Goucha e o paradoxo da tolerância


Uma sociedade tolerante não pode tolerar os intolerantes sob pena de se tornar ela toda intolerante. Chama-se paradoxo da tolerância e foi estipulado por Karl Popper em 1945, no volume 1 do seu livro A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos. Popper escrevia, obviamente, após ter presenciado os horrores e intolerâncias da Segunda Grande Guerra, não esquecendo que na República de Weimar, que durou poucos anos, vigorava uma democracia liberal.

Façamos, adicionalmente, este exercício teórico e hipotético, em nome da alegada liberdade de expressão e da defesa de ideias "polémicas e diferentes", que Goucha diz defender. Estaria Goucha disposto a convidar para o seu programa, sob o pretexto da liberdade de expressão, um membro fanático do Estado Islâmico, cujas atividades lúdicas incluem, a título de exemplo, o lançamento de homossexuais do topo de edifícios? O dito membro do Estado Islâmico explicar-nos-ia, ao vivo e a cores, porque motivo odeia homossexuais e os considera pessoas execráveis possuídas pelo demónio, e então, à luz de uma interpretação rigorosa dos textos alegadamente sagrados, descrever-nos-ia com detalhe e minúcia, como os tortura e lança do topo de edifícios. Tudo, obviamente, em horário nobre e sob a égide da defesa de ideias "polémicas e diferentes". Será a comparação exagerada? Claro que é! Contudo, recordemos que Mário Machado esteve envolvido num homicídio de um indivíduo cujo único "pecado" era ter cor diferente da padronizada.

Clara Ferreira Alves refere-nos, ademais, num dos seus programas televisivos, que, como os liberais estão numa crise aguda e em fase de contrição e desespero, consideram que é absorvendo todo o lixo indiferenciado de qualquer fanático ou facínora, que recuperarão o apoio popular contra os anátemas de esquerda relacionados com a liberdade de expressão, e contra toda a demagogia populista a que a esquerda já nos habituou, mormente nas questões económicas e das finanças públicas. Bolsonaro é um caso clarividente desse paradoxo, considerando que o seu partido é exatamente o partido social-liberal. Todavia, todo o programa político de Bolsnoro, excetuando a parte económica, baseia-se em princípios anti-liberais, contras as minorias não padronizadas, e uma devoção iliberal e irracional a igrejas evangélicas cristãs e a todos os seus dogmas. O liberalismo não é isto, senhores!

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