A Metafísica do Verso


Faço das palavras a profecia
Faço das acções a Poesia
Faço da bondade a heresia
Sou o Poeta que ninguém seria

Pois sou Atila e sou uno
Sou o cavaleiro nocturno
Sou Cristão, sou o Huno
E perscruto o ego profundo

Há quem me chame de João
Há quem me chame de Sansão
De nascença sou Cristão
Sou eclético, sou o Islão

Sou o homem primordial
Sou o austral, o boreal
Não sou nada, sou sacral
Sou o mundo, Portugal

Sou Romano, sou católico
Sou protestante apostólico
Dos versos sou alcoólico
Sou viril, sou melancólico

Sou Mongol, conquistador
Recebo as palavras do criador
Faço-o com prazer e com dor
Aceitai os meus versos, Senhor

Sou Platónico, sou um traste
Mas nunca tu erraste?
Nunca me sonhaste?
Meu mel, foste o homem que abraçaste!

Sou Guilherme, o Inglês
O Poeta que te fez
O homem que pereceu em Fez?
Sou um nobre Português.

E Goethe, o Alemão
O Poeta da razão
O filósofo da paixão
Um aristocrata mação

Sou Bocage, sou Pessoa
Sou Camões que foi para Goa
Sou o Poeta de Lisboa
cujo verso te atordoa

Sou Bizâncio derrotada
Sou a freira estuprada
Sou Roma incendiada
Sou a Moira baptizada

De França, sou Bonaparte
Sou fútil, sou a Arte
Sou o Homem que irá beijar-te
Deus é todo, eu sou a parte

Sou Voltaire, iluminado
pelo Saber consagrado
Sou Bocage, sou o Sado
Sou o Tejo, o mar salgado

Sou Kafka, sou de Praga
Do Cristo sou a Chaga
Praguense que afaga
a metamorfoseada

Sou o Báltico, a lituana
Sou Vilna, a tirana
Sou o homem que ainda te ama
Das águas frias, sou a chama

Sou Mozart, iniciado
Maestro abençoado
No ritmo aperfeiçoado
Sou eu o austral cabo

Já viste quem fui eu?
Não fui nada, fui o breu
Fui o Cristo, o Apogeu
Fui Nazi, fui o Hebreu

Já viste quem eu sou?
Sou o Poeta que perdurou
Sou o Homem que iluminou
Sou a procurada bijou

Sou Platão e Aristóteles
Sou a República, sou Hipócrates
Sou o Homem que nunca fostes
Sou o falo triângulo isósceles

Sou a derivada parcial
Sou o Pi, o integral
Sou o número natural
Faço cálculo diferencial

Sou a Álgebra, sou Real
O cálculo fundamental
Sou Descartes racional
Sou Poeta e Portugal

Sou prostituta cristã
Sou uma reles mulher maçã
Sou moçárabe, sou Imã
Tomo por trás tua irmã

Sou impune, sou pueril
O menino que brinca no covil
Lisboa é o meu redil
Sou o filósofo do ardil

Sou quem te abraça meu amor
Sou quem te reitera o calor
Sou quem te retira a dor
Sou da Paz, um Criador

Sou aquele que te ama
Aquele que te endoidece
Sou a moira profana
A quem tu rogas a humilde prece

Sou quem tu anseias
Sou quem tu requeiras
Sou as másculas sereias
Sou Dido, sou Eneias

Sou Vénus e Afrodite
Sou renegado, sou Plutão
Não há ninguém que me imite
Sou quem te doira o coração

Sou a cátedra, o trono
O lente e o tutor
Sou discente, sou o aluno
Sou o Livro, sou Doutor

Sou a Palavra, a Eucaristia
Sou a abóbada muçulmana
Sou mulher, Santa Sofia
Sou só o homem que te ama

O Islão é feminino
O Crescente é a mulher
Vejo as curvas de menino
O regaço que me irá acolher

O Islão é tão mulher
O sufista profetizou
Será o Cristo, o melhor?
Alá e Deus, um Bem comum!

Deus é o Pai e Alá é a Mãe
Cristo é Messias, Maomé é Poeta
Buda é o Homem, é o profeta
A carne é terra, o Verso é Além

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