As maleitas da alma - Nanotratado sobre a psiquiatria contemporânea


A psiquiatria é o estudo e a cura das maleitas da alma, Psique na mitologia grega era a personificação da alma, tendo Eros, o deus grego do amor, se apaixonado loucamente por ela. Psique era uma bela mortal, não era uma deusa, mas a sua beleza era tão exuberante que até os deuses por si se apaixonavam. Psique é então o elo entre a deidade e a humanidade, possui a perfeição de uma deusa, mas é constituída pela carne de uma mortal, assim Psique representa aquilo que nos homens e mulheres é etéreo e indefinido, mas no entanto poderosíssimo, que nos controla e que nos providencia o cariz humano: a alma.

A segunda parte do verbete, “iatria” significa cura, ou seja tratamento. Então a Psiquiatria na sua génese etimológica é a arte para a cura das maleitas da alma.

Por diversos séculos e milénios os investigadores se debruçaram a estudar quais as géneses que provocavam nos indivíduos certos comportamentos meramente desviantes, ou completamente lunáticos. Por certo que há vários graus na severidade patológica psiquiátrica que assolam um indivíduo, mas a minha análise será mais humana que estritamente fria e puramente científica. Nada resta ao homem que a salubre loucura para que se sinta vivo e teça vários escritos e tratados. Fernando Pessoa assim se referia à salubre loucura:

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

em a Mensagem


Então como distinguir os distúrbios da alma exuberantemente profícuos e profusos à grandiosidade artística e aqueles distúrbios que são real e severamente patológicos e castradores? A psiquiatria moderna engloba todos no mesmo grupo e tem tão-somente uma única terapia: o fármaco.

A psiquiatria moderna tornou-se na forma mais bárbara, severa, oligárquica de tratar as maleitas que são na realidade da alma, sendo que para todas as maleitas da alma a psiquiatria moderna aplica o fármaco. Os estados sociais são literalmente extorquidos pelas empresas farmacêuticas pois a maioria dos medicamentos do foro psiquiátrico tem comparticipações acima dos noventa por cento.

Já muito falei em outras circunstâncias sobre os poderes dos símbolos, de como o Amor, a Paixão ou a Fé demovem os homens, de como o Verso incute nos homens e mulheres um espírito de alegria magna e magnificência. Bem sabemos como uma conversa bem estruturada com um técnico, pode afastar as maleitas da alma que assolam o indivíduo, bem sabemos como a terapia de grupo pode funcionar se o líder souber estimular o grupo a partilhar experiências, e até o povo diz que quem canta seus males espanta, referindo-se nobremente a que quando o indivíduo canta, solta-se e liberta-se dos constrangimentos sociais que o afligem, e todos sabemos que a Poesia liberta as almas. Porque vemos então tantas pessoas a juntarem-se a clãs e novas igrejas onde se canta, porque vão as pessoas a concertos onde se divertem e se estimulam mutuamente? Mas para todas as maleitas da alma a psiquiatria moderna tem tão-somente uma terapia redutora: o fármaco.

A alma não se cura com químicos, nem com poções mágicas de alquimistas modernos altamente industrializados que têm o único objectivo de extorquir os estados sociais tendo contas bancárias bilionárias em paraísos fiscais. Extorquem o estado social que recolhe os seus proveitos através dos impostos, e depois colocam os seus lucros em países que não os taxarão. O psiquiatra é cooperante em toda esta máquina brutal, normalmente tem o seu consultório privado onde cobra por uma hora de consulta trinta vezes mais que aquilo que ganhou à hora o servente que lhe construiu o consultório. E no fim da consulta passa a tão aclamada receita que extorquirá mais umas boas dezenas de euros ao estado social e que colocará no bolso da farmacêutica, que por sua vez amamentará o rendimento do psiquiatra em mais um bom quinhão. O paciente leva para casa o fármaco que é a forma mais redutora e ineficaz de sarar uma maleita que tem a sua génese na maioria dos casos na alma.

Será que o fármaco tange a metafísica etérea da alma? E como sarar então as maleitas do foro psiquiátrico questionaram os caros leitores? A resposta é simples: com o Amor e a Paixão!

Dir-me-ão que sou utópico, mas assim não o é! O Amor verdadeiro demove o indivíduo, fá-lo sentir útil à sociedade e ao próximo, o altruísmo, a caridade, a filantropia, tornam o indivíduo profuso em obras em que lhe reconhecerão o mérito. Mas se o indivíduo se divorcia, se o indivíduo perdeu o emprego, se perdeu alguém que amava, o psiquiatra estará sempre predisposto após a boa cobrança de umas boas dezenas de euros, a prescrever a terapia redutora: o fármaco.

Para sarar as maleitas da alma recomenda-se a todos os indivíduos que saiam com amigos, que se divirtam, que se apaixonem, que cantem, que recitem poesia em voz bem alta, que gritem em espaço próprio, pois está provado que o grito é terapêutico, que dancem, e quanto mais severa for a maleita, mais primária deverá ser a dança, desde a dança clássica até à dança africana, a dança liberta as maleitas da alma; que escrevam em blogues públicos que partilhem emoções, que beijem, que toquem nos vossos próximos, que façam desporto e que se estimulem.

Porque é que todos os fadistas, e reparem que o fado é naturalmente melancólico, têm no seu quotidiano uma salubridade emocional que transparece para o exterior? Porque é que todos aqueles que praticam desporto salutarmente não padecem de problemas de foro psiquiátrico? Porque está bem provado que o desporto faz bem não só ao corpo mas também à mente. Porque é que aquelas mulheres mais velhas que vão até aos salões de dança dançar ao domingo à tarde guardam visceralmente uma alegria natural interior? E porque é que o Poeta que recita os seus versos é naturalmente apaixonado e tal como definia o próprio Pessoa é muito mais que a besta sadia, sendo louco de forma salubre? Mas para todas as maleitas da alma o psiquiatra tem a terapia redutora: o fármaco.

Porque é que aqueles que se entregam às doutrinas da Fé, qualquer uma que seja, guardam uma energia natural interior que transborda confiança e tranquilidade? Porque é que aqueles que praticam Ioga conseguem alcançar um estado espiritual tranquilizador que nos remete para uma paz interior quase divina? E toda a sabedoria oriental do foro da alma, que remete o mestre para as questões dos desequilíbrios pontuais que estão acentuados e para o equilíbrio natural do ser humano que tem de ser restabelecido? Porque é que todos os mestres orientais, mesmo os das artes marciais, transparecem uma tranquilidade quase divina, não sendo meramente um marasmo ou um amorfismo, mas uma paz que manifesta um equilíbrio interior muito bem estruturado e frutífero? Mas para todas as maleitas da alma o psiquiatra tem a terapia redutora: o fármaco.

A minha conclusão caro leitor é de que os fármacos são necessários para sarar as patologias do foro fisiológico, e assim já o é há milénios, mas nunca para sarar as maleitas da alma. A alma é muito mais transcendente e mais metafísica não sendo tangível pelos meros químicos que nos afectam o cérebro. Para a estimulação do cérebro, para a estimulação da alma, há milhentas maneiras humanamente conhecidas bem mais salutares e muito menos invasivas que já descrevi.

A psiquiatria moderna não é mais que uma forma redutora, oligárquica, elitista, extorsionária e arrogante de tentar sarar os males que assolam as almas dos indivíduos.

Sem comentários:

Publicar um comentário