A razão psicoevolutiva e social para a Imaculada Conceição


O dogma, a fábula e o embuste

Filosófica, sociológica e cientificamente há três terminologias que podemos adotar para a crença cristã na Imaculada Conceição. A primeira terminologia é o dogma, imposto Papa Pio IX em 1854, em sua bula Ineffabilis Deus, sendo que todavia essa crença já era aceite pela comunidade cristã muito antes do século XIX. Como qualquer dogma, é uma crença sobre a qual não se debate nem se discute, é aquilo que comummente se denomina por matéria tabu. Do ponto de vista sociológico, é uma fábula cristã, como tantas outras fábulas em tantas outras culturas religiosas ou pagãs, mesmo existentes na modernidade, como o Pai Natal (Papai Noel) ou a estória das cegonhas que trazem os bebés. As fábulas são excelentes mecanismos sociológicos para que a grande maioria da população, cientificamente iletrada, possa compreender de forma simplista, alguns fenómenos naturais ou biológicos. Aliás, para tal compreender, basta ler sobre como; de acordo com as mitologias greco-romana, nórdica, egípcia ou da Mesopotâmia; a Terra se formou, o Homem foi criado, ou porque motivo o sol nasce diariamente. O Homem precisa de ter explicações para os fenómenos naturais, e quando não sabe, especula. Quando não tem à sua disposição, ou não quer ter, ferramentas cientificas que o ajudam nessa análise, especula de acordo com as suas crenças e convicções. Como o cristão mediano não consegue sequer imaginar que Maria, a própria Mãe de Deus, de acordo com a Santíssima Trindade, copulou, ou seja, incorreu num ato sexual, a mitologia cristã adotou a prática de qualquer outra mitologia pagã, ou seja, como o próprio nome indica, criou um mito, o mito da imaculada conceição. Do ponto de vista político-científico, trata-se tão-somente de um embuste. Um embuste, do ponto de vista político, difere da burla ou da simples mentira, porque é extremamente bem orquestrado, está alargado na sociedade como sendo credível, tem aceitação por parte de muitas elites e pessoas com impacto mediático e tem muita obra publicada a seu respeito. Mas não deixa de, do ponto de vista científico, ser apenas um embuste.

O motivo psicoevolutivo para o embuste

Através da evolução, para evitar o incesto que é prejudicial à espécie, e moldado pela seleção sexual e natural, pois as crias de incesto têm por vezes problemas congénitos graves, a nossa mente, através da psicologia evolutiva, faz do sexo dos nossos familiares mais próximos (pais e irmãos, normalmente), matéria tabu. Consegue o caro leitor mesmo imaginar como foi concebido? Refiro-me propriamente à cena física da cópula! Custa-lhe, intelectualmente, mentalizar-se sobre tal ato sexual, porque lhe causa natural repugnância psicológica, sendo que essa repugnância, como tantos outros sentimentos primários, não advém dos lobos frontais, mas do sistema límbico. Essa repugnância foi o resultado da evolução para evitar o nefasto incesto, visto que, como explicado, as relações incestuosas resultaram em indivíduos menos aptos. A seleção natural e sexual escolhe os mais aptos (aptidão ou fitness) e não os mais fortes, como erradamente se possa julgar.

Logo, sendo Maria a mãe de Jesus e concebida pelo Espírito Santo, é compreensível que a Santíssima Trindade represente a própria familia cristã: em primeiro lugar o Pai, em segundo o Filho, e em terceiro Aquele que concebeu o Filho, ou seja, o Espírito Santo não esquecendo que foi Maria também quem O "concebeu". E por conseguinte é impensável para a comunidade cristã, imaginar que Maria, "a sua mãe", ou "avó", visto que Jesus e o Pai são a mesma entidade metafísica, tivesse efetuado um ato sexual para que pudesse gerar Cristo. Da mesma forma que é inconcebível para o leitor, imaginar que a sua mãe copulou para que tivesse nascido. E mais inconcebível é para si caro leitor, imaginar como a sua avó concebeu para que a sua mãe ou pai tivessem nascido, porque no caso de um parente direto em segunda geração, há uma dupla repulsa psicológica, ou seja, a repulsa do incesto e a repulsa sexual por indivíduos mais velhos (esta que também tem origens na seleção sexual, visto as pessoas mais velhas são menos fecundas ou mesmo inférteis).

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