Os salários e o Euro - porque Catarina Martins tem parcialmente razão


A questão da moeda única é complexa, e abrange diversas matérias, mas um dos pontos que é extremamente importante debater são os rendimentos dos trabalhadores portugueses. A análise que farei poderá ser redutora, pois não tenho em consideração a variação do PIB, nem a recessão que entretanto houve em toda a Europa, todavia apresento dados interessantes de serem observados.

Fui aos dados do PORDATA referentes ao ganho médio dos trabalhadores portugueses, e converti esses dados para preços constantes, considerando o índice do preço ao consumidor, ou seja, os valores já descontados da inflação com referência ao consumidor. Após coligir esses dados referentes aos rendimentos, calculei as suas variações anuais do ponto de vista percentual. Os dados são extremamente interessantes, e aparentam demonstrar, que o fator monetário aquando do Escudo, mesmo desconsiderando a inflação, parecia ter algum fator positivo para o aumento salarial real dos trabalhadores portugueses. 


No gráfico acima vemos a percentagem de variação anual dos salários, ou seja da remuneração base e do ganho mensal médio. O ganho mensal (a laranja escuro) é o montante que o empregado recebe de facto todos os meses, sendo que para além da remuneração de base (a azul), inclui outras remunerações pagas pelo empregador, como horas extra, subsídio de férias ou prémios. É fácil constatar que a variação é negativa após 2010, constatando-se que mesmo os trabalhadores que permaneceram com o seu trabalho, perderam rendimentos. Reparemos ainda que os aumentos salariais dos anos 1990 tendem a ser superiores aos da década seguinte. De salientar que os dados estão a preços constantes, ou seja, descontando o efeito da inflação.


Constata-se então que na década pré-Euro, o aumento real anual dos trabalhadores foi cerca de 2,5% enquanto na década pós-Euro esse valor baixou para 1,5%. No meu entender há vários factores para que tal tenha acontecido. Por um lado houve, a par com a média da UE, decréscimo do PIB. Por outro lado, e no meu entender o mais importante, os consumidores ao ficarem mais ricos, pois obtiveram uma moeda mais forte, tiveram acesso mais fácil ao crédito, sem que tal se repercutisse em maior produtividade. Reparai por exemplo no parque automóvel do país, cujos valores obtive de duas fontes, o Eurostat e a ACAP, e constata-se que o padrão pós-Euro é inconfundível.

Parque automóvel de Portugal. Fonte: Eurostat

Parque automóvel de Portugal (a azul). Fonte: ACAP

Concluo, que ao termos ficado mais ricos com a moeda única, o país preferiu adotar uma política que estimulou o consumo privado à custa de dívida. Em acréscimo esse aumento do poder de compra, foi em muitos casos usado para adquirir veículos automóveis, e outros bens importados tendo agravado fortemente a balança de pagamentos do país. Os veículos automóveis têm um problema acrescido visto que endividam o país não apenas aquando da sua aquisição, mas também na sua locomoção, visto que 99% dos transportes em Portugal se locomovem a derivados do petróleo, matéria prima que não é endógena e precisa de ser importada na sua quase totalidade.

Caso a classe governativa não saiba tomar políticas macroeconómicas corretas, sapientes e estruturais, e caso os eleitores se deixem enveredar por promessas eleitoralistas que apenas aumentam os encargos do Estado, muito provavelmente os presságios de Catarina Martins tornam-se corretos, e Portugal terá de deixar a moeda única e regressar ao Escudo, para assim poder emitir moeda e cumprir com os seus compromissos financeiros, como salários e pensões. Baixando o poder de compra em relação aos produtos importados e baixando por conseguinte também os rendimentos em relação ao exterior, o país fica de ponto de vista macroeconómico mais competitivo. 

A análise anterior tem em consideração o Índice de Preço do Consumidor (IPC), ou seja, torna a análise coerente na medida que compara o ganho médio dos trabalhadores, com o índice que tem em conta o preço de um cabaz de produtos e serviços, muito comum por parte dos consumidores nacionais. De acordo com o Infopédia, o IPC tem como objetivo medir as alterações no custo de vida dos consumidores, ou seja, o valor que estes têm de gastar ao longo do tempo para manter um determinado nível de vida. Constata-se, que de certa forma a esquerda tem parcialmente razão, pois desde a entrada na moeda única, a variação salarial foi em média mais baixa, tendo já em consideração o custo de vida de um cidadão comum.

Pessoalmente todavia continuo a ser defensor da moeda única, pois dá-nos o livre arbítrio, tendo mais poder de compra em relação ao exterior, de poder fazer escolhas mais produtivas, tendo cada um de nós todavia de ser mais racional no momento de contrair crédito ou de consumir. Eu por exemplo, fiz a minha escolha enquanto consumidor e cidadão, pois desde há quatro anos, que não tenho automóvel, não contribuindo para o défice externo e usando esses rendimentos em produtos e serviços que são endógenos à Europa.

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