Repto ao mundo civilizado


O projeto europeu é um marco inigualável no velho continente. A história económica há muito que nos dita que comércio livre e livre circulação de pessoas sempre foram excelentes motores para o crescimento e prosperidade. As teorias antropoevolutivas mais recentes até referem que um dos motivos pelos quais o Homo Sapiens suplantou o Neandertal foi exatamente porque o primeiro, ao contrário do segundo, fazia trocas comerciais entre tribos diferentes partilhando tecnologia e recursos. E enquanto houver prosperidade haverá Paz, algo que apenas a UE conseguiu na Europa por mais de 70 anos desde o colapso do Império Romano do Ocidente. Quem tiver preconceitos contra a economia, pode ler a Paz Perpétua de Immanuel Kant, que está lá um repto a uma proto-UE implícita. Podem ler também Einstein, e o seu "Manifesto ao Mundo Civilizado" aquando da Primeira Grande Guerra, quando instou os povos da Europa para que criassem uma "Liga de Europeus" para que esta possa "fundir o continente num todo orgânico". E se é plenamente verdade que não há unidade orgânica sem solidariedade, também jamais houve solidariedade sem responsabilidade.

Défice público de alguns países da UE


Apresenta-se no gráfico seguinte, que é do Eurostat, os défices públicos da Alemanha, Irlanda, Grécia, Itália, Holanda e Portugal entre 2008 e 2019. É fácil de observar que durante e após a crise das dívidas soberanas houve países que tiveram as contas públicas mais equilibradas que outros. Em qualquer caso denota-se que a Itália teve sempre o seu défice minimamente controlado, todavia não aproveitou o período de crescimento económico para baixá-lo, tal como outros países fizeram, vede o caso da Irlanda (a azul) que baixou o seu défice consideravelmente desde que foi alvo de um resgate. Uma trajetória positiva semelhante aconteceu com Portugal, todavia, a países com uma dívida muito elevada, exigir-se-ia um esforço adicionar de redução de défice para que a dívida pudesse ter tomado valores mais aceitáveis, ou seja, na casa dos 60% do PIB tal como estava plasmado no tratado orçamental assinado por todos os estados-membros democraticamente eleitos.  


Medidas contra-cíclicas, clama a esquerda amnésica


Dívida Pública em % do PIB de alguns países do Euro. Fonte: Eurostat

O jornal Público refere que o norte da Europa está a gastar mais do que o sul na resposta à crise, mesmo já considerando despesa calculada em percentagem do PIB. A esquerda tem clamado, tal como aconteceu em 2011, por medidas contra-cíclicas, para desta forma estimular a economia e o consumo, e assim atenuar os efeitos negativos da crise. E fá-lo bem, pena todavia que a mesma esquerda padeça de uma amnésia e uma incoerência políticas de bradar aos céus. Recordemos que a Holanda tem uma dívida pública de 50% do PIB, a Alemanha tem 60% do PIB e a Finlândia 59% do PIB. Por outro lado, mais a sul, a Itália tem uma dívida pública de 134% do PIB, Portugal tem 120%, a Grécia tem 181% e Espanha 97% do PIB. Percebe-se facilmente porque motivo uns têm mais "margem para gastar" do que outros. Quando a economia expandia e a receita fiscal crescia substancialmente a cada ano, uns baixavam a dívida (a Holanda baixou a sua dívida pública de 70% do PIB em 2015 para 52% em 2018), outros mais a sul, locomovidos pela demagogia e populismo eleitoralista, "revertiam e redistribuíam". Porque motivo a esquerda apenas se lembra de aplicar medidas contra-cíclicas quando a crise aperta, e jamais se lembra de aplicar exatamente o mesmo princípio quando a economia cresce?

O Euro acentua as desigualdades entre emprego público e privado


Por vezes, como liberal que sou, também gostaria que não estivéssemos no Euro. As pessoas de esquerda ignorantes em economia e dependentes do estado, como alguns pensionistas e funcionários públicos, ignoram que é pelo facto de termos uma moeda forte, que lhes garante que não perdem poder de compra em tempos de crise. Todavia tal tem elevadas consequências para o setor privado, onde muitas pessoas passam a receber zero mensalmente com o aparecimento de crises económicas. O Euro acentua assim as desigualdades entre emprego público e privado. Pudéssemos nós desvalorizar a moeda com soberania monetária, e os dependentes do estado perderiam imenso poder de compra sem muito protesto social e sem imputar à economia privada um esforço considerável, melhorando assim a igualdade entre emprego público e privado e distribuindo o esforço de forma mais equilibrada entre os diversos setores da sociedade. Não esqueçamos que a soberania monetária é um excelente estabilizador automático para amortecer os impactos externos de uma crise, pois permite ao estado ajudar a economia com a impressão de moeda sem colocar em causa o equilíbrio das contas externas, pois com a consequente desvalorização cambial as exportações ficariam mais baratas e as importações mais caras. Com a impressão de moeda e consequente aumento da liquidez monetária, o governo poderia ajudar de forma muito mais robusta a economia, as empresas e os trabalhadores do setor privado que se encontram desempregados ou sem horário de trabalho. Claro que tal acarretaria desvalorização cambial, inflação e perda de poder compra real para as pessoas que têm rendimentos fixos e periodicamente garantidos, principalmente em relação aos produtos importados, sendo que estes compõem a grande maioria de produtos que os portugueses consomem (medicamentos, produtos eléctricos ou electrónicos, combustíveis, produtos agrícolas, veículos, etc.). Com a desvalorização cambial haveria mais equilíbrio e igualdade no esforço pedido à sociedade, pois os dependentes do estado perderiam poder de compra sem protestarem, e a economia privada teria apoios muito mais robustos. Este é mais um daqueles paradoxos sobre o qual qualquer pessoa de esquerda eurofóbica deveria reflectir.

E na função pública, não há lay-off em tempos de pandemia?


Quero deixar bem vincado que nestes tempos de pandemia valorizo muito, não o SNS em particular pois não passa de uma sigla, mas os médicos, os enferimeiros e todo o pessoal que tem auxiliado os enfermos a superar esta crise de saúde pública. Quem resolve os problemas são as pessoas, não as instituições per se, pois as segundas em última análise são compostas pelas primeiras. Contudo, e aí vem a adversativa, com a tele-escola precisamos mesmo de 150 mil professores? Não bastaria um por cada disciplina e ano lectivo, o melhor de todos, e depois para dúvidas usar-se-ia fóruns ou aulas de dúvidas, aliás como já acontece nas universidades com aulas teóricas e práticas? E os funcionários do estado que fazem atendimento ao público quando presentemente as repartições estão fechadas? E os auxiliares de educação, o que fazem com as escolas fechadas, auxiliam o professor no acesso à Internet? E os funcionários das cantinas escolares que não estão adjudicadas a empresas externas, estão a fazer comida para fora? E os funcionários da ASAE com os restaurantes fechados, inspecionam a higiene e segurança na casa dos portugueses? E os funcionários dos tribunais, auxiliam julgamentos por vídeo-conferência? E os funcionários do INEM quando houve um decréscimo acentuado no número de chamadas e ocorrências? E o parlamento com 1/3 dos deputados? Não há um único funcionário público em layoff, nem sequer apenas um. Quando perguntados os serviços o que estão a fazer nesta época de pandemia, dizem-nos imediatamente que "estão a fazer uma série de coisas úteis", tipo responder requerimentos por email em teletrabalho. Não seria da mais elementar racionalidade orçamental em época de pandemia, poupar recursos em áreas supérfluas do estado e alocá-los para os hospitais? Tivesse a Padaria Portuguesa o Orçamento de Estado a suportá-la, e os seus funcionários estariam todos na cozinha a fazer pão para fora ou a responder a dúvidas e requerimentos por email.

As euro-obrigações representariam uma enorme transferência de fundos do norte para o sul


A nossa esquerda política está para o dinheiro dos outros tal como as ninfomaníacas no cio estão para o sexo: insaciáveis. Ricardo Paes Mamede, um dos académicos sapientes que representa a esquerda em Portugal, referiu-se aos coronbonds como algo "simbólico". O académico é economista, mas a sua eurfobia patológica coloca o ideário à frente da matemática. Já nem me refiro sequer aos eurofóbicos "das humanidades" como Pacheco Pereira ou Daniel Oliveira, que falam do Euro ou da partilha das responsabilidades com uma ligeireza e um simplismo intelectuais que nem sequer merecem contemplação. Mas vamos às contas? É que o estado social, tão adorado pelos "humanistas", tal como sempre referiu Medina Carreira, não sobrevive sem o vil metal, até porque os médicos e professores, consta, jamais aceitarão receber o respetivo salário em sal.

Os eurobonds representariam uma transferência adicional de milhares de milhões de euros do norte para o sul, considerando o diferencial resultante nas taxas de juro. Os do sul passariam a pagar menos e os do norte passariam a pagar mais pelos juros, pois aplicar-se-á provavelmente uma média ponderada, considerando, por exemplo, que o PIB da Alemanha é 16 vezes superior ao de Portugal, e por conseguinte a influência da Alemanha em baixar as nossas taxas de juro é mutíssimo superior à nossa influência em aumentar as suas taxas de juro. Mas de quanto dinheiro falamos? Qual seria a folga adicional? É difícil de contabilizar, mas podemos imaginar o caso mais simples de um diferencial de 1% nas taxas de juro. Recordo que bastaria 1% de diferença nas taxas de juro, considerando a nossa dívida pública de 250mm€, para representarem cerca de 2,5 mil milhões a mais nas nossas contas públicas por ano. São 250 euros a mais por ano para cada português. Dá para construir dois grandes hospitais centrais por ano. Dá para aumentar 50€ em todas as pensões. É muito dinheiro! É desta grandeza de valores que estamos a falar quando se fala de eurobonds!

Atenção contudo que esta poupança nos juros não seria imediata, pois presume-se que tal só se aplicaria a nova dívida e não à dívida já contraída. Todavia seria este o nível de poupança a muito longo prazo. No seguinte gráfico que é do Eurostat vemos, respetivamente, as taxas de juro de Portugal e da Alemanha a longo prazo, ao longo de 2019, e reparamos que o diferencial é cerca de 1%. Não nos esqueçamos que a influência que a Alemanha teria em baixar as nossas taxas de juro seria muito superior àquela que teríamos em aumentar as suas, considerando que o seu PIB é 16 vezes superior ao nosso.

Taxas de juro a longo prazo, a verde Alemanha, a azul Portugal
Fonte: Eurostat

Além disso, a entrada no Euro já representou de certa forma uma mutualização da dívida, e para tal basta olharmos para as taxas de juro dos diferentes países antes e depois da entrada na moeda única, tal como é visível no gráfico seguinte. Aliás, foi esse abaixamento das taxas de juro que permitu que políticos despesistas e demagogos como Sócrates pudessem ter aumentado a nossa dívida pública para patamares nunca antes vistos, os tais patamares estratosféricos da dívida que a referida esquerda acusa o Euro de ser o vil responsável. Com os eurobonds o risco de despesismo seria novamente um problema, pois facilitaríamos novamente o crédito barato que nos faria certamente aumentar novamente as dívidas pública e privada.


É muito fácil pedir solidariedade aos holandeses na partilha de responsabilidades de uma dívida, quando a maioria dos portugueses jamais estaria disponível para ser fiador do seu melhor amigo.

The Greta Virus is finally working


The Greta Virus is finally working: consumerism has plummeted, pollution and Greenhouse Gases have significantly dropped, traffic casualties decreased dramatically and nature has risen in places often crowded by people. According to the same World Health Organisation that declared this virus a pandemic, more than 1 million people die yearly due to air pollution and more 1.3 million die due to traffic casualties. No, I am a full atheist and hence I don't believe either in the mumbo-jumbo which refers that the virus is a curse set upon Mankind for misbehaviour against the nature. Viruses exist already since the primordial of life wherein our fish-like ancestors had no opportunity to buy diesel SUV's. Nonetheless facts are facts. As long as the food production and food supply chain are not severely affected, the final net balance will be positive for Mankind, paradoxically! As Socrates used to say, the populace is a wild beast, and hence just general panic is able to hinder the thirst and the psychosexual desire for the next buy.

Alguns pontos sobre o coronavírus


Modelos matemáticos e epidemiológicos

Um modelo matemático extremamente eficaz para aferir o número de infectados numa determinada população limitada, denomina-se modelo SIR (Susceptíveis, Infectados, Recuperados) que se aplica nos modelos compartimentados em epidemiologia e cujas equações diferenciais são normalmente infalíveis para descrever a realidade. Estamos na fase de crescimento exponencial e até à inflexão da curva onde a segunda derivada é zero e a concavidade muda de sinal, isto é, a concavidade passa "a apontar para baixo", será cada vez pior. Em Itália já vai em mais de 4800 mortos à data que escrevo. Segurem-se bem, porque o pior está para vir "até ao alisamento da curva". A Matemática, se tivesse sido deusa helénica, teria tido esta faceta de se estar completamente a defecar para os sentimentos dos homens.
Modelo SIR;
a azul os Susceptíveis, a verde os Infectados, a vermelho os recuperados
Número de mortos em Itália e na China.
Número total de casos em Itália. Fonte: worldmeter
A curva italiana obedecerá a uma determinada dinâmica inercial e não há possibilidade de a mudar repentinamente. Os dados apontam para que esteja ainda na fase de aceleração, onde a concavidade da curva aponta para cima. Se repararem há um ponto na curva a verde, perto do ponto 13, no primeiro gráfico, onde a curva a verde começa a mudar de concavidade e a partir do qual a concavidade começa a apontar para baixo. Reparem que não me estou a referir ao máximo da curva, a partir do qual número de casos começa a decrescer, algures perto do ponto 20 na referida curva a verde. Refiro-me apenas à concavidade da curva, isto é, quando deixa de estar voltada para cima e passa a estar voltada para baixo, i.e., quando a taxa de crescimento começa a decrescer. Ainda nem sequer estamos nessa fase em Itália, pelo contrário, estamos ainda na fase de aceleração, onde as taxas de crescimento aumentam diariamente.

Os vírus no contexto do darwinismo

Os vírus são microorganismos que contêm uma membrana exterior e material genético no seu interior. Como não se conseguem multiplicar de forma autónoma ou entre si, senão por recurso à invasão da célula do hospedeiro, há quem nem sequer os considere como seres vivos. Contudo, a comunidade científica acredita que existem vírus desde que existe vida na Terra e certamente não são uma fenómeno recente. Há aliás um domínio científico extremamente recente denominado paleontovirologia que estuda, através de sobreposição de ADN de diversas espécies diferentes de hospedeiros mas com um ancestral comum conhecido, a origem de determinados tipos de vírus. E as conclusões é de que os vírus são extremamente antigos e remontam muito provavelmente às origens da vida, ou seja, há cerca de 540 milhões de anos quando formas de vida mais complexa surgiram com o início do Fanerozoico, muito provavelmente já existiriam vírus. Não digo que algumas hipóteses conspirativas não possam ter credibilidade, desde um acidente num laboratório até à elaboração do vírus como arma biológica. Digo apenas que os vírus sempre existiram desde que existe vida na Terra, e considerando a evolução por seleção natural, considerando demais que os vírus têm mutações extremamente céleres quando comparadas com as mutações dos hospedeiros, conseguem adaptar-se extremamente bem a novas circunstâncias e novos ambientes. Este vírus, o vírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2) tem espinhos proteicos que se agarram às células dos hospedeiros com elevada eficiência, mecanismo similar ao acoplamento usado no velcro. Ora é exatamente devido a estes espinhos que o vírus se tornou tão eficaz, e certamente o aparecimento dos referidos espinhos sucedeu devido a mutações genéticas aleatórias explicadas pela evolução por seleção natural, que, considerando o facto de serem eficazes a hospedarem-se nas células humanas, fez com que esta estirpe tivesse sido muito bem sucedida e por conseguinte se tivesse multiplicado. Enfim, darwinismo na mais elementar das acepções.

Das questões económico-financeira e ambiental

Qualquer pandemia acarreta problemas económicos, todavia considero interessante a forma como os europeus estão a encarar a questão. Na China, o problema foi encarado com manu militaris e os números dos infetados e das mortes compuseram-se. Na Europa, terra natal de revolucionários e contestatários, não se pensa noutra coisa que não pedir mais apoios ao estado. A Comissão Europeia já disse que as regras do défice não são para cumprir, mas ninguém nos envia cheques em branco, e por conseguinte, o que está implícito é exatamente mais défice o que implica, pelas mesmas regras matemáticas que atrás referi, mais dívida. E tal afectará ainda mais os países que já têm elevado endividamento, como Portugal e Itália. A introdução das euro-obrigações é uma excelente ideia, mas obviamente que tem riscos. Imaginem o que seria um Sócrates com o instrumento das euro-obrigações? Teria sido uma autêntica orgia de défice e dívida, em que uma parte teria sido mutualizada com os parceiros europeus, o que teria criado nas opiniões públicas dos países ricos um sentimento xenófobo muito mais acentuado e uma sensação muito mais vincada nessas opiniões públicas de uma transferência de capital dos mais ricos para os mais pobres.

Fonte: Eurostat e jornal Público
Portugal sofrerá indubitavelmente mais que a Alemanha ou a Holanda, pois é um país que depende largamente do turismo e do consumo, dos setores que sairão mais afetados. Não é altura para querelas político-ideológicas, mas muita gente avisou e alertou que a boa onda de consumo e de turismo que alimentava a estabilidade da Geringonça, na sua benevolência social, não iria durar para sempre. E não, não falo do diabo até porque sou ateu e não acredito em deidades nem em mitologia. Refiro-me simplesmente que os ciclos de expansão e de retracção na economia são isso mesmo, ciclos, e repetem-se devido a diversas e variadas circunstâncias. E a política seguida por este governo foi demasiadamente despesista e ousada na reversão de medidas do anterior executivo, e baseava-se essencialmente no bom desempenho dos indicadores económicos acima mencionados, ou seja, consumo e turismo, exatamente dos setores que poderão sair mais prejudicados com a recente pandemia. A Alemanha, que é um portento industrial, só depende do turismo em 1% do PIB, e a Irlanda, um dos países da UE com o maior PIB per capita, é o país em que o seu PIB menos depende do consumo.

Em qualquer caso, todas as crises são excelentes oportunidades para novos negócios e novos contextos. As ferramentas online de trabalho cooperativo disparam acentuadamente, as compras online dispararam na sua procura, os serviços postais estão a trabalhar como nunca e as vendas de comida para fora aumentaram substancialmente. Uma excelente oportunidade para investir nos CTT, na Amazon ou no Continente online. E demais o ambiente, é paradoxal dizê-lo, agradece! Muito fez Greta Thunberg, politicamente, para que baixássemos as nossas emissões de gases com efeito de estufa, mas as referidas emissões estavam intrinsecamente relacionadas com o consumo, e por muito eficiente que fosse tal consumo seria extremamente difícil diminuirmos as referidas emissões. Na China a poluição já foi reduzida em 25% e em Portugal o caminho será semelhante. Paradoxalmente o ambiente agradece ao coronavírus.

Imagens de satélite de Gases com Efeito de Estufa
antes e depois do início da pandemia. Fonte: NASA

Do abaixamento do IVA na eletricidade


Este governo, juntamente com o apoio da esquerda parlamentar, andou durante quatro anos a reverter as medidas do "vilão" Passos Coelho; com a reintrodução das 35 horas de horário semanal para os funcionários públicos; a descida do IVA na restauração, que basicamente apenas beneficiou os empresários do setor considerando que os preços ficaram inalterados; o descongelamento nas progressões das carreiras no setor público; o aumento extraordinário das pensões com a eliminação do factor de sustentabilidade, etc.; e na medida que de facto beneficiaria todos os portugueses e não apenas os mexilhões agarrados à rocha pública (consta que em Francês, mexilhão é sinónimo linguístico-cultural de parasita), como é o caso da redução do IVA na eletricidade, nem este governo, nem a esquerda "que governa para as pessoas", nem sequer a direita, conseguem fazer avançar a medida da redução do IVA na eletricidade. E a vossa sorte aí no sul é que o tempo é temperado na maior parte do ano, contudo, segundo um relatório da União Europeia, os portugueses são o povo o qual é-lhes mais difícil aquecer a casa e ter conforto energético durante o inverno. Tenho mais frio em Portugal quando vou aí no Natal, do que no pico do inverno aqui na Holanda.

António Costa, no seu clássico e inalterável otimismo cínico a que já nos habituou, delegou a aprovação da medida para os burocratas da União Europeia, sabendo de antemão com muita certeza que a medida seria chumbada por parte de Bruxelas, mais precisamente por parte do comité do IVA, considerando que por definição jurídico-fiscal, o IVA não é um imposto progressivo. Pode assim o governo transmitir a narrativa de que havia boa vontade política por parte do governo, mas que a medida apenas não avançou porque foi chumbada pelas mais altas instâncias europeias. É como aquele pai que fiz ao filho, que por ele até lhe comprava o automóvel, mas é a mãe que não deixa porque é muito caro. O exemplo do pai e do filho é sintomático porque é essa a missão da esquerda na Política, quer na sua ação quer na sua comunicação e propaganda, a total infantilização e estupidificação do eleitor.

O argumentário do equilíbrio das contas públicas também não colhe, porque apenas o descongelamento das carreiras do setor público cifrou-se em 564 milhões de euros entre 2018 e 2021, cifra que ficará doravante perene como despesa nas contas públicas. De acordo com informações veiculadas pelo próprio executivo, a medida tem associada uma despesa bruta de 1.039,5 milhões de euros entre 2018 e 2020 e uma receita de 447,4 milhões de euros em contribuições sociais e impostos devido ao aumento dos salários, pelo que o valor líquido da medida será de 592,1 milhões de euros nos três anos. Logo, como é óbvio, tratam-se de opções político-orçamentais, e como já se sabe, o governo fez as suas, e optou por beneficiar os mexilhões agarrados à rocha pública.

O único argumentário que é válido é do ambiente, considerando que pela lei económica da elasticidade preço na procura, a procura aumenta com o abaixamento do preço. Contudo, como já é sobejamente conhecido, os socialistas, os mesmo que advogam as medidas keynesianas e consumistas como motor do crescimento económico, têm tanto zelo pelo ambiente quanto as prostitutas têm pelo celibato. Os socialistas apresentam-nos sempre belos e idílicos argumentos ambientais, mas apenas, como retórica para legitimar o aumento de impostos, sendo que jamais nos apresentam tais medidas numa lógica de neutralidade fiscal. Em qualquer caso, se as pessoas mais execráveis e abomináveis como Adolf Hitler ou Bin Laden me apresentassem uma solução para uma equação diferencial ordinária, eu não refiriria que a mesma estaria errada apenas porque abomino o seu autor. Assim sendo, o argumentário socialista para a defesa do ambiente, como legitimação para o não abaixamento do IVA da eletricidade, é válido, considerando que uma grande parte da eletricidade ainda faz uso de energias de origem fóssil. Mas também consta que Cicciolina em Itália chegou a fazer palestras em escolas públicas para a promoção da educação sexual. Por isso, não incorramos na falácia ad hominem, ou neste caso, ad meretricis.

Mais um advogado para apodrecer a Política


O novo líder do CDS, a par com Paulo Portas, Lucas Pires e Assunção Cristas, é ele também, como não poderia deixar de ser no partido dos advogados, advogado. Os advogados, pela própria natureza profissional, pouco ou nada se preocupam com o conteúdo ou com os factos, mas apenas com as aparências e com a retórica, daí terem um enorme sucesso na Política e com as mulheres, pois são excelentes encantadores de corações, tal o ardil que empregam no discurso. Biológica e taxonomicamente, não fazem parte do filo dos cordados, isto é, não têm espinal medula, tanto podem hoje defender um princípio, como amanhã defender o princípio antagónico, considerando as circunstâncias e os interesses dos seus constituintes. No caso do CDS, o caso é demais gritante pois sempre foi dirigido por advogados, desde Freitas do Amaral, Francisco Lucas Pires, Assunção Cristas ou mesmo Paulo Portas. As suas figuras de relevo são todas advogadas, ou licenciadas em "direito", como Cecilia Meireles, Telmo Correia, João Almeida, José Helder do Amaral, Nuno Magalhães ou Pedro Mota Soares. Deve haver um pacto de partido, em que apenas se aceitam advogados no CDS. O opositor de Francisco Rodrigues dos Santos à liderança do CDS, João Almeida, é ele próprio também advogado. O que revela que o CDS é um partido que não tem qualquer credibilidade e que há muito que se vendeu aos grandes interesses dos escritórios de advogados que dominam o parlamento e os interesses económicos.

Na Prússia, terra natal de génios na Matemática e nas demais Ciências, a advocacia esteve proibida, pois considerava-se que a retórica não deveria imiscuir-se no Direito, sendo que os factos não deveriam ser adulterados pelo ardil. O advogado é um indivíduo, que apesar de se poder apresentar como cristão, como é o caso do CDS, não apresenta quaisquer nobres princípios da busca da Verdade, da Ciência ou dos Factos, mas apenas dos expedientes ardilosos e dilatórios para que consiga singrar numa audiência ou no parlamento. As leis em Portugal são feitas por advogados e para serem manuseadas por advogados; não são claras, não obedecem a critérios rigorosos e objetivos, tal como as leis semânticas de um programa de computador, pelo contrário, obedecem a critérios ambíguos para que os advogados, quando pagos para tal e em conformidade, possam manusear as leis e chafurdar na jurisprudência, para assim, obterem os respetivos dividendos financeiros e políticos. Os advogados na Política apodrecem o sistema, tal como é patente com António Costa. Não têm princípios, não têm visão estratégica, não têm rigor informativo ou científico, são por natureza incompetentes para entender qualquer assunto que envolva números ou matemática, não têm espírito crítico ou analítico, não passam, pois, de espécimes que se regem unicamente pela fachada da indumentária, da oratória e do ardil, aquilo que há de mais podre e moralmente miserável na raça humana, tentar convencer o outro não pela razão mas pela mera emoção. Os advogados são por isso excelentes manipulares da plebe, são, tal como Sócrates de Atenas referia, excelentes domadores de bestas de circo, sendo que a besta é a plebe. Poderíamos eventualmente referir que ser um excelente domador de besta de circo é uma virtude, mas não o é. Devemos valorizar mais o matemático, o filósofo, o cientista ou aquele que domina com destreza uma besta violenta, que conhece os seus caprichos e sabe quando e o que falar, consoante o seu estado irascível ou apaziguado?

O advogado corrói a Política, pois desprestigia-a, faz com que a Política desça ao nível mais medíocre dos soundbytes, das frases feitas, dos aforismos do twiter, onde o conteúdo racional é menorizado e onde a análise e a razão são desprestigiadas. Por isso, combater politicamente contra um advogado, é como lutar contra um suíno num chiqueiro intelectual. Reinam sempre os argumentos básicos, carregados de demagogia, emoção nacionalista, paternalista ou socialista, sendo que a ideologia, as ideias recheadas com conteúdo, são amiúde desprezadas. André Ventura líder do Chega não é advogado, mas formou-se no mesmo covil intelectual de onde saem os advogados, nas escolas que em vez de lecionarem que o Direito é uma Ciência, transmitem aos discentes que o Direito é todavia uma Arte, e por conseguinte, deve obedecer aos critérios estéticos, subjetivos e maleáveis de qualquer arte. Um dito professor universitário de um desses vespeiros que forma advogados terá dito a frase lapidar que define a própria raça: "tudo é defensável, basta argumentarmos"!

Porque a Bolt é melhor que a Uber


Com a Bolt fica quase sempre mais barato e sem surpresas,
ajudamos a economia da União Europeia
e ainda ajudamos os motoristas a serem menos taxados
Com a introdução e regulamentação dos denominados TVDE, sigla que significa de forma sucinta "Transporte individual e remunerado de passageiros em Veículos Descaracterizados a partir de plataforma Eletrónica”, surgiram no mercado nacional mais empresas a operar para além da Uber. Aliás, é esta a grande vantagem da concorrência de mercado em contraste com o monopólio preconizado pelos táxis, que além de terem tido o monopólio do transporte individual remunerado de passageiros, havia um número limitado de licenças impossibilitando a entrada de novos operadores. Com a introdução do quadro legal e regulamentar que possibilitou a utilização totalmente legal dos TVDE por parte dos consumidores, surgiram, naturalmente, como se requer numa economia de mercado sã, outros operadores. No presente caso operam em Lisboa e Porto: a Uber, a Bolt e a Kapten. De acordo com o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), já existem mais de 6900 motoristas certificados para transportar passageiros numa destas plataformas.

Por conseguinte, agora, como consumidores temos a liberdade de escolher a plataforma que mais nos convém em termos de conforto, acessibilidade e preço, e aquela com a qual nos identificamos caso sejamos consumidores com uma preocupação não meramente mercantilista na satisfação dos nossos interesses pessoais. É necessário realçar que os motoristas credenciados normalmente operam em todas as plataformas, e por conseguinte não há diferença na acessibilidade e tempo estimado de espera, visto que os motoristas têm todas as aplicações abertas nos seus telemóveis e aceitam os pedidos em conformidade. Tal é particularmente verdade para a dualidade Uber vs Bolt, visto que ambas têm na sua aplicação respetiva uma experiência para o utilizador muito boa e deveras similar. O mesmo já não acontece na Kapten.

Assim explico porque motivo agora, em Lisboa, para TVDE, só uso a Bolt. A Uber cobra 25% aos motoristas enquanto a Bolt só cobra 15%. A Bolt é unicamente europeia, mais precisamente da Estónia, enquanto a Uber é americana sendo que muitas das suas ações são detidas por sauditas. E mesmo assim, cobrando uma comissão mais baixa aos motoristas, a Bolt é mais barata que a Uber para o consumidor, pois o custo por km e por minuto é mais baixo na Bolt. Ademais, na Bolt o preço é definido à partida em função da origem e do destino, enquanto na Uber o sistema de pagamento funciona como um taxímetro, vai depender do trajeto e do tempo realmente efetuados. A Bolt, tal como a Uber, também tem carros totalmente eléctricos a operar consigo, e tal como na Uber, o preço é o mesmo em comparação com os carros com motor de combustão interna.

Conclusão: com a Bolt fica quase sempre mais barato e sem surpresas, ajudamos a economia da União Europeia e ainda ajudamos os motoristas a serem menos taxados pela plataforma. A aplicação da Bolt é tão funcional quanto o é a da Uber e em Lisboa a oferta é similar visto que os motoristas operam nas duas plataformas.

Morreu o Freud Lusitano


Fonte: Joana Bourgard/Público
Um grande homem que nos deixa, Carlos Amaral Dias, cujos programas ouvia amiúde na rádio. Todavia, como é que um psicanalista tão douto e sapiente, um marco na Psicanálise em Portugal, nunca largou esses funestos caralhinhos freudianos a que chamamos cigarros, e que servem apenas para nos saciar os lábios das felações e dos beijos acalorados e apaixonantes que nunca executámos? Porque motivo afinal o filtro dos cigarros é alaranjado, senão para simular cromaticamente a glande peniana? Poderia eventualmente ser de outra cor qualquer, considerando que se trata tão-somente de um mero filtro para gases? Falta de estímulos na boca, claramente que conduzem, inconscientemente, o indivíduo a saciar as necessidades psicanalíticas do foro oral por métodos socialmente aceites, entre os quais, os cigarros.

Só assim se explica também que as pessoas engordam quando deixam de fumar, considerando que a nicotina nem sequer é supressora do apetite. Que o comum dos mortais e medíocres (palavra não depreciativa que deriva da palavra mediana) não o enxergue, é normal, mas que o Freud Lusitano nunca se tenha apercebido que tal era somente uma necessidade psicanalítica saciada à custa da sua saúde pulmonar e cardiovascular, é deveras estranho. O próprio Freud, que faleceu com 83 anos, também morreu devido a um cancro oral prolongado devido ao excesso de utilização de charuto. Pelo menos o pai da Psicanálise, desta feita o vienense, não se contentou com qualquer diâmetro quando se tratava de saciar oralmente a líbido com falos ou estruturas similares, sendo que Freud recorreu sempre a portes muito mais robustos, leia-se sem eufemismos, pénis bem grossos, quando se tratava de colocar qualquer coisa na boca socialmente aceite.

O meu bem-amado avô, que nunca fumou, usava amiúde palitos na boca, muito para lá da mera necessidade pragmática e mecânica da remoção de restos alimentares situados algures entre os molares. Mas lá está, o porte delgado e quebradiço do palito de madeira não alcança a mesma saciedade que um gordo, cavernoso e espesso pénis, perdão, charuto. Assim, deixo a dica aos incautos e aos profanos: sempre que quiserdes colocar alguma coisa na boca, procurai a versão original que o Homo Sapiens utiliza desde o Paleolítico, utilizai pénis, polegares ou bocas de amantes. À frente dos outros usai pastilha elástica ou um palito o mais grosso possível. Consta que tais práticas não deixam vestígios oncológicos.

Do englobamento em sede de IRS


O englobamento faz sentido do ponto de vista da justiça fiscal, pois não é justo que rendimentos provenientes do trabalho sejam taxados de forma diferente e mais penalizadora daqueles provenientes de rendas prediais. O recurso a taxas liberatórias fez sentido historicamente pois havia fontes de rendimento que estavam sujeitas a anonimato, como por exemplo, rendimentos provenientes de jogos; ou ainda por motivos de simplificação fiscal, como por exemplo as taxas liberatórias aplicadas nos juros dos depósitos bancários, em que o imposto é retido imediatamente junto da entidade bancária considerando que o depositante recebe logo o valor líquido do dividendo. Neste ponto, portanto, o PCP tem plena razão, pois as taxas liberatórias ao taxarem de forma menos punitiva outras fontes de rendimento que não o trabalho, criam uma discriminação contras os rendimentos provenientes do trabalho. Diga-se que o contrário também sucede em favor do estado, i.e., se uma pessoa que aufira por exemplo o salário mínimo e que tenha rendimentos provenientes de capitas num depósito bancário, paga a taxa liberatória dos dividendos de capital independentemente dos seus baixos rendimentos, ou seja, neste caso ficaria a perder. Por conseguinte o englobamento obrigatório parece ser o modelo fiscal e socialmente mais justo.

Ademais, o exemplo dado pelo deputado da Iniciativa Liberal no Parlamento é da mais pura demagogia, pois ele falou de alguém que receberia 600 euros de salário mais 50 euros de renda, perfazendo 650 euros por mês de rendimentos, e neste caso esta pessoa estaria simplesmente isenta de pagar IRS, pois entraria no primeiro escalão em que há isenção do pagamento de imposto. Francisco Louçã, no seu espaço de comentário na SIC Notícias entrou também no seu nível típico de demagogia ao selecionar os factos, ignorando que neste momento os contribuintes saem sempre a ganhar, pois o englobamento é opcional, o que significa que as pessoas com poucos rendimentos já podem optar livremente pelo englobamento dos rendimentos prediais, caso essa opção lhes seja favorável.

Dito isto, os socialistas não enganam ninguém, pois são peritos a evocar bons princípios fiscais, sociais, ambientais, etc. mas o resultado final é sempre o mesmo: o aumento da carga fiscal. Eles jamais usam tais nobres princípios para fazer alterações fiscais numa ótica de neutralidade fiscal, i.e., eles podiam aumentar impostos num determinado setor em nome de "bons e nobres princípios" e depois baixar noutro setor em nome dos mesmos "bons e nobres princípios", ou seja, poderiam aplicar o englobamento obrigatório mas garantir que a receita total de IRS não se alteraria no referido exercício fiscal, aplicando o nobre e justo princípio da neutralidade fiscal. Mas não, jamais, um socialista adora evocar bons princípios sociais e ambientais com um único e simples propósito: aumentar a carga fiscal. Como sempre referi, tal prática socialista é extremamente nefasta para os bons princípios sociais e ambientais, pois envenena qualquer debate sério sobre o assunto e cria enormes anticorpos numa grande franja da sociedade contra qualquer tipo de medida fiscal com verdadeiros e nobres propósitos sociais ou ambientais.

O milagre das contas certas


O saldo estrutural compara as receitas e as despesas públicas sem considerar o ciclo económico nem ganhos ou perdas pontuais e não recorrentes. É como se no seu orçamento pessoal considerasse apenas as suas despesas fixas e o seu salário base fixo, e desconsiderasse algum subsídio ou ganho extras que possa ter recebido pontualmente, desconsiderando ainda alguma despesa extra inesperada. O saldo estrutural analisa, assim, apenas a  diferença entre as receitas e as despesas estruturais das administrações públicas, desconsiderando o ciclo económico e receitas ou despesas extraordinárias. O saldo estrutural primário baseia-se no mesmo princípio, mas desconsidera ainda pagamentos de juros da dívida pública, juros esses cujo valor o país não controla na plenitude, pois dependem essencialmente das políticas monetárias e de compra de ativos do Banco Central Europeu. Pode-se ver no gráfico acima, que é do Banco de Portugal, que o saldo estrutural primário praticamente não se alterou desde 2013, tendo de facto piorado desde 2012. O milagre das contas certas de Mário Centeno é, esmiuçadas as mesmas, um mero embuste político-mediático.

Deus foi ateu em 1755


O movimento ateísta internacional deu um enorme passo, poucos o sabem, com um fenómeno ocorrido em Lisboa em meados do século XVIII. Nessa maravilhosa manhã do dia 1 de Novembro de 1755, no dia de Todos-os-Santos, dos mais sagrados e relevantes para a cristandade, na mui devota e católica capital do reino português, um terramoto com magnitude de aproximadamente nove na escala de Richter, atinge a cidade de Lisboa. Os fiéis, por volta das nove horas e quarenta minutos da manhã, hora da ocorrência, estariam no culto dentro das igrejas e catedrais a orar ao Santíssimo lá no alto. Pois Deus todo-o-poderoso, o Omnipotente, das alturas, com tantos dias para escolher o Apocalipse, foi selecioná-lo logo no dia de todos os santos? Com tantos pontos no globo para arrasar e exterminar, porque não lançou Deus o caos e o dilúvio nas Arábias ou na Ásia, terras de hereges, ímpios e infiéis, e foi espoletá-los na mui crente e devota cidade de Lisboa? E no referido dia sacro, porque não estremecer o solo à tarde, hora do prazer e do ócio, considerando que a preguiça é pecado capital, e ativar o tremor de terra de manhã à hora da missa e do culto, no preciso momento em que os devotos a Si oravam? Assim, considerando que as igrejas e catedrais são os edifícios mais altos e pesados, pois são constituídos essencialmente de pedra, a matança e a carnificina tornaram-se "exemplarmente bíblicas" nos locais de culto, onde os devotos filhos oravam ao seu benévolo Pai. Voltaire, pois os locais nunca foram muito dados ao intelecto filosófico, perante tamanha tragédia postulou a verdadeira Oração, desta feita, lógica, ontológica e epistemológica, que fundou o ateísmo iluminista internacional contemporâneo: ou Deus não é omnipotente, ou se o é, é alguém muito macabro e perverso, tal como já postulava o paradoxo de Epicuro. Só alguém muito perverso e macabro tem prazer em ver sofrer aqueles que o amam. E se não é omnipotente, não é Deus, é pois apenas mais uma deidade "a la carte" como tantas outras, desde as da mitologia greco-romana às da mitologia nórdica.

Os tremores de terra são dos melhores argumentos para contestar a ideia impostora criada pelos homens da Idade do Bronze, de que existe um ser bondoso omnipotente nas alturas, que se interessa pelo bem-estar dos Homo Sapiens residentes neste rochedo chamado planeta Terra. Este planeta onde residimos está situado na zona habitável (zona de Goldilock, onde, por exemplo, a água toma o estado líquido) em torno de uma estrela mediana a que damos o nome de Sol, estrela essa situada numa galáxia com outras cem mil milhões de estrelas, de um Universo com outras cem mil milhões de galáxias. Já perdeu o fio à meada? Pois eu explico de forma mais terrena: há mais estrelas no Universo do que há grãos de areia em todos os desertos e todas as praias do nosso planeta; e querem-nos fazer crer os cristãos de que o Criador do Cosmos revestiu-se de Homo Sapiens há cerca de 2000 anos, cerca de 0,00005% do tempo desde que existe planeta Terra, para, na cruz, expiar os instintos primários da espécie reinante deste grão de areia? A própria noção antropocêntrica ou antropomórfica que a religião implica, manifestadas, por exemplo, no clássico geocentrismo, em santos e profetas ou em deuses com características e traços humanos, revelam que Freud tinha razão a propósito, isto é, o Homem é extremamente egocêntrico. A astronomia colocou o Homem no seu devido lugar, o que o obrigou a ser, coletivamente, aquilo que a religião, apesar de o apregoar nunca o foi verdadeiramente: humilde. Pelo contrário, a religião advoga a soberba e o narcisismo coletivos, a de que o Cosmos foi desenhado para nós, quando todas as evidências apontam em sentido contrário. E quando tomamos conhecimento, conscientemente, que somos coletivamente enquanto Humanidade, apenas um mero grão de areia num deserto, matematicamente falando, ficamos cientes que tal facto exige-nos a verdadeira humildade.

Quando se pergunta aos cristãos e demais crentes por que motivo Deus permite tanto sofrimento e miséria, dizem-nos amiúde que tal acontece, tal como postulou um devoto amigo meu, porque "Deus é um cavalheiro, só entra no coração dos Homens perante convite". Quando perguntamos por que motivo bebés inocentes morrem, quando o livre arbítrio é ainda inexistente, os mais radicais e infames referem que a culpa reside nos pecados dos pais. Os terramotos resolvem todo e qualquer problema teológico, pois ceifam castos e ímpios, debochadas e pueris, clérigos e plebeus, velhos e bebés, cristãos e muçulmanos, virgens e meretrizes, santos e pecadores. Os países cujos povos do Livro se dedicam mais às questões de fé para evitar os terramotos, como a Turquia, o México ou o Irão, têm amiúde tragédias nas suas cidades e edificado que levam à morte de milhares de inocentes. Já os povos laicos, que se baseiam na ciência e não em preces, como é o caso do povo japonês contemporâneo, conseguem lidar com o fenómeno dos terramotos de forma muito mais racional, salvando assim, milhares de vidas humanas. É que se Deus está nas alturas, será então o Diabo das suas catacumbas a agitar o movimento das placas tectónicas? E se assim o é, por que motivo o Diabo mata menos no laico e profano Japão, do que o faz nos devotos México e Irão? Demos graças a Deus por termos tido por Lisboa em 1755 o mação Sebastião José, mais conhecido por Marquês de Pombal, que, com técnicas construtivas bastante avançadas para a época, como a gaiola pombalina, apercebeu-se que para evitar tragédias futuras, mais do que uma questão de Fé, o país e o povo precisavam de um regente que se guiasse pela Ciência positivista, pela Lógica e pela Razão. Que assim o seja, ou seja, Amén!

On Dawkin's God Delusion


The atheist and evolutionary biologist Richard Dawkins wrote a very interesting book entitled God Delusion, in which, not only he refers by providing clear rational scientific reasoning that God does not exist, but also that religion is immoral and detrimental to the humanity, peace and world order. I agree with the prior and disagree with the latter. I am a Portuguese atheist and my nation has been fighting since eight centuries ago against the Spaniards on territorial disputes in homeland and overseas, and though we are two nations with exactly the same faith, Roman Catholics. Therefore it seems that religion is not the true cause for violence and aggression, it is just a surrogate or a proxy. The true cause relies on human nature and evolutionary psychology, as we evolved to be aggressive, that is, the selected individuals were the ones who presented higher aggressive groupal behaviour towards people from tribes different from them. On this subject it might be interesting to read about kin selection and Hamilton's rule, which in rough terms suggest that we tend to be evolutionary altruistic, but only to our relatives, that is, to those with whom we share a great amount of genes. Furthermore there was already violence before the existence of monotheistic or even polytheistic religions, much greater violence amongst Mankind. Indeed secular state gave a further civilised step removing religion from state affairs, but we cannot either deny that the greater horrors and genocides in the History of Mankind were perpetrated during the twentieth century when religion's influence had already dramatically diminished. More particularly, the two world wars, the holocaust, the atomic attacks on Hiroshima and Nagasaki, the gulags from Stalin or the Khmer Rouge in Cambodia, were phenomenons which had nothing to do with religious motivations, but rather secular or communistic ones. God does not exist, that is certain according to the most basic principles of reason, logic and science, and indeed there is an evolutionary explanation why we tend to believe in some supranatural anthropomorphic deity. Nonetheless I tend not to attribute such negative connotations and consequences on religion, since as the atheistic Freud referred, this non-existent mindful deity works also as a thoughts-reader punishing father that somehow lowers the probability of an individual to be prone to crime. Fear from an authority is a very powerful psychological means to prevent crime, specially if such authority is omnipotent, omnipresent and omniscient. Education is indeed and therefore the solution for us to get rid of this totalitarian authority, because the means to abolish this man-made Dictator rely on knowledge, term which in Latin gave birth to the word Science, and not on violence.

Salvini, o mero político


A religião sempre foi um meio para que déspotas e regentes assegurassem o poder, sob o pretexto de que possuíam um mandato divino para exercerem esse mesmo poder. Nas arcaicas guerras santas entre Cristandade e Islão, por muito que os devotos e os ignorantes soldados imaginassem que o que estava em causa era uma questão de fé, entre uma fé sacra com um mandato divino e outra ímpia e herege, na prática, as motivações para os confrontos bélicos resumiam-se a motivações muito mais terrenas, em particular em interesses geopolíticos e geoestratégicos. Quando o Papa Urbano II ordenou a primeira cruzada ao médio oriente, mais do que uma questão de fé, interessava sim canalizar toda o poderio bélico europeu para aumentar a área de influência da Igreja Católica, em vez de se andarem a digladiarem em disputas territoriais. Quando Maomé II, o Otomano, decide invadir Constantinopla em 1453, muito para lá das questões de fé; que de certo motivavam a plebe soldadesca muçulmana a matar os infiéis cristãos ortodoxos, sendo que estes últimos mais não faziam do que defender a sua ancestral cidade, que era sua desde o imperador Constantino; estava em causa uma questão geopolítica. Tanto assim o é, que mal é conquistada a cidade, a capital do império Otomano muda-se para a recém criada Istambul. Tanto que a questão de fé é uma questão menor nos confrontos geopolíticos e geoestratégicos, que tal nunca impediu que nações com a mesma fé se digladiassem, como aconteceu ao longo dos séculos entre os portugueses e os espanhóis, para não irmos mais longe; ou entre as diversas fações do Islão, pois não esqueçamos que quando os "soldados de Alá" não estão a fazer a Jiade estão a matar-se mutuamente.

A fé, é pois, uma procuração, um pretexto para que déspotas e monarcas exercessem o poder absoluto. Todavia a ausência de fé no estado também nunca impediu o despotismo e os interesses geopolíticos, tal como se manifestou de forma clara e sangrenta na União Soviética estalinista. Foram sim os princípios seculares, laicos, humanistas e iluministas que trouxeram os direitos civis, os direitos humanos, o estado de direito e o progresso científico aos estados modernos de cariz ocidental. O que muitos cristãos e islamofóbicos olvidam, é que o ocidente é civilizacionalmente superior às teocracias do médio oriente, não devido à sua matriz cristã, mas devido unicamente aos seus princípios iluministas, e quanto muito, devido à epistemologia que herdou da Grécia clássica. Caso a Europa não tivesse vivido o Iluminismo, estaria hoje por certo tão ou mais atrasada que qualquer país do médio oriente. Aliás, durante a idade média, os árabes eram em muitos domínios muito mais sábios que os europeus, pois criaram a álgebra, a alquimia e desenvolveram largamente a aritmética e a astronomia, para dar alguns exemplos.

Mas poderiam eventualmente os regentes manifestamente cristãos, apesar dos perigos que advêm da mescla entre estado e religião, fazerem uso de alguns dos nobres e humanistas princípios plasmados nos evangelhos. Mas nem isso! O político Salvini, que beija o seu rosário e agradece à virgem Maria em plena sessão parlamentar, é o mesmo que, na boa velha tradição católica de não ler os evangelhos, ignora completamente as palavras legadas pelo seu deus, e aquelas plasmadas na sua sacra antologia de livros. Em Salmos 41:1 é-nos referido que “bem-aventurado é aquele que atende ao pobre”, em Provérbios 11:24 refere-se que “quem dá com generosidade, vê suas riquezas se multiplicarem; outros preferem reter o que deveriam ofertar, e caem na pobreza”, em Provérbios 29:7 também se diz que “o justo se informa da causa dos pobres, mas o ímpio nem sequer toma conhecimento” e em Coríntios 13:14 menciona-se que “a caridade é sofredora, é benigna; a caridade não é invejosa; a caridade não trata com leviandade, não se ensoberbece”. Significa pois paradoxalmente que o gesto de Salvini na realidade, é um gesto, na boa velha tradição laica, com um significado e simbolismo unicamente políticos, considerando que a grande maioria da população italiana é católica, e que Salvini tinha plena consciência que a sessão parlamentar estava a ser gravada com o foco das câmaras de televisão a apontarem para o orador do momento, o primeiro-ministro que discursava mesmo ao seu lado. Salvini é pois um político perigoso para a democracia liberal, pois alia o seu populismo crónico típico de qualquer populista demagogo que evoca os medos mais primários da turba, com um calculismo político meramente especulativo e ausente de quaisquer nobres princípios, traços muito comuns em políticos como António Costa.

Liberalismo para o Verão


Comparemos objetivamente os dois sistemas,
o português e o grego, no que concerne ao modelo
de regulação e emprego dos nadadores-salvadores
Nesta época estival falo-vos de algo positivo, verdadeiramente neoliberal, que temos em Portugal e ao qual não damos o devido valor, pois o ser humano tende a desvalorizar o que tem de bom e adquirido. Falo-vos da profissão de nadador-salvador, os quais prestam um excelente serviço todos os verões, e nos quais a participação do estado é mínima ou residual e cinge-se à mera atividade regulatória e legislativa. 

Portugal neoliberal

No caso português, verdadeiramente neoliberal, caso um indivíduo queira ser nadador-salvador terá de passar com sucesso um curso regulado pelo Instituto de Socorros a Náufrago e organizado por Escolas de Formação de Nadadores-Salvadores Profissionais (entidades privadas). Aliás, desde 2016 o sistema ficou ainda mais neoliberal, pois desde essa altura que os cursos de nadador-salvador passaram a ser efetuados pelas Escolas de Formação de Nadadores-Salvadores Profissionais, deixando o Instituto de Socorros a Náufragos, através da Escola da Autoridade Marítima, de os efetuar. A validade de cada um dos módulos é de cinco anos, após os quais o nadador-salvador terá de os repetir. Os nadadores-salvadores terão depois de procurar trabalho no respetivo mercado, onde o estado não é empregador. A lei obriga a que cada concessionário de praia, bar, restaurante ou similar, seja obrigado a contratar um nadador-salvador para a praia respetiva, sendo o respetivo salário apenas definido pela leia da oferta e da procura. Apesar do salário não estar regulado, ronda em média, cerca de mil euros mensais, um valor bem superior ao salário médio nacional. Também não há limite nem numeros clausus (como nos táxis) para o número de nadadores-salvadores, qualquer cidadão que cumpra os requisitos e passe nos respetivos exames, pode ser nadador-salvador, ou seja, estamos perante um verdadeiro sistema meritocrático e de igualdade de oportunidades. Temos presente em Portugal, pois, um modelo típico neoliberal, onde a intervenção do estado é de mero regulador e legislador. O estado não é entidade patronal nem sequer é a entidade lectiva para o respetivo curso ou aquela que executa os exames de aptidão. É um mero regulador e legislador, nada mais. E perante uma matéria tão crítica como a vida dos náufragos e dos utentes das praias do país, o sistema neoliberal tem funcionado excelentemente desde há décadas.

Grécia socialista

Mas Portugal poderia ter escolhido outro modelo, não tinha que ter escolhido o modelo neoliberal. Estive na Grécia há cerca de quatro anos, mais precisamente em Creta, e presenciei na primeira pessoa o modelo socialista do nadador-salvador aí vigente. O que vos contarei poderá parecer anedótico, mas presenciei-o na primeira pessoa e garanto-vos que é totalmente verídico. Fui a uma praia grega algures nos subúrbios de Retmino e comecei a procurar espaço para a toalha, zona que estava repleta de lixo. Comecei de seguida a recolher o lixo para ter alguma salubridade envolvente, e de repente, um indivíduo calvo na zona central do escalpe e bastante cabeludo nas zonas laterais, com um cabelo grisalho e com cerca de sessenta anos, com uma enorme protuberância abdominal, em tronco nu e de calções vermelhos, aproxima-se de mim e refere-me num inglês torpe para não me preocupar porque a sua esposa seria a responsável pela limpeza da praia, apontando de seguida para uma senhora de certa idade algures sentada num banco de campismo e acompanhada de um pequeno caniche. No instante em que o indivíduo aponta para a sexagenária, a sua alegada esposa responsável pela limpeza do local, o referido canídeo está a defecar na areia, fezes as quais cobre posteriormente fazendo uso das patas posteriores. A senhora em vez de repreender o animal, acaricia-o no lombo, talvez por este ter tapado os seus dejectos fecais prontamente.

Apercebi-me mais tarde que o referido sexagenário, cabeludo, com uma enorme protuberância adnominal, em tronco nu e de calções vermelhos, era o nadador-salvador da praia onde me encontrava. Era pois, naturalmente, funcionário público. A sua respeitosa esposa, também ela funcionária pública, era a responsável pela limpeza da praia. Estavam os dois sentados cada um, por norma, num banco de campismo numa posição "estratégica", isto é, no ponto mais longe de água, logo ao início da areia. O que vale aos banhistas é que o Mediterrâneo é um mar tranquilo pois este senhor jamais conseguiria resgatar alguém. Este nadador-salvador terá com certeza passado com sucesso no respetivo exame de aptidão quando tinha dezoito anos, altura, por certo, em que entrou definitivamente para os quadros do estado. Considerando que, certamente, era um funcionário público com vínculo efetivo ao estado, por lá foi ficando independentemente de quaisquer circunstâncias, desde a idade, preparação física ou protuberância do abdómen. Desde então nunca mais terá feito qualquer exame ou teste, e na Grécia, tal como em Portugal, é praticamente impossível despedir um funcionário público.

Conclusão

Numa matéria tão crítica como a vida dos náufragos, Portugal fez a escolha acertada e correta que se tem revelado deveras positiva para todos: o modelo neoliberal. Imaginemos que Portugal teria escolhido há décadas a versão socialista adotada na Grécia, e que, algum governo posteriormente quisesse adotar o modelo neoliberal hoje vigente. Imediatamente ouviríamos da esquerda vozes de protesto, referindo, a título de exemplo, "que o direito ao trabalho é um direito constitucional e que não se podem descartar as pessoas", ou que "o estado não pode entregar aos interesses privados e do lucro a vida dos banhistas". Agora tentem aplicar esta dicotomia à educação ou à saúde, e vede que Portugal adotou o modelo socialista enquanto que a Holanda, por exemplo, adotou o modelo liberal.

Governo de padeiros


O caso mais recente da "barracada" socialista no que concerne à encomenda de golas inflamáveis para proteção das populações, é o resultado de termos abandonado de vez a tecnocracia (poder aos técnicos) e termos entregado o país à escumalha mais inútil e incompetente, cuja única característica é ter o sangue dos membros sediados no largo do rato, e para quem a única exigência na política se resume à retórica, ao marketing junto da comunicação social e à arte de encantar corações. Basta ver a purga que o PS fez na Proteção Civil colocando gente sua formada em desporto e história a comandar operações de combate aos fogos e como isso se pagou muito caro com vidas humanas. O aldrabão-mor Costa preferiu, numa matéria tão crítica como a proteção de vidas humanas, a lealdade à competência; preferiu conter as fugas de informação para a comunicação social a conter os fogos. Se exigimos mil e um requisitos técnicos a um piloto de aviação civil, a um médico ou até um electricista, porque raio nos deixamos governar por esta escumalha incompetente e analfabeta funcional? Da próxima vez que o ministro Cabrita tiver de ser operado às cataratas, talvez não seja má ideia que o cirurgião seja um irmão socialista licenciado unicamente em Direito; e no próximo voo que Carlos César efetuar até aos Açores, recomenda-se também que o critério principal para escolher o comandante da aeronave sejam os laços de consanguinidade com o líder socialista.

Este é o motivo principal pelo qual Sócrates, o Ateniense e não o Beirão, nunca acreditou na Democracia. Na República, Volume VI, através da pena de Platão, Sócrates dá o exemplo do navio que passa pela tempestade: deverá o comandante ser eleito pelos marinheiros e tripulação ou ser aquele com maior competência para pilotar o navio? No caso do modelo democrático, além de se perder tempo na escolha do melhor piloto para a embarcação que atravessa a tempestade, teríamos, de acordo com Sócrates, um debate técnico em torno de matérias tão complexas como a navegação marítima, a qual a tripulação pouco ou nada compreende, deixando-se levar unicamente pela pathos (emoção) discursiva. Sócrates ainda nos dá o exemplo da escolha entre dois candidatos, onde um seria um vendedor de doçarias, enquanto o outro seria um técnico que mais não faria do que explicar detalhadamente como funciona determinado processo, ou seja, o primeiro encantava a audiência qual publicitário enquanto o segundo com o seu discurso complexo e elaborado diria a verdade, independentemente do sentimento da audiência. O primeiro seria naturalmente o escolhido. Hoje em dia nas mais variadas tarefas da nossa vida, não escolhemos o modelo democrático. O piloto do avião que nos leva a casa não é o eleito pelos passageiros, mas o que é competente; o médico que nos opera não é o eleito pelos doentes, mas o que está inscrito na ordem dos médicos e os engenheiros civis que fazem os cálculos para as habitações, não são os eleitos pelos residentes, mas aqueles que têm um curso superior na respetiva área. Há apenas um domínio onde a competência do indivíduo é completamente desprezada: a gestão de um país. Infelizmente, Sócrates, o Ateniense, parece que tinha razão.

O eixo do mal, do PS, dos dois pesos e das duas medidas


Estas alforrecas intelectuais, exceção feita ao membro do sexo
feminino, apesar da aparência de Homo Sapiens,
não fazem parte do filo dos cordados.
Nem sei porque ainda perco o meu precioso tempo a ver televisão portuguesa com tanto programa bom que abunda no acervo da "web", contudo, porque não quero olvidar a minha madre língua, escuto da televisão portuguesa alguns programas, entre os quais o denominado "eixo do mal", com Daniel Oliveira, Pedro Lopes, Clara Ferreira Alves e Luís Nunes. A tendência para serem todos, repita-se todos, o "moderador" e mais os seus comentários parcimoniosos inclusive, pró-PS e pró-Costa é tão gritante, que é não preciso recuar muito tempo para ouvir o que estas sumidades disseram a propósito do facto de Antonio Costa ter ido ao programa da Cristina Ferreira no dia de Carnaval para cozinhar uma cataplana, e contrastar o mesmo discurso com o facto de Assunção Cristas ter colocado recentemente a votação o seu estilo de penteado. 

O que os prejudica, para não usar um termo do vernáculo com quatro letras e iniciado com a mesma letra inicial da sagrada palavra Fátima, é que a televisão para a qual trabalham tem um magnífico acervo, e basta para tal recuar ao dia 8 de março do presente ano, para analisar na altura o que dizia, a título de exemplo, Daniel Oliveira sobre esta moda de os políticos quererem estar mais junto das pessoas. A partir do minuto 14 do referido programa e a propósito do facto de António Costa ter ido cozinhar uma cataplana à "casa" da Cristina Ferreira, diz Daniel Oliveira ipsis verbis:
"É evidente que isto não é populista, quanto muito é, o termo que um snob diria, popularucho (...) mas política sem manipulação emocional nunca foi inventada, mas isto está completamente dentro dos limites, eu não gosto da exibição da vida privada, não gosto da minha e prefiro políticos que não o façam (...) eu não tenho nenhum julgamento moral sobre esse assunto, é uma escolha que as pessoas fazem e depois têm de saber viver com isso. (...) Há de facto uma diferença entre ser populista e querer ser popular, querer ser popular é uma condição para ser político, (...) ou seja, se o preço a pagar para não ter um discurso populista em Portugal é este, eu pago em dobro, não tenho nenhum problema com isso, e digo uma coisa, acho que a coisa melhor para um populista é políticos que não querem ser populares".
E o que dizia o mesmo Daniel Oliveira, com aquele ar solene, pedante e arrogante, no programa do dia 19 de julho de 2019, cerca de quatro meses depois, a partir do minuto 26:
"As pessoas querem no poder uma pessoa que seja parecida com o vizinho, com o amigo, com o primo, uma pessoa a quem eu compraria um carro, iria beber um copo e essas coisas todas, eu acho que isto está além de dessacralizar a democracia, que tem os seus ritos e que tem de ter os seus ritos, está a banalizar o poder, e sobretudo criou uma falsa ideia de proximidade, que é mentira, aliás ela é criada para substituir a proximidade do poder que interessa, que é um estado eficaz, que está aberto a ouvir as pessoas, que é o estado democrático; esta falsa ideia de proximidade (...) sobretudo para mim isto esvazia o debate político".
Pedro Marques Lopes, outro impostor intelectual que muda de opinião como quem muda de camisa, diz ipsis verbis no mesmo referido programa de 8 de março de 2019, ao minuto 10:
"Nós vivemos numa época em que há aquela imagem dos políticos muito distantes das populações, não há reflexo dos políticos em relação às pessoas, e isto mal ou bem humaniza os políticos, isto não tem rigorosamente nada a ver com populismo, nada, isto tem a ver com uma coisa que é diferente, que é a tentativa de obtenção de popularidade".
Mas o que disse o mesmo Pedro Marques Lopes quatro meses mais tarde a 19 de julho, a partir do minuto 37:
"De facto nós temos uma circunstância onde, e nota-se isso nos líderes políticos, em que as primeiras escolhas estratégicas dos políticos são a escolha do seu consultor de comunicação, da sua agência de comunicação, e não sendo isso mal por si mesmo, porque todos eles precisam de pessoas que tratam da comunicação, é para tratar de embrulhos, é para tratar doutro tipo de coisas, é para fazer imagem política e o que aqui se fez foi também criar uma imagem política. Isto para mim é muito grave pelo seguinte (...) isto pode parecer catastrofista, vejam lá que mal é que tem? Tem, porque isto não é a função do político que depois nos empurra a ir à vida privada dos políticos e tirar conclusões sobre a sua atuação política".
Conclusão

Pelo facto de António Costa ter cozinhado, de avental ao peito, cataplanas em programas de televisão com grande audiência, significa apenas que quer estar junto das pessoas e que quer ser popular, e portanto, deve ser louvado porque assim, combate o populismo. Pelo facto de Assunção Cristas ter colocado a votação democrática o seu penteado, significa todavia apenas que não passa de uma política maquiavélica dominada pelo embrulho do marketing, esvaziando o seu discurso de conteúdo político. E assim vai a idoneidade e neutralidade do comentariado da nossa comunicação "social".

A minha opinião

A mim pouco me interessam estas "palhaçadas" feitas por políticos, analiso apenas a coerência argumentativa destas pseudo-sumidades intelectuais, que recentemente também já clamaram que perante a crise que afeta a comunicação social, devemos todos nós começar a pagar-lhes o soldo semanal para dizerem umas e certas determinadas coisas na TV, claro está, sempre em abono do governo socialista. Qual a diferença entre cozinhar uma cataplana de peixe num programa de grande audiência onde aparece toda a família e onde a respetiva esposa fala do enorme leque de ex-namoradas do marido, e colocar a votação nas redes sociais o próprio penteado? Um político que exija respeito necessita naturalmente de alguma gravidade, mas por outro lado, excesso de gravidade tal como tinha Cavaco Silva, pode transmitir a ideia de afastamento do eleitorado. Naturalmente que é preciso encontrar um equilíbrio entre a propaganda/proximidade e o conteúdo político-ideológico, entre a pathos e o logos, sendo que no meu entender Marcelo Rebelo de Sousa é quem melhor executa e domina tal equilíbrio. O que não podemos ter, é certos e determinados comentadores que não têm qualquer cargo político, e por isso detêm em teoria muito mais liberdade argumentativa, serem mais parciais e facciosos que os tipos do PCTP-MRPP.