O Alfarrabista



Fico deveras perplexo quando observo um alfarrabista. Alfarrabista deriva provavelmente de Alfama, bairro vizinho da Madragoa e da Mouraria. A Mouraria que acolhia os mouros antes e depois da reconquista de Lisboa por parte de Afonso Henriques no ano do Senhor de 1147, tornou-se no bairro do fado e do descontentamento lusitano. Os gritos aflitos das canções dos moçárabes conquistados terá dado origem ao fado triste e melancólico. Os mouros foram subjugados e tendo de viver a sua vida religiosa no sigilo e na obscuridade. Os seus ensinamentos sufistas ancestrais não desvaneceram perante a nova ordem Cristã, está equívocado quem assim o pense, por seu lado os mesmos ensinamentos dos crescentes meridionais venerados pela península arábica, tornaram-se latentes e intensamente subtis. Surgiu assim uma nova geração de ordens secretas que encontrava em Roma o grande inimigo, encontrava no santo cristianismo o arqui-inimigo despótico sanguinário que os haviam destronado em Lisboa em 1147. Foram estas mesmas ordens secretas, fruto do secretismo dos ensinamentos dos mouros reconquistados que deu origem à maçonaria irregular moderna, tão profusa e poderosa nos países mediterrânicos da Europa, os mesmos que foram ocupados pelo mudo Islâmico em meados do século sétimo.

O alfarrabista representa isso mesmo, a cultura do saber sufista, que é transmitida quase clandestinamente e de forma obscura, para que as poderosas ordens regentes não se apercebam deste oculto saber. O termo alfarrabista tem o prefixo que representa o artigo definido na lingua Árabe. 

4 comentários:

  1. Caro amigo
    Passei aqui pelo teu Blog para ver as últimas. Continuas em boa produção literária!
    Aqui vai uma partilha: já há uns anos no Liceu onde estudei, não esqueço, foi-me ensinado que Alfarrabista, pessoa que vende Alfarrábios (livros velhos), deriva do termo Al-Farabi que era um filósofo árabe medieval. Talvez por, como dizem, o sujeito ser velho e chato, ficou associado a livros velhos e considerados por alguns como maçudos. Será verdade? Talvez, mas o dito filósofo, na realidade, existiu, e o seu nome foi mesmo associado a livros velhos. Esta tem piada.
    Quanto a Alfama, esta descobri eu porque gosto de investigar os étimos, deriva do árabe al-hamma que significa um local de fontes ou de banhos. Talvez em Alfama, antes do nosso Rei Fundador, ter expulsado de lá os árabes à espadalhada, fosse um local onde os árabes se fossem banhar. Aliás, aqui para nós, bom costume que os portugueses não tiveram durante séculos e que só para os finais do Séc XIX, dizem, se começou a incentivar entre nós!
    João Carlos

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  2. Caro amigo João
    Obrigado pelas informações utilíssimas referentes aos étimos dos termos de origem Árabe. Talvez a definição que referiste para alfarrabista reitere aquilo que refiro pois existe uma filosofia sufista e moura, por sua vez, esta proveniente da Árabe, num alfarrabista. O homem que transmite o conhecimento de forma obscura e sigilosa ao profano que se quer iniciar...

    Grande abraço caro João

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  3. Cheguei a esse link pelo Google atrás de uma informação. Em outubro de 1970, quando eu tinha 17 anos, de súbito me transformei em um homenzinho musculoso, meio corcunda e muito baixinho. Descamisado e pés descalços, vestia uma calça xadrez entre marrom e verde, de um tecido semelhante ao cânhamo, onde uma perna da calça era menor do que a outra e ambas as pontas, o que chamamos de bainhas, eram desfiadas ou picotadas em meios losangos. No meu pé direito havia uma corrente e em sua extremidade uma bola de ferro. Eu senti que havia anos eu estava ali, era um campo de grama e terra e eu jogado ao chão, onde ficava batendo a mão direita e o pé esquerdo no chão com fortíssimo sentimento de arrependimento e culpa. Da minha boca somente saia a seguinte frase: eu fiquei abobalhado. Algo me diz que era Idade Média.paulo@flextel.com.br

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