Liberalismo para o Verão


Comparemos objetivamente os dois sistemas,
o português e o grego, no que concerne ao modelo
de regulação e emprego dos nadadores-salvadores
Nesta época estival falo-vos de algo positivo, verdadeiramente neoliberal, que temos em Portugal e ao qual não damos o devido valor, pois o ser humano tende a desvalorizar o que tem de bom e adquirido. Falo-vos da profissão de nadador-salvador, os quais prestam um excelente serviço todos os verões, e nos quais a participação do estado é mínima ou residual e cinge-se à mera atividade regulatória e legislativa. 

Portugal neoliberal

No caso português, verdadeiramente neoliberal, caso um indivíduo queira ser nadador-salvador terá de passar com sucesso um curso regulado pelo Instituto de Socorros a Náufrago e organizado por Escolas de Formação de Nadadores-Salvadores Profissionais (entidades privadas). Aliás, desde 2016 o sistema ficou ainda mais neoliberal, pois desde essa altura que os cursos de nadador-salvador passaram a ser efetuados pelas Escolas de Formação de Nadadores-Salvadores Profissionais, deixando o Instituto de Socorros a Náufragos, através da Escola da Autoridade Marítima, de os efetuar. A validade de cada um dos módulos é de cinco anos, após os quais o nadador-salvador terá de os repetir. Os nadadores-salvadores terão depois de procurar trabalho no respetivo mercado, onde o estado não é empregador. A lei obriga a que cada concessionário de praia, bar, restaurante ou similar, seja obrigado a contratar um nadador-salvador para a praia respetiva, sendo o respetivo salário apenas definido pela leia da oferta e da procura. Apesar do salário não estar regulado, ronda em média, cerca de mil euros mensais, um valor bem superior ao salário médio nacional. Também não há limite nem numeros clausus (como nos táxis) para o número de nadadores-salvadores, qualquer cidadão que cumpra os requisitos e passe nos respetivos exames, pode ser nadador-salvador, ou seja, estamos perante um verdadeiro sistema meritocrático e de igualdade de oportunidades. Temos presente em Portugal, pois, um modelo típico neoliberal, onde a intervenção do estado é de mero regulador e legislador. O estado não é entidade patronal nem sequer é a entidade lectiva para o respetivo curso ou aquela que executa os exames de aptidão. É um mero regulador e legislador, nada mais. E perante uma matéria tão crítica como a vida dos náufragos e dos utentes das praias do país, o sistema neoliberal tem funcionado excelentemente desde há décadas.

Grécia socialista

Mas Portugal poderia ter escolhido outro modelo, não tinha que ter escolhido o modelo neoliberal. Estive na Grécia há cerca de quatro anos, mais precisamente em Creta, e presenciei na primeira pessoa o modelo socialista do nadador-salvador aí vigente. O que vos contarei poderá parecer anedótico, mas presenciei-o na primeira pessoa e garanto-vos que é totalmente verídico. Fui a uma praia grega algures nos subúrbios de Retmino e comecei a procurar espaço para a toalha, zona que estava repleta de lixo. Comecei de seguida a recolher o lixo para ter alguma salubridade envolvente, e de repente, um indivíduo calvo na zona central do escalpe e bastante cabeludo nas zonas laterais, com um cabelo grisalho e com cerca de sessenta anos, com uma enorme protuberância abdominal, em tronco nu e de calções vermelhos, aproxima-se de mim e refere-me num inglês torpe para não me preocupar porque a sua esposa seria a responsável pela limpeza da praia, apontando de seguida para uma senhora de certa idade algures sentada num banco de campismo e acompanhada de um pequeno caniche. No instante em que o indivíduo aponta para a sexagenária, a sua alegada esposa responsável pela limpeza do local, o referido canídeo está a defecar na areia, fezes as quais cobre posteriormente fazendo uso das patas posteriores. A senhora em vez de repreender o animal, acaricia-o no lombo, talvez por este ter tapado os seus dejectos fecais prontamente.

Apercebi-me mais tarde que o referido sexagenário, cabeludo, com uma enorme protuberância adnominal, em tronco nu e de calções vermelhos, era o nadador-salvador da praia onde me encontrava. Era pois, naturalmente, funcionário público. A sua respeitosa esposa, também ela funcionária pública, era a responsável pela limpeza da praia. Estavam os dois sentados cada um, por norma, num banco de campismo numa posição "estratégica", isto é, no ponto mais longe de água, logo ao início da areia. O que vale aos banhistas é que o Mediterrâneo é um mar tranquilo pois este senhor jamais conseguiria resgatar alguém. Este nadador-salvador terá com certeza passado com sucesso no respetivo exame de aptidão quando tinha dezoito anos, altura, por certo, em que entrou definitivamente para os quadros do estado. Considerando que, certamente, era um funcionário público com vínculo efetivo ao estado, por lá foi ficando independentemente de quaisquer circunstâncias, desde a idade, preparação física ou protuberância do abdómen. Desde então nunca mais terá feito qualquer exame ou teste, e na Grécia, tal como em Portugal, é praticamente impossível despedir um funcionário público.

Conclusão

Numa matéria tão crítica como a vida dos náufragos, Portugal fez a escolha acertada e correta que se tem revelado deveras positiva para todos: o modelo neoliberal. Imaginemos que Portugal teria escolhido há décadas a versão socialista adotada na Grécia, e que, algum governo posteriormente quisesse adotar o modelo neoliberal hoje vigente. Imediatamente ouviríamos da esquerda vozes de protesto, referindo, a título de exemplo, "que o direito ao trabalho é um direito constitucional e que não se podem descartar as pessoas", ou que "o estado não pode entregar aos interesses privados e do lucro a vida dos banhistas". Agora tentem aplicar esta dicotomia à educação ou à saúde, e vede que Portugal adotou o modelo socialista enquanto que a Holanda, por exemplo, adotou o modelo liberal.

Governo de padeiros


O caso mais recente da "barracada" socialista no que concerne à encomenda de golas inflamáveis para proteção das populações, é o resultado de termos abandonado de vez a tecnocracia (poder aos técnicos) e termos entregado o país à escumalha mais inútil e incompetente, cuja única característica é ter o sangue dos membros sediados no largo do rato, e para quem a única exigência na política se resume à retórica, ao marketing junto da comunicação social e à arte de encantar corações. Basta ver a purga que o PS fez na Proteção Civil colocando gente sua formada em desporto e história a comandar operações de combate aos fogos e como isso se pagou muito caro com vidas humanas. O aldrabão-mor Costa preferiu, numa matéria tão crítica como a proteção de vidas humanas, a lealdade à competência; preferiu conter as fugas de informação para a comunicação social a conter os fogos. Se exigimos mil e um requisitos técnicos a um piloto de aviação civil, a um médico ou até um electricista, porque raio nos deixamos governar por esta escumalha incompetente e analfabeta funcional? Da próxima vez que o ministro Cabrita tiver de ser operado às cataratas, talvez não seja má ideia que o cirurgião seja um irmão socialista licenciado unicamente em Direito; e no próximo voo que Carlos César efetuar até aos Açores, recomenda-se também que o critério principal para escolher o comandante da aeronave sejam os laços de consanguinidade com o líder socialista.

Este é o motivo principal pelo qual Sócrates, o Ateniense e não o Beirão, nunca acreditou na Democracia. Na República, Volume VI, através da pena de Platão, Sócrates dá o exemplo do navio que passa pela tempestade: deverá o comandante ser eleito pelos marinheiros e tripulação ou ser aquele com maior competência para pilotar o navio? No caso do modelo democrático, além de se perder tempo na escolha do melhor piloto para a embarcação que atravessa a tempestade, teríamos, de acordo com Sócrates, um debate técnico em torno de matérias tão complexas como a navegação marítima, a qual a tripulação pouco ou nada compreende, deixando-se levar unicamente pela pathos (emoção) discursiva. Sócrates ainda nos dá o exemplo da escolha entre dois candidatos, onde um seria um vendedor de doçarias, enquanto o outro seria um técnico que mais não faria do que explicar detalhadamente como funciona determinado processo, ou seja, o primeiro encantava a audiência qual publicitário enquanto o segundo com o seu discurso complexo e elaborado diria a verdade, independentemente do sentimento da audiência. O primeiro seria naturalmente o escolhido. Hoje em dia nas mais variadas tarefas da nossa vida, não escolhemos o modelo democrático. O piloto do avião que nos leva a casa não é o eleito pelos passageiros, mas o que é competente; o médico que nos opera não é o eleito pelos doentes, mas o que está inscrito na ordem dos médicos e os engenheiros civis que fazem os cálculos para as habitações, não são os eleitos pelos residentes, mas aqueles que têm um curso superior na respetiva área. Há apenas um domínio onde a competência do indivíduo é completamente desprezada: a gestão de um país. Infelizmente, Sócrates, o Ateniense, parece que tinha razão.

O eixo do mal, do PS, dos dois pesos e das duas medidas


Estas alforrecas intelectuais, exceção feita ao membro do sexo
feminino, apesar da aparência de Homo Sapiens,
não fazem parte do filo dos cordados.
Nem sei porque ainda perco o meu precioso tempo a ver televisão portuguesa com tanto programa bom que abunda no acervo da "web", contudo, porque não quero olvidar a minha madre língua, escuto da televisão portuguesa alguns programas, entre os quais o denominado "eixo do mal", com Daniel Oliveira, Pedro Lopes, Clara Ferreira Alves e Luís Nunes. A tendência para serem todos, repita-se todos, o "moderador" e mais os seus comentários parcimoniosos inclusive, pró-PS e pró-Costa é tão gritante, que é não preciso recuar muito tempo para ouvir o que estas sumidades disseram a propósito do facto de Antonio Costa ter ido ao programa da Cristina Ferreira no dia de Carnaval para cozinhar uma cataplana, e contrastar o mesmo discurso com o facto de Assunção Cristas ter colocado recentemente a votação o seu estilo de penteado. 

O que os prejudica, para não usar um termo do vernáculo com quatro letras e iniciado com a mesma letra inicial da sagrada palavra Fátima, é que a televisão para a qual trabalham tem um magnífico acervo, e basta para tal recuar ao dia 8 de março do presente ano, para analisar na altura o que dizia, a título de exemplo, Daniel Oliveira sobre esta moda de os políticos quererem estar mais junto das pessoas. A partir do minuto 14 do referido programa e a propósito do facto de António Costa ter ido cozinhar uma cataplana à "casa" da Cristina Ferreira, diz Daniel Oliveira ipsis verbis:
"É evidente que isto não é populista, quanto muito é, o termo que um snob diria, popularucho (...) mas política sem manipulação emocional nunca foi inventada, mas isto está completamente dentro dos limites, eu não gosto da exibição da vida privada, não gosto da minha e prefiro políticos que não o façam (...) eu não tenho nenhum julgamento moral sobre esse assunto, é uma escolha que as pessoas fazem e depois têm de saber viver com isso. (...) Há de facto uma diferença entre ser populista e querer ser popular, querer ser popular é uma condição para ser político, (...) ou seja, se o preço a pagar para não ter um discurso populista em Portugal é este, eu pago em dobro, não tenho nenhum problema com isso, e digo uma coisa, acho que a coisa melhor para um populista é políticos que não querem ser populares".
E o que dizia o mesmo Daniel Oliveira, com aquele ar solene, pedante e arrogante, no programa do dia 19 de julho de 2019, cerca de quatro meses depois, a partir do minuto 26:
"As pessoas querem no poder uma pessoa que seja parecida com o vizinho, com o amigo, com o primo, uma pessoa a quem eu compraria um carro, iria beber um copo e essas coisas todas, eu acho que isto está além de dessacralizar a democracia, que tem os seus ritos e que tem de ter os seus ritos, está a banalizar o poder, e sobretudo criou uma falsa ideia de proximidade, que é mentira, aliás ela é criada para substituir a proximidade do poder que interessa, que é um estado eficaz, que está aberto a ouvir as pessoas, que é o estado democrático; esta falsa ideia de proximidade (...) sobretudo para mim isto esvazia o debate político".
Pedro Marques Lopes, outro impostor intelectual que muda de opinião como quem muda de camisa, diz ipsis verbis no mesmo referido programa de 8 de março de 2019, ao minuto 10:
"Nós vivemos numa época em que há aquela imagem dos políticos muito distantes das populações, não há reflexo dos políticos em relação às pessoas, e isto mal ou bem humaniza os políticos, isto não tem rigorosamente nada a ver com populismo, nada, isto tem a ver com uma coisa que é diferente, que é a tentativa de obtenção de popularidade".
Mas o que disse o mesmo Pedro Marques Lopes quatro meses mais tarde a 19 de julho, a partir do minuto 37:
"De facto nós temos uma circunstância onde, e nota-se isso nos líderes políticos, em que as primeiras escolhas estratégicas dos políticos são a escolha do seu consultor de comunicação, da sua agência de comunicação, e não sendo isso mal por si mesmo, porque todos eles precisam de pessoas que tratam da comunicação, é para tratar de embrulhos, é para tratar doutro tipo de coisas, é para fazer imagem política e o que aqui se fez foi também criar uma imagem política. Isto para mim é muito grave pelo seguinte (...) isto pode parecer catastrofista, vejam lá que mal é que tem? Tem, porque isto não é a função do político que depois nos empurra a ir à vida privada dos políticos e tirar conclusões sobre a sua atuação política".
Conclusão

Pelo facto de António Costa ter cozinhado, de avental ao peito, cataplanas em programas de televisão com grande audiência, significa apenas que quer estar junto das pessoas e que quer ser popular, e portanto, deve ser louvado porque assim, combate o populismo. Pelo facto de Assunção Cristas ter colocado a votação democrática o seu penteado, significa todavia apenas que não passa de uma política maquiavélica dominada pelo embrulho do marketing, esvaziando o seu discurso de conteúdo político. E assim vai a idoneidade e neutralidade do comentariado da nossa comunicação "social".

A minha opinião

A mim pouco me interessam estas "palhaçadas" feitas por políticos, analiso apenas a coerência argumentativa destas pseudo-sumidades intelectuais, que recentemente também já clamaram que perante a crise que afeta a comunicação social, devemos todos nós começar a pagar-lhes o soldo semanal para dizerem umas e certas determinadas coisas na TV, claro está, sempre em abono do governo socialista. Qual a diferença entre cozinhar uma cataplana de peixe num programa de grande audiência onde aparece toda a família e onde a respetiva esposa fala do enorme leque de ex-namoradas do marido, e colocar a votação nas redes sociais o próprio penteado? Um político que exija respeito necessita naturalmente de alguma gravidade, mas por outro lado, excesso de gravidade tal como tinha Cavaco Silva, pode transmitir a ideia de afastamento do eleitorado. Naturalmente que é preciso encontrar um equilíbrio entre a propaganda/proximidade e o conteúdo político-ideológico, entre a pathos e o logos, sendo que no meu entender Marcelo Rebelo de Sousa é quem melhor executa e domina tal equilíbrio. O que não podemos ter, é certos e determinados comentadores que não têm qualquer cargo político, e por isso detêm em teoria muito mais liberdade argumentativa, serem mais parciais e facciosos que os tipos do PCTP-MRPP.

A Prof. Dra. Bonifácio precisa de sexo!


Crânio grande e quadrado, um traço fenotípico masculino;
extremamente inteligente e extremamente erudita;
à data que escrevo tem 71 anos, muitos dos quais
presumivelmente em abstinência sexual forçada;
pouco feminina e pouco atraente sexualmente.
Sintoma: neurose; prescrição: sexo!
Considero que o texto da historiadora e professora doutora Maria Bonifácio sobre os negros e os ciganos é simplesmente abjecto, está repleto de generalidades e falsidades já muito rebatidas e, por isso, não vou gastar o meu Latim com o conteúdo do texto da profesora doutora, até porque muito já foi escrito a propósito. Todavia cingir-me-ei a uma crítica ad hominem que já havia evocado a propósito da articulista do Observador Helena Matos. No bairro onde cresci na freguesia de Marvila, as mulheres da vida quando se deparavam com comportamentos demasiadamente azedos ou ásperos por parte de senhoras respeitáveis, lançavam umas interjeições e uns impropérios, cujo conteúdo mais tarde vi confirmado quando li alguns textos sobre psicanálise freudiana. Diziam as sopeiras e mulheres a dias às respeitadas senhoras que frequentavam religiosamente a homilia dominical: "o que tu precisas é de homem"! Por vezes o substantivo "homem" era substituído por uma sinonímia anatomicamente bem mais específica, obscena e viril. Espantado fiquei quando me deparei que os textos de Freud diziam exatamente o mesmo para explicar a histeria e a neurose femininas, mas para tal, precisava o neurologista austríaco de dedicar 300 páginas da sua vasta obra, quando a sopeira sintetizava tamanho princípio psicanalítico em uma única oração. Como explanei a propósito de Helena Matos, mulheres heterossexuais muito eruditas e inteligentes, tendem a ter dificuldade em encontrar parceiro sexual, porque a seleção sexual a partir da teoria da evolução, tendeu a escolher casais onde o homem fosse mais inteligente do que a mulher (não estou a dizer que deve ser assim, mas em média, perante escolhas livres dos parceiros, tende a ser). Por conseguinte, mulheres inteligentes heterossexuais tendem a ser extremamente exigentes na inteligência do parceiro masculino, e demais tendem a negligenciar a sua própria aparência física, pois consideram que se tratam de questões frívolas e menores em relação ao domínio intelectual. Além disso, muitos homens heterossexuais, inteligentes ou não, dão muitas vezes mais primazia às características físicas do que propriamente intelectuais das potenciais parceiras femininas. Jordan Peterson tem vastos trabalhos sobre esta questões com enfoque para as questões profissionais. Ou seja, mulheres heterossexuais muito inteligentes e eruditas têm assim mais dificuldade em encontrar parceiro sexual satisfatório em relação às demais. Quando chegam à meia-idade, devido a vários anos de abstinência sexual forçada, considerando que a sexualidade é uma necessidade primária, por muito que não morramos quando não a satisfazemos, começam a entrar no nível de histeria (palavra proveniente do Grego que deu origem também à palavra "útero") e neurose, que se manifesta de forma clara em diversas fobias e azedume comportamental. Embora Freud se tenha focado nas mulheres, este argumentário aplica-se mutatis mutandis aos homens. Freud também nos refere que homens neuróticos normalmente têm tendências homossexuais reprimidas. Aliás, a neurose de acordo com a teoria psicanalítica é isso mesmo, uma abstinência ou repressão, através da cultura, experiência ou educação, dos desejos sexuais primários, em que a "carga sexual" (as aspas porque sou formado em ciências exatas e considero que muito de Freud é mera pseudociência) encontra como escape um comportamento despeitoso, fóbico ou verborreico, como que a pedir atenção daqueles que rodeiam o indivíduo. A neurose é tão importante na teoria psicanalítica, que foi mesmo a maior inspiração para que Freud abandonasse a neurociência para criar a psicanálise, pois concluiu, perante o sofrimento das suas pacientes, normalmente mulheres neuróticas da aristocracia vienense, que a mera explicação neuro-científica não era suficiente. Assim, tal como Freud prescreveu e vaticinou, estas senhoras precisam de sexo, o mais catártico, viril e energético possível. Recomenda-se portanto à professora doutora uma noite "bem passada" com um jovem guineense baptizado, avantajado e assimilado, de preferência formado em História de Arte, com doutoramento em pináculos de catedrais do Gótico e especialização no período francês revolucionário. Para bem da ordem pública e da sua saúde!

Da questão de fundo: as quotas para negros e ciganos

Em relação à questão de fundo, a doutora tem plena razão. Com referência às quotas para certas minorias em função de traços fenotípicos ou genéticos, é querer transformar o Parlamento numa espécie de Arca de Noé multicultural. Quando era catraio e me contavam da fábula do Noé, nunca percebi como é que o Noé e a sua família apanhavam as milhões de diferentes espécies de insectos, a maioria voadores, sendo que os insectos não são uma questão somenos pois representam 80% das espécies existentes no planeta; tenho pena que renomeados teólogos e os mais conceituados hermeneutas do antigo testamento nunca se tenham debruçado com a questão dos insectos e do Noé, pois há aproximadamente 1,5 milhões, 5,5 milhões e 7 milhões de espécies de coleópteros, insectos e artrópodes terrestres, respectivamente. Teria Noé à sua disposição uma rede mosquiteira? São as grandes questões do nosso tempo! Em relação ao Parlamento ser a Arca de Noé socio-étnico-genético-fenotípico-cultural da nacionalidade portuguesa, pouco me importa pois não passam, grosso modo, de um coio de inúteis e incompetentes que nunca teve uma profissão decente e produtiva na vida, e tal como vaticinava o Grande Senador Tiririca, "pior do que está não fica". Mas a escumalha socialista quer alargar as quotas à Academia. Aí sim, a Porca torce o rabo (falando em porcas, será que o Noé levou para a arca apenas pares de espécies sexuadas, ou levou também hermafroditas, e destes, um ou dois indivíduos de cada espécie?)! Além das quotas na Academia incentivarem o racismo e a xenofobia, porque dir-se-á imediatamente que fulano ou sicrano entrou na academia apenas devido às suas características étnico-sociais e não ao mérito, mina a credibilidade e a competência da academia como pilar mestre na educação das gerações vindouras. Que os senhores deputados redijam leis inúteis ou improcedentes pouco me importa, que na legislatura seguinte pode ser tudo facilmente reescrito ou revertido, mas minar a Academia com a valorização da incompetência e da mediocridade em função de traços genéticos, culturais ou fenotípicos e não de qualidades objetivas e meritórias, é destruir o futuro da formação e educação de qualidade desta ínclita nação. Está de Parabéns em todo o caso a doutora Bonifácio por ter posto os pontos nos i em relação a tamanha bestialidade intelectual, que só poderia provir naturalmente de um socialista.

Homem-hora no SNS


Por um lado vemos os jornalistas a reportarem o caos diário no Serviço Nacional de Saúde (SNS), e por outro vemos os membros do governo referindo que nunca houve tanto investimento e tanto pessoal contratado para o mesmo SNS. Mas será que ninguém sabe fazer contas ao homem-hora, ou pessoa-hora para ser inclusivo? Quando um programador dedica uma hora a desenvolver um determinado programa informático, resulta no mesmo número de homens-hora, que dois programadores a dedicarem cada um meia-hora. Qualquer gestor de projetos ou empresa, em que um dos ativos principais sejam os ativos humanos, tem plena consciência do factor pessoa-hora alocado aos projetos e quanto custa, em média, cada pessoa-hora. Com a passagem das 40 horas para as 35 horas semanais, o número de pessoas-horas no SNS baixou 12%. E é o número de pessoas-horas o activo humano mais importante em qualquer serviço ou produto onde a contribuição humana seja o ativo mais importante, desde o desenvolvimento de um programa informático até à prestação de serviços de consultoria. No SNS é um ativo valioso, senão o mais valioso, na medida que os profissionais, isto é, o seu tempo alocado ao serviço, são o ativo mais importante no SNS. Se com a passagem para as 35 horas, o número de pessoas-hora baixou 12%, a ministra da saúde diz-nos que "o SNS teve um acréscimo de 10.816 pessoas, um aumento de 9%". Portanto não chega para compensar o decréscimo no número de pessoas-hora, isto é, o sistema continua com menos pessoas-horas em relação ao governo anterior. 

Como o SNS tem menos pessoas-hora em relação ao governo anterior, a qualidade do serviço prestado aos utentes piorou. E o governo também tem razão, porque com a passagem para as 35 horas, o salário mensal manteve-se, querendo isto dizer que o salário horário aumentou 12%, significando portanto que a despesa com pessoal aumentou significativamente para o mesmo número de homens-hora, considerando demais que o governo contratou mais pessoal. Quem afinal tem razão, o governo ou a oposição? Ambos! Mas tal revela de forma cristalina quais foram ab initio as prioridades deste governo: saciar as reivindicações do funcionalismo à custa da degradação dos serviços públicos. Embora a esquerda seja tradicionalmente ateia, convém lembrar-lhes que o ateísmo deve ser alargado às contas públicas, isto é, da mesma forma que Jesus não multiplicou os pães e os peixes, porque não há milagres, Centeno também não consegue multiplicar os euros onde não existem. A Política é feita de opções, opções legítimas na maior parte dos casos; mas há gente politicamente medíocre e demagoga que ainda não está disposta a enfrentar as consequências das opções políticas que defende.

Daniel Oliveira vai às cerejas


Cherry picking é das falácias mais usadas na Política
Uma das falácias mais conhecidas na política e na ciência é a falácia da "evidência suprimida", ou seja, sem mentirmos, dizermos apenas as verdades que corroboram as nossas ideias e os nossos interesses. Para nos apercebermos do enorme poder falacioso desta falácia, vejamos que se desconsiderarmos, no caso da astronomia, os conhecimentos que detemos sobre os restantes planetas e nos focarmos apenas nas evidências que observamos sobre o percurso do Sol em torno da Terra, podemos afirmar que a teoria geocêntrica é a correta. Até Galileu ter descoberto as variações no brilho de Vénus com o auxílio de um telescópio, ou seja, até ter adicionado factos e evidências ao conhecimento científico de então, a teoria geocêntrica tinha mais sustentação do que a heliocêntrica. Basta imaginarmos que quer o Sol durante o dia, quer as estrelas durante a noite, aparentam circular em torno da Terra. Se omitirmos o que hoje sabemos desde então e nos cingirmos apenas ao conhecimento que a Humanidade detinha pela altura de Galileu, isto é, se selecionarmos as verdades, podemos afirmar categoricamente que a teoria geocêntrica é aquele que faz mais sentido. 

Outro exemplo mais corriqueiro para que o comum dos mortais o apreenda: se um marido tiver estado naquela noite com a amante, e ao chegar a casa a esposa lhe perguntar "por onde andaste?", e este responder "estive na casa do Manuel", o marido pode estar a ser completamente honesto com a esposa, mesmo que tenha estado a fazer sexo com a amante na casa que o Manuel lhe emprestou para o efeito. Em Inglês esta falácia toma um termo muito interessante, mais precisamente cherry picking, ou seja, a "apanha da cereja". Quem já foi para a apanha da cereja sabe perfeitamente que a tática para que o cabaz seja apresentável, é apanhar apenas as cerejas que estão em bom estado e negligenciar as que estão em mau estado. Quando um consumidor se depara com um cabaz de cerejas, raramente consegue distinguir a qualidade da apanha, ou se foi um bom ano ou um mau ano, exatamente porque quem as colhe, escolhe sempre apenas as que estão em bom estado. Na Política, e principalmente na Ciência, escolher as verdades convenientes e omitir as que não nos interessam, é das falácias mais perigosas, porque damos uma noção totalmente errada dos factos sem nunca necessitarmos de mentir.

E desta vez foi Daniel Oliveira que mais uma vez foi às cerejas, o que revela que é um indivíduo fortemente faccioso. Refere Daniel Oliveira muito exaltado, como se o tom da sua voz fosse proporcional à veracidade das suas afirmações, que Portugal é dos países com menos funcionários públicos em percentagem da população. E Daniel Oliveira tem razão. Portugal tem apenas 67 funcionários públicos por cada mil habitantes, enquanto a Noruega, por exemplo, tem 158. Portugal aparece, como é visível no seguinte gráfico, em sexto lugar a contar do fim.

Número de funcionários públicos por mil habitantes. Fonte.

O que Daniel Oliveira não nos diz, porque é a pessoa ideologicamente mais facciosa com notoriedade pública, é que os funcionários públicos portugueses são dos mais caros da Europa em função da riqueza que cada português produz, i.e. cada funcionário público custa 1,7 vezes o nosso PIB per capita, o quarto valor mais alto da UE.

Custo de cada funcionário público em relação ao PIB per capita. Fonte

E este de facto é o gráfico que interessa salientar, caso precisemos de escolher um dos dois acima. Ou seja, o que é me interessa, como cidadão e utente dos serviços, que haja muitos ou poucos funcionários públicos, considerando que a multiplicação obedece a uma propriedade comutativa, isto é, 100 funcionários públicos auferindo cada um 1000 euros resulta na mesma despesa que 1000 funcionários públicos auferindo cada um 100 euros? O que me interessa, de facto, como contribuinte e utente dos serviços públicos é saber quanto é que me custam os funcionários públicos em relação aos meus rendimentos, e qual a qualidade dos serviços públicos que me prestam (rácio input/output). Da mesma forma que, na maior parte dos casos para um consumidor, o mais importante é o rácio qualidade/preço.

Estamos em ano de eleições, e por coincidência, também na época da apanha das cerejas. Bom apetite! E já sabeis, se quereis conhecer a qualidade da apanha, ide à cerejeira e não vos fiqueis pelo cabaz de supermercado!

Porca burguesia motorizada


Quem é mais "porco-javardo"?
Aquele que polui o ar matando ou aquele que defeca no chão?
A psicologia evolutiva ajuda a explicar os paradoxos para os epítetos mais ofensivos no que concerne à salubridade de cada um e à sua relação com os outros, considerando que o Homo Sapiens é um animal grupal. Façamos este exercício teórico e hipotético: caso o caro leitor observasse um seu concidadão a defecar no espaço público no meio de uma praça, diria de imediato naturalmente como pessoa de bem, que o indivíduo não passaria de um "porco javardo"! Chamaria as autoridades e o infrator seria julgado em conformidade. O mesmo se passaria para quem urina na rua ou escarra sobre o passeio. Não passam de "porcos javardos", diria o prezado leitor. Mas porquê, cientificamente falando? Porque os dejectos fecais, urinais ou nasais de estranhos, desde tempos remotos durante a evolução dos hominídeos, ou mesmo dos mamíferos, sempre foram extremamente severos para a saúde, pois contêm toda uma série de microorganismos e bactérias extremamente prejudiciais para o ser humano. Aliás, até ao advento das cidades modernas e respetivos sistemas de saneamento básico, muita gente morria devido a toda uma série de patologias relacionadas com os dejectos. É natural, pois, considerando a evolução por seleção natural, a mesma que seleciona os mais aptos e não os mais fortes (selection of the fittest) que tenhamos guardado repulsa instintiva contra qualquer tipo de dejectos humanos, principalmente de estranhos.

Contudo os anacronismos antropoevolutivos são de facto fantásticos, pois temos instintivamente muito mais repulsa por dejectos fecais de estranhos, do que propriamente por cianeto, monóxido de carbono ou dejectos radioactivos. O próprio Freud dedica grande parte do seu estudo aos paradoxos do nojo, referindo por exemplo que um homem não tem nojo em beijar na boca uma melhor jovem e bonita, mas tem nojo em lamber o seu aparelho dentário caso esta use um. Temos mais nojo e repulsa por dejectos humanos de estranhos, do que temos por dejectos de automóveis ou centrais nucleares. Temos muito mais nojo das fezes do vizinho, do que temos dos gases que saem do seu velho automóvel a gasóleo; e se no paleolítico os primeiros eram letais, hoje em dia são os segundos que são letais. Assim, faço uma pergunta sincera ao leitor: preferiria ingerir 10 kg de fezes provenientes de 20 sem-abrigos com a respetiva lenta degustação, ou 1 kg de cianeto, considerando que consta que a ingestão de uma dose de 0,5 a 1 mg de cianeto é suficiente para matar instantaneamente um adulto? É por isso que sempre disse que um automobilista, por muito que não o sintamos, não passa de um porco burguês motorizado, porque polui o ar que todos respiramos. O paradoxo é que a referida poluição automóvel não se vê, não causa nojo nem repulsa, mas causa muitas mortes, mesmo milhares de mortes anuais apenas em Portugal. Vejamos, por exemplo, esta excelente reportagem televisiva que nos indica que vários automobilistas removem o filtro de partículas dos carros a gasóleo, para assim poupar alguns milhares de euros; mas contudo contribuem para que terceiros contraiam diversas patologias como cancro do pulmão, asma crónica, diabetes ou até mesmo demência. Apenas em 2017 morreram 3540 pessoas devido à poluição atmosférica em Portugal.

Afinal, quem é o porco javardo? O que pega no volante ou o que escarra no chão?

Internet vs redes sociais


Há muita gente que comete o erro comum de confundir redes sociais, que indubitavelmente alavancam o efeito de manada na turba ao qual a psicologia evolutiva dedica grande parte do seu estudo, com Internet em geral, onde há plataformas onde reinam a civilidade e urbanidade no debate público e onde qualquer trol ou grunho são imediatamente expulsos. Alguns bons exemplos são sítios que usam as plataformas Discourse ou Disqus.

A Internet é o espelho aumentado, libertário e freudiano da sociedade: tem crime, prostituição, pedofilia, proselitismo, devassa, cultura, mecenato, solidariedade, informação, ciência, saber, arte, cinema, terrorismo, pornografia, bricolagem, programação ou economia. Enfim, estão na Internet desde as coisas mais nobres até às mais terríveis que o Homem alguma vez concebeu. Desde a maior enciclopédia alguma vez redigida e coligida cujo acervo e rigor ultrapassa em muitos milhões de caracteres o acervo da biblioteca de Alexandria, até aos vídeos de ódio e decapitações ao vivo mais desprezíveis e horrendos do estado islâmico. A Humanidade é a mesma, o Homem o mesmo, do reino animal, do filo dos cordados, da classe dos mamíferos, da ordem dos primatas e da família hominídea, e portanto não há nem desilusão nem deslumbramento perante a raça humana. Há sim que aproveitar as maravilhas que a tecnologia providencia para os atos mais mundanos, como requerer um táxi até ao local exato onde nos encontramos. Ou ainda usar a Internet para os atos que a Humanidade civilizada considera desde há muito nobres, como a educação, a arte ou a cultura, e assim vermos um bom documentário no YouTube ou encomendarmos um bom livro na Amazon. 

Da alegada pseudociência em torno do programa do PAN


Recentemente um artigo do Observador com vasta repercussão criticava acerrimamente o partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) por este ser alegadamente promotor das pseudociências, na questão do receio que a opinião pública tem aos produtos transgénicos e na questão das medicinas ditas alternativas. Não conheço o programa total do PAN, mas se atacam os produtos transgénicos dececionam-me, pois normalmente esses ataques vêm de gente desinformada, considerando que desde o Neolítico que o Homem, através de seleção artificial, escolhe certas características de produtos agrícolas e animais, que surgem através de mutações genéticas durante a concepção e a que chamamos seleção artificial. Um porco é, evolutivamente, um javali cujos genes associados ao pelo foram suprimidos através de seleção artificial. O mesmo para a maioria das frutas e legumes que comemos hoje, ou nunca pensaram porque motivo as bananas já perderam caroços, ou seja, as sementes essenciais a qualquer árvore de fruto para que se possa reproduzir?

Em relação às terapias ditas alternativas, pela literatura que tenho lido e por experiência própria, apesar de não serem eficazes para a maioria das patologias, como obviamente as oncológicas, são sempre inofensivas. Ademais há estudos de entidades renomeadas e idóneas, no caso das patologias do foro psíquico como a depressão, que referem que, por exemplo o Ioga, tem efeitos psiconeuronais positivos, na medida que reduz os níveis de estresse e ansiedade, sendo que é prática médica, com o conluio das farmacêuticas, exagerar na prescrição deste tipo de fármacos anti-depressivos. Em qualquer caso deverá caber sempre ao médico, e não à classe política, decidir a terapêutica indicada para cada doente.

E também é óbvio que o programa do PAN ultrapassa e muito estas duas questões. Os partidos do sistema demonstram um total desprezo por causas ambientais, vede a título de exemplo o recente caso do novo aeroporto da margem sul cujo programa de impacto ambiental foi rotundamente ignorado, ou como Sócrates autorizou, enquanto ministro do ambiente, uma enorme Catedral do Consumo em plena reserva de proteção ambiental em Alcochete, ou ainda o conluio com a indústria automóvel e o greewashing respetivo na promoção de carros "mais verdes", quando os transportes públicos são muito mais ecológicos que quaisquer veículos particulares, independentemente da sua propulsão, considerando que é extremamente ineficiente alocar a força de 90 cavalos para puxar uma pessoa mais uma tonelada de metal. Nunca se questionaram que, quer o comboio, quer o elétrico, quer o metropolitano são também veículos elétricos? E porque não vemos o marketing agressivo em torno destes veículos, como vemos nos carros de 100 mil euros da Tesla? E se comer frutas e legumes é, como todos os estudos apontam, muito mais saudável que comer hambúrgueres ou batatas fritas, porque não vemos o marketing agressivo em torno dos primeiros como vemos nos segundos? 

Não nego que não haja alguma pseudociência associada a certos ideários do PAN, mas negar que vivemos numa sociedade desenhada para sermos mal alimentados, com excesso de gorduras animais, carnes e fritos, e que gasta milhares de milhões por ano posteriormente em saúde num ciclo vicioso de crescimento económico, é negar as evidências. Vede o caso dos EUA, que é o país que de longe gasta mais dinheiro per capita em saúde, sendo que o cidadão comum tem uma esperança média de vida e uma qualidade de vida miseráveis para um país Ocidental. E antes das questões ideológica, tal deve-se a práticas alimentares completamente insalubres e irracionais. Não; não quero controlar o que cada um enfia pelo esófago, faço apenas, tal como Aristóteles postulou, Política!

Quanto ganham os professores em Portugal


A polémica em torno da contagem do tempo de serviço para a classe dos professores trouxe para o debate no espaço público duas abordagens políticas sobejamente conhecidas e antagónicas: por um lado, a ira das redes sociais contra "essa classe de privilegiados", quando estranhamente a mesma ira não se aplicou contra o saque descarado que a banca fez ao erário público; por outro lado, temos os comentadores e comendadores de esquerda da nação, como o mui sapiente dr. Francisco Louçã, referindo-nos que o governo fez muito mal em colocar a população contra os professores, pois, segundo o professor universitário, estes seriam mal pagos. É natural e compreensível que a população queira inquirir, não numa lógica de guerrilha contra a classe docente mas numa lógica numérica e factual, quanto de facto auferem os professores, até porque os seus salários são obtidos do orçamento de estado, o mesmo orçamento que obtém receita através da fiscalidade aplicada a toda a população.

Assim, apresento-vos os dados comparados dos rendimentos dos professores em Portugal, para diferentes níveis de ensino e para diferentes níveis de experiência profissional, no quadro da União Europeia. Repare-se que os valores para os rendimentos são brutos, o que torna a análise mais pertinente, pois todos os cidadãos da Europa, para o país correspondente, pagam impostos sobre os rendimentos de forma igualitária para o mesmo nível de rendimentos, independentemente da natureza do empregador, seja funcionário de um estado ou de uma empresa privada; sendo que os valores são também apresentados em Paridade Poder de Compra, ou seja, já têm em consideração os níveis de vida e os salários médios em cada país, sendo que tal é também relevante pois são os cidadãos contribuintes, no caso do ensino público, que pagam os salários aos professores através da fiscalidade. Por conseguinte, a Paridade Poder de Compra permite fazer comparativos entre os salários dos professores e os demais trabalhadores do estado membro da União Europeia. Ademais este relatório, ao contrário de outros citados amiúde na imprensa como os da OCDE, é recente, pois faz referência ao biénio de 2016/2017.

Logo, apresenta-se no seguinte gráfico os salários anuais brutos em Paridade Poder de Compra, para diferentes escalões de professores a tempo inteiro, em diferentes países da União Europeia. A fonte é o Eurostat, mais precisamente a página 15 do Relatório Teachers' and School Heads' Salaries and Allowances in Europe. Os valores dizem respeito ao biénio de 2016/17.



Já os dados salariais do gráfico seguinte obedecem às mesmas premissas, mas dizem respeito apenas aos professores do nível secundário. Repare-se que os professores portugueses no topo da carreira do nível secundário aparecem com um salário anual bruto de 55524€ (este valor é em Paridade Poder de Compra, tendo como referência a média salarial europeia no ano de 2016), aparecendo em sétimo lugar numa lista com 40 estados.

Salários anuais brutos em Paridade Poder de Compra, para diferentes escalões de professores a tempo interior do nível secundário, em diferentes países da União Europeia. Fonte: Eurostat, Teachers' and School Heads' in Europe, 2016/17, página 15.

Tempo é dinheiro, já diziam os neoliberais


Os professores em Portugal são como as forças armadas da Venezuela, ou seja, progridem todos automaticamente com o decorrer do tempo. Não admira que haja mil generais na Venezuela enquanto nos EUA, a maior potência militar do planeta, haja apenas trezentos. No caso dos professores, faça chuva ou faça sol, cataclismos ou crises financeiras, a progressão da carreira necessita obrigatoriamente de fazer parte do rol dos acontecimentos. Ou seja, a progressão dos professores não depende das suas ações individuais como profissionais da educação, do seu mérito pessoal, da capacidade que têm para transmitir conhecimento aos alunos, nem muito menos, como se tem visto, do meio económico e social envolvente. A progressão dos docentes depende, pois, única e exclusivamente de uma coisa chamada relógio. E não há instrumento mais socialista do que um relógio: independentemente da cor ou feitio, analógico ou digital, no mundo terreno onde a Teoria da Relatividade Geral é negligenciável, o tempo é igual para todos. E tempo é dinheiro, sempre disse a "tralha neoliberal", os quais Mário Nogueira jura repudiar como afincado comunista que é.

A esquerda na sua magna irresponsabilidade financeira é coerente em si mesma. Ouvimos todos os comentadores de esquerda a evocarem a sacra coerência da esquerda nesta matéria, como se fosse uma virtude ser-se idiota coerentemente. A palavra idiota, etimologicamente, aplica-se neste contexto, pois provém do Grego e diz respeito àqueles que não zelam pelo interesse público. No que toca às finanças públicas a esquerda, incluindo o PS, e tal foi claro no governo Sócrates, é manifestamente idiota, ou seja, nunca zelou historicamente por qualquer equilíbrio nas contas públicas, navegando na demagogia barata lusitana, de transmitir a mensagem política de que, por eles, "davam tudo a todos", "haja vontade política", pois fazer contas é coisa para tecnocratas. Já a direita é hipócrita, como sempre foi, magnanimamente hipócrita. Diz que aprovou o tempo de serviço dos professores porque é justo, mas que tal não tem impacto orçamental. Devem estar esperançados, talvez considerando que os comunistas abominam o capital e o aforismo neoliberal de que "tempo é dinheiro", que seja possível contabilizar o "tempo perdido" com palavrinhas de conforto, palmadinhas nas costas, e quanto muito víveres, que o dinheiro é "a causa do mal", e a classe dos docentes preocupa-se apenas com metafísica e a educação transmitida aos discentes.

É nestes momentos, para analisarmos a obscenidade dos números, sendo que a mesma métrica se aplica para o saque que a banca fez ao Tesouro público, que é interessante usarmos a fiscalidade à moda antiga. Imaginemos um funcionário das finanças a ir casa de cada português uma vez por ano para pedir mais 40€ por cada membro da família, além da restante fiscalidade, para assim se poder recuperar o tempo de serviço dos professores. Uma família de 4 dá 160€ por ano, apenas para pagar este aumentos aos professores. 400 milhões de euros dá 40€ per capita. Todos os anos doravante, o que é diferente do caso da banca, que foi um empréstimo que em princípio tem retorno, e o valor em causa tem um tecto num período temporal. A despesa pública per capita é um conceito que defendo desde há muito no debate público, porque a partir de 1000 euros o comum dos mortais perde o fio à meada. Assim, vejamos que o resgate ao Novo Banco vai custar no total 400€ per capita. Mas os 400€ em princípio têm "v" de volta e estão limitados a esse montante. Os 40€ per capita para os professores são todos os anos pagos doravante, a acrescer ao seu salário, considerado desde já pela OCDE bem acima da média, em função da Paridade Poder de Compra da cada país. Haja racionalidade e literacia numérica no eleitorado, que a classe política pensa duas vezes antes de fazer promessas idiotas.

Venezuela no Primeiro de Maio


No dia primeiro de Maio, Dia do Trabalhador e naturalmente dos seus direitos, achei interessante apresentar uma pequena provocação, coincidentemente no mesmo dia em que existem diversos tumultos nas ruas de Caracas contra o regime bolivariano vigente.

Numa análise alargada com todos os países da OCDE e mais alguns, a Venezuela aparece em primeiro lugar em dois dos três rankings, como o país cuja lei do trabalho apresenta maior proteção laboral para os seus trabalhadores. Aparece em primeiro lugar no ranking da proteção laboral para os trabalhadores com contrato sem termo, vulgo efetivos; aparece em primeiro lugar na proteção conferida aos trabalhadores com contratos temporários; e aparece em segundo lugar na proteção conferida aos trabalhadores contra o despedimento individual. Ou seja, a Venezuela é o país, neste estudo da OCDE, onde os trabalhadores de jure têm mais direitos. Mas há questões de jure e questões de facto!

E todavia, perante tamanha proteção laboral, a economia venezuelana definha há vários anos, a inflação é galopante e existe enorme agitação social contra o governo. O que demonstra que a verdadeira proteção laboral, a proteção de facto, não é a conferida pela lei nem por qualquer código do trabalho pois estes em última instância são apenas formais, mas a providenciada pelo desempenho económico. Haja desempenho económico e os trabalhadores têm emprego e bons rendimentos, como explanei noutra publicação.

Índice de proteção laboral. Fonte: OCDE.
Atenção todavia que não quero com isto dizer que haja propriamente uma correlação ou mesmo uma causalidade entre proteção laboral e desempenho económico medíocre, apesar de alguns estudos da OCDE apontarem nesse sentido, ou seja, que quanto maior a proteção laboral, menor o desempenho económico, havendo todavia literatura que aponta em sentido contrário. Repare-se na tabela acima que Alemanha, Bélgica, Holanda ou França também aparecem no topo da tabela e não são propriamente países subdesenvolvidos. Mas nestes países a proteção laboral é apenas uma consequência, e não uma causa, do elevado desempenho económico providenciado pela elevado valor acrescentado e tecnológico das suas economias. Isto é, não esperem que o desempenho económico aumente pelo simples facto de as leis laborais se tornarem muito mais protecionistas para a classe trabalhadora.

Numa reportagem de janeiro do corrente ano de 2019, o jornal Público relatava-nos como uma série de luso-venezuelanos encontraram uma série de trabalhos temporários em empresas relacionadas com a economia de partilha e economia digital. Um dos luso-venezuelanos entrevistados é apresentado como um estafeta de 35 anos, sendo o "número um" de uma aplicação de entregas para dispositivos móveis que surgiu em Barcelona em 2015 e depressa se expandiu, chegando a Lisboa em Outubro 2017 e ao Porto em Março de 2018. Diz o luso-venezuelano que “na churrasqueira [onde trabalhava anteriormente] ganhava um salário de 600 euros, aqui ganho 1800 ou 2000 euros". Imediatamente surgiram as críticas nas caixas de comentário do jornal e nas redes sociais, referindo que estes funcionários não passavam de precários escravos do capitalismo e da economia digital. Todavia calculo que estes funcionários prefiram mil vezes a precariedade capitalista, à proteção laboral conferida pelo código do trabalho venezuelano.

E assim se fez um Império!


Jordan Peterson refere que as mulheres heterossexuais muito inteligentes têm um problema, como são em menor número, e são naturalmente exigentes com a inteligência que procuram no parceiro, acabam muitas vezes sozinhas, e portanto, usando a psicanálise que Freud nos legou, amarguradas e neuróticas. Sem homem que, no seguimento primário da interpretação do Homo Sapiens, que as proteja ou consigo copule, transmitem essa neurose numa clara manifestação de diversas fobias, que vai desde claustrofobia até agorafobia, e claro, xenofobia. Todas as neuróticas tendem a ser xenófobas, à exceção daquelas que lidam com estrangeiros. O medo combate-se sempre com o conhecimento. Os ameríndios faziam sacrifícios humanos pois temiam que o Sol não nascesse no dia seguinte, temiam pois a eterna escuridão e ignoravam a astronomia. O melhor remédio contra a xenofobia é, portanto, conviver amical e puerilmente ou mesmo copular, de preferência passionalmente, com um estrangeiro, pois contra o medo que é primário, nada melhor que o sexo, sentimento também esse primário. As fobias também se manifestam amiúde nos gays e com aqueles homens com tendências homossexuais reprimidas, considerando que o homem efeminado tende a ser fisicamente mais fraco e débil, e por isso o medo é a reação primária mais evidente perante o estrangeiro que pode ser mais forte e agressivo. Mutatis mutandis para os idosos, o que explica que a população mais velha tenha votado em massa no Brexit, ou que Marine Le Pen tenha obtido mesmo muitos votos da comunidade gay, o que aparenta ser um paradoxo ideológico. O mesmo fenómeno de medo ocorre com os "homens musculados e guerreiros", mas desprovidos de uma elevada capacidade intelectual; neste caso, nos "guerreiros", a sua xenofobia não advém do medo pela sua integridade física, mas o medo que sentem pela integridade daqueles que amam, normalmente a mulher e a prole do guerreiro, fenómeno tão bem tipificado em todo o filme de propaganda militar americana, em que o herói militar, tem sempre uma bela mulher, e normalmente uma filha, incrementando assim a necessidade que o guerreiro tem em proteger a prole. Os sentimentos primários como o sexo, a camaradagem ou o riso entre diferentes raças, ajudam a vencer o sentimento primário e psicoevolutivo que é o medo. A evolução explica porque motivo temos medo de alturas, comum a todos os mamíferos e que remonta ao Mesozoico, de abelhas, de cobras e de, estrangeiros, isto é, alienígenas. Conviver ou copular com um ou uma alienígena combate esse medo, porque dá ao indivíduo a sensação psicoevolutiva de se envolver ou poder espalhar os seus genes por uma raça diferente da sua, sendo por isso uma vitória, ou pelo menos uma mescla, da sua raça em função das demais. Hernan Cortéz ao invadir o México e aniquilar os Astecas, tratou de copular com as locais, e na "Graça de Cristo", convertê-las e consigo casar. O mesmo fizeram os missionários portugueses no Brasil, dando origem à famosíssima posição sexual de missionário, pois os nativos copulavam como copulam as feras, enquanto os missionários, na Graça de Cristo e dotados de um espírito pedagógico de invejar a Júlio Machado Vaz, ensinavam as nativas "a fazer o amor", tal como ordenava a Santa Madre Igreja. Com a "Graça de Cristo" e proteção divina, sem qualquer sentimento xenófobo pois iam imbuídos de uma missão qual militar de elite sem medo, espalharam a fé e os genes europeus pelos ameríndios. Já os fracos, os enfermos, os efeminados, os velhos, as neuróticas e a putrefacta aristocracia ficavam na metrópole a implicar com os feitos dos outros e a protestar contra a invasão de negros que desembarcavam no Terreiro do Paço e ocupavam o Rossio. Porque motivo afinal Camões escolheu um velho (hoje diz-se idoso) e não um novo, para a crítica à aventura do multiculturalismo providenciada pelas Descobertas? E assim se fez um Império! Com a Graça de Cristo e sem qualquer receio de miscigenação! Mas a bem da integridade e honestidade intelectual, diga-se que certa direita beata, é muito mais islamofóbica do que propriamente xenófoba ou racista. Sede todos batizados, que caís todos na Graça de Cristo, independentemente da vossa tez de pele. Amén!

Dos mais fracos e da psicologia evolutiva


No artigo Da xenofobia e psicologia evolutiva, e da teoria dos conjuntos explico, à luz das ciências computacionais, porque motivo a xenofobia foi eficiente e positiva do ponto de vista cognitivo, para o Homo Sapiens, durante o paleolítico. Já na segunda parte do artigo Da imigração económica, da xenofobia e da psicologia evolutiva, explico porque motivo a imigração levanta tantos medos primários na turba. Já no artigo A origem e o anacronismo do medo explico porque motivo o medo, na maior parte dos casos, não só é anacrónico e inútil na sociedade pós-moderna e civilizada, como também é perigoso, pois conduz os países à guerra e à miséria. Todavia interessa também explicar porque motivo a turba também demonstra indignação perante os apoios dados aos mais fracos e menos capazes. Um caso interessante onde a psicologia evolutiva também ajuda a explicar a irracionalidade da turba, no que concerne à indignação, está no apoio que o estado social providencia aos mais fracos e vulneráveis. Na tribo paleolítica, que era essencialmente nómada, os fracos e vulneráveis eram simplesmente abatidos ou deixados para morrer.  Yuval Noah Harari, no seu livro Sapiens, capítulo 3, explica-nos que nas comunidades do grupo indígena Aché, do Paraguai, havia relatos de homens a executarem familiares mais velhos por estes serem débeis, e a executarem mesmo crianças que não cumprissem os requisitos aparentes de saúde e vigor. Não nos podemos esquecer que até ao advento da agricultura há dez mil anos com a revolução do Neolítico, o Homem era essencialmente nómada, por isso, a solidariedade era muito selectiva e apenas perante aqueles, da mesma etnia, em que havia uma hipótese clara de recuperação para que pudessem ser um ativo, caso contrário, se o indivíduo fosse um fardo para o avanço da tribo na procura por recursos, era abatido ou simplesmente deixado a morrer perante a fome ou predadores. Harari refere-nos que aplicar os nossos padrões morais à época em questão é completamente anacrónico, referindo mesmo que tais atitudes são congéneres, com a devida adaptação temporal, às práticas modernas do aborto ou da eutanásia, que muitos encaram como eticamente aceitáveis, pois visam, pelo menos de forma clara no primeiro caso, o bem estar da sociedade como um todo em detrimento da vida de um indivíduo a quem não reconhecemos a humanidade. 

Para as tribos nómadas sem quaisquer recursos médicos ou alimentares que não sejam aqueles providenciados pela natureza, indivíduos com pouco vigor ou debilitados, seriam um fardo que seria necessário descartar, sob pena de colocar em perigo todo o grupo. Interessante ainda notar, aponta o autor no capítulo 1, que há registos fósseis em que o Homem de Neandertal, muito provavelmente exterminado pelo Homo Sapiens, cuidava dos seus pares debilitados (há registos de fósseis de Neandertais com problemas precoces de locomoção e que sobreviveram até idade avançada). Todavia o Homo Sapiens, por ter um estilo mais nómada, era mais pragmático e agressivo; pois não só dispensava com facilidade os indivíduos débeis, como apresentava extrema agressividade perante membros de outras tribos, o que ajuda a explicar os fenómenos de xenofobia e os populismos a si associados. Foram esses os indivíduos selecionados, e por isso mesmo estamos hoje nós aqui, e não os Neandertais. Há que esclarecer todavia que o processo de agressividade e de total desprezo pelos débeis não surge perante decisões racionais, tal como quando um facínora ordena a execução de prisioneiros de guerra; mas através de processos evolutivos por seleção natural; isto é, perante a variabilidade genética providenciada por mutações genéticas ocorridas no ato da conceção, sobreviveram aqueles que apresentavam não só, maior desprezo por débeis, como maior agressividade perante alienígenas. A seleção natural escolhe os mais aptos e não os mais fortes, até porque não há evidências que os Neandertais fossem mais fracos fisicamente que os Sapiens. Foi por conseguinte uma clara vantagem evolutiva para o grupo, apresentar não só um desprezo por débeis (repare-se como o Sapiens civilizado faz um esforço cívico para demonstrar caridade perante pessoas com clara e manifesta deficiência mental, porque primariamente, "despreza-as"), como foi uma vantagem evolutiva demonstrar agressividade coletiva perante alienígenas, pois num mundo onde as tribos eram nómadas e se guerreavam, a coesão da tribo e a sua reação imediata eram fundamentais para a sua sobrevivência.

No ano de 2019, vejamos este exemplo provindo da República Portuguesa. O estado gasta anualmente com o Rendimento Social de Inserção, que visa apoiar os pobres dos mais pobres, cerca de 340 milhões de euros. Todavia o mesmo estado, no mesmo período, gasta com juros da dívida pública, que servem para alimentar os credores com quem a república se andou a endividar, cerca de 5 mil milhões de euros, cerca de 15 vezes mais. Falamos apensa de juros, ou seja, não falamos no pagamento do valor inicialmente creditado, mas apenas da parte dos juros. E todavia a turba, não só não se indigna com o valor que paga em juros, como se indigna profundamente com todas as notícias relacionadas com o rendimento social de inserção ou similares. Estes rendimentos não só servem para pagar a pessoas com muitas dificuldades financeiras e por isso, muitas vezes, débeis ou "inúteis" na aceção paleolítica do termo, como em acréscimo muitos desses indivíduos são de grupos minoritários, como, por exemplo, da etnia cigana. Temos então uma dupla aversão psicoevolutiva, o desprezo por "inúteis" e o repúdio por alienígenas. Os populistas não percebem nada de psicologia evolutiva, mas sabem, por experiência histórica, que estes temas instigam na turba, no seu sistema límbico, os sentimentos mais primários que lhes providenciam os respetivos dividendos eleitorais. Vejamos outro exemplo: a poluição do ar mata em Portugal, apontam as estimativas, cerca de 15 mil pessoas por ano. Repita-se: 15 mil mortes provocadas em Portugal pela inalação de partículas finas e outros poluentes, apenas em 2015. Junte-se-lhe os atropelamentos mortais e os sinistros rodoviários e temos uma cifra de cerca de 16 mil mortes anuais provocadas, em grande maioria, por automóveis. Isto sem considerar as mortes indiretas devido ao sedentarismo. Caso os muçulmanos matassem 1% desse valor, isto é, 160 portugueses por ano, haveria imediatamente um levantamento popular e a turba iria a correr votar nos fascistas; e que ninguém tenha dúvidas que tal ocorreria! O que demonstra de forma clarividente, como referi noutro artigo, que não há sentimento mais anacrónico e perigoso, no que concerne ao sentimento da turba, que o medo coletivo.

Afinal ainda há socialismo


A única medida positiva deste governo foi, quer a redução do preço dos passes, quer o alargamento geográfico da sua área de validade. Está de parabéns o presente governo por esta excelente medida! É uma medida eleitorialista? É, mas tal não é incompatível com o facto de ser uma boa medida, ou seja, o eleitorialismo e a qualidade das medidas não são disjuntivos. Além disso, tem um custo residual para o Tesouro Público e substancialmente inferior a toda a panóplia de medidas que serviu apenas para enfiar capital pelo ânus do funcionário público mediano (este governo aumentou a despesa primária em 5 mil milhões de euros, e a medida dos passes custa apenas cerca de 150 milhões, 33 vezes menos), todavia tendo um efeito bem mais sistémico, quer no sistema de transportes, no ambiente, quer nas famílias realmente com dificuldades financeiras. Recorde-se que o funcionário público médio está longe de ser pobre para os padrões de vida em Portugal, e diria até que a maioria usa carro particular. Pode-se afirmar que esta foi a única medida verdadeiramente socialista deste governo, no sentido nobre e não prostituído do termo; termo esse prostituído a que o partido, dito socialista, já nos habituou a todos.

Em relação à questão que muitos evocaram, do aumento da procura que provocará, teoricamente, a necessidade de maior investimento no sistema, tal é uma falácia. A Carris transporta apenas em média 16 passageiros por autocarro (cerca de 20% de taxa de ocupação), e a taxa de ocupação média da CP nos suburbanos ronda também cerca de 20%. Há por conseguinte uma enorme capacidade para crescer na procura, que está largamente subaproveitada. Aliás, se a gestão fosse privada, há muito que esse potencial teria sido aproveitado (com yield management, por exemplo). Porque motivo andar de comboio ao domingo à noite, não é muito mais barato se o comboio vai praticamente vazio, considerando que os custos são exatamente os mesmos, quer vá vazio, quer vá cheio; considerando demais que a multiplicação obedece a uma propriedade comutativa, isto é, 20 passageiros a pagarem cada um, um euro, resulta na mesma receita que um passageiro a pagar 20 euros? Ademais, o estado não subsidia o passe individual, o estado subsidia o sistema como um todo. O sistema tem custos fixos que pouco variam em função da procura, ou seja, o gasóleo não é mais barato se o autocarro for vazio e os salários do pessoal não variam com a taxa de ocupação dos comboios e dos autocarros. Os transportes públicos não funcionam on demand, têm horários semanais tabelados e executam-se tais horários haja procura ou não haja. Os custos fixos pouco variam com a procura, a não ser que haja uma procura massiva, o que é muito pouco provável. Havendo mais procura com esta medida, pode acontecer, realço pode, que o défice da medida seja muito inferior ao agora orçamentado. Admito todavia que em horas de ponta, por exemplo, na Linha de Sintra, possa ter de haver algum reforço, mas será algo certamente pontual.

Preocupa-me contudo seriamente as futuras greves, caso haja muito aumento da procura. Com o aumento da procura, aumenta também o poder de chantagem da matilha sindical afeta ao PCP no seio dos transportes coletivos, considerando que muito mais gente ficará dependente das suas "lutas" e respetivas reivindicações salariais, o que significa que poderá acontecer que o estado canalize fundos, não para o aumento da qualidade do serviço prestado ao utente, mas para despesas com pessoal e respetivas regalias. Aliás, foi exatamente o que sucedeu ao longo deste governo com os serviços públicos em geral: a carga fiscal aumentou para saciar as regalias salariais do funcionalismo, e todavia a qualidade dos serviços públicos prestados aos cidadãos piorou!

Transportes públicos: congratulo o presente governo


Quero veementemente congratular o presente governo de Portugal no corrente ano de 2019, por, nas regiões metropolitanas de Lisboa e do Porto, ter introduzido e simplificado o sistema de passes sociais, fazendo assim com que a mobilidade em transporte coletivo de passageiros da maioria dos cidadãos nessas áreas metropolitas, seja financeiramente mais acessível.

De facto, considero que esta é das poucas, e diria mesmo única, medidas positivas do presente governo, sendo que tem um rácio custo-benefício inigualável, e por certo, muito superior à reposição dos salários na função pública ou à devolução de rendimentos. Não só porque não afeta positivamente apenas os cerca de 5% de portugueses que trabalham para o estado, ou seja, os funcionários públicos, a quem foi dirigida praticamente toda a política e finanças públicas deste governo, como porque o custo associado é residual. Compare-se os cerca de 150 milhões de euros desta medida, com os alegados 600 milhões de euros que custaria apenas a contabilização total dos anos de carreira dos professores, já para não mencionar as centenas de milhões de euros que custou o descongelamento das progressões nas carreiras na função pública.

Um governo não deve apenas governar para a função pública, contudo, tem sido, de facto, essa a função primordial de quase todos os governos de esquerda em Portugal desde 1974. Tal acontece porque os governos de esquerda têm medo da rua, porque a rua, na clássica mitologia de esquerda, representa o povo, sendo que a função pública tem mecanismos de ação e movimentação coletiva muito mais bem organizados e estruturados de que os trabalhadores do sector privado, cujos movimentos coletivos estão fragmentados.

Além disso a presente medida; ao contrário das restantes que mais não fizeram que reverter as medidas do governo anterior, ou que se limitaram a devolver rendimentos acentuando a despesa pública e a carga fiscal, a mais alta desde que há registos; é verdadeiramente estrutural. Aliás, aqui na Holanda há apenas um passe único nacional, nem sequer é municipal. Com o mesmo passe posso andar em todo o território holandês.

As 9 grandes vantagens dos transportes públicos


Os Transportes Coletivos de Passageiros; termo técnico para aquilo que comummente se denomina por “transporte público”, visto que um táxi ou um uber também são transportes públicos; têm as seguintes vantagens.

1. Ajudam a diminuir o trânsito rodoviário, visto ocuparem muito menor espaço por passageiro-km transportado.

Quando analisamos a capacidade de corredor, ou seja, a capacidade que certos meios de transporte têm para fazerem "fluir" passageiros, reparamos que os transportes públicos conseguem fazer fluir passageiros de uma forma muito mais eficiente que o automóvel particular, tal como pode ser visto no seguinte gráfico, ou na imagem comparativa seguinte que é muito mais intuitiva.

2. Ao ocuparem menos espaço na via por passageiro-km, a sua utilização massiva permite alocar espaço público, não para rodovia e alcatrão, mas para mais espaços verdes, praças públicas e outros espaços de lazer, ou mesmo edificado para habitação.




3. Reduzem a emissão de poluentes atmosféricos, visto terem emissões de poluentes por passageiro-km muito mais baixas que os outros veículos privados, como automóveis ou mesmo motociclos.

4. Ajudam a resolver a questão relacionada com o aquecimento global, visto que emitem por passageiro-km muito menos CO2 (os transportes são dos principais emissores de gases com efeito de estufa).


5. Os transportes coletivos de passageiros são energeticamente mais eficientes, ou seja, têm consumos energéticos por passageiro-km muito mais baixos que os demais veículos privados.


6. Os transportes coletivos de passageiros são mais seguros, ou seja, têm índices de fatalidades por passageiro-km mais baixos que os demais veículos privados.

De acordo com o Eurostat, é 28 vezes mais seguro andar de comboio do que andar de carro particular; sendo que é 10 vezes mais seguro andar de autocarro do que andar de carro particular; quando analisamos as fatalidades por passageiro-km.


7. Emitem menores índices de poluição sonora por passageiro-km.

8. Ao evitarem o uso massivo do automóvel, reduzem as taxas de motorização de um país, libertando espaço público alocado a estacionamento (96% do tempo de vida útil de um carro, este está parado e imóvel).



9. Ao serem energeticamente mais eficientes, ajudam a economia de países que são dependentes do petróleo, considerando que a maioria dos automóveis ainda se move a derivados do petróleo, e a grande maioria dos países do mundo tem défices comerciais de produtos petrolíferos, reduzindo assim a dependência energética.

De acordo com a Agência Europeia do Ambiente, em Portugal, 36% de toda a energia é consumida nos transportes, leia-se, praticamente automóvel particular devido à ineficiência dos motores de combustão e devido à baixa taxa de ocupação dos referidos veículos automóveis particulares. Os transportes consomem mais que a indústria ou a habitação, contrariamente a muitos outros países europeus.




O Euro beneficiou essencialmente pensionistas e assalariados


No dia em que António Costa diz que o Euro foi um bónus à economia alemã, como se a Alemanha antes de 2002 tivesse sido um país desindustrializado e economicamente febril, interessa mencionar o seguinte: O valor que o salário mínimo real tem em 2017 (€535, acerto IPC, base 2011), é 26 porcento superior ao valor real que tinha em 2002 (€424, acerto IPC, base 2011), data da entrada na moeda única; já o salário mínimo real em 2002 (€424), data da entrada na moeda única, é 21 porcento inferior ao valor real que tinha em 1975 (€535, IPC, base 2011). E qual a diferença entre estes dois períodos? A divisa! De referir que o índice IPC faz referência ao Índice de Preços ao Consumidor e tem em consideração o cabaz de produtos e serviços do cidadão médio. Logo, se há pessoas que mais beneficiaram com o Euro, indubitavelmente que foram os assalariados e pensionistas portugueses, devido à estabilidade da divisa. 

De facto, é interessante denotar que a esquerda junta-se ao patronato na questão do Euro. Que as saudades que o patronato e o estado têm da inflação. Os professores protestam, os sindicalistas esperneiam e os enfermeiros aglomeram-se? Faça-lhes a vontade, diria Mário Soares ao Governador, que o Banco de Portugal imprime mais umas notas. A título de exemplo, para que possamos observar as maravilhas que o Escudo fazia pela "paz social", consideremos o ano de 1984. Em 1984 os aumentos salariais foram de 15% (viva o socialismo!), mas a inflação nesse mesmo ano, que o INE só contabilizou no ano seguinte foi de 30% (não digam nada a ninguém que ignorância é felicidade e o mais importante mesmo é a paz social). Em relação à dívida, que de facto aumentou substancialmente no governo Sócrates, fomos nós voluntariamente, que perante o crédito barato proporcionado pelo Euro, a contraímos. Ninguém nos impôs a dívida! Contraímo-la voluntariamente!

Nepotismo e incompetência


Recentemente deu que falar o facto de Mariana Vieira da Silva ter sido apontada como ministra do presente governo, considerando que o seu pai, José António Vieira da Silva, também já fazia parte do governo. Surgiram imediatamente críticas referindo que estamos perante um caso típico de nepotismo, tendo do outro lado da "barricada" surgido as contra-críticas fazendo referência à alegada competência da referida nova ministra, considerando o argumento magno de que o mais importante é, de facto, a competência. E é, mas Mariana da Silva está longe do o ser para o cargo em questão!

Mariana Vieira da Silva irá liderar o ministério da Modernização Administrativa, repita-se, "modernização" administrativa, algo como "coisas modernas" e tecnologia, Internet, dados na nuvem e infraestruturas tecnológicas, assim como aplicações do estado na relação com o cidadão, fazendo uso a título de exemplo, de telefones ditos inteligentes. Este não é um tema somenos, e se há um legado positivo da era Sócrates, é o da modernização administrativa (eu não faço parte daqueles que acham que há diabos encarnados em Homo Sapiens; Sócrates levou o país à bancarrota, mas a sua governação também teve pontos positivos). Foi a modernização do estado, que, por exemplo, permitiu aumentar grandemente a eficácia da coleta fiscal, e permitiu simplificar a relação entre o estado e o cidadão em diversos domínios, desde a criação de empresas até à emissão de uma simples carta de condução. Todavia Mariana da Silva é formada não em tecnologia ou ciência, informática ou engenharia, mas em sociologia. Quais são as competências que uma socióloga detém para modernizar a administração pública nas suas relações com os cidadãos e as empresas? Acreditai que se algum um dia virmos um suíno sentado no conselho de ministros; e refirmo-me mesmo taxonomicamente às diferentes espécies de mamíferos bunodontes, artiodáctilos, não ruminantes da subordem dos suiformes a que pertence o porco doméstico; já ninguém se admirará! 

Muitos politólogos gostam de evocar o facto, de que o governo e os seus membros devem ser, essencialmente elementos com uma função puramente política, e desprovidos de qualquer conhecimento técnico, considerando ademais que caso os membros do governo tenham um conhecimento meramente técnico, gostam os referidos comentadores imediatamente de lhes atribuir o epíteto pejorativo de tecnocrata. Todavia desconsideram os próprios preceitos jurídico-constitucionais, mormente o artigo 199.º da Constituição da República. Na alínea a) do artigo 199.º da Constituição é nos referido que compete ao governo "elaborar os planos, com base nas leis das respetivas grandes opções, e fazê-los executar", sendo que a alínea c) do mesmo artigo refere que compete também ao governo "fazer os regulamentos necessários à boa execução das leis". Isto é, o governo é o órgão executivo do estado por excelência, e portanto, contrariamente ao Presidente da República, deve ter uma componente essencialmente técnica e não política. E todavia o que vemos é um conselho de ministro repleto de sociólogos, artistas, humanistas e advogados, liderados por um indivíduo que não sabe resolver uma regra três simples mas sabe elaborar uma suculenta cataplana de marisco. Conheceis alguma organização no mundo moderno, bem gerida e de sucesso, dirigida por advogados e sociólogos? Que o nosso Presidente da República seja um constitucionalista e tenha uma função quase exclusivamente política, é algo que prezo, e aliás, tal como nas monarquias, é uma função que considero que deve ser, de facto, exclusivamente política, sendo que Marcelo Rebelo de Sousa executa-a de uma forma sublime. Mas Portugal, ao contrário de França ou dos EUA, tem um regime semi-presidencialista, onde cabe ao governo, de acordo com a Constituição, ter uma função quase meramente executiva. E para executar qualquer tarefa não-instintiva ou não-primária, desde atar os atacadores dos sapatos, masturbar o parceiro sexual, até construir um vaivém espacial, são necessários, não ladainha e "conversa fiada", mas conhecimentos exclusivamente técnicos.

Em relação à questão do nepotismo, obviamente que não deve existir qualquer impedimento a qualquer familiar ou amigo de um membro do governo ou de qualquer partido, para que possa aceder a cargos públicos. Mas mais uma vez este é um argumento, que apesar de válido, provém de demagogos que gostam de nos fazer passar por mentecaptos. Qual a probabilidade para que um familiar de um membro do governo aceda ao conselho de ministros, num país com igualdade de oportunidades, considerando que há 10 milhões de portugueses residentes em Portugal, e apenas 18 lugares no conselho de ministros? Qual a probabilidade numa distribuição equilibrada? E se desconsideramos os menores de 18 anos, os reformados, e considerarmos apenas os adultos com formação superior? Ora há cerca de 1,6 milhões de portugueses com formação universitária superior completada. Qual a probabilidade de um destes indivíduos ter um lugar no conselho de ministros, numa distribuição equitativa? Dir-me-ão que nem todos terão as competências? A sério? Se uma socióloga pode liderar o ministério da Modernização Administrativa, e um advogado a administração interna, qualquer formado num curso superior, desde filologia até engenharia dos plásticos, tem capacidade para liderar um qualquer ministério! Ora vamos à matemática: a probabilidade de um evento é dada pelo número de casos favoráveis a dividir pelo número de casos possíveis. Desconsiderando o ministério para o efeito, a referida probabilidade (se as contas não me falham), dará algo como 0,001%. Ou seja, se não tivesse havido nenhum nepotismo, a probabilidade de Mariana Vieira da Silva ter ido para o governo, seria praticamente negligenciável. Foi para o governo porque é filha de quem é e porque é militante do partido de quem governa!