Os antieuropeístas xenófobos são, taxonomicamente, nacional-socialistas


À luz dos critérios taxonómicos da Ciência Política,
o partido de Geert Wilders, o PVV, é considerado
um partido de centro ao longo do eixo esquerda-direita.
Já Marine Le Pen é claramente de esquerda. 
Um dos erros comuns da elite política portuguesa, assim como de muitas pessoas que opinam no espaço público, é considerar que os movimentos políticos extremistas na Europa, que têm um discurso marcadamente xenófobo e antieuropeísta, são de extrema-direita. Tal não poderia ser mais enganador. Lemos Rui Tavares no jornal Público ou vemos Francisco Louçã no seu espaço de comentário televisivo a criticar estes movimentos, alegadamente de extrema-direita, para assim, estando lá longe no outro extremo, se distanciarem desse tipo de movimentos político-partidários que promovem a xenofobia e a intolerância perante os estrangeiros ou certo tipo de minorias religiosas.

Todavia, é preciso enquadrar politicamente estes movimentos à luz de critérios científicos o mais rigorosos quanto possível, dentro da ciência política. Reduzir um certo ideal a um eixo ideológico esquerda-direita, é além de redutor, cientificamente incorreto tal a complexidade do ideário dos partidos na atualidade. A noção de esquerda e direita no espectro político surge com a revolução francesa, quando os representantes da sociedade, na recém-criada assembleia republicana, se dividiam em função do estrato da sociedade. Do lado esquerdo sentavam-se os representantes do povo e do lado direito os representantes da aristocracia. Desde então tendeu-se a associar que a esquerda teria uma maior comiseração e solidariedade perante os mais pobres e que a direita teria uma visão mais centrada na economia ou nos detentores do capital. Mas à luz dos pressupostos históricos contemporâneos do século XX, é fácil encontrar alguns regimes tirânicos que se enquadram em dipolos opostos no eixo político esquerda-direita, tal como o estalinismo ou o fascismo. Estes dois regimes, além de estarem em dipolos ideológicos opostos, eram militarmente inimigos; mas ambos tinham algo em comum, nos dois funcionava um regime tirânico onde as liberdades individuais dos cidadãos, como de pensamento, de livre associação ou de movimento, não eram respeitadas pelo estado.

Percebemos com o caso anterior, que é necessário estabelecer um segundo eixo político, que mensura não só a influência que o estado deve ter na economia da sociedade, mas também o quão liberal ou conservador se deve ser nos costumes ou na forma como o estado lida com o cidadão. Além disso, mesmo nesta análise politicamente o mais imparcial possível, muitas vezes a forma como os partidos lidam com o antieuropeísmo ou com a xenofobia, não está propriamente bem enquadrada na taxonomia político-ideológica. Ou seja, um partido pode ser enquadrado em qualquer ponto no espectro político-ideológico e todavia ter ou não ter uma visão xenófoba ou intolerante perante o estrangeiro. Mas há um padrão claro, parece-me. Em todos estes movimentos protecionistas e antieuropeístas na Europa, de facto, se quisermos ser cientificamente rigorosos com referência à Ciência Política, denotamos que estes partidos, como de Marine Le Pen na França ou de Geert Wilders na Holanda, não são de extrema-direita, são de facto, nacional-socialistas. Muitas das propostas da Frente Nacional em França são exatamente iguais ou mais ousadas ainda que as da extrema-esquerda, como o controlo do banco central, a redução da idade da reforma para os 55 anos, o aumento substancial dos salários na função pública ou a redução do horário de trabalho para as 30 horas por semana. A Frente Nacional não é de extrema-direita, é totalmente incorreto do ponto de vista taxonómico, assim categorizá-la. A Frente Nacional de Marine Le Pen é marcadamente antiliberal, protecionista e com uma visão em que deve ser o estado a ter controlo hegemónico na economia e na política monetária, podendo-se assim afirmar, e tal não o é afirmado publicamente pois além de ser ilegal é politicamente incorreto, que a Frente Nacional tem um ideário marcadamente nacional-socialista. É isso que estes partidos antieuropeístas normalmente são: nacional-socialistas. Defendem um estado muito presente na economia e na vida dos cidadãos, estado que supostamente redistribui diversos apoios sociais a nacionais, e ao mesmo tempo com um ideário de ideologia marcadamente nacionalista e xenófoba. 

Logo, no plano político-ideológico com dois eixos, em que no horizontal temos esquerda-direita, sendo a esquerda defensora de políticas com maior presença do estado e a direita defensora de maior soberania financeira dos cidadãos em questões fiscais e económicas; e no plano vertical o eixo que define a vertente conservadora-liberal, podemos, se quisermos ser rigorosos, dizer que Wilders ou Le Pen, são de centro ou mesmo de esquerda, mas com um visão mais conservadora da sociedade. Ou seja, lamento desiludir as pessoas de esquerda, mas ideologicamente falando, os extremistas xenófobos que temos visto ascender na Europa não são de extrema-direita, muitas vezes são de centro ou de extrema-esquerda, o que os distingue dos demais partidos, não é o eixo da esquerda-direita, mas o eixo do liberalismo-conservadorismo. Neste aspeto há claramente um denominador comum em todos estes movimentos, e esse denominador comum é o populismo. E o populismo consegue ser maximizado numa ideologia que busque o que há de mais populista em todo o espectro político. Assim, estes movimentos nacional-socialistas, tal como o seu original nazi, obtêm quer ideais da extrema-esquerda na noção de que o estado deve servir de garante social para todos os cidadãos nacionais independentemente das suas ações ou produtividade, quer ideais do nacionalismo xenófobo, protecionista e intolerante à diferença. É esta mescla populista e pouco racional, de maximizar junto das massas o populismo em todas as frentes ideológicas, que definiu o nacional-socialismo e que define estes movimentos antieuropeístas.

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