A greve nos transportes públicos


Hoje, feriado, dia 15 de agosto de 2012, sucede-se mais uma greve no setor dos transportes públicos. Como eu há muito tempo, optei pela mobilidade sustentável, e decidi vender o carro, desloco-me somente de transportes públicos e de bicicleta. Compro o passe todos os meses, e combinado com a bicicleta, permite-me uma mobilidade na cidade, infinitamente superior à do carro, e infinitamente mais barata que este. Todavia, há uma questão que me deixa exacerbado, já lá vão alguns anos: a inexorável ideologia sindicalista deste setor, que acha que prejudicando constantemente a vida aos utentes, levará as suas reivindicações egocentristas avante.

Há aqui um fator que é necessário considerar no meu entender. Obviamente que os Transportes Públicos (TP) têm de ser financiados pelo erário público, isso nunca esteve em causa. Os TP não dão nem nunca deram lucro em nenhum país, dada a sua vertente de utilidade pública, mas também não se lhes pode sugar o que se aprouver, só porque estão sob a égide do Estado. As empresas de TP tem um passivo acumulado de 17 mil milhões de Euros. Aliás, a maior fatia corrente da despesa destas empresas são os juros. A dívida foi criada para melhorar as infraestruturas dos transportes públicos nacionais, e houveram melhorias: o Metro de Lisboa expandiu-se bastante, o Metro do Porto foi criado e tem uma rede vastíssima, oferecendo serviço de qualidade e por exemplo foi renovada a linha ferroviária para Évora, e tudo isto foi feito à custa de dívida cujos juros agora são astronómicos e que já superam mesmo a vertente salarial. 

Todavia, o que me indigna agora, é ver trabalhadores de empresas tecnicamente falidas, que são financiadas com o dinheiro dos contribuintes (e muito bem no meu entender), com um nível académico médio (um maquinista tem o equivalente ao 12º ano), que chegam a auferir 50.000€/ano (média em PT é 12000€/ano, i.e. +310% que a média nacional), que conduzem a máquina entre 3 a 4 horas por dia, que chegam a ter 30 dias úteis de férias (normal é 22), que têm emprego garantido (a taxa de desemprego já vai nos 15%), a fazerem greves constantemente, prejudicando a vida aos utentes (eu sou um deles) e a porem em causa junto dos cidadãos e do público em geral o bom nome das empresas. É verdade meus caros, dou-vos um exemplo prático: tenho uma amiga estrangeira, que depois de muito procurar encontrou o seu primeiro emprego como estagiária em Lisboa. Ela morava nos arredores e apanhava o Metro para ir para o trabalho. Ora, ela dizia-me, que vai na volta, o Metro fazia tantas greves que ela já nem sabia se quando saía de casa iria ter transporte. Ela ganhava 600€/mês, 1/5 do salário de um maquinista. Como ela é responsável a nível profissional e não queria faltar; veja-se bem: passou a levar o carro, pois não queria estar sujeita a "imprevistos" na mobilidade. Mesmo ontem, 14 de agosto, fiquei eu apeado em Santa Apolónia ao fim do dia, devido à greve. Bem, eu safei-me porque não moro muito longe e fui de bicicleta, mas não imaginam a quantidade de gente, muito humilde, trabalhadores de classes mais baixas, que moram bem longe de Lisboa nos subúrbios; que sinceramente não sei como é que chegaram a casa. Tiveram provavelmente de gastar 50€ num táxi, e para quem aufere apenas 485€/mês é um encargo muito elevado em mobilidade para apenas um dia. Estas situações só criam no público a sensação geral que os transportes públicos são maus e que prestam um péssimo serviço. Alías, veja-se o paradoxo ideológico-temporal, os maquinistas representam hoje aquilo a que Marx tão fortemente criticava e que considerava que estava no cerne do mal estar social e das desigualdades: a burguesia. Perdoem-me mas alguém que aufere mais de sete vezes o salário mínimo só pode mesmo ser burguês.

Por que é que os funcionários da CP, como forma de luta, não fazem greve de zelo na cobrança dos bilhetes? Pressionam a administração da empresa, mas não prejudicam os utentes! (se é que alguma vez os sindicatos da CP se preocuparam com os utentes! Não os vi a fazerem greve quando os títulos aumentaram 15%)

E estes trabalhadores neoburgueses destas empresas, não estão preocupados com o bom nome da empresa, nem com a sua sustentabilidade financeira, nem com a mobilidade sustentável ou racional, nem muito menos com o ambiente, eles fazem greve, porque o governo lhes corta nas regalias, num país que se sabe estar financeiramente doente. Eles fazem greve em protesto contra a aprovação do novo Código do Trabalho, que cortará parcialmente o que lhes é pago em horas extraordinárias.  Ora, foi exatamente devido às condições financeiramente menos sãs do país e destas empresas, que levou o governo a encerrar linhas ferroviárias ao longo destes últimos anos e que obrigou o ministro da tutela, a aumentar brutalmente os títulos de transporte público.

Há uma opção política e estratégica errada em relação aos transportes públicos e à mobilidade em Portugal? Há, claramente. Basta vermos que no nosso índice de quilómetros de autoestradas por quilómetros de ferrovia, Portugal aparece em terceiro lugar na Europa a 27. Todavia, exige-se mais sentido de estado e maior responsabilidade aos trabalhadores destas empresas que prestam um serviço público vital para o bom funcionamento das urbes e do país. E se fossem menos egoístas, considerando os seus ordenados faraónicas, pensavam duas vezes antes de prejudicar a vida, a quem ganha o salário mínimo nas limpezas ou atrás de um balcão.

Atualização

No Relatório & Contas da CP 2011 na Demonstração Individual (pág. 109) constata-se que as despesas com pessoal rondam os 122 Milhões de Euros. Estas representam 36% das despesas correntes antes de justo valor, depreciações, gastos de financiamento e impostos. A fatia dos juros ronda os 165 Milhões de Euros. Considerando todas as despesas correntes da CP, as despesas com pessoal representam cerca de 20% ou seja 1/5. Se pensarmos que se trata de uma empresa com um passivo enorme, cujos encargos com juros são gigantescos, uma empresa com maquinaria pesada e com bastantes infraestruturas, 20% de toda a despesa em salários ainda é bastante. 

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