca de 850 euros para Portugal. Na Holanda, o salário mínimo é cerca de 1400 euros mensais. Estão em sétimo lugar no mundo no índice de desenvolvimento humano da ONU. Como pode então um país com uma forte tradição neoliberal ter um índice de desenvolvimento humano tão alto? De referir que o índice de desenvolvimento humano não mensura apenas a riqueza de um país, mas analisa também a sua distriuição social ou os níveis de escolaridade.

O neoliberalismo não advoga o fim do estado social

Há quem repetidamente associe o neoliberalismo ao fim e à decadência dos apoios sociais. Mas quem o refere, quer apenas incutir medo nas pessoas, da mesma forma que o patronato incutiu medo nas massas, quando associou a anarquia ao caos e à desordem. O neoliberalismo, de facto, promove a menor despesa pública através de medidas de contenção orçamental, ou através da atribuição a privados de tarefas que tradicionalmente estavam no domínio público. Mas muitas dessas medidas, na realidade, não têm uma génese em opções de natureza ideológica, mas de natureza pragmática. Os seguintes gráficos mostram, respetivamente; a coleta fiscal do estado português, total e por alguns impostos, ajustada às variações do PIB; e o número de pensionistas. Em relação ao primeiro gráfico, pode-se afirmar em termos latos, que se apresenta um bom indicador da carga fiscal que o estado aplica à economia, pois os valores estão ajustados à variação anual do PIB. No segundo gráfico, pode-se constatar claramente que o aumento da despesa pública provocada pela pressão que as pensões estabelecem no orçamento de estado, coloca além de um problema orçamental difícil de gerir, um problema de natureza democrática, pois os pensionistas tenderão a votar nos governantes que aumentem essa mesma despesa pública.

A laranja está a receita total do Estado desde 1980 a preços constantes,
ou seja, já ajustada à variação anual do PIB.
Fonte: PORDATA.

Em 1970, em plena época de expansão económica e com crescimentos acentuados,
havia cerca de 400 mil pensionistas. Em 2016, há cerca de 3,6 milhões, um aumento de 9 vezes.
Fonte: PORDATA.

As políticas neoliberais através da austeridade orçamental, na realidade, não tentaram reduzir o estado social em termos financeiros absolutos, na maioria dos casos, mais não fizeram que travar o crescimento acentuado que a despesa pública tem tido nas últimas décadas, tal como se pode constatar no primeiro gráfico.

Da terminologia

Os homens e as mulheres da Ciência não temem a terminologia nem lhe atribuem epítetos de cariz emocional, se esta for rigorosa. Anarquia, comunismo, teocracia ou neoliberalismo, são, em abstrato, teorias políticas que, em determinadas condições, podem surtir efeito positivo na comunidade. Ou, tal como advogada o otimista em Cândido de Voltaire, podem representar, em determinado local ou época, o melhor dos mundos possíveis. Acima de tudo há, no meu entender, que não aplicar no campo científico, terminologia de cariz pejorativa. A terminologia pejorativa, deve cingir-se ao meio coloquial e jamais ao meio académico. Para um académico, a terminologia deve ser rigorosa, científica e objetiva, e não permitir desvios linguísticos levados a cabo pela retórica emocional, pela demagogia ou pela propaganda.

Do modelo para o melhoramento da Democracia


Muito se tem escrito sobre os defeitos das democracias contemporâneas, e como estas aparentemente não conseguem cativar muito do eleitorado que se manifesta descontente com o regime político. Claramente, tendo em consideração os registos histórico-políticos, pode-se afirmar que o descontentamento da população perante a classe dirigente está sempre relacionado com questões de natureza económica que geram pobreza e desemprego, podendo ser acentuadas com aspetos adicionais de natureza relevante mas todavia com menor impacto, como migrações de povos culturalmente diferentes. Havendo bem-estar, pleno emprego e alto nível de vida, por norma os povos demonstram pouco descontentamento perante a classe política dirigente, independentemente dos regimes políticos em vigor. Os regimes democráticos tendem naturalmente a atenuar tais descontentamentos populares pois o sufrágio permite ao eleitorado fazer escolhas, mas muitas das escolhas que parte do eleitorado de facto prefere ver instaladas em momento de crise, são contrárias aos princípios constitucionais de um estado de direito, logo, o regime democrático não tende a resolver os problemas subjacentes a questões desta natureza. A democracia não pode tolerar que haja escolhas que sejam antidemocráticas, sob pena de o próprio regime democrático ficar posto em causa.

Todavia não mencionarei neste texto as questões de natureza económica, ou tantas outras, que provocam euforia consumista, bem-estar social ou pleno emprego; ou as suas antagónicas que por seu lado provocam pobreza e desemprego, e que são de facto os principais fatores para a insatisfação popular com o regime político e com as classes dirigentes; tentarei todavia neste texto apresentar, após reflexão, medidas que visem melhorar o regime democrático tornando-o mais imune a fenómenos que corroem o princípio da liberdade, da tolerância democrática, do pluralismo e do próprio estado de direito. No meu entender as graves falhas da democracia contemporânea representativa estão relacionadas, quer com uma visão extremamente ingénua, utópica e quase pueril do comportamento humano, quer por outro lado, com uma visão extremamente vil e maquiavélica por parte de algum setor das classes económica e política.

Julgo que as falhas conceptuais do regime democrático estão mais vinculadas ao paradigma inquestionável do modelo de sociedade ocidental, que achamos que, tal como o otimista no Cândido de Voltaire, é o melhor dos mundos possíveis. Nunca nos questionamos porque razão os fundadores da Democracia, os Gregos, não escolheram o modelo representativo, mas o direto, em que cada cidadão vota em cada decisão do executivo, mas em que cidadão é considerado apenas o homem livre maior de idade e natural da pólis. É certo que o modelo grego advém de uma visão elitista da sociedade em que apenas os melhores deviam decidir (aristo-cracia, ou seja, poder aos melhores), mas foi exatamente por terem essa visão pragmática de escolherem apenas os “melhores” e os naturais, que no meu entender, a democracia pôde ser instituída e funcionar normalmente. Todavia, mesmo no regime grego, hipoteticamente dirigido apenas pelos melhores, desde cedo surgiu nas assembleias a figura do demagogo, ou seja, o líder das massas, que num discurso carregado de pathos (emoção) e com pouco de logos (conhecimento), atraía as massas para decisões espontâneas e irracionais. Talvez devido ao argumentário que Aristóteles posteriormente plasmou nas suas obras e que de certa forma plasmava o ideário grego sobre a diferença de géneros, é que as mulheres não podiam votar. De acordo com Aristóteles as mulheres demovem-se exacerbadamente muito mais pela emoção do que pela razão, e embora a emoção popular tenha tido um papel importante para os diversos processos revolucionários que fizerem o Homem evoluir, são todavia demasiadamente prejudiciais no dia-a-dia das decisões dos poderes executivo e legislativo.

Os Romanos todavia adotaram um modelo democrático, que além do elitismo grego de apenas aceitarem homens livres e cidadãos naturais das províncias romanas, exigiram requisitos adicionais como o cumprimento do serviço militar. Em acréscimo, os Romanos entenderam que o peso de cada voto, deveria ser proporcional àquilo que cada cidadão contribui através da carga fiscal, tal como sucede hoje nas assembleias de votos dos acionistas de uma empresa. Quando muitos séculos mais tarde os Britânicos reinstauraram a democracia, fizeram-na de forma representativa, e aqui, surge no meu entender, uma das maiores hipocrisias dos tempos contemporâneos, pois os princípios subjacentes da democracia representativa, de facto, implicam que o eleitorado precisa de procuradores para os representarem nas diversas decisões executivas e legislativas.

As injustiças e insustentabilidades da Segurança Social


Há alguns deputados e membros da sociedade civil que têm recentemente mais uma vez alertado para a insustentabilidade da Segurança Social, considerando que o Orçamento de Estado de 2017 irá novamente transferir, desta vez 430 milhões de euros, dos impostos gerais para a Segurança Social (S.S.). Mas em Portugal o que é óbvio nunca colhe. Recordo que de acordo com a Lei de Bases da S.S., esta deve ser auto-sustentável, ou seja, o pagamento aos atuais pensionistas deve provir, em teoria, apenas das contribuições dos atuais trabalhadores e demais contribuidores. Mas não é o que acontece, pelo contrário o atual governo agrava essa insustentabilidade ao efetuar o aumento das pensões sem que haja crescimento do lado das contribuições.

Quando a S.S. foi criada havia 5 trabalhadores para um beneficiário, agora esse rácio chegou a 1,2, sendo este de longe o fator mais importante para a sustentabilidade da S.S., ou seja, a demografia, agravada no nosso caso pela emigração. E quem diz que a S.S. está assegurada nas próximas décadas está a ser muito falacioso, pois tal depende sempre do que os atuais contribuidores irão receber no futuro. Aliás, a própria OCDE já refere que 40% das contribuições para a S.S. dos atuais trabalhadores já devem ser consideradas apenas como "impostos" porque nunca os vão receber no futuro; tudo para que os atuais beneficiários recebam pensões que não refletem de todo aquilo que contribuíram.

Providencio vários exemplos de injustiças e de ardis que colocaram em causa a sustentabilidade da S.S. A ordem é meramente indicativa.

1 - Os ex-combatentes que durante o serviço militar em África nunca colocaram um cêntimo no sistema, têm esses anos considerados como descontos. Caso a zona tenha sido de conflito, os anos são considerados a dobrar. Uma medida populista de Paulo Portas, que satisfez assim as exigências dos ex-combatentes sem tocar no Orçamento de Estado.

2 - Os desempregados, que enquanto desempregados estão, além de já receberem da S.S., o tempo de desemprego é considerado como descontos. Há estimativas que referem que apenas nesta parcela, o défice imposto ao sistema, ronde mais de 5 mil milhões de euros por ano.

3 - Os funcionários públicos que a partir de 2005 estão inseridos na S.S. e não na Caixa Geral de Aposentações (CGA), mas em que o Estado não coloca no sistema as respetivas contribuições referentes a esses funcionários, o que qualquer entidade patronal é obrigada a fazer. Uma medida ardilosa de Sócrates para baixar o défice sem alarido social, que além de ter colocado em causa a própria sustentabilidade da CGA a curto prazo, colocou problemas de sustentabilidade na S.S. a longo prazo, pois dentro de décadas teremos em teoria, funcionários públicos que receberão uma pensão, sem que a sua entidade patronal, o Estado, tenha colocado um cêntimo no sistema referente a esses funcionários.

4 - Aos autarcas, deputados ou juizes e restantes elites de certos previligiados, um ano de descontos, conta como três, cinco ou mais, dependendo das regalias atribuídas a essas classes.

5 - A aquisição por parte do Estado de fundos de pensões aos privados (banca e CTT), apenas para obter receita imediata e para assim enganar o défice junto de Bruxelas, sem considerar que no futuro os encargos com pensões desses funcionários serão muito superiores ao dinheiro amealhado. Medidas levadas a cabo pelo governo de Durão Barroso com Manuela Ferreira Leite nas Finanças  (CTT) e pelo governo de Sócrates (banca). Ironia do destino que o Estado veio posteriormente a colocar na banca um valor muito superior àquele que amealhou com esta operação.

6 - Durante muitos anos, o valor da pensão não refletia toda a carreira contributiva, mas apenas os melhores 10 dos últimos 15 anos. Tal gerava situações de extrema injustiça, como funcionários em que nos últimos 10 anos o seu salário era empolado pelas chefias, ou mesmo empresários, que podem definir o seu próprio salário, que se aumentavam nos últimos 10 anos antes da pensão.

7 - E claro, como já foi mencionado, o fator mais importante, a demografia, agravada pelo benigno aumento da esperança média de vida dos pensionistas, e pela emigração em massa.

Independentemente das injustiças e ardis da classe política, a S.S. será sempre sustentável, mas tal dependerá sempre do que vierem a receber os futuros pensionistas com referência às suas contribuições. Se daqui a 50 anos a S.S. pagar ao prato de sopa, garanto aos prezados leitores que teremos uma S.S. sustentável por muitos séculos. A título de comparação, na Suécia há uma fórmula robusta e imune aos populismos da classe política, que a cada ano, em função dos indicadores económicos e demográficos, estabelece o valor das pensões e a idade de reforma. Na Noruega há um fundo de pensões que obtém receitas do setor petrolífero nacional, por sinal o maior fundo do mundo, com cerca de 750 mil milhões de euros, cerca de 4 vezes o PIB de Portugal, para pagar pensões num país com metade da população portuguesa.

Escutados os especialistas em cálculo atuarial, e as recomendações imediatas são óbvias. Independentemente dos aspetos macroeconómicos e demográficos que têm uma dinâmica muito lenta e cujas soluções são complexas, a S.S. deve funcionar como funcionam os regimes privados, mas obviamente de natureza pública e com uma vertente social e assistencial. Ou seja, cada contribuidor deve ter uma conta associada, como funcionam as contas poupanças ou os PPR, devendo ter conhecimento a cada instante qual o valor total amealhado e correspondente valor de pensão em função da idade de reforma. E obviamente, todo o tipo de regalias e ardis políticos, que beneficiam quem não coloca dinheiro no sistema, devem ser abolidos e removidos da legislação.

Em Portugal como é comum desde a Magna e Egrégia Fundação em 1143, vamos vivendo de expedientes pontuais. De facto, excetuando os Descobrimentos, cuja madeira para as caravelas e naus, consta, terá sido mandada plantar ainda por Afonso III no Pinhal de Leiria; para que uma campanha fosse bem sucedida alguns séculos depois, desconhecem-se em nove séculos de História demais projetos bem sucedidos de longo prazo, nesta ínclita nação dos Lusos.

Portugal e a União Europeia: 30 anos para desmistificar a eurofobia


Muito se tem falado se é positivo ou não para Portugal estar dentro da União Europeia (UE), principalmente nesta altura tão conturbada para este, quase secular, projeto europeu interestadual. Após a saída do Reino Unido, várias forças políticas de diversos países têm considerado efetuar referendos para deliberar se o eleitorado quer ou não a presença do respetivo país na União Europeia. Em Portugal, o primeiro partido a adiantar tal hipótese foi o Bloco de Esquerda. Considero que me parece óbvio, que falta à UE um sentido de pátria, tal como acontece noutros estados federados como os EUA, porque friamente falando, a cooperação de todos os estados-membros da UE tem sido deveras positiva para quase todos os seus membros, senão mesmo para todos, aplicando-se a velha máxima de que "o todo é maior do que a soma das partes"!

Por um lado a Alemanha e outros países economicamente mais pujantes, como o próprio Reino Unido, encontraram no mercado interno o passaporte perfeito sem taxas ou burocracias alfandegárias, para os seus produtos num mercado livre com 500 milhões de consumidores; e por outro lado, os países economicamente menos desenvolvidos como Portugal ou Grécia, têm recebido milhares de milhões em fundos estruturais exatamente para eliminar essas desigualdades estruturais, tornando por conseguinte a economia mais competitiva sem recurso à desvalorização cambial, que na prática significaria desvalorização salarial e perda de poder de compra para os cidadãos.

O euroceticismo tem tido todavia alguns adeptos em Portugal, como à esquerda, Pacheco Pereira ou Francisco Louçã, que encaram na UE a representação de um super-estado "neoliberal" controlado pelos interesses financeiros internacionais. O euroceticismo alargou-se também aos movimentos políticos da direita, que evocam amiúde a perda de soberania, como o poeta Pedro Mexia; mas também o descontrolo dos fluxos migratórios através das fronteiras. Todavia, permiti-me a ousadia, julgo que muitos dos processos populares que abordam os temas europeus estão a tomar contornos de fobia. A palavra fobia vem do Grego (phóbos, φόβος) e é monossémica na língua grega, significando tão-somente medo. O termo tem sido usado frequentemente nas outras línguas para definir mecanismos patológicos do foro psíquico como claustrofobia, mas também para definir qualquer processo irracional de aversão, quase sempre de forma inconsciente, provocado pelo sistema límbico, como xenofobia ou homofobia. 

Muitas das fobias baseiam-se no desconhecido. É o caso do medo do escuro, ou nictofobia, pois durante o Paleolítico os hominídeos arcaicos e os seus antepassados, vivendo em pequenas comunidades, quando pernoitavam na floresta, deveriam estar constantemente atentos contra quaisquer perigos que poderiam provir da escuridão. Considere-se que evolutivamente, a fobia é um mecanismo de defesa, para que o animal esteja pronto a atuar de forma imediata e célere, logo, instintiva. Acender uma luz, que ilumina o anteriormente desconhecido, normalmente é suficiente para sanar esta fobia. E o mais interessante é que esta fobia afeta essencialmente as crianças e muito pouco os adultos, e a razão é tão-somente porque os adultos têm uma estrutura cognitiva e racional bem mais desenvolvida que as crianças. Um adulto sabe, através da razão, que aquilo que não consegue ver, não é necessariamente perigoso, pois a razão dita-lhe que muito provavelmente naquele lugar desconhecido, estará algo expectável. Assim, um adulto efetua normalmente um juízo mental, algo que as crianças não desenvolveram plenamente.

Muitas das críticas que se fazem à UE, são exatamente pelo facto de a grande maioria das pessoas desconhecer na quase totalidade o funcionamento da UE, enquadrando-se no meu entender em uma fobia pelo desconhecido, desconhecido esse que tem poder sobre nós nos nossos quotidianos. A maioria dos cidadãos europeus desconhece as diferenças entre o Conselho Europeu, a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu, desconhecem por completo os tratados e os seus direitos enquanto cidadãos europeus, e desconhecem como funcionam os mecanismos decisórios dentro da UE. O desconhecimento, perante uma situação económica menos boa, leva invariavelmente em muitos casos à fobia, neste caso a uma marcadamente irracional eurofobia.

Todavia a Ciência, neste caso a ciência política, que deve estar presente em todos os processos democráticos pedagógicos e esclarecidos, baseia-se em factos e não em medos. Assim, analisemos vários indicadores estatísticos de Portugal entre 1986, ano em que Portugal entrou na União Europeia, e a atualidade. Todos os gráficos serão apresentados, aproximadamente, no intervalo de 30 anos, ou seja, entre 1986, data de adesão de Portugal à então CEE, e 2016.

Salários (adaptados às variações de preços ao consumidor)

Salário médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem: remuneração base e ganho - Portugal; desde 1986 até 2016. Valores adaptados para Índice de preços no consumidor.
Fontes de Dados: GEP/MSESS (até 2009) | GEE/ME (a partir de 2010) - Quadros de Pessoal; PORDATA

A segunda circular é tecnicamente uma autoestrada



Cruzamento da segunda circular com o eixo norte-sul, imagem do Google

Noticia o jornal Público, que a Câmara Municipal de Lisboa prevê efetuar obras de requalificação para a segunda circular, todavia o presidente da câmara apenas adianta expressões totalmente vagas e pouco claras sobre os detalhes do projeto, como por exemplo o objetivo de tornar a segunda circular "próxima do conceito de boulevard". Feita uma análise técnica mais detalhada, conclui-se que na realidade a segunda circular é, de facto e para efeitos técnicos, praticamente uma autoestrada. Não recebe a denominação de autoestrada por questões essencialmente políticas.

Analisemos então as características desta circular urbana, do ponto de vista estritamente técnico:
  • a segunda circular não tem semaforização nem qualquer tipo de interrupção, como passagens para peões, o que no meio de uma cidade é muito pouco urbano, 
  • tem duas faixas, uma em cada sentido, tendo cada faixa três vias de trânsito, 
  • tem ainda em algumas zonas vias laterais de emergência, 
  • tem separador central entre as duas faixas, ao longo de todo o seu trajeto, 
  • tem velocidades que não se enquadram dentro das velocidades que o Código da Estrada consagra para meios urbanos, 
  • tem em algumas zonas barreiras laterais para evitar o acesso a peões ou animais, 
  • tem raios de curvatura condicentes com o desenho de uma qualquer autoestrada,
  • tem interseções com outras vias rápidas, que se enquadram no desenho de uma autoestrada
  • tem estações de serviço nas suas laterais. 
Chamar de circular à segunda circular, é, por conseguinte, um eufemismo. Fica assim a nota à autarquia que caso os seus técnicos não alterem algumas destas características supra mencionadas e se limitem a colocar arvoredo no separador central para dar um requinte de boulevard, é uma medida, como muitas outras provenientes da autarquia, mais estética do que propriamente estrutural. Aliás, colocar arvoredo nos separadores centrais de vias rápidas urbanas ou no meio de grandes rotundas com elevado tráfego motorizado, é o exemplo clássico de greenwashing das sociedades com elevada dependência do automóvel.

Dívida pública de Portugal e da União Europeia


Dirão alguns sectários dos ideários da esquerda político-partidária que haverá, quem sabe, ainda margem de manobra para mais despesa pública e menos receita fiscal, todavia a margem de manobra orçamental é muito ténue, do ponto de vista das finanças públicas. Recordo que em 2000 a dívida pública portuguesa era cerca de 50% do PIB, uma das mais baixas da UE, e mesmo em 2003 não chegava a 60% do PIB, tal como consta nos respetivos dados do Eurostat. Tal permitiu que o partido socialista, nos seus dois governos, ou seja, durante os 6 anos e 3 meses dos XVII e XVIII Governos Constitucionais, entre março de 2005 e junho de 2011, pudesse adotar políticas definidas como expansionistas, pois em 2003 Portugal tinha uma dívida pública, comparativamente com a de hoje, muito mais baixa. 

Os sucessivos défices anuais, nos governos do partido socialista, foram sempre colmatados com o aumento substancial da dívida pública. No governo seguinte, os mesmos foram compensados com o aumento significativo da carga fiscal, essencialmente sobre os trabalhadores, através do IRS. Chegados a 2015, o país, do ponto de vista macro-orçamental, não tem mais margem de manobra, nem para aumento de impostos, nem para o aumento da dívida, sendo estas por natureza, as ferramentas tradicionais para colmatar défices públicos. As políticas públicas de crescimento económico pela via do consumo, estão, factualmente demonstradas que falharam, pois foi exatamente esse tipo de políticas que conduziu o partido socialista na sua última legislatura, sendo que o dinheiro que foi injetado na economia, não proveio do aumento de produção, mas tão-somente de dívida, quer privada, quer pública. Em acréscimo, Portugal já é o país da UE, que mais paga de juros de dívida pública, em percentagem do PIB, cerca de nove mil milhões de euros, parcela a qual muitos economistas definem, usando o eufemismo de serviço da dívida. Rogo por conseguinte aos eleitores, racionalidade e literacia numérica.

Dívida pública em percentagem do PIB em Portugal e na União Europeia,
de acordo com Sistema Europeu de Contas de 2010. Fonte: Eurostat

O nepotismo e a meritocracia em Portugal


O jornal Público publicou um excelente retrato do nepotismo e da meritocracia em Portugal. O artigo expõe o evidente, ou seja, que quase sempre nestas matérias colidem as relações amicais e familiares (que são de salutar) com as competências profissionais. Não creio que em países como Portugal, Espanha ou Itália haja menos meritocracia por questões meramente de competências ou falta delas. Creio que a razão prende-se essencialmente pelo facto de culturalmente, nestes países, as relações pessoais serem mais próximas e mais calorosas, tornando mais difícil a separação dos domínios pessoal e empresarial.

Todavia, de acordo com Ludwig, consultor brasileiro - e bem sabemos também como funcionam estas matérias no Brasil - uma das razões principais para a "cunha" está na falta de transparência nos processos, de seleção e posteriormente de ação, do colaborador. 

Jorge Nuno Pinto da Costa, conhecido por práticas de nepotismo, jamais colocaria o seu filho, caso este fosse coxo, como ponta-de-lança do Futebol Clube do Porto. Tal acontece porque existem cinquenta mil indivíduos a escrutinar o trabalho da equipa do clube, a cada partida. Se todavia, os adeptos e sócios dos clubes, apenas soubessem o resultado e posição da equipa, no final da temporada, e todas as partidas fossem à porta fechada e os resultados confidenciais, estou em crer que até pernetas existiriam a jogar na liga principal. A Administração Pública em Portugal é hermética, os cidadãos desinteressados e pouco exigentes, como consequência, o nepotismo é um fenómeno natural.

O blogue Má Despesa Pública, que faz uso frequente do portal Base criado pelo governo de José Sócrates, é um excelente exemplo de que a transparência nos processos, tornou a sociedade civil muito mais exigente e aumentou o escrutínio nos gastos dos organismos públicos, tornando-os mais eficientes e menos gastadores.

O embuste político chamado António Costa


António Costa promete praticamente o impossível:
mais salários e pensões e menos carga fiscal;
com o cumprimento do défice imposto pelo
Tratado Orçamental. Crescimento económico relevante
o país não tem há mais de 25 anos, quando tinha
moeda própria, metade da dívida de hoje
e controlava alfândegas.
Como é que alguém ainda acredita que o recente líder do PS e possível futuro primeiro-ministro trará algumas medidas positivas ao país com o seu putativo programa de governo? Falamos de alguém que teve uma carreira profissional como advogado e que desde cedo se juntou ao aparelho partidário do qual não saiu desde então; alguém que por certo não sabe fazer uma regra três simples, mas que já prometeu abertamente mais salários e pensões e descida da carga fiscal, ao mesmo tempo que referiu que cumpriria o Tratado Orçamental que nos impõe regras muito rígidas para o défice das contas públicas. O segredo estará no crescimento económico, aquilo que não existe em Portugal de forma estrutural há mais de 25 anos, altura em que a nossa dívida pública era metade da atual podendo-nos endividar como fizemos, quando tínhamos moeda própria podendo adotar políticas expansionistas e quando ainda controlávamos alfândegas podendo colocar entraves à importação de certos bens que afetam negativamente a nossa balança comercial. 

Prevejo três cenários possíveis caso António Costa seja primeiro-ministro. No primeiro cenário, prevejo que haja um milagre (sim, sou crente) e com o seu enorme "poder negocial" os credores facilitariam-nos bastante o pagamento da dívida, estando implícita a reestruturação da mesma. Dito de forma coloquial daríamos o calote aos credores com a mendicância de António Costa junto das instâncias europeias e internacionais. Como Francisco Louça muito bem explanou no seu espaço de comentário televisivo, é impossível dizer - como António Costa já disse - que Portugal deverá honrar totalmente os seus compromissos, e em simultâneo referir que se é apologista da reestruturação da dívida pública. São duas opiniões financeiramente antagónicas. No segundo cenário - como profetizado pelo Prof. João Ferreira do Amaral -  Portugal sairá do Euro, e assim António Costa enquanto primeiro-ministro pode indiretamente dar instruções ao Banco de Portugal para emitir moeda, tendo o Tesouro por conseguinte margem orçamental para aumentar ilusoriamente os rendimentos dos pensionistas e dos funcionários públicos, sendo que o futuro depois dirá como se comportará a inflação e a perda real de rendimentos dos portugueses. No terceiro cenário, e aquele que é mais provável, o país será dirigido por um Hollande luso, uma deceção eleitoral que passados seis meses de governação e depois de se deparar com a realidade das finanças públicas, fará exatamente o oposto das expetativas que fomentou, tendo de continuar com políticas de austeridade, defraudando todos aqueles que nele votaram. Nem sequer quero equacionar, o também possível cenário de Portugal necessitar novamente de um resgate internacional devido à sua recorrente indisciplina orçamental.

Entristece-me todavia que estes acontecimentos recentes demonstrem factualmente que a Matemática em Portugal nunca saiu da categoria de ciência oculta ou de pseudo-ciência. Um pouco mais de literacia numérica e maturidade democrática por parte dos eleitores, e nunca os políticos sofistas e mentirosos como Passos Coelho ou José Sócrates teriam chegado ao poder. Continuo a partilhar da mesma paixão de António Guterres, a Educação. Só com Educação nas matérias estruturais como o Português e a Matemática, mas acima de tudo a Cidadania, podemos evitar que as gerações vindouras se deixem enredar e ludibriar pelos sofismas e os ardis da classe política dirigente.

António Costa preconiza então politicamente, aquilo que Confúcio definiu como um homem inferior. Para Confúcio um homem superior era aquela que exigia muito de si e pouco dos outros; um homem inferior era o que exigia muito dos outros e pouco de si. Um putativo programa de governo, que nas questões estratégicas e na sua muito pouco provável aplicabilidade orçamental, está completamente dependente de entidades estrangeiras, revela a inferioridade nacional, que António Costa preconiza para uma pátria com 900 anos de história e que não precisou de crédito estrangeiro para dar rumo aos Descobrimentos.

Sou um homem de esquerda, que vota na direita!


O Estado social, não vive sem capital. As pensões e os salários não são pagas em géneros!

O título poderá parecer contraditório e o subtítulo uma evidência, mas convém que a esquerda portuguesa tenha-o bem ciente, quando discursa em público e pretende fazer alianças políticas. Sou um homem de esquerda e sempre o fui, pois defendo o Estado Social, pois acho que a culpa do estado do país é da banca e do sistema financeiro e não dos RSI; pois defendo que ninguém deve dormir na rua, pois defendi a construção de bairros sociais quando muitos diziam que o Estado não tinha que construir casas discriminando quem pagou por elas; defendo um sistema de saúde apenas público e gratuito, uma justiça sem taxas, defendo as grandes matérias de interesse público e de interesse pela res pública, e porque prefiro usar a minha criatividade e capacidade intelectual em projetos filantropos e enquanto voluntário em associações, do que a criar uma empresa visando o lucro. Porque tenho aversão ao grande capitalismo financeiro apátrida, ao marketing agressivo em que vivemos em que uma coca-cola é mil vezes mais publicitada que uma maçã, quando esta última é mil vezes mais saudável e benéfica; porque defendo o espaço público contra as diversas privatizações parciais e temporárias que as autarquias fazem, porque defendo uma taxa Tobin nas transações financeiras, porque sou favorável simplesmente à anulação dos contratos das PPP rodoviárias, resumindo, porque considero que o interesse das elites ou de corporações não deve sobrepor-se ao interesse público. É essa a essência ideológica da esquerda, é essa a essência do Marxismo, quando defendia que o povo, o proletariado devia ser saciado nos seus interesses, em detrimento dos interesses financeiros das elites e das corporações, ou seja da burguesia capitalista.

Todavia o que me distingue da "esquerda moderna", daquilo que apelido de esquerda sofista, perdoe-me o leitor a eventual arrogância, é que em vez de ter tido formação em jornalismo, sociologia ou advocacia; quis o destino que tivesse estudado matemática. Se o Marxismo obedece a uma dialética materialista, a esquerda moderna já a abandonou há muito tempo. O que move a esquerda contemporânea são apenas floreados, discursos apaixonados e vazios, exaltados e sem qualquer conteúdo válido. Basta ouvirmos falar Ricardo Araújo Pereira, Ana Drago ou Daniel Oliveira e facilmente reparamos que nunca se ouve um número vindo das suas bocas. Um número qualquer que seja. O indivíduo de esquerda a quem atribuo maior rigor intelectual nesta matéria é Francisco Louçã, e mesmo este por vezes desvia-se na sua argumentação das questões basilares das finanças públicas, das despesas do Estado com prestações sociais e salários. A esquerda moderna obtém o seu eleitorado, nos incautos e nos autistas, nos desprevenidos, nos lunáticos ideólogos e nos matematicamente iletrados. A esquerda moderna há muito que perdeu a sua dialética, a sua arte de raciocinar com método, como define o dicionário da língua portuguesa, ficando-se apenas por intenções sem qualquer pragmatismo contabilístico. 

A esquerda diz-se "anticapitalista", mas apenas pede aumentos de capital

Na realidade a esquerda moderna é uma adaptação torpe ao sistema capitalista. Quando o PCP defende sistematicamente as greves no sector dos transportes públicos, prejudicando seriamente a qualidade do serviço prestado aos utentes, está na realidade a defender o interesse de uma elite burguesa corporativista, em detrimento do interesse coletivo. O que move qualquer greve nos dias de hoje não é o interesse público, as condições laborais ou de segurança no trabalho ou mesmo benefícios sociais, como foi sempre a origem das greves desde finais do séc. XIX, é tão-somente as necessidades mensais de capital dos trabalhadores dessas empresas. A polícia e os enfermeiros protestam por mais subsídios (mais capital), os professores não querem ser avaliados (menos progressão, logo menos capital), os funcionários das empresas de transportes públicos querem mais subsídios noturnos e não querem cortes nas horas extraordinárias (capital) e os médicos querem trabalhar menos horas com o mesmo salário (mais capital). Trata-se apenas de uma questão de semântica, mas o que move qualquer ação sindical nos dias de hoje, é na realidade apenas e tão-só, o capital.

Os problemas que a Europa atravessa nos dias de hoje, não são na realidade ideológicos, são muito mais "materialistas". O Estado social para sobreviver nos dias de hoje, precisa de capital, de impostos e de crescimento económico. A não ser que haja uma revolução na Europa como a de Outubro de 1917 na Rússia; a esquerda como se encontra poucas alternativas tem ao panorama atual, que difundir discursos floreados sem qualquer conteúdo válido. As pensões e os salários não são pagas em géneros! A esquerda moderna tem uma aversão visceral à matemática; e nessa esquerda, enquanto homem de esquerda que sou, nunca votarei! Se analisarmos com minúcia as medidas parlamentares da esquerda, são todas no sentido do aumento do défice público; ou aumento de despesa (mais salários, pensões, benefícios), ou diminuição de receita (menos impostos). Nos últimos anos, todos os impostos e contribuições cobrados, cerca de 60 mil milhões, deram para pagar apenas salários e prestações sociais. E as PPP ou os swaps, foram exatamente as consequências dessa aversão aos números da esquerda PS; que para enganar as contas públicas do défice e da dívida, se envolveu nesses esquemas e contabilidade paralelos. A esquerda que é ideologicamente anticapitalista, contribuiu largamente para a quase bancarrota do Estado, com a pressão constante no aumento de salários e pensões, ou seja, capital; ainda para mais quando o país fazia esses pagamentos à custa de dívida pública, contraindo juros; juros esses que agora a mesma esquerda vem referir (e bem) que são agiotas.

Sou um homem de esquerda, e emito aqui um cheque eleitoral quase em branco. Quando um partido de esquerda, me apresentar números e medidas muito claras e objetivas, que visem contas públicas equilibradas, terá o meu voto. Até lá, voto na direita!

Estádios do Euro 2004. As catedrais do despesismo!


Vou ser objetivo. Um amigo meu dizia-me aquando do Euro 2004, que os portugueses estavam a ficar mais burros que os brasileiros, pois segundo o meu amigo, os brasileiros apesar da miséria, criminalidade e corrupção, só pensavam "em bola". Veio o Euro 2004, e depois quem foi à final? Grécia e Portugal! 

Os gregos levaram a taça, nós ficámos com os estádios! E a taça também não serviu de muito aos gregos, serviu? No Euro seguinte, em 2008, países como a Áustria e Suiça, por sinal dos mais ricos da Europa, acharam que não seria recomendável fazerem um Euro sozinhas cada uma, devido aos gastos financeiros em estádios, e fizeram-no em conjunto. O mesmo se passou em 2012 com a Ucrânia e Polónia. Mas ninguém se lembrou de dizer aos portugueses para fazer o Euro com os espanhóis, pois em Portugal ninguém gosta de partilhar; lembremo-nos como foi recebida a sugestão de João Soares de pôr o Benfica a partilhar o estádio com o Sporting, num estádio municipal de Lisboa, aliás prática já usada em cidades como Milão, onde joga o AC Milão e o Inter, ou Munique, onde joga o Munique 1860 e o Bayern Munique, cidades de países bem mais ricos que Portugal. Mas em Portugal é à grande! Agora paguem a crise! Como se diz em Portugal cada um tem o que merece, e será que a mesma premissa pode ser generalizada a um povo?

Adicionei, enquanto editor na wikipédia, estes tópicos a cada verbete dos estádios em apreço!

Estádio Algarve Faro/Loulé

Custo: 66 milhões de €
Manutenção: 10000€ por dia
Farense: III divisão
Louletano: II divisão B


[PPP Rodoviárias] Como é que a alcateia socretina, ainda ousa ladrar perante o estado da nação?


A carrocracia em deterimento dos outros meios de transporte, ativos ou não, paga-se caro, e muito caro. Tenho estado mais atento às questões das PPP rodoviárias e como estas são um arrombo nas finanças públicas que são pagas com fome, miséria, impostos e desemprego, enfim, austeridade.

As mais recentes notícias:

"O documento [da comissão parlamentar de inquérito] com 180 conclusões e mais de 500 páginas, entregue ontem aos deputados da comissão, conclui que "os encargos com as PPP rodoviárias são excessivos" e decorrem em parte de "decisão puramente política que se sobrepôs, à eficiência e à eficácia económica e da satisfação da necessidade pública dos projectos". As acusações e dúvidas levantadas em relação à actuação dos governos socialistas de José Sócrates são transversais a todo o relatório e a praticamente todos os contratos analisados,"
in: jornal Económco

"Um relatório confidencial entregue ao Governo de Sócrates no final do mandato e a que só o PS teve acesso; [dá a entender] "arranjinhos" entre o anterior Executivo e os consórcios vencedores das Parceiras Público-Privadas (PPP); "sonegação de informação" propositada; alertas para renegociações de contratos que podem resultar no "descalabro completo" ao nível dos encargos para o Estado." "[Na comissão parlamentar de inquérito o prof Manuel Avelino estimou] encargos na ordem dos 50 mil milhões de euros que o professor fez e que também o juiz jubilado do Tribunal de Contas, Carlos Moreno, ouvido na sexta-feira, apontou"

lá para 2050 estaremos todos assim


Imagem intercalada 1

A Escola Secundária Afonso Domingues é o espelho da anedota que é Portugal



Andei seis anos, desde o 7º ao 12º ano, na Escola Secundária Afonso Domingues, em Marvila. A dita escola era frequentada pelos filhos da bimbalhada rude, bárbara e iletrada, que vinha das zonas rurais do distrito de Viseu para as fábricas em Lisboa, e que morava no antigo Bairro Chinês, um dos maiores amontoados de barracas em Lisboa; mas também era frequentada pelos luso-africanos que moravam no bairro da zona J de Chelas, que povoaram aquela zona nos anos oitenta, vindos das ex-colónias. A pitada de sal, era dada pela comunidade cigana, que vivia em bairros sociais como os da antiga zona N e zona M de Chelas.

Mas a escola não foi sempre este "melting pot" genético-cultural! A escola foi fundada em 1884 e teve alunos famosos como o escritor prémio Nobel, José Saramago. Foi durante o Estado Novo, uma referência no ensino técnico e profissional, nas áreas da mecânica e eletricidade. Aliás, a fachada ainda guarda a insígnia de Escola Industrial. Eu, nessa escola, tirei o curso de eletrónica e eletricidade, que após o secundário finalizado, tive de forma imediata, direito à carteira oficial de eletricista, passada pela antiga Direção Geral de Energia.

Todavia, temos o país entregue aos animais, e aos abutres, e o planeamento neste país é zero. A estória recente desta escola espelha a anedota que é Portugal.
  1. A escola em 2009 levou obras substanciais de melhoria e requalificação, com rede sem fios, salas novas, fachada nova, etc.
  2. Ora passado um ano de obras onerosas descobrem que lá passará o TGV, assim sendo encerram a escola, para que seja demolida.
  3. Agora já não se faz TGV, por causa da crise, e a escola, está ao abandono dos vândalos e está praticamente destruída por dentro.
Digam lá se isto não é anedótico, vejam as fotos de como está agora!!!



Milhares de Milhões de € por minuto e meio!


Interessante, foi publicado há pouco tempo os Censos 2011, ora vejam isto:

Tempo Médio por Deslocação Pendular; Fonte: Censos 2011, INE

Em 10 anos com vários milhares de milhões de euros investidos em rodovia, em vias rápidas, estradas, autoestradas, com um aumento de 140% no parque automóvel para "melhorar" a mobilidade,  com um aumento brutal no número de pessoas que usa carro no dia-a-dia (mais rápido dizem elas) e melhorámos em tempo de deslocação pendular 1 minuto e meio!

Dá que pensar!

O delírio das autoestradas em Portugal


Portugal tinha à data de novembro de 2008 uma rede de 2860 km de autoestradas. Com o plano de novas concessões iniciado pelo governo de Sócrates, a rede iria crescer cerca de 50%, o correspondente a mais 1400 quilómetros de vias com perfil de autoestrada. Este número incluía cerca de 100 km das concessões lançadas pelo anterior Governo e adjudicadas nessa legislatura (Grande Lisboa e Douro Litoral), mas o grosso da expansão foi uma decisão do Executivo Sócrates. Totalizando o que já havia em 2008 com o que o governo Sócrates se proporia fazer, Portugal ficaria com uma rede 4290 km de autoestradas.

Todos os estudos e comparações o mostram: Portugal tem uma das maiores redes de autoestradas da União Europeia a 15, ao nível de quilómetros por habitante e por área. Esta realidade, foi apresentada num estudo de tráfego feito pela TIS a pedido da Brisa no final de 2008.

Quando comparamos Portugal com os outros países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) ou da Europa a 25, a conclusão é similar. Já em 2006, os dados mostravam que na UE a 25, Portugal tem uma média de autoestradas por rede viária de 2,3% muito acima dos 1,2% da média, e que é o terceiro valor mais elevado depois da Espanha e Luxemburgo. A União Europeia tem 13 km de autoestradas por 100 mil habitantes, quando Portugal tem 17 km. Por cá existem 20 km de autoestrada por 1000 km2 de área do país, enquanto que a média da UE são 15 km. Olhando para o universo da OCDE, Portugal foi o segundo país que desde 1990 até 2006 registou a maior expansão na rede. Mais significativo são os indicadores que relacionam a extensão da rede com a capacidade económica. Portugal em 2006 já era o segundo país com mais quilómetros (8,3 km) por mil milhões de dólares de PIB, apenas ultrapassado pelo Canadá.

Considerando que o dito estudo foi feito em 2006, e que desde então houve estagnação económica, considerando ainda que houve um crescimento de cerca de 50% na rede, pode constatar-se facilmente que Portugal, por certo, deve ser o país da Europa e do Mundo, com mais km de autoestradas por área, por habitante e por capacidade macroeconómica!

Depois não se queixem da austeridade!!!!

Fonte:
Diário de Notícias,  PORTUGAL É DOS PAÍSES COM MAIS AUTO-ESTRADAS NA EUROPA, Nov 2008, Ana Suspiro


O aborto urbanístico denominado ciclovia da Expo


Exmos. Senhores do Jornal do Parque das Nações

Venho por este meio, reportar a V. Exas. o estado lastimável e completamente inadequado da ciclovia principal do Parque das Nações, ao longo da Alameda dos Oceanos, entre a rotunda dos Vice-Reis e a rotunda inferior da Av. de Ulisses.

Esta ciclovia com cerca de um quilómetro e meio, é uma autêntica anedota urbanística, e um autêntico aborto em termos de mobilidade. Acreditem que não deverá existir nem um único velocipedista, que tenha conseguido percorrer de bicicleta este quilómetro e meio. Percorrer esta pseudociclovia é mais árduo e desgastante que percorrer o mais temeroso e irregular trilho de BTT. Os blocos do asfalto provocam um desgaste no ciclista e na bicicleta que tornam extremamente difícil percorrê-la.

Ando de bicicleta todos os dias, e faço deste meio de transporte o meu modus mobili; moro na zona de Braço de Prata e os meus pais moram na zona norte do Parque das Nações. Em tempos tentei percorrer um pouco esta ciclovia, mas confesso que mesmo apesar do enorme esforço que fiz, não consegui percorrer nem 50 metros. A irregularidade do asfalto, onde chega a haver blocos contíguos que distam em altura cerca de 3 cm, torna este percurso extremamente tortuoso. Os braços tremelicam fortemente, os pulsos estremecem e quanto mais força se faz para agarrar nos punhos da bicicleta mais árduo se torna o percurso, ficando o ciclista com as mãos completamente inchadas e avermelhadas devido à irregularidade do pavimento, mesmo que use o mais eficaz e protetor par de luvas.

A razão para tal idiotice urbanística prende-se essencialmente com a conversão que a Parque Expo, fez em tempos na Alameda dos Oceanos. Até há poucos anos, nesta alameda, estava completamente proibida a circulação automóvel. Mas como o poderio automóvel fala mais alto, a Parque Expo lá decidiu abrir esta via ao trânsito automóvel. Mas para ficar bem na fotografia, disse publicamente que em paralelo faria também duas ciclovias paralelas ao longo da Alameda dos Oceanos. Mas na prática, nada fez, limitou-se a colocar alguma sinalética vertical, e uns pequenos sinais no asfalto, criando este autêntico aborto em termos de mobilidade.

Eu rogo-vos: citem-me um único ciclista que tenha conseguido fazer este quilómetro e meio de pseudociclovia. Percebe-se muito facilmente que quem comanda os desígnios do Parque das Nações, por certo que anda bem montado no seu veículo motorizado e de ciclovias e de mobilidade suave, percebe muito pouco. Aliás basta atestar pelas etiquetas de metal colocadas na calçada à portuguesa que supostamente definem os trilhos onde se poderá andar de bicicleta no Parque das Nações. São trilhos que ninguém usa e ninguém respeita.

É lamentável, que nem numa zona nobre e planeada, como o Parque das Nações, se tenha dado o devido respeito à mobilidade suave. Fica o repto para que a gestão do Parque das Nações coloque um pavimento decente e apropriado para a ciclovia principal desta zona nobre da cidade.

Muito obrigado pela atenção prestada.

João Pimentel Ferreira

_______

missiva enviada ao Jornal do Parque das Nações,
à Associação de Moradores do Parque das Nações
e à gestão da Parque Expo



ATUALIZAÇÃO

O autor deste texto refere que criou uma ocorrência no portal da CML "A minha Rua" a que foi atribuído o número OCO/38867/2012 com o intuito de solucionar esta situação.

OCO/38867/2012 OCORRÊNCIA:
Manutenção ou falta de ciclovias
DESCRIÇÃO: Pede-se POR FAVOR para renovarem a pseudo-ciclovia da Alameda dos Oceanos. Como ciclista utilitário e NÃO de mero lazer, devo dizer que esta ciclovia em condições daria mesmo muito jeito a todos os moradores desta zona. Neste momento trata-se apenas de uma aberração ciclável, a que alguém teve a ousadia de chamar ciclovia.

Muito obrigado

Nova barragem do Foz Tua evitará o equivalente a meio ano de carros em Lisboa


Barragem convencional
As contas são simples e não são deveras difíceis. A nova barragem do Foz Tua, que entrará em serviço em 2015, e que se enquadra no plano nacional de barragens instituído pelo governo socialista de Sócrates, evitará que se emitam para a atmosfera o mesmo que emitem os carros na entrada e saída de Lisboa, durante meio ano.

As barragens, e particularmente esta, têm uma série de conhecidas desvantagens a nível ecológico pois destroem alguma biodiversidade que existe no caudal dos rios que é contínuo, substituindo-os por uma enorme albufeira normalmente mais pobre no que concerne à biodiversidade. As barragens também provocam a erosão costeira pois evitam que os detritos que vêm dos rios se acamem na orla costeira, pois impede-os de prosseguir o seu normal trajeto a jusante da barragem. Este plano nacional de barragens terá também, matematicamente falando, um ganho energético nulo, pois o que as barragens farão, essencialmente será utilizar a energia que as eólicas produzem durante a noite, para bombear a água a montante, para durante o dia utilizar essa água para a produção elétrica. Como este processo tem perdas e um rendimento total de cerca de 75%, e juntamente com o que as barragens produziriam por si só através das chuvas e do leito dos rios, a montante das mesmas, as barragens terão um ganho energético nulo.

Mas falar em ganho energético nulo, não é ser-se sério, pois o que na realidade as barragens farão, é funcionar como baterias gigantescas de eletricidade, zero-emissões e sem quaisquer químicos, que carregarão a energia eólica que é produzida durante a noite que até agora era desaproveitada ou enviada para Espanha a custo zero, e aproveitarão essa energia carregada durante a noite, para ser consumida durante o dia. Assim as barragens terão um papel fundamental no aproveitamento ecológico e energético do vento.

Neste sentido as barragens farão com que o país fique mais soberano energeticamente e ajudar-nos-ão a cumprir as metas de Quioto. Tudo isto tem um preço, como é evidente e será um grande negócio para as empresas hidroelétricas pois receberão do estado comparticipações tarifárias que já estão contratualizadas que fará com que a nossa eletricidade fique mais cara, tornando assim as despesas das famílias mais elevadas, e tornando a economia menos competitiva. As barragens, segundo tenho lido não trazem também um grande desenvolvimento das regiões onde se implantam, pois normalmente não empregam muitos trabalhadores, sendo que a autarquia recebe uma renda dos produtores, mas que segundo alguns, essa renda é irrisória. No entanto há casos concretos em que a albufeira da barragem é usada para turismo, como desportos recreativos de foro náutico, ou mesmo subaquático como mergulho e criam-se ainda também maiores zonas de praias fluviais. A água da albufeira das barragens também pode servir para a agricultura.

Remetendo-me agora à epígrafe da questão, como é que a barragem do Foz Tua evitará que se emitam o equivalente a meio ano de carros em Lisboa? As contas são simples: Lisboa tem uma média aproximada de 700 mil carros a entrar e sair diariamente do centro da cidade. A média de emissões de C02 no parque automóvel em Portugal é de cerca de 130g C02/km. Se consideramos um percurso médio de um carro a entrar em Lisboa de cerca de 15km para cada sentido, podemos concluir que:

700.000 carros/dia * 130 g C02/km/carro = 91 t C02/km/dia (total de carros em Lisboa)
91 t C02/km/dia * 2 * 15 km (in and out de Lx) = 2,73 kt C02/dia
A barragem do Foz Tua evitará, segundo um estudo da edp, que se emitam 470 kt C02/ano
470 kt C02 / 2,73 kt C02/dia = 172 dias, que é aproximadamente 6 meses = 1/2 ano

Os cálculos que aqui estão envolvem algumas aproximações, mas pode-se constatar claramente na ordem de grandeza das emissões que a barragem evitará. Considerando os prós e os contras, eu pessoalmente, só posso estar em favor do plano nacional de barragens, por questões de soberania energética do país, por questões económicas e também como foi demonstrado, por questões ambientais no que concerne às emissões de C02 que tanto desregulam o clima no planeta. Mas tal, creio que não impediria também, de uma forma muito mais assertiva, que apostássemos numa melhor eficiência energética, particularmente no campo dos transportes, apostando numa melhor rede de transportes públicos, na melhoria das condições para a mobilidade suave e num melhor planeamento urbanístico.

Quão suja e feia é Lisboa


Lisboa tresanda, está putrefacta e entregue aos moribundos. Quão feia é Lisboa, esta capital que não deveria sequer merecer o título de capital, deveria antes capitular perante incêndios e exércitos invasores. Qual capital de um império decadente, Lisboa encontra-se deveras putrefacta, mórbida, pestilenta, imunda, nauseabunda e com odores que repugnam o mais ilustre dos turistas. Lisboa é tão feia, tão repugnante, é um esgoto desta Europa que dejecta todas as suas imundices nesta ocidental praia suja lusitana.

E passo a explicar esta minha missiva de indignação. Os jardins públicos numa metrópole convencional são ocupados por crianças que se regozijam e brincam alegremente; por vezes sentam-se nos belos bancos de jardim de madeira e de ferro forjado os maravilhosos casais de enamorados; mas em Lisboa, os jardins são para os indigentes, para os moribundos, para os sem-abrigo e para os embriagados. O estado social não trata desta gente, e estes ociosos abundam nos jardins públicos depositando os seus nefastos dejectos fecais nos passeios e nas relvas onde brincam as crianças. Os animais que passeiam os cães, desrespeitosos com as questões de saúde pública não apreciam manipular os dejectos dos seus melhores amigos, sendo que a tão famigerada calçada à portuguesa é sempre bem agraciada com aquelas massas fecais disformes de cor acastanhada rodeadas por moscas nojentas e pestilentas. Os jardins da cidade, à excepção do Parque das Nações e de Belém, são um autêntico antro de indigentes, de moribundos, de fezes de animais domésticos, e de ociosos nauseabundos. Os jardins de Lisboa não são dos lisboetas. Quantos de vós lisboetas passearam ou se deleitaram com um bom momento de reflexão e de prazer num jardim público em Lisboa?

As casas são devolutas, estão podres e putrefactas, inabitadas ou entregues a senhorios que nada fazem para as recuperar pois auferem uns míseros euros por mês de rendas. Há outras que nem estão habitadas, nem entendo bem porquê, os prédios estão completamente a desfazer-se e podres por dentro, estando completamente abandonados, sendo até certo ponto um risco para os transeuntes. A culpa é dos malfeitores senhorios e proprietários sequiosos por dinheiro que só vendem o terreno por milhões de euros, e o prédio vai ficando assim, abandonado e devoluto. Um jovem casal da classe média que pretenda comprar casa, tem de recorrer aos subúrbios de Sintra, à Rinchoa, ao Cacém ou a Vila Franca, sendo sempre tão largamente anunciado por estes promotores imobiliários em cartazes, os princípios dos sentimentos paradisíacos e da felicidade em belas casas a apenas 45 minutos de Lisboa. Pois os jovens casais da classe média vão para a Rinchoa e para Santa Iria, e as casas do centro da cidade estão entregues a especuladores imobiliários ou então estão literalmente devolutas, inabitadas ou decadentes. Por que é que os ridículos governantes camarários não expropriam literalmente esses senhores, dando-lhes um preço ridículo pelo imóvel como castigo pela sua inobservância e falta de zelo pela coisa pública? Venha novamente entre nós um primeiro de Novembro de 1755 para revolucionar o sector imobiliário em Lisboa! Venha novamente um 25 de Agosto de 1988 para renovar o sector comercial e imobiliário no centro de Lisboa!

Lisboa é feia, é nauseabunda, é pestilenta, é desorganizada, é caótica e suja. Os carros invadem as artérias principais da cidade, e qual peste sonora e atmosférica, essas massas de ferro enlatado com motor penetram nas veias principais da metrópole e enchem-na com caos, desfiguração pitoresca, barulho, poluição, definhando e ocupando o seu espaço precioso. A empresa camarária de nome EMEL, nada faz limitando-se a mamar o erário pecuniário dos condutores para diminuir o tremendo défice camarário. No entanto continuam a abundar na cidade que viu partir as caravelas do Infante, os nefastos e funestos arrumadores de carros, quais ratos e baratas que se espezinham violenta e energicamente, mas que continuam a movimentar-se e a deambular pela cidade extorquindo os temerosos condutores.

A cidade é execrável, é hedionda, é horrível e é feia. As paredes das habitações, e todo o imobiliário público como quiosques ou paragens de autocarro estão repletas de grafitos nojentos, quais puros actos perpetrados por vândalos cosmopolitas. Nenhum dos grafitos que vejo em Lisboa é arte, são apenas rabiscos sem qualquer cariz artístico, apenas e tão-somente meros actos de vandalismo público. As paredes das habitações, as lojas, as paragens, os quiosques, as cabinas públicas, até os pequenos cilindros afunilados que servem de apoio à iluminação pública, são alvo de vandalismo pictórico por grafitos nojentos e sem sentido. É tudo desregrado e sem sentido. Lisboa é suja e nojenta. Onde está o “cheira bem cheira a Lisboa” eternizado pelo seu requintíssimo fado? A Mouraria está entregue aos carros e aos criminosos, Alfama está entregue aos indigentes, a Baixa aos turistas, o Bairro Alto aos embriagados, a Madragoa ao lixo público, a Lapa aos nobres aristocratas e o Restelo à prostituição. Resta apenas nesta Lisboa o nobre Parque das Nações, sempre jovial, belo, limpo, ordeiro, civilizado, eclético, comercial e cívico.

Lisboa é tão feia, é tão suja, caminhar pelos passeios de Lisboa é como caminhar por um campo minado de restos fecais de cães e dejectos de sem-abrigo. Os carros não respeitam os passeios e estacionam onde lhes apetece. Os monumentos estão degradados e sujos devido à poluição atmosférica causada pelo parque automóvel. As ciclovias são praticamente inexistentes, e acreditem que a morfologia da cidade permitiria que vários ciclistas caminhassem por Lisboa. Os carros trespassam passeios, invadem o espaço do peão, e passear a pé em Lisboa tornou-se praticamente caótico e desregulado. Todos os veículos ultrapassam em Lisboa a velocidade máxima permitida nas cidades pelo Código da Estrada. Quantos condutores lisboetas não ultrapassaram alguma vez os 50km/h em Lisboa? Merda, Lisboa tem em média 2,2 atropelamentos por dia, e tal deve-se apenas ao facto de esta ser estúpida e desrespeitosa perante os direitos dos seus peões.

Lisboa é criminosa, está cheia de indigentes, criminosos, travestis, proxenetas, prostitutas, moribundos e mendigos. Todas as portas das igrejas da cidade estão repletas de ratos mendicantes que anseiam sequiosos o seu quinhão para poderem adquirir o vinho e a droga que lhes saciará o vício. Todos os parques de estacionamento estão repletos de ratazanas arrumadoras de veículos de quatro rodas que extorquem dinheiro a troco de exactamente nada. Lisboa é tão homossexual; está repleta de bichas, maricas, panascas, larilas e vendedores ambulantes de panelas que ostentam tanta folia tão severamente fútil e frívola, Lisboa não passa de um antro de lésbicas homofóbicas. Lisboa é um dos centros mundiais da nefasta, vergonhosa, repugnante e nauseante homossexualidade. Concluindo, Lisboa não é mais do que uma bicha, suja, indigente, sem abrigo, que dejecta nos passeios e que se movimenta de automóvel. Lisboa não serve os cidadãos civilizados, Lisboa nunca deveria receber o título de pólis, é apenas um esgoto europeu para ratazanas asquerosas sem qualquer brio ou sentido de higiene pública.

É esta a cidade de Pessoa que viu partir as caravelas do Infante?

De Aveiro até à Guarda – É este o país que temos


Viagem entre Aveiro e Guarda por automóvel. Tempo:1h38m
Alguma comparação entre Portugal e a Arábia Saudita poderá parecer despropositada, mas demonstro-vos matematicamente que tal paralelismo não é assim tão descabido, pelo menos se nos referirmos do ponto de vista das infra-estruturas viárias. A Arábia Saudita, e esqueçamo-nos por agora das questões meramente religiosas e cinjamo-nos às questões de macroeconomia e de infra-estruturas nacionais, é um país com uma elevada produção petrolífera e de refinação dos derivados do petróleo, tendo este país historicamente relações diplomáticas e comerciais muito salutares com os súbditos dos generais do tio Samuel. Tendo uma indústria petrolífera tão forte, naturalmente a Arábia Saudita apostou fortemente em redes rodoviárias de transportes. A razão é simples, produzem petróleo, fazem estradas onde andam carros, camiões e autocarros, que consomem derivados do petróleo, e assim a economia saudita regenera-se através da indústria do petróleo, com os milhões de dólares de lucros gastos em palácios e mordomias para todos os cidadãos, mesmo que tal traga graves maleitas para a saúde pública ou para o ambiente a nível mundial. Assim se explica porque é que uma vasta rede ferroviária pelo deserto saudita é uma expressão de fantasia, sendo que no entanto as auto-estradas megalómanas rasgam os áridos desertos da península arábica em território saudita, tendo este pais uma rede de infra-estruturas rodoviárias inigualável.

Mas e Portugal, onde se encontra neste equilíbrio de forças económicas o nosso país? Portugal não tem recursos petrolíferos, todos os derivados do petróleo são importados e tem algumas refinarias, por exemplo em Sines. Portugal não tem indústria automóvel própria, e a única que tem e que balanceia positivamente em parte a nossa balança comercial com as exportações, leva a grande tranche dos louros para a Alemanha. Mas o que é que Portugal tem em abundância? Estradas! Muitas estradas e muito alcatrão! Os governos do pós-25-de-Abril foram os governos, no que concerne à obra pública, os governos do alcatrão. Mas estes senhores não entendem que foi uma aposta estratégica completamente errónea. Não temos petróleo, não temos carros, importamos os veículos que se movem nessas estradas e ainda para mais importamos o único combustível que permite que esses veículos se locomovam. Ao construirmos largas e vastas estradas tornámo-nos cada vez mais dependentes do exterior e assim definhámos a nossa economia. Os espanhóis podiam agora inundar o nosso mercado interno com produtos agrícolas e piscícolas.

E onde se enquadra esta minha humilde missiva pública no que concerne á sua epígrafe? Por onde começou este meu pseudo-artístico ofício bloguista, senão pelas duas capitais de distrito! Naturalmente pela viagem entre Aveiro e a Guarda que terei de realizar por motivos profissionais. Duas cidades capitais de distrito em Portugal, praticamente na mesma latitude, que distam cerca de 150 quilómetros. Pois meus caros leitores cibernautas, por automóvel na A25 a uma velocidade média de 100km/h as duas capitais de distrito fazem-se em cerca de uma hora e meia. Pois agora ouçam bem, pois estamos em Portugal, esta quase Arábia Saudita do sul da Europa sem recursos petrolíferos nem indústria automóvel própria, para fazer por comboio o percurso entre Aveiro e a Guarda o passageiro demora nada mais nada menos, do que cerca de três horas, ou seja o dobro do tempo.

Viagem entre Aveiro e Guarda pela CP. Tempo médio: 3 horas
Pergunto eu agora: Será que vale a pena investir tantos milhares de milhões na rede de alta velocidade quando a nossa rede ferroviária convencional, à excepção dos eixos principais, está putrefacta? Porque é que entre Aveiro e Guarda, de comboio se demora precisamente o dobro do tempo que se faz de automóvel, quando sabemos que a nossa dependência energética é muito mais patológica no caso do automóvel que no caso do comboio, sendo que a rede ferroviária consome essencialmente energia eléctrica que felizmente nós produzimos, onde agora até as bem-vindas, ecológicas e produtivas fontes de energia renovável dão um largo contributo?

Pois meus caros concidadãos que me auscultam; por uma questão de soberania e independência energética, este é o momento para os nossos governantes fazerem uma aposta séria e comprometedora na ferrovia nacional!

Nota: Ver a história da linha da Beira Alta