Dos mais fracos e da psicologia evolutiva


No artigo Da xenofobia e psicologia evolutiva, e da teoria dos conjuntos explico, à luz das ciências computacionais, porque motivo a xenofobia foi eficiente e positiva do ponto de vista cognitivo, para o Homo Sapiens, durante o paleolítico. Já na segunda parte do artigo Da imigração económica, da xenofobia e da psicologia evolutiva, explico porque motivo a imigração levanta tantos medos primários na turba. Já no artigo A origem e o anacronismo do medo explico porque motivo o medo, na maior parte dos casos, não só é anacrónico e inútil na sociedade pós-moderna e civilizada, como também é perigoso, pois conduz os países à guerra e à miséria. Todavia interessa também explicar porque motivo a turba também demonstra indignação perante os apoios dados aos mais fracos e menos capazes. Um caso interessante onde a psicologia evolutiva também ajuda a explicar a irracionalidade da turba, no que concerne à indignação, está no apoio que o estado social providencia aos mais fracos e vulneráveis. Na tribo paleolítica, que era essencialmente nómada, os fracos e vulneráveis eram simplesmente abatidos ou deixados para morrer.  Yuval Noah Harari, no seu livro Sapiens, capítulo 3, explica-nos que nas comunidades do grupo indígena Aché, do Paraguai, havia relatos de homens a executarem familiares mais velhos por estes serem débeis, e a executarem mesmo crianças que não cumprissem os requisitos aparentes de saúde e vigor. Não nos podemos esquecer que até ao advento da agricultura há dez mil anos com a revolução do Neolítico, o Homem era essencialmente nómada, por isso, a solidariedade era muito selectiva e apenas perante aqueles, da mesma etnia, em que havia uma hipótese clara de recuperação para que pudessem ser um ativo, caso contrário, se o indivíduo fosse um fardo para o avanço da tribo na procura por recursos, era abatido ou simplesmente deixado a morrer perante a fome ou predadores. Harari refere-nos que aplicar os nossos padrões morais à época em questão é completamente anacrónico, referindo mesmo que tais atitudes são congéneres, com a devida adaptação temporal, às práticas modernas do aborto ou da eutanásia, que muitos encaram como eticamente aceitáveis, pois visam, pelo menos de forma clara no primeiro caso, o bem estar da sociedade como um todo em detrimento da vida de um indivíduo a quem não reconhecemos a humanidade. 

Para as tribos nómadas sem quaisquer recursos médicos ou alimentares que não sejam aqueles providenciados pela natureza, indivíduos com pouco vigor ou debilitados, seriam um fardo que seria necessário descartar, sob pena de colocar em perigo todo o grupo. Interessante ainda notar, aponta o autor no capítulo 1, que há registos fósseis em que o Homem de Neandertal, muito provavelmente exterminado pelo Homo Sapiens, cuidava dos seus pares debilitados (há registos de fósseis de Neandertais com problemas precoces de locomoção e que sobreviveram até idade avançada). Todavia o Homo Sapiens, por ter um estilo mais nómada, era mais pragmático e agressivo; pois não só dispensava com facilidade os indivíduos débeis, como apresentava extrema agressividade perante membros de outras tribos, o que ajuda a explicar os fenómenos de xenofobia e os populismos a si associados. Foram esses os indivíduos selecionados, e por isso mesmo estamos hoje nós aqui, e não os Neandertais. Há que esclarecer todavia que o processo de agressividade e de total desprezo pelos débeis não surge perante decisões racionais, tal como quando um facínora ordena a execução de prisioneiros de guerra; mas através de processos evolutivos por seleção natural; isto é, perante a variabilidade genética providenciada por mutações genéticas ocorridas no ato da conceção, sobreviveram aqueles que apresentavam não só, maior desprezo por débeis, como maior agressividade perante alienígenas. A seleção natural escolhe os mais aptos e não os mais fortes, até porque não há evidências que os Neandertais fossem mais fracos fisicamente que os Sapiens. Foi por conseguinte uma clara vantagem evolutiva para o grupo, apresentar não só um desprezo por débeis (repare-se como o Sapiens civilizado faz um esforço cívico para demonstrar caridade perante pessoas com clara e manifesta deficiência mental, porque primariamente, "despreza-as"), como foi uma vantagem evolutiva demonstrar agressividade coletiva perante alienígenas, pois num mundo onde as tribos eram nómadas e se guerreavam, a coesão da tribo e a sua reação imediata eram fundamentais para a sua sobrevivência.

No ano de 2019, vejamos este exemplo provindo da República Portuguesa. O estado gasta anualmente com o Rendimento Social de Inserção, que visa apoiar os pobres dos mais pobres, cerca de 340 milhões de euros. Todavia o mesmo estado, no mesmo período, gasta com juros da dívida pública, que servem para alimentar os credores com quem a república se andou a endividar, cerca de 5 mil milhões de euros, cerca de 15 vezes mais. Falamos apensa de juros, ou seja, não falamos no pagamento do valor inicialmente creditado, mas apenas da parte dos juros. E todavia a turba, não só não se indigna com o valor que paga em juros, como se indigna profundamente com todas as notícias relacionadas com o rendimento social de inserção ou similares. Estes rendimentos não só servem para pagar a pessoas com muitas dificuldades financeiras e por isso, muitas vezes, débeis ou "inúteis" na aceção paleolítica do termo, como em acréscimo muitos desses indivíduos são de grupos minoritários, como, por exemplo, da etnia cigana. Temos então uma dupla aversão psicoevolutiva, o desprezo por "inúteis" e o repúdio por alienígenas. Os populistas não percebem nada de psicologia evolutiva, mas sabem, por experiência histórica, que estes temas instigam na turba, no seu sistema límbico, os sentimentos mais primários que lhes providenciam os respetivos dividendos eleitorais. Vejamos outro exemplo: a poluição do ar mata em Portugal, apontam as estimativas, cerca de 15 mil pessoas por ano. Repita-se: 15 mil mortes provocadas em Portugal pela inalação de partículas finas e outros poluentes, apenas em 2015. Junte-se-lhe os atropelamentos mortais e os sinistros rodoviários e temos uma cifra de cerca de 16 mil mortes anuais provocadas, em grande maioria, por automóveis. Isto sem considerar as mortes indiretas devido ao sedentarismo. Caso os muçulmanos matassem 1% desse valor, isto é, 160 portugueses por ano, haveria imediatamente um levantamento popular e a turba iria a correr votar nos fascistas; e que ninguém tenha dúvidas que tal ocorreria! O que demonstra de forma clarividente, como referi noutro artigo, que não há sentimento mais anacrónico e perigoso, no que concerne ao sentimento da turba, que o medo coletivo.

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