Do Ruanda, do imperialismo e da antropometria


Tive hoje a oportunidade de ver o filme Hotel Ruanda, e não pude deixar de ficar chocado com os eventos que recordei, pois lembro-me de os ter observado na televisão, tinha eu cerca de catorze anos. Tendo eu hoje uma maturidade intelectual mais formada, tal permite-me compreender uma série de fenómenos e de estabelecer uma série de raciocínios muito mais elaborados.

Do imperialismo americano

O caso do genocídio do Ruanda, onde se estima que tenham sido exterminadas cerca de um milhão de pessoas, essencialmente Tutsis, atacados pela maioria Hutu, demonstra que a política externa americana é hediondamente hipócrita e repugnante. Lembremo-nos deste genocídio, onde quase um milhão de pessoas foram barbaramente assassinadas, quando os líderes americanos evocarem motivos civilizacionais ou democráticos, para efetuarem qualquer tipo de intervenção militar, quando os mesmos líderes da polícia do mundo, ficaram impávidos e serenos perante este massacre. Nada que espante um pensador, que há muito que constatou, que o único fator que demove os líderes americanos para intervir militarmente, é o petróleo ou a hegemonia económica, como ficou bem claro pelas duas intervenções militares na quinta maior reserva de petróleo do mundo, o Iraque. De recordar ainda, que no Ruanda a ONU tinha uma autorização formal para manter a paz, enquanto no Iraque tal não aconteceu, mas parece que as resolução das Nações Unidas nunca foram nem fatores dissuasores nem motivadores, para as diversas intervenções dos estados unidos da américa.

Da antropometria que distingue os Hutu dos Tutsi

Da esquerda para a direita: Tutsi, Hutu e Twa

Durante a conferência de Berlim de 1884-85, o Ruanda foi atribuído à potência colonial alemã. Os colonialistas, convencidos erradamente que os Tutsi tinham migrado para o Ruanda, vindos da Etiópia, julgaram que estes eram mais caucasianos que os Hutu. Assim sendo, a administração alemã acentuou a diferença racial, colocando nas administrações do país elementos de etnia Tutsi, para poder melhor controlar o país, sem grandes necessidades de intervenção militar. Quando a Alemanha perdeu a primeira grande guerra, perdeu também todos os seus territórios em África e o Ruanda passou para a administração belga. Por essa altura, os belgas começaram a identificar os habitantes, sendo que no documento de identificação constava também a etnia. A distinção era feita, através de métodos antropométricos, onde se media, entre outros elementos, a largura do nariz, sendo que os narizes mais largos eram atribuídos aos Hutus, e também por essa mesma razão, os primeiros colonizadores, julgaram que os Hutu teriam menos ascendência caucasiana.

Mas o mais estranho, é que muitas vezes nem os próprios ruandeses conseguem distinguir uns dos outros, tendo hoje em dia praticamente a mesma língua e a mesma cultura. Este duplo exemplo imperial, por um lado pela história negra do imperialismo colonialista europeu do séc. XIX e XX, e por outro lado do imperialismo neo-colonial americano, demonstram, que qualquer tipo de imperialismo, militar ou económico, são perversos e desumanos. Os europeus etiquetaram os indígenas, para os poder controlar e assim controlar a região, alavancando mais tarde clivagens raciais, que o comum dos ruandeses muitas vezes não distingue. Por outro lado, o imperialismo americano neocolonial, que intervém militarmente sempre que lhe aprouver e os seus interesses económicos estiverem em causa, nada fez com referência ao genocídio do Ruanda. Os números do genocídio do Ruanda, demonstram-nos que o imperialismo moderno, intervencionista a la carte, é muito mais letal para a Humanidade do que o foram todos os colonialismos europeus.

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