Daniel Oliveira vai às cerejas


Cherry picking é das falácias mais usadas na Política
Uma das falácias mais conhecidas na política e na ciência é a falácia da "verdade selecionada", ou seja, sem mentimos, dizemos apenas as verdades que corroboram as nossas ideias e os nossos interesses. Para nos apercebermos do enorme poder falacioso desta falácia, vejamos que se desconsiderarmos, no caso da astronomia, os conhecimentos que detemos sobre os restantes planetas e nos focarmos apenas nas verdades que temos sobre o percurso do sol em torno da terra, podemos afirmar que a teoria geocêntrica é a correta. Até Galileu ter descoberto as variações no brilho de Vénus com o auxílio de um telescópio, ou seja, até ter adicionado factos, ou seja verdades, ao conhecimento científico de então, a teoria geocêntrica tinha mais sustentação do que a heliocêntrica. Se omitirmos o que hoje sabemos desde então e nos cingirmos apenas ao conhecimento que a Humanidade tinha pela altura de Galileu, isto é, se selecionarmos as verdades, podemos afirmar categoricamente que a teoria geocêntrica é aquele que faz mais sentido. 

Outro exemplo mais corriqueiro para que o comum dos mortais o apreenda: se um marido tiver estado naquela noite com a amante, e ao chegar a casa a esposa lhe perguntar "por onde andaste?", e este responder "estive na casa do Manuel", o marido pode estar a ser completamente honesto com a esposa, mesmo que tenha estado a fazer sexo com a amante na casa que o Manuel lhe emprestou para o efeito. Em Inglês esta falácia toma um termo muito interessante, mais precisamente "cherry picking", ou seja, a apanha da cereja. Quem já foi para a apanha da cereja sabe perfeitamente que a tática para que o cabaz seja apresentável, é apanhar apenas as cerejas que estão em bom estado e negligenciar as que estão em mau estado. Quando um consumidor se depara com um cabaz de cerejas, raramente consegue distinguir a qualidade da apanha, ou se foi um bom ano ou um mau ano, exatamente porque quem as colhe, escolhe sempre apenas as que estão em bom estado. Na Política, e principalmente na Ciência, escolher as verdades convenientes e omitir as que não nos interessam, é das falácias mais perigosas, porque damos uma noção totalmente errada dos factos sem nunca necessitarmos de mentir.

E desta vez foi Daniel Oliveira que mais uma vez foi às cerejas, o que revela que é um indivíduo fortemente faccioso. Refere Daniel Oliveira muito exaltado, como se o tom da sua voz fosse proporcional à veracidade das suas afirmações, que Portugal é dos países com menos funcionários públicos em percentagem da população. E Daniel Oliveira tem razão. Portugal tem apenas 67 funcionários públicos por cada mil habitantes, enquanto a Noruega, por exemplo, tem 158. Portugal aparece, como é visível no seguinte gráfico, em sexto lugar a contar do fim.

Número de funcionários públicos por mil habitantes. Fonte.

O que Daniel Oliveira não nos diz, porque é a pessoa ideologicamente mais facciosa com notoriedade pública, é que os funcionários públicos portugueses são dos mais caros da Europa em função da riqueza que cada português produz, i.e. cada funcionário público custa 1,7 vezes o nosso PIB per capita, o quarto valor mais alto da UE.

Custo de cada funcionário público em relação ao PIB per capita. Fonte

E este de facto é o gráfico que interessa salientar, caso precisemos de escolher um dos dois acima. Ou seja, o que é me interessa, como cidadão e utente dos serviços, que haja muitos ou poucos funcionários públicos, considerando que a multiplicação obedece a uma propriedade comutativa, isto é, 100 funcionários públicos auferindo cada um 1000 euros resulta na mesma despesa que 1000 funcionários públicos auferindo cada um 100 euros? O que me interessa, de facto, como contribuinte e utente dos serviços públicos é saber quanto é que me custam os funcionários públicos em relação aos meus rendimentos, e qual a qualidade dos serviços públicos que me prestam (rácio input/output). Da mesma forma que, na maior parte dos casos para um consumidor, o mais importante é o rácio qualidade/preço.

Estamos em ano de eleições, e por coincidência, também na época da apanha das cerejas. Bom apetite! E já sabeis, se quereis conhecer a qualidade da apanha, ide à cerejeira e não vos fiqueis pelo cabaz de supermercado!

Porca burguesia motorizada


Quem é mais "porco-javardo"?
Aquele que polui o ar matando ou aquele que defeca no chão?
A psicologia evolutiva ajuda a explicar os paradoxos para os epítetos mais ofensivos no que concerne à salubridade de cada um e à sua relação com os outros, considerando que o Homo Sapiens é um animal grupal. Façamos este exercício teórico e hipotético: caso o caro leitor observasse um seu concidadão a defecar no espaço público no meio de uma praça, diria de imediato naturalmente como pessoa de bem, que o indivíduo não passaria de um "porco javardo"! Chamaria as autoridades e o infrator seria julgado em conformidade. O mesmo se passaria para quem urina na rua ou escarra sobre o passeio. Não passam de "porcos javardos", diria o prezado leitor. Mas porquê, cientificamente falando? Porque os dejectos fecais, urinais ou nasais de estranhos, desde tempos remotos durante a evolução dos hominídeos, ou mesmo dos mamíferos, sempre foram extremamente severos para a saúde, pois contêm toda uma série de microorganismos e bactérias extremamente prejudiciais para o ser humano. Aliás, até ao advento das cidades modernas e respetivos sistemas de saneamento básico, muita gente morria devido a toda uma série de patologias relacionadas com os dejectos. É natural, pois, considerando a evolução por seleção natural, a mesma que seleciona os mais aptos e não os mais fortes (selection of the fittest) que tenhamos guardado repulsa instintiva contra qualquer tipo de dejectos humanos, principalmente de estranhos.

Contudo os anacronismos antropoevolutivos são de facto fantásticos, pois temos instintivamente muito mais repulsa por dejectos fecais de estranhos, do que propriamente por cianeto, monóxido de carbono ou dejectos radioactivos. O próprio Freud dedica grande parte do seu estudo aos paradoxos do nojo, referindo por exemplo que um homem não tem nojo em beijar na boca uma melhor jovem e bonita, mas tem nojo em lamber o seu aparelho dentário caso esta use um. Temos mais nojo e repulsa por dejectos humanos de estranhos, do que temos por dejectos de automóveis ou centrais nucleares. Temos muito mais nojo das fezes do vizinho, do que temos dos gases que saem do seu velho automóvel a gasóleo; e se no paleolítico os primeiros eram letais, hoje em dia são os segundos que são letais. Assim, faço uma pergunta sincera ao leitor: preferiria ingerir 10 kg de fezes provenientes de 20 sem-abrigos com a respetiva lenta degustação, ou 1 kg de cianeto, considerando que consta que a ingestão de uma dose de 0,5 a 1 mg de cianeto é suficiente para matar instantaneamente um adulto? É por isso que sempre disse que um automobilista, por muito que não o sintamos, não passa de um porco burguês motorizado, porque polui o ar que todos respiramos. O paradoxo é que a referida poluição automóvel não se vê, não causa nojo nem repulsa, mas causa muitas mortes, mesmo milhares de mortes anuais apenas em Portugal. Vejamos, por exemplo, esta excelente reportagem televisiva que nos indica que vários automobilistas removem o filtro de partículas dos carros a gasóleo, para assim poupar alguns milhares de euros; mas contudo contribuem para que terceiros contraiam diversas patologias como cancro do pulmão, asma crónica, diabetes ou até mesmo demência. Apenas em 2017 morreram 3540 pessoas devido à poluição atmosférica em Portugal.

Afinal, quem é o porco javardo? O que pega no volante ou o que escarra no chão?

Internet vs redes sociais


Há muita gente que comete o erro comum de confundir redes sociais, que indubitavelmente alavancam o efeito de manada na turba ao qual a psicologia evolutiva dedica grande parte do seu estudo, com Internet em geral, onde há plataformas onde reinam a civilidade e urbanidade no debate público e onde qualquer trol ou grunho são imediatamente expulsos. Alguns bons exemplos são sítios que usam as plataformas Discourse ou Disqus.

A Internet é o espelho aumentado, libertário e freudiano da sociedade: tem crime, prostituição, pedofilia, proselitismo, devassa, cultura, mecenato, solidariedade, informação, ciência, saber, arte, cinema, terrorismo, pornografia, bricolagem, programação ou economia. Enfim, estão na Internet desde as coisas mais nobres até às mais terríveis que o Homem alguma vez concebeu. Desde a maior enciclopédia alguma vez redigida e coligida cujo acervo e rigor ultrapassa em muitos milhões de caracteres o acervo da biblioteca de Alexandria, até aos vídeos de ódio e decapitações ao vivo mais desprezíveis e horrendos do estado islâmico. A Humanidade é a mesma, o Homem o mesmo, do reino animal, do filo dos cordados, da classe dos mamíferos, da ordem dos primatas e da família hominídea, e portanto não há nem desilusão nem deslumbramento perante a raça humana. Há sim que aproveitar as maravilhas que a tecnologia providencia para os atos mais mundanos, como requerer um táxi até ao local exato onde nos encontramos. Ou ainda usar a Internet para os atos que a Humanidade civilizada considera desde há muito nobres, como a educação, a arte ou a cultura, e assim vermos um bom documentário no YouTube ou encomendarmos um bom livro na Amazon. 

Da alegada pseudociência em torno do programa do PAN


Recentemente um artigo do Observador com vasta repercussão criticava acerrimamente o partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) por este ser alegadamente promotor das pseudociências, na questão do receio que a opinião pública tem aos produtos transgénicos e na questão das medicinas ditas alternativas. Não conheço o programa total do PAN, mas se atacam os produtos transgénicos dececionam-me, pois normalmente esses ataques vêm de gente desinformada, considerando que desde o Neolítico que o Homem, através de seleção artificial, escolhe certas características de produtos agrícolas e animais, que surgem através de mutações genéticas durante a concepção e a que chamamos seleção artificial. Um porco é, evolutivamente, um javali cujos genes associados ao pelo foram suprimidos através de seleção artificial. O mesmo para a maioria das frutas e legumes que comemos hoje, ou nunca pensaram porque motivo as bananas já perderam caroços, ou seja, as sementes essenciais a qualquer árvore de fruto para que se possa reproduzir?

Em relação às terapias ditas alternativas, pela literatura que tenho lido e por experiência própria, apesar de não serem eficazes para a maioria das patologias, como obviamente as oncológicas, são sempre inofensivas. Ademais há estudos de entidades renomeadas e idóneas, no caso das patologias do foro psíquico como a depressão, que referem que, por exemplo o Ioga, tem efeitos psiconeuronais positivos, na medida que reduz os níveis de estresse e ansiedade, sendo que é prática médica, com o conluio das farmacêuticas, exagerar na prescrição deste tipo de fármacos anti-depressivos. Em qualquer caso deverá caber sempre ao médico, e não à classe política, decidir a terapêutica indicada para cada doente.

E também é óbvio que o programa do PAN ultrapassa e muito estas duas questões. Os partidos do sistema demonstram um total desprezo por causas ambientais, vede a título de exemplo o recente caso do novo aeroporto da margem sul cujo programa de impacto ambiental foi rotundamente ignorado, ou como Sócrates autorizou, enquanto ministro do ambiente, uma enorme Catedral do Consumo em plena reserva de proteção ambiental em Alcochete, ou ainda o conluio com a indústria automóvel e o greewashing respetivo na promoção de carros "mais verdes", quando os transportes públicos são muito mais ecológicos que quaisquer veículos particulares, independentemente da sua propulsão, considerando que é extremamente ineficiente alocar a força de 90 cavalos para puxar uma pessoa mais uma tonelada de metal. Nunca se questionaram que, quer o comboio, quer o elétrico, quer o metropolitano são também veículos elétricos? E porque não vemos o marketing agressivo em torno destes veículos, como vemos nos carros de 100 mil euros da Tesla? E se comer frutas e legumes é, como todos os estudos apontam, muito mais saudável que comer hambúrgueres ou batatas fritas, porque não vemos o marketing agressivo em torno dos primeiros como vemos nos segundos? 

Não nego que não haja alguma pseudociência associada a certos ideários do PAN, mas negar que vivemos numa sociedade desenhada para sermos mal alimentados, com excesso de gorduras animais, carnes e fritos, e que gasta milhares de milhões por ano posteriormente em saúde num ciclo vicioso de crescimento económico, é negar as evidências. Vede o caso dos EUA, que é o país que de longe gasta mais dinheiro per capita em saúde, sendo que o cidadão comum tem uma esperança média de vida e uma qualidade de vida miseráveis para um país Ocidental. E antes das questões ideológica, tal deve-se a práticas alimentares completamente insalubres e irracionais. Não; não quero controlar o que cada um enfia pelo esófago, faço apenas, tal como Aristóteles postulou, Política!