Orgulhosamente incompetentes


Jamais teço comentários de natureza nacionalista ou xenófoba, muito menos comentários arrogantes que atentem contra qualquer nacionalidade, muito menos a minha. Mas há coisas que me deixam profundamente perplexo. A propósito do caso do incêndio de Pedrógão Grande, que ceifou a vida a mais de sessenta pessoas, e sobre a alegada ineficácia técnica do sistema de emergência SIRESP, o debate em Portugal reduziu-se imediatamente a questões de natureza ideológica. A culpa, alegadamente, é da parceria privada do SIRESP, e o Bloco de Esquerda fez imediatamente uma proposta de lei, para renunciar o referido contrato. Já Francisco Louçã, no seu espaço televisivo, atacou o monopólio, subentenda-se capitalista, das empresas de celulose. Mas o Bloco de Esquerda, já não criticou com o mesmo entusiasmo, nem as corporações de bombeiros, nem a GNR, que são entidades públicas, e que também tiveram enormes responsabilidades operacionais. Francisco Louçã tem plena razão quando refere que é manifestamente um exagero referir que "o estado colapsou". Não colapsou, mas foi manifestamente incompetente, e Francisco Louçã apressar-se-ia imediatamente a criticar as referidas entidades, mormente GNR e bombeiros, se estas, em remota teoria, fossem geridas por entidades privadas a mando do estado. 

Por outro lado, a direita referiu que as empresas de celulose têm as suas áreas bem preservadas, mas ignorou que muitos pequenos proprietários usam os seus terrenos para vender eucaliptos a essas empresas. A direita, revelou igualmente uma cegueira ideológica assustadoramente gritante, e em nenhuma linha da imensa prosa que publicou para atacar o governo, mencionou um fator mais que evidente, o aquecimento global, que naturalmente tem efeitos em Portugal. Já pensastes porque motivo não há floresta em Marrocos e há-a com tanta viçosidade no centro e norte da Europa? O clima, a fauna e a flora da Terra, sempre mudaram desde há 4,5 mil milhões de anos, quando o nosso planeta se formou. Mas nunca o Homem teve um papel tão importante nessa alteração. O rigor dos números que certa direita usa para atacar a demagogia orçamental da esquerda, é sobejamente ignorado, quando os números reportam a qualquer ciência que não a economia ou as finanças. Por isso, a noção enganadora que a direita é científica e matematicamente mais letrada que a esquerda, não passa de um autêntico embuste mediático. Tal é manifestamente patente nas áreas do ambiente.

O debate político em Portugal, torna-se assim, profundamente pobre. Após a tragédia, nem sequer há "trancas à porta", há apenas alarido ideológico, como se a Ciência precisasse de alarido emocional. A comunicação social por seu lado, raramente convida especialistas, convida políticos. Quando um nosso filho está profundamente doente, consultamos um médico ou o presidente da junta de freguesia? Porque não manifestamos o mesmo interesse pela pátria e pelo território? A Ciência precisa de evidências, teorias e estudo. E muito poucos políticos percebem de Ciência, mas podem ser sábios o suficiente para delegar essas decisões aos técnicos, independentemente das consequências políticas. Já a Ideologia, ao contrário da Ciência, baseia o seu impulso nas massas através da emoção, e ainda bem que assim o é, pois só assim se fizeram revoluções. Uma Revolução é sempre ideológica e emocional, e naturalmente o ser humano não deve declinar a emoção, mas, usando de uma metáfora filosófica muito bem enquadrada, ninguém consegue "ter a cabeça fria quando os seus pés estão a arder".

Exige-se por conseguinte mais racionalismo ao debate político em Portugal. Pacheco Pereira ou Ricardo Araújo Pereira por exemplo, este último que obtém rendimentos a criar emoções nos demais, têm todavia muita razão, quando fazem críticas acérrimas às redes sociais, por estas alinharem a sua dinâmica, na denominada pela psicologia coletiva, dinâmica da manada. Cabe à classe política, não se deixar influenciar pelo que pensam as redes sociais, mas não é isso que acontece, e como se sabe, António Costa, preza mais pelo que a opinião pública pensa dele, do que por aquilo que de facto o seu governo faz de errado. É altamente demagógico e ingénuo, atacar um governo por este governar "para as sondagens". Todos o fazem. Mesmo ao nível individual, nós agimos, parcialmente, em função dos outros. Apenas os ascetas e os bichos, agem sem considerar a opinião dos demais. Somos animais evolutivamente coletivos, e por conseguinte, agimos em função do que os outros pensam de nós. E gostamos por conseguinte, que o que dizemos ou fazemos, seja apreciado pelo grupo. Não há maior regozijo para um comediante, que o riso da plateia. Não há maior regozijo para um artista, que uma salva de palmas. E não há maior regozijo para um utilizador de uma rede social, do que ter muitos "gostos". Mas essa ditadura dos "gostos", molda-nos egoisticamente o pensamento, e pouco a pouco, perdemos a verdadeira individualidade e o verdadeiro livre pensamento. Por isso, Jean-Paul Sartre recusou o prémio Nobel. Porque não quis que o prémio e o facto de a crítica considerar o seu trabalho brilhante, moldasse o seu livre pensamento, porque tinha bem ciente, como homem douto que que era, que a opinião do grupo, influencia a forma como agimos e pensamos. A Liberdade não pode ser deturpada ou condicionada pela egoística satisfação que um aplauso ou milhares de "gostos" nos trazem.

E ainda a propósito de Pedrógão Grande e da incompetência, a SIC apresentou um excelente documentário sobre o incêndio, e no referido documentário, além do que já é sabido, de que o sistema de emergência falhou por diversas ocasiões, ficamos também a saber que uma carrinha de emergência nem sequer tinha combustível. Como pode um veículo de emergência não ter combustível? Muito antes da ideologia vêm as pessoas e as suas valências técnicas e de competência. A administração pública em Portugal, em determinadas situações e circunstâncias, é crónica e assustadoramente, incompetente. E não há ideologia que torne um incompetente num competente. Mas há ideologias que promovem os competentes e despromovem os incompetentes. Mas essa ideologia não medra no estado. A incompetência por parte da administração pública em Portugal, é histórica e endémica. Vede a propósito também esta excelente reportagem da SIC sobre o ataque de um submarino alemão, o U35, perto de Sagres, sobre diversas embarcações de países aliados, aquando da Primeira Grande Guerra. Lembremo-nos que ao contrário da Segunda Grande Guerra, na primeira, Portugal participou do lado dos aliados. E que embarcação envia Portugal para fazer frente ao dito submarino alemão? Uma traineira de pesca, munida com um pequeno canhão! O "desenrasca" é por vezes tido como uma virtude, e é-o em situações inesperadas, mas profissionalmente é uma tragédia. Os profissionais jamais podem fazer dessa metodologia de trabalho, o seu dia-a-dia. O profissionalismo, atinge-se com a prática, o estudo, a metodologia, a organização e o planeamento, ou, citando um qualquer jogador de futebol, com "muito trabalho". Assim o é na Arte, na Política e na Ciência.  Como vedes, a incompetência não é de hoje. E a competência é feita pelos homens, não pela ideologia ou instituições. A montante dos debates ideológicos, estão sempre as pessoas. Mas acredito que há sistemas que promovem a competência, no setor público, ou no privado. Cabe aos cidadãos exigir e primar pela competência dos governantes. Portugal não deu mundos ao mundo, sendo governado por incompetentes. Bem pelo contrário, e Sagres é prova disso!

O jornalismo trauliteiro


Todos sabemos que os jornalistas estão desesperados por cliques nas suas notícias. Se assim já o é evidente em declarações feitas em Português, onde a utilização das aspas do ipsis verbis é cada vez mais mal utilizada, com declarações totalmente fora de contexto; mais grave e notório o é quando as declarações são em língua estrangeira. Tal foi claro com as famosas declarações do presidente do Eurogrupo, em que na prática, devido ao frenesim da comunicação social do sul, ficou na opinião pública em geral a noção que Dijsselbloem acha que os países do sul gastam apenas o dinheiro "em gajas e vinho". Mas o mau jornalismo continua, pela boca de Frau Merkel, a propósito do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O que disse Angela Merkel ipsis verbis:

"Für mich ist die Ehe im Grundgesetz die Ehe von Mann und Frau"

que traduzido literalmente quer dizer:

"Para mim, o casamento na Constituição, é o casamento de homem e mulher"

E como foi publicado em toda a comunicação social em Portugal, comunicação social essa que usa e abusa das aspas, colocando na boca dos intervenientes, frases que não proferiram? Ora vede a resposta, por exemplo da SIC. Todos os outros meios de comunicação social, imprensa escrita inclusive, seguiram o mesmo mau exemplo. 


Merkel não faz uso do artigo indefinido, pois usa von e não vom (contração de von com dem), e menciona claramente que a sua opinião se baseia, na interpretação que faz da Constituição, ou Lei Fundamental, no sentido mais lato que tem a palavra Grundgesetz. Bem sei que a palavra tradução, tem a mesma raiz etimológica que a palavra traição, mas roga-se mais zelo aos tradutores que trabalham para a comunicação social, e mais deontologia jornalística por parte da comunicação social portuguesa. 

Ponte Vasco da Gama vs. Ponte do Øresund




A reação imediata do leitor comum, poderá ser evocar os salários na Dinamarca ou na Suécia, em comparação com os de Portugal, para tentar justificar a diferença colossal entre as portagens destas duas obras de arte da engenharia civil. Mas não, não há Paridade-Poder-de-Compra que justifique um rácio de praticamente 30 vezes entre o preço da portagem ida-e-volta na Ponte do Øresund entre Copenhaga e Malmö, e as portagens da Ponte Vasco da Gama entre Lisboa e o Montijo. Não somos assim tão pobres e os dinamarqueses não são assim tão ricos para um rácio de 29 entre o trajeto de ida-e-volta ao longo das referidas pontes. O salário mensal médio líquido de Portugal é de 846 euros, enquanto na Dinamarca é de 3100 euros, dando um rácio de cerca de 3,6 vezes, que compara com um rácio de 29 vezes com referência ao custo das portagens, para uma viagem ida-e-volta. Podemos assim concluir, já considerando as assimetrias salariais, que atravessar a Ponte de Øresund é oito vezes mais caro que atravessar a Ponte Vasco da Gama. 

Esta dualidade comparativa é muito interessante de atestar, porque foram duas pontes praticamente construídas na mesma altura, a Vasco da Gama em 1998 e a de Øresund em 2000, tendo os tabuleiros de ambas sido colocados pela mesma empresa. Quando a referida empresa concluiu os seus trabalhos na Ponte Vasco da Gama, dirigiu-se então para o estreito de Øresund, para começar a nova ponte entre Copenhaga e Malmö. O estreito de  Øresund separa a ilha dinamarquesa de nome Zelândia, onde se situa Copenhaga, do condado da Escânia na Suécia, onde se situa Malmö. Há todavia algumas diferenças construtivas. A ponte Vasco da Gama, com os seus 12,3 km de comprimento, que se dividem em 0,8 km de ponte principal e 11,5 km de viadutos, é considerada a mais longa ponte da Europa e uma das mais extensas do mundo. Já a Ponte de Øresund, tem apenas 7,8 km, tendo todavia em acréscimo do lado dinamarquês, uma ilha artificial com cerca de 4 km, mais um túnel submarino com 3,5 km, perfazendo o complexo no total, um comprimento de 16 km, tal como na Ponte Vasco da Gama. Ademais, a Ponte de Øresund, tal como a Ponte 25 de Abril em Lisboa, é uma estrutura rodoferroviária.

Mas a grande diferença é mesmo a cultural: enquanto os dinamarqueses e suecos não sacralizam o automóvel, para muitos portugueses, o carro é tão-somente uma continuação do próprio corpo. Por conseguinte, para muitos portugueses, taxar o automóvel e a sua utilização, independentemente dos seus custos ou externalidades, é como taxar a própria respiração.

O PayPal e a Amazon tornaram-se cambistas


Voltaire, em Cândido, diz-nos implicitamente, que existe uma espécie de parasitas da sociedade, a que se dá o nome de cambistas; pois Cândido, após voltar rico das suas viagens, fica pobre ao despender toda a sua fortuna acumulada em agiotas, judeus, usurários e cambistas. Poucas pessoas nos dias de hoje, no espaço da União Monetária que é o Euro, consideram as taxas implícitas que os cambistas aplicam, porque não têm que lidar com as mesmas. Mas é um negócio de milhões, que ademais permite mascarar o lucro, publicitando, como é comum, que a conversão é grátis e que não se aplicam quaisquer taxas. É comum, durante a aplicação de taxas de conversão entre várias moedas, observar que as casas de câmbio anunciam publicamente que não aplicam quaisquer taxas, e tal sempre me questionou desde criança. Como pode um negócio subsistir, se não se aplicam taxas e se os seus serviços são gratuitos?

Como o caro leitor bem saberá, o negócio do cambista não se baseia numa taxa fixa que aplica pela operação, mas na própria taxa de câmbio que aplica, que é sempre desfavorável para o cliente. Tornou-se desde há muito o negócio principal do PayPal. Têm havido várias queixas na Internet de lesados do PayPal, que fazendo negócios entre várias moedas, têm sido largamente lesados devido às taxas de câmbio aplicadas entre diferentes moedas, taxas essas altamente lesivas para o cliente. Dou-vos o exemplo da minha última compra. Adquiri um serviço anual de um servidor de Internet, e paguei cerca de 120 dólares americanos, que segundo o Google naquele momento, equivalia a 107 euros. Mas o PayPal cobrou-me 116 euros, mais 9 euros que o valor tradicional do câmbio. Ou seja, o intermediário, numa simples aquisição de um serviço, cobrou-me cerca de 8% de comissão apenas pelo facto de as moedas do prestador do serviço e do cliente, serem diferentes.

A Amazon agora também já entrou no mercado dos cambistas, e já é comum vender produtos na moeda do comprador, mesmo que o vendedor venda o produto noutra moeda. Aquilo que parece uma facilidade para o utilizador, na realidade é uma fraude, porque a taxa de câmbio aplicada é sempre desfavorável ao consumidor. Mas enquanto o negócio da Amazon vai muito para lá das meras questões financeiras, o PayPal faz disso o seu negócio, sob a capa de "tax free service". Assim, o meu conselho é para que faça sempre compras com cartão de crédito, na moeda do vendedor. Naturalmente que os bancos também aplicam taxas de câmbio que são lesivas para o cliente, mas são muito mais favoráveis que aquelas aplicadas pelo PayPal ou pela Amazon. 

E estes episódios, ademais, dão-me força para continuar a defender o projeto da Moeda Única, pois não imaginais a quantidade de gente que, sem produzir propriamente alguma coisa de tangível, faz milhões apenas neste tipo de transações entre diferentes divisas. O que também não deixa de ser um paradoxo, ser a esquerda político-partidária, quem mais ataca o Eurogrupo, tendo sido de facto o Euro, quem findou com o negócio dos cambistas dentro dos países da Moeda Única. Bem sei que a esquerda se opõe ao Euro por muitos outros motivos, mas pensai sempre, que com o Escudo, teríamos mais uma série de "parasitas capitalistas" para alimentar, sempre que quisésseis adquirir qualquer produto ou serviço fora de Portugal, num qualquer dos outros dezoito estados membros da União Europeia que adota a Moeda Única. Por este e outros motivos, hoje encerrei a minha conta do PayPal, e passarei a fazer compras na Internet apenas usando o cartão de crédito. No futuro, ou na Utopia de Thomas Moore, haverá apenas uma moeda mundial, e por conseguinte não será necessário suster cambistas. Mas será interessante observar como se conciliará a mesma moeda entre economias tão díspares como a Noruega ou a Etiópia.

Sousa Tavares, um boçal pequeno-burguês filho da Poetisa


Sousa Tavares, em mais uma genial verborreia retórica, e porque propala as suas ideias no jornal da noite, cujo público alvo obedece ao que pensa a vox populis, debitou, qual penedo falante, mais uma série de preconceitos contra o turismo e contra a mobilidade ativa, não tendo os transportes públicos sequer fugido à voraz saga visceral do "comentador". Começa, na referida peça por – e bem – dizer que Lisboa tem um problema de excesso de automóveis, para, poucos segundos mais à frente, referir que Medina "declarou uma guerra total ao automóvel" (sic). Oh Tavares, como é que se combate o automóvel sem prejudicar os automobilistas? Também ficamos a saber com a referida "peça", que Tavares considera inaceitável, que havendo em Alcântara, a "sua zona", quatro cervejarias, que uma das referidas cervejarias tenha fechado. Um verdadeiro escândalo, que na sua sanha, só pode ser culpa ou dos turistas ou dos ciclistas, o fecho de uma das quatro cervejarias onde Tavares deglutia o líquido herético para os seguidores do Islão; pois os lisboetas, apenas se deslocam às cervejarias, alegadamente, de automóvel. O clássico anátema civilizacional do "se conduzir não beba", é sobejamente olvidado pelo filho da magna Poetisa de ascendência dinamarquesa.

Tavares também se indignou, de forma exacerbada, com as restantes preocupações de pequeno-burguês motorizado, ao considerar que "Lisboa é só para turistas", como se as zonas nobres da cidades estivessem vedadas aos lisboetas, e que os autóctones na capital do Império não passassem de párias e excomungados sem o sacro direito ao usufruto da cidade que viu partir as caravelas. Por fim, Tavares fica extremamente indignado com a inaceitável e intolerável fila para a compra dos pasteis de nata em Belém, um verdadeiro escândalo lesa-pátria, visto que a referida pastelaria está inundada de turistas, dando a entender Tavares, que os naturais do burgo, qual apartheid pós-moderno, estão interditos por bula papal de degustar tal doçaria conventual. O que Tavares não referiu, num processo de memória seletiva que Freud tão bem explicaria, é que a grande maioria dos turistas, tal como nos seus países civilizados de origem, usa os transportes coletivos para deslocações urbanas, e para confirmar tal proposição, basta andar em Lisboa de autocarro durante a época estival. O luso, cavernícola e com salários a tanger os de Casablanca, enche as rodovias urbanas com os seus enlatados onerosos, poluidores, espaçosos e ruidosos importados da Alemanha, já o Alemão, entre o Cais do Sodré e o Parque das Nações, usa o 728. É a egrégia simbiose entre o catolicismo mediterrânico de pacotilha e o socialismo motorizado egocomodista da pequeno-burguesia nova-rica pós-Abril, tão bem plasmado na retórica preconceituosa de Tavares. O Alemão, o Dinamarquês ou o Francês, assim com os lisboetas cosmopolitas que bem conhecem o conceito de cidade, andam a pé, de transportes públicos e de bicicleta. Já Tavares, um homem que afirma com pompa em público que gosta de uma boa caçada e de uma boa tourada, daquelas mesmo à espanhola – não me refiro ao sexo intermamário, mas à lide – daquelas em que o animal sangra na arena até morrer, para gáudio dos animais que a observam, considera Tavares, qual pequeno-burguês egocomodista que só se desloca sobre quatro-rodas, que a cidade lhe "está vedada"; como se para chegar ao Cais do Sodré, épico local lisbonês onde marinheiros e marialvas afagavam epidermes curvilíneas, tivesse de cruzar fronteiras altamente vigiadas entre as freguesias da cidade, e invadir por conseguinte a soberania territorial de Santa Maria Maior.

Oh Tavares, e que tal andares, tal como os teus antepassados no meio rural andavam nem há muitas décadas, e como o Homem se locomove desde que é Homem, ou seja, a pé? E que tal apanhares um táxi, ou um uber, tal como fazia o também burguês Vasco Polido Valente, quando às sextas-feiras viajava entre o Gambrinos no centro da cidade e os estúdios de Queluz da TVI, para deleite retórico-luxuriante de Moura Guedes? Com tanta sapiência que propalas em horário nobre, que é tão nobre na TV quão José Castelo Branco é nobre para a monarquia britânica, por certo que não seria assim tão oneroso apanhares um táxi para ires até à tua cervejaria favorita em Alcântara, na "tua zona". Achar que uma cidade se devolve aos cidadãos, aos naturais, com mais acessos rodoviários e mais carros, é como acreditar que a frequência de masturbação dos rapazes se mensura pela topografia das palmas das suas mãos. E a av. Duque d'Ávila, Tavares, não te diz nada? Uma artéria que restringiu fortemente o tráfego automóvel, e que por conseguinte, o seu comércio fervilha e foi deveras incrementado, tendo mais pessoas de terceira idade e "ociosos" a desfrutar do espaço público. E a Rua Augusta, não te diz nada Tavares, pecado mortal na retórica tavariana, pois além de estar repleta de turistas, não permite tráfego motorizado? Quantos comerciantes gostariam de ter a sua loja na Rua Augusta, Tavares? Já na rua Morais Soares, que mais parece uma rua de Mogadíscio nos anos 60 do precedente século, um nojo viário repleto de lataria no passeio e com rodovias a invejar a quinta avenida noviorquina, tal a largura concedia a esse tirano pós-moderno ao qual nos devemos sacrificar, denominado de "tráfego"; já na Morais Soares, fecham lojas todas as semanas. Até aprecio, confesso, ouvir Tavares a falar de política internacional, mas quando a "peça" vocifera para se pronunciar sobre caça, touradas, futebol ou bicicletas, cria-se uma ligação neuronal direta entre os seus intestinos e os lobos frontais, e tudo o que difunde doravante por aquele canal oral de putativo escritor, é apenas ódio e preconceito. Que fazer? O populismo está na moda!

Como o automóvel transfigurou as nossas cidades


O caso de Roterdão

Imagem de Roterdão, antes da segunda grande guerra.
De acordo com a fonte citada, a cidade era ainda mais
agradável que Amesterdão, tendo mais canais e mais ruelas.
Fonte: likemag.com
Roterdão no pós-guerra.
Fonte: deleeuwvanweenen.nl
Muitas pessoas que nunca visitaram a Holanda, por certo consideram que, além do país ser essencialmente todo plano, as cidades obedecem todas ao mesmo desenho urbanístico e arquitetónico, obedecendo o edificado das cidades quase sempre ao mesmo padrão. Tal é verdade para cidades como Amesterdão, Delft, Maastricht ou Utrecht, com os seus idílicos e bucólicos canais que rasgam a cidade, as suas arcaicas e clássicas pontes pedonais, as suas igrejas do tempo do catolicismo posteriormente convertidas em templos Calvinistas após a Reforma, as milhares de bicicletas, os caminhantes e andantes nos seus afazeres diários, os gatos e demais animais domésticos que pela rua vagam, e os milhares de comerciantes locais, que colocam a sua montra na rua para desta forma atraírem a clientela que a pé passa. Nestas clássicas cidades holandesas, um pouco tal como naquela Lisboa que atrai paixões, sonhos, poetas e escritores; o edificado, os planos urbanísticos ou o traçado viário, obedece, quer às circunstâncias um pouco caóticas dos construtores locais, que iam edificando em função do espaço disponível e das necessidades ao longo da artéria viária, quer à mente de um urbanista que jamais imaginaria que a grande maioria do povo se deslocaria essencialmente através de uma máquina metálica de uma tonelada que ocupa para locomoção vários metros quadrados. Daí em cidades como Amesterdão, Delft, Maastricht ou Utrecht, encontrarmos ainda aquele espírito citadino humano de antigamente, que nos faz sentir em casa mesmo sendo estrangeiros. O espírito urbano e bairrista que jamais terá Roterdão, essa épica e clássica cidade onde nasceu Erasmo, que perdeu muito do seu brio no pós-guerra.

Parece-me claro, que Roterdão passou por duas fases urbanísticas trágicas ao longo da sua história. Durante a segunda grande guerra, foi violentamente bombardeada pelas tropas alemãs, tendo sido mesmo usado pela primeira vez na cidade, um recente e inovador método de bombardeamento em massa, que fazia, através da coordenação da força aérea, um varrimento de bombas ao longo de uma determinada superfície. Este método (carpet bombing em Inglês) permitia aumentar o nível de destruição no solo, sem recurso a bombas de alto calibre e peso, tornando assim o bombardeamento mais barato e eficaz em toneladas de TNT equivalente por quilómetro quadrado. O bombardeamento nazi foi tão mortífero e destruidor, que foi adicionado à vasta lista de crimes de guerra do regime nazi. Paradoxalmente Hiroxima não consta na referida lista, mas já se sabe, que os ganhadores tendem a escrever a história e fazer jurisprudência nos crimes de guerra. Mas neste caso, o crime de guerra terá sido alegadamente pelo facto de a cidade de Roterdão ter-se rendido antes dos bombardeamentos nazis. Mais tarde os oficiais da Luftwaffe alegaram que a comunicação de rendição da cidade, não chegou a tempo aos operadores do voo e aos pilotos dos bombardeiros. Certo é que a cidade de Roterdão foi severamente destruída por diversos bombardeamentos primeiramente nazis, mas também posteriormente pelos aliados. Tendo ficado a cidade sob o regime alemão do Terceiro Reich, e havendo em alguma camada da população holandesa alguma aceitação política perante os ocupantes, tendo a Alemanha também deslocado alguns equipamentos fabris para a cidade, e tendo a cidade já na altura um dos mais importantes portos da Europa, a cidade foi também um alvo para os bombardeamentos aliados. Como resultado, a cidade de Roterdão, como muitas outras cidades industriais do norte da Alemanha, ficou praticamente toda destruída e em ruínas. Findada a guerra, era possível então construir uma cidade de raiz, sem os constrangimentos das artérias viárias e do edificado um pouco caótico das cidades medievais. 

Como um modelo de negócio molda as cidades

A grande questão é que em 1945, o Ocidente, os respetivos urbanistas e a grande maioria dos políticos, já estavam embrenhados com os alegados benefícios do automóvel, como propulsor do crescimento económico, do emprego e da putativa mobilidade dos cidadãos. Henry Ford tinha começado a produzir o seu Ford-T algumas décadas antes, com bastante sucesso, e as cidades americanas de então, já estavam preparadas para acolher, aquilo que muitos consideravam ser o progresso e o futuro das cidades. Os peões; termo aliás pejorativo na própria língua Portuguesa, pois peão era o indivíduo que andava a pé na guerra, normalmente da classe mais baixa e com menos estatuto, não tendo o linguista, o legislador ou o político adotado expressões no meu entender bem mais adequadas, como andante ou caminhante; foram literalmente empurrados pela legislação viária para as laterais das artérias, para que o grosso da superfície viária pudesse ser entregue ao novo modelo de crescimento económico e de progresso, os automóveis. A cidade, do Latim civitas, que desde os Clássicos era encarada como o apogeu e o magno altar para o cidadão, do Latim, habitante da cidade, passou a ter claramente um propósito de natureza económica e industrial. A cidade, já não deveria servir apenas os cidadãos, deveria servir antes um modelo de negócio, deveria ser instrumentalizada e desenhada para acolher as máquinas que promoviam o crescimento económico e que alimentavam a indústria do petróleo, na altura e ainda hoje através do sistema petrodólar, controlada pela administração americana. 

One fifth of net wage in the UK goes to automobile


One of the reasons to use the bicycle or the public transit in the daily life is cost, i.e., to save money. According to the OECD the median net income in the UK is around £18,700 a year and according to autocosts.info, which takes into account all the inputs from the users, disregarding statistical outliers, the average total costs for the British motorist is roughly £4,000 per year. Therefore the average British driver spends about 1/5 of their net income, only to own and operate their automobile. With the bicycle or the public transit when available, you can save really a lot of money, specially regarding those items related to running costs.

This data is taken from autocosts.info/UK.

Ivanka Trump and the English grammar


An interesting issue of the English grammar, mainly its vocabulary, is that it comprises several words for many combinatorial or daily-life situations which for example other Romance languages do not seem to have. Remember is different from remind, between is not the same as amongst, switch is slightly different from swap, and lend and borrow are the opposite things. Within the same logic grammatical reasoning any literate mind knows the the word latter is different from the word last. The Oxford Dictionary tells us that latter means "the second or second mentioned of two people or things" while last means "coming after all others in time or order". Therefore when the group comprises two elements or alternatives orderly presented latter shall be used for the last element, while when the group comprises more than two elements one shall refer last. An interesting parallel might be found with between and amongst. Nonetheless as Ivanka Trump was in Germany for a conference, when asked what was her official role as daughter of the president and presented with three different possibilities she replied "surely not the latter". Wanted to be grammatically snob, and made a grammatical mistake. As we say in my mother tongue "tal pai, tal filha"!

Ainda sobre a xenofobia e a psicologia evolutiva



A xenofobia foi positiva para o Homem no Paleolítico

De acordo com os estudos antropológicos mais recentes, consta que no Paleolítico o Homem vivia em tribos, ou grupos, e de acordo com alguma literatura, que fez o estudo ao número de indivíduos em várias comunidades de primatas, cada tribo no Paleolítico tinha aproximadamente cerca de 200 indivíduos. É preciso assinalar que a xenofobia ou qualquer grupo-fobia foi de facto vantajosa no Paleolítico, daí a termos herdado evolutivamente, estando bem vincada no nosso sistema límbico. E a xenofobia foi vantajosa porque os da outra tribo (etnia ou grupo étnico; porque normalmente a um cristão devoto não lhe indigna ver um muçulmano louro de olhos azuis), eram estatisticamente aqueles que copulavam com as nossas fêmeas, raptavam as nossas crianças, roubavam os nossos recursos alimentares e ocupavam o nosso território. Se o Homem da atualidade, cívica e culturalmente evoluído e apetrechado com jurisdição que rege as relações internacionais, ainda é territorial, e tem-no plasmado no conceito de soberania territorial, muito mais territorial o eram os hominídeos no Paleolítico. Um bom exemplo é o caso das relações entre indivíduos de aldeias diferentes no meio rural, ou da relação de vários indivíduos de famílias diferentes na mesma aldeia. O "sangue" ao qual pertencemos, através da emoção, toma um papel extremamente importante nas decisões que tomamos. O nosso território deveria por conseguinte ser expurgado e protegido de ameaças exógenas, num tempo em que havia apenas barreiras naturais, e quando estas não existiam, restava ao Homem, a força, a violência e a agressividade, para que possa defender "a sua casa e os seus". Qualquer eventual compaixão de um membro do nosso grupo perante esses outros, deveria ser fervorosamente abolida e reprimida, em prol do interesse grupal. Daí por exemplo, a miscigenação, do ponto de vista estatístico, continuar a ser uma raridade no universo matrimonial, porque é contra-natura. 

Mas todavia já não nos indignamos contra os criadores do automóvel, mesmo que mate mais de um milhão de seres humanos por ano, incluindo obviamente os da nossa tribo, da nossa família, exatamente porque não havia automóveis no Paleolítico, da mesma forma que não nos indignamos contra os criadores da bomba atómica. Porém, ficamos temerosos perante vespas gigantes (que possuem veneno que poderia ser fatal), tememos eventuais situações noturnas em densas florestas enubladas (nos homens devido ao perigo eminente de ataque de fera ou de elementos de outra tribo; nas mulheres o mesmo, acrescentando-se ainda o medo latente de violação de um outro que "poluiria" o sangue da tribo), tememos por lidarmos com mortos (questões de salubridade na presença de cadáveres, por isso desde há cem mil anos que enterramos os mortos) ou por termos a sensação de que o nosso território está a ser invadido por outros indivíduos que não partilham connosco os mesmos traços físicos ou fenotípicos. Surge-nos então um sentimento irracional, proveniente do sistema límbico e catapultado na presença das massas, que nos transmite cumulativamente medo e ódio, perante esse referido invasor. À luz desse sentimento primário, juntamo-nos a exércitos arriscando a própria vida, pois em última análise estamos a salvar a pátria, cujo termo congénere no Paleolítico era apenas o território; mesmo que para salvar a pátria tenhamos de combater a milhares de quilómetros de casa, como fizeram os alemães em Estalinegrado ou como fazem agora os americanos na Coreia do Norte ou fizeram no Vietname. 

Um exemplo muito interessante de atestar na atualidade o legado do Paleolítico, é verificar que o turismo na Europa declinou abruptamente devido aos ataques terroristas, continuando todavia em alta no Brasil. Mas enquanto na Europa morreram 170 pessoas no ano passado devido a ataques terroristas, no Brasil existem 60 mil homicídios por ano. Pergunto-me então, o que é mais seguro para um americano, mediana e intelectualmente não muito prodigioso, e que passa o dia a visualizar a comunicação social para as massas, se visitar a Europa ou o Brasil. No Paleolítico a maioria dos assassinatos deveria ocorrer entre membros de tribos diferentes, tal como hoje continua a acontecer entre membros de famílias diferentes. Logo, a um estrangeiro, estatisticamente, é muito mais perigoso visitar o Brasil que a Europa, e todavia o turismo tem declinado bastante na Europa e não no Brasil. Outro exemplo é atestar que muitas pessoas têm medo de andar de avião, porque o meio natural do Homem é o solo, todavia o automóvel mata muito mais pessoas que a aviação, mesmo considerando mortes por quilómetro percorrido. O Paleolítico deixou-nos um legado psicológico, que é muito fácil de verificar no comportamento das massas.

Na civilização, a xenofobia é além de anacrónica, perigosa

A palavra civilização vem do Latim, civitas, ou seja, cidade. E de facto as cidades foram o berço da civilização, processo que se deu após a Revolução do Neolítico, quando o Homem descobriu a agricultura e passou a domesticar animais, tendo-se tornado sedentário. Ao tornar-se sedentário, pois já não precisava de migrar na busca de alimentos ao longo das diversas estações do ano, ou de seguir as rotas migratórias dos animais que caçava, o Homem, que antes vivia em clãs ou tribos, passou a viver em aldeias. Com o sedentarismo, surgiu a escrita, a arte, a lei, as primeiras profissões e a hierarquia institucionalizada. Mas no início do Neolítico, que ocorreu aproximadamente em 10.000 aC, apesar de já estar sedentário e ter meios de subsistência para o ano todo, o Homem ainda vivia em comunidades em aldeias, que partilhavam os mesmos traços étnicos. A tribo tinha apenas ficado sedentária. As primeiras cidades surgiram todavia apenas na Suméria em cerca de 5.500 aC., mas foram os clássicos gregos e romanos que deram às cidades, a noção de civilização que hoje conhecemos. Em Português temos palavras interessantes, que provêm desse étimo de cidade, como cívico, urbanidade ou civismo, qualidades que se exigem aos cidadãos ou políticos, ou seja, respetivamente os habitantes da cidade romana ou grega.

Com o surgimento das cidades por certo surgiu um problema muito delicado de gerir por parte do governador. Como lidar com a presença de pessoas de etnias ou clãs diferentes, que outrora viviam nas suas aldeias separadas? A religião e os costumes foram, de facto, os primeiros aglomeradores para a integração cultural. Os cristãos não eram bem vistos na Roma Antiga, essencialmente porque prestavam culto a um Deus que não representava os deuses oficiais do estado. O mesmo sentiam os judeus, quer na civilização grega, quer romana. Todavia, os romanos e gregos, com a sua noção clássica de Lei e Ordem, que de certa foram foram os pilares fundadores para o muito posterior estado de direito, conseguiram preservar amiúde a Paz nos territórios por si ocupados. As referidas leis romana e grega, estratificavam e discriminavam os habitantes em função da nacionalidade, do género, da riqueza pessoal ou da prestação de serviço militar, mas não o faziam normalmente em função da etnia. O cidadão na Grécia antiga era apenas o homem livre adulto e nascido na pólis. Na Roma antiga, em acréscimo, exigia-se ao cidadão o cumprimento do serviço militar. Mas sabe-se que na Roma antiga, uma forma de pacificar o Império, foi atribuir nacionalidade romana a todos os indivíduos das colónias, que eram nascidos de cidadão romano, normalmente militares destacados. Os mesmos critérios de atribuição de cidadania, eram normalmente válidos em todo o Império, independentemente da etnia. Obviamente que era difícil a alguém que nascesse escravo, obter a liberdade, mas não era raro que tal acontecesse. O mesmo para a civilização grega.

Com o surgimento das cidades e por conseguinte a civilização, surge então pela primeira vez a convivência regular de pessoas com traços fenotípicos e de etnias diferentes. Sentimentos xenófobos obviamente que sempre existiram, mesmo nas civilizações, mas normalmente foram sempre catapultados e usados por líderes demagogos para fazer a guerra entre as referidas cidades, tal como por exemplo as guerras púnicas entre Roma e Cartago, ou entre Esparta e Atenas. Mas o sentimento de pertença já não eram normalmente o fenotípico ou étnico, era normalmente o cultural ou religioso. Pela mesma razão os impérios Português e Espanhol, conseguiram expandir de forma tão eficaz a sua hegemonia cultural em povos com etnias tão distintas, ou seja, porque fizeram uso da religião. Pela mesma razão o Islão, espalhou-se de forma tão eficaz, de África à Indonésia. A cultura (em Alemão a palavra die Kultur tanto significa cultura como civilização), onde a religião tomou um papel fundamental, passou a ser o traço identitário de um povo, mesmo que o referido povo fosse, do ponto de vista étnico, bastante heterogéneo. Os sentimentos xenófobos, apesar de encontrarem os seus fundamentos nos traços fenotípicos de natureza étnica, passaram a ser canalizados para questões de natureza religiosa ou cultural, mesmo, paradoxalmente do ponto de vista evolutivo, entre pessoas da mesma etnia.

O que fez singrar a civilização, foi por conseguinte a imposição de Ordem e Lei, que para funcionarem de forma eficaz, tinham de preservar de forma o mais pacífica o quanto possível, a convivência no mesmo espaço público, de indivíduos de etnia diferentes, algo impensável no Paleolítico. Talvez para resolver este paradoxo evolutivo, é também no Neolítico que surge pela primeira vez a noção de propriedade privada. Posso conviver com o outro que abomino, mas a Ordem Cívica deve pelo menos garantir-me, um espaço que me pertence e onde o outro está interdito de entrar. Todavia, no espaço público, a convivência entre indivíduos de etnias diferentes, teve de ser uma condição essencial para a preservação da ordem pública. Caso assim não fosse, considerando que todos partilhavam a mesma cidade ou a mesma pólis, a guerra civil seria uma inevitabilidade, e por conseguinte a cidade, no caos, jamais conseguiria prosperar. Por conseguinte, com a criação da cidade, o sentimento xenófobo, apesar de ter sido positivo no Paleolítico, passou a ser contraprodutivo na cidade, tendo sido normalmente prostrado pela Lei. Posteriormente o Iluminismo e o Racionalismo, foram mais longe, ao introduzirem a Laicidade. Com a laicidade, a religião deixou de ser o cânone que molda os traços comuns que definem um povo, tendo obviamente ficado o seu legado. Mas o republicanismo precisou também do simbolismo para definir os ícones comuns dos membros que pertencem à mesma pátria, entre os quais, a figura quase deificada do presidente, a bandeira, o hino, e obviamente, normalmente a língua.

Já no início do século XX, com o surgimento das sociedades da comunicação e de propaganda, líderes extremamente astutos e demagógicos, conseguiram fazer uso do sentimento primário, que é a xenofobia, e que é exatamente catapultado pela presença de massas, para não só chegarem ao poder, mas para levar os seus países para a guerra. A história da Europa do século XX é um exemplo paradigmático, de tal mecanismo. Porque a comunicação para massas que difundem sentimentos xenófobos, terá sido o "alerta perante o invasor", que o nosso antepassado remoto no Paleolítico, por certo fazendo uso de berraria sonora, usaria para avisar a tribo, que estaríamos a ser invadidos. E perante esse estado de alerta, a nossa reação imediata só pode ser a agressividade e a violência, para estarmos preparados para uma feroz batalha para a defesa da nossa família e do nosso território. Mas se o nosso antepassado, com o seu estridente grito de alerta, conseguia avisar apenas as pessoas até onde o poder da sua voz alcançava, a comunicação social do séc. XX, conseguiu espalhar de forma nunca antes vista, a mensagem de alerta, deixando todo um povo em estado permanente de agressividade e prontidão. Este processo foi claro e evidente na Alemanha Nazi, ou na União Soviética Estalinista, e não muito diferente nos EUA, nos mecanismos que despoletaram o ódio do povo americano perante os povos cujo território os EUA invadiram.

A xenofobia continua em cada um de nós, que ninguém duvide. Como diz um provérbio japonês, é mais fácil mover rios e montanhas que a natureza humana. A xenofobia continua latente no nosso sistema límbico, a parte do nosso cérebro evolutivamente mais antiga, porque não destituímos um sentimento em 5 mil anos, que foi o resultado de pelo menos 200 mil anos de evolução. E perante um "grito de alerta", é-nos praticamente impossível não reagir. Resta-nos como seres civilizados, usarmos os nosso lobos frontais, e analisarmos de forma fria e crua, quão perigoso é de facto tal evento cujo o alerta denuncia. E perante o próximo, com traços fenotípicos diferentes dos nossos, devemos pensar cruamente que o referido indivíduo não é de todo perigoso, nem para nós, nem muito menos para a nossa tribo, e que por certo mais perigoso para todos nós, são as alterações climáticas ou o arsenal bélico das grandes potências. Mas esses, nunca foram um perigo no Paleolítico, e por isso, infelizmente, não os tememos na devida proporção.

Einstein: um europeísta e rebelde pacifista


Hoje li um livro comprado em Havana, presumivelmente de uma editora nacional cubana, de uma série sobre "vidas rebeldes", que abordava a vida de Albert Einstein. No livro faz-se em primeiro lugar uma crítica à revista Time, que apesar de fazer de Einstein na sua edição de 1999 a figura do século XX, tem perante a sua figura um ideal condescendente e quase idílico em relação ao cariz rebelde, pacifista e alegadamente socialista de uma das maiores, senão mesmo a maior, figura da Ciência do séc. XX. Por conseguinte, neste texto farei uma abordagem política à figura de Einstein e aos seus ideais, e não uma abordagem científica à sua obra.

Poucos sabem por exemplo que, desde que Einstein chegou aos EUA em dezembro de 1932, desde cedo começou a ser investigado quer pelo FBI, quer mais tarde pela CIA (criada em 1947), devido aos seus ideais alegadamente subversivos. O arquivo de Einstein junto do FBI e da CIA, chegou a conter cerca de 1800 páginas, que relatavam o seu quotidiano, considerando que o seu correio era inspecionado, as suas cartas eram lidas, os seus telefonemas escutados e o seu dia-a-dia vigiado. Recorde-se que apesar de Einstein nunca ter visitado a União Soviética e de ser um opositor ao Estalinismo, logo a seguir ao final da segunda grande guerra passou-se a viver em plena Guerra Fria e no período por alguns denominado de "caça às bruxas". Qualquer não alinhamento com a política militarista e nacionalista americana, poderia ser encarado como subversivo por parte das autoridades federais. E se tal poderia ser ignorado num cidadão comum sem voz, tal não poderia ser desconsiderado no mais importante cientista da época e laureado com o prémio Nobel da Física de 1921. Einstein apoiou várias organizações pacifistas, e apesar de ser um defensor da liberdade, dava muito pouco crédito à retórica capitalista do bem maior plasmado no "mercado livre". Defendeu o salário mínimo nacional para combater a pobreza e uma indústria regulada pelos estados, para o planeamento a longo prazo da economia em função das necessidades da sociedade. Condenou fortemente os bombardeamentos de Hiroxima e Nagasaki considerando-os desnecessários e que serviriam apenas a mera "querela politiqueira" entre os EUA e a União Soviética, considerando que a União Soviética tinha declarado guerra ao Japão e invadido a sua soberania continental no mesmo mês de agosto de 1945.

Era por conseguinte um opositor fervoroso do militarismo, do serviço militar obrigatório e do nacionalismo. Denominava o nacionalismo como "o sarampo da Humanidade" e o militarismo como "a mancha pestilenta da civilização". Referia que os estados, quando soberanos e providos de poder militar, invariavelmente conduziam o seu país à guerra, sendo que a questão não era se mas quando. Referia, como qualquer humanista, como em A Ameaça da Destruição Total (1947), que "o medo e a ansiedade gerais criam ódio e agressividade", e que num clima social dessa natureza "o pensamento humano, objetivo e inteligente não surte qualquer efeito, sendo mesmo suspeito e perseguido por ser não-patriótico". Por conseguinte, era mesmo opositor da total soberania nacional dos estados, defendendo um governo supranacional, ao qual os estados nacionais deveriam delegar parte da sua soberania, como forma de se preservar a já por Kant tão ansiada Paz Perpétua. Num artigo publicado em 1945, escreve:

"Temo eu a tirania de um governo mundial? Claro que sim. Mas temo ainda mais a chegada de mais uma guerra das guerras. É certo que qualquer governo é maléfico até certo ponto. Mas um governo mundial é preferível à mais suprema maléfica das guerras, particularmente com as suas massivas destruições." 

Todavia na época da Guerra Fria o desígnio de um governo mundial, mesmo que democraticamente eleito como defendia Einstein, era encarado no Ocidente como uma conspiração comunista, plasmada na profusa e difundida Internacional; já na União Soviética os apelos de Einstein mais não eram encarados como uma fachada para a imposição de um governo mundial de índole imperialista e capitalista dominado pela alta burguesia. Por isso, os apelos de Einstein, apesar da sua reputação, foram ignorados. E porque refiro eu então que Einstein era também europeísta e por conseguinte muito provavelmente um defensor da atual União Europeia? Em 1914, no início da Primeira Grande Guerra, noventa e três proeminentes intelectuais, artistas e clérigos alemães assinaram um Manifesto ao Mundo Civilizado onde justificavam que o militarismo alemão e a invasão da Alemanha à neutral Bélgica, serviria não só para preservar a cultura germânica mas também a cultura do mundo civilizado. Einstein, juntamente com apenas mais outros três cientistas, assina uma contra declaração, denominada Manifesto aos Europeus, onde apela para a criação de uma Liga de Europeus para que esta possa "fundir o continente num todo orgânico".

Não é a União Europeia o sonho supremo de Einstein, plasmado no seu manifesto de 1914? Uma Liga de Europeus, num "todo orgânico", democraticamente eleita, desprovida de capacidade militar e de exército, e que preservou a Paz na Europa durante os seus sessenta anos de regência? Mas não sejamos ingénuos, pois a República de Weimar durou apenas quinze anos, e foi corrompida pelo, denominado por Einstein, "lado negro" da civilização. Não tenhamos por conseguinte quaisquer dúvidas: enquanto a União Europeia existir, haverá Paz na Europa. Sem a União Europeia, com os nacionalismos exacerbados e catapultados pelo "medo e ansiedade", parafraseando Einstein e recordando a história europeia do séc. XX, a questão bélica na Europa será sempre quando e não se.

O socialismo motorizado



Um dos melhores indicadores para a qualidade de uma infraestrutura ou modo de transporte, havendo vários à disposição dos utilizadores, é de facto, a sua utilização e repartição modal, respetivamente, independentemente dos critérios burocráticos usados para mensurar a sua qualidade. É típico, por exemplo, um governo ou um município dizer que fez imensos investimentos em ciclovias, mas que por motivos culturais, climatéricos ou topográficos, as pessoas não usam a bicicleta. Ou o mesmo governo dizer que fez imensos investimentos em transportes públicos, mas porque as pessoas são "preguiçosas", não os usam e continuam a preferir o automóvel particular. Esquecem que a questão principal, normalmente nem é a cultural, a topográfica nem a climatérica. Caso os utilizadores tivessem à sua disposição uma infraestrutura ou modo de transporte, que fosse mais barato, seguro, conveniente e célere que o automóvel, usá-lo-iam. Mas caso o estado invista milhares de milhões em rodovia, como investiu no séc XX no Ocidente, de pouco valem os esforços financeiros na construção de ciclovias ou melhoramento em transportes coletivos, porque o sistema de transportes funciona como os produtos comerciais dentro de um determinado mercado, ou seja, os transportes competem e concorrem entre si, e os utilizadores e consumidores escolhem o que mais lhes convém para as suas necessidades em função dos fatores anteriormente referidos, como tempo, custo ou acessibilidade. 

Por isso, após anos de investigação nesta matéria, não tenho a menor dúvida, que no último século, no Ocidente, vivemos um verdadeiro socialismo motorizado, onde o Estado, numa visão tirânica e impositiva de mobilidade, praticamente forçou todos os consumidores a adotar o automóvel como meio de transporte, fazendo com que o sistema de transportes coletivos de passageiros, a bicicleta ou mesmo andar a pé, se tornassem ou mais perigosos ou menos competitivos. É por conseguinte um gigantesco paradoxo, que o país que mais aplicou tal socialismo motorizado, é aquele que se arroga mais liberal, ou seja, os EUA. Mas não é assim por exemplo na Holanda, um país liberal em vários domínios, mesmo no setor dos transportes. Mas não julgue o caro leitor que na Holanda o automóvel é impedido de circular, pelo contrário, há mais gente a usar o carro na Holanda que a bicicleta ou os transportes públicos. O que a Holanda simplesmente não faz, é bloquear quem quer que seja, de adotar a bicicleta como meio de transporte, pois aplica um modelo onde existe equilíbrio concorrencial entre os vários modos de transporte. E não há meio de transporte mais libertário que a bicicleta, na medida que não estamos dependentes da tirania fiscal do estado, nem do planeamento urbano que o estado impôs às cidades, com as suas avenidas e sentidos de circulação unicamente pensados na fluidez do tráfego motorizado. A cidade aumenta drasticamente a sua porosidade viária, quando nos sentamos em cima de um selim.

Capacidade de Corredor: definição no setor dos transportes


A Capacidade de Corredor, no setor dos transportes, faz referência à quantidade de pessoas  - e não de veículos, pois o objetivo nuclear da mobilidade de passageiros é transportar passageiros e não transportar meios de transporte - que se conseguem transportar por unidade de tempo ao longo de uma via de largura fixa. O seu conceito congénere na Física, é o fluxo. Considerando um caso particular dos meios de transportes que conhecemos e uma via com largura de 3,5 metros, o resultado é o que se vê na imagem, considerando as pessoas transportadas ao longo de uma hora.

A bicicleta tem por conseguinte uma capacidade de corredor sete vezes superior ao automóvel; o elétrico convencional onze vezes superior ao automóvel, e espantosamente, a ferrovia cinquenta vezes superior ao automóvel. Agora comparai na área metropolitana de Lisboa, os binómios da Autoestrada A5 vs. Linha de Cascais ou do IC19 vs. Linha ferroviária de Sintra. Isto quer dizer, que se os governos tivessem investido mais nos acessos ferroviários aos grandes centros urbanos e menos nos rodoviários, por certo, teríamos muito maior fluxo de pessoas, com muito menos trânsito e congestionamento e com muito menor impacto nas populações por onde essas vias passam.

Fonte: Changing course of urban transport, página 55; e
H. Botma and H. Papendrecht. 1991. Traffic Operation of Bicycle Traffic. In Transportation Research Record 1320.
TRB. Washington, D. C.: National Research Council, and based on GTZ calculations (2009).

Um lamento, um exemplo


Sobre a notícia do JN com o título "Cadastrado em fuga à GNR viola e mata rapariga de 18 anos", de 17 de março de 2017, lamento muito. Pobre rapariga, porque perdeu a vida. Porém, se andasse na via pública mais vestida, que aliás muitas outras raparigas da sua idade evitam fazer, ainda hoje estaria viva. Espero que sirva de exemplo, porque muitas vezes as raparigas dificultam a vida aos homens. As roupas servem justamente para a proteção decorosa de quem as utiliza.

A Energia: a da Ciência e a do Esoterismo


Um amigo meu numa conversa de café, amigo esse que tem uma formação académica fortemente científica, fazia uma crítica acérrima à terminologia adotada pelas denominadas ciências esotéricas, pois segundo ele, toda aquela terminologia e conceitos, não passavam de uma "treta". Expliquei-lhe; considerando que apesar de também ter uma forte formação académica na área científica, não sou um cético nestas matérias; que para o caso do conceito de "energia", na Ciência e no Esoterismo, apesar de fazerem uso da mesma palavra, os conceitos são distintos mas não incompatíveis. Referi-lhe que o termo energia no Esoterismo não é para ser interpretado no sentido da Física ou da Mecânica Clássica (calor, massa e velocidade, mensurada em Joules), mas no sentido psicológico. Apresentei-lhe então uma metáfora de café.

- "Quando vês uma “gaja muita boa”, mesmo que seja ao longe, existe uma “energia” transmitida por ela, que mexe e remexe no teu corpo, sem que todavia tivesse havido contacto. Essa “energia” que dela provém, atravessa o "éter” do espaço que vos separa e entra na tua “alma”, e pelo facto de mexer contigo, de te criar por vezes convulsões ou alterações de humor, denomina-se “energia”, porque te provocou alterações ou movimentos. É sempre nesse sentido mais lato ou poético se quiseres, ou até mesmo psicanalítico, de “energia”, em que se baseiam quase todas as pseudociências. As "más energias" são estímulos que por vezes são funestos ou malignos, já as "boas energias" são estímulos que são benignos, que nos trazem pensamentos positivos ou que nos oferecem tranquilidade ou felicidade".

Continuei: - "Mas claro, dou-te razão, numa linguagem estritamente científica e rigorosa à luz dos princípios da Física na qual o conceito de energia é rigoroso e está bem definido, este tipo de argumentos justificativos do Esoterismo, não têm qualquer validade. Para a Ciência, foram apenas meros fotões que provindos de uma fonte de luz, no corpo da mulher refletiram, e que viajando a uma velocidade de 300 mil quilómetros por segundo até ti, foram absorvidos pelas tuas retinas, cuja informação correspondente foi processada pelo teu córtex visual, estabelecendo padrões e cores. Milhões de anos de evolução desde os primeiros hominídeos e o teu sistema límbico reconheceu, através das suas feições corporais, que havia altas probabilidades de ser uma mulher profícua para reprodução, e assim sendo, o teu corpo, através do teu sistema endócrino e despoletado pela tua orientação sexual, reagiu em conformidade".

Concluí então: - "Ou seja, temos duas explicações para a mesma coisa, sendo que a primeira é mais fácil de explicar a leigos".

Os antieuropeístas xenófobos são, taxonomicamente, nacional-socialistas


À luz dos critérios taxonómicos da Ciência Política,
o partido de Geert Wilders, o PVV, é considerado
um partido de centro ao longo do eixo esquerda-direita.
Já Marine Le Pen é claramente de esquerda. 
Um dos erros comuns da elite política portuguesa, assim como de muitas pessoas que opinam no espaço público, é considerar que os movimentos políticos extremistas na Europa, que têm um discurso marcadamente xenófobo e antieuropeísta, são de extrema-direita. Tal não poderia ser mais enganador. Lemos Rui Tavares no jornal Público ou vemos Francisco Louçã no seu espaço de comentário televisivo a criticar estes movimentos, alegadamente de extrema-direita, para assim, estando lá longe no outro extremo, se distanciarem desse tipo de movimentos político-partidários que promovem a xenofobia e a intolerância perante os estrangeiros ou certo tipo de minorias religiosas.

Todavia, é preciso enquadrar politicamente estes movimentos à luz de critérios científicos o mais rigorosos quanto possível, dentro da ciência política. Reduzir um certo ideal a um eixo ideológico esquerda-direita, é além de redutor, cientificamente incorreto tal a complexidade do ideário dos partidos na atualidade. A noção de esquerda e direita no espectro político surge com a revolução francesa, quando os representantes da sociedade, na recém-criada assembleia republicana, se dividiam em função do estrato da sociedade. Do lado esquerdo sentavam-se os representantes do povo e do lado direito os representantes da aristocracia. Desde então tendeu-se a associar que a esquerda teria uma maior comiseração e solidariedade perante os mais pobres e que a direita teria uma visão mais centrada na economia ou nos detentores do capital. Mas à luz dos pressupostos históricos contemporâneos do século XX, é fácil encontrar alguns regimes tirânicos que se enquadram em dipolos opostos no eixo político esquerda-direita, tal como o estalinismo ou o fascismo. Estes dois regimes, além de estarem em dipolos ideológicos opostos, eram militarmente inimigos; mas ambos tinham algo em comum, nos dois funcionava um regime tirânico onde as liberdades individuais dos cidadãos, como de pensamento, de livre associação ou de movimento, não eram respeitadas pelo estado.

Percebemos com o caso anterior, que é necessário estabelecer um segundo eixo político, que mensura não só a influência que o estado deve ter na economia da sociedade, mas também o quão liberal ou conservador se deve ser nos costumes ou na forma como o estado lida com o cidadão. Além disso, mesmo nesta análise politicamente o mais imparcial possível, muitas vezes a forma como os partidos lidam com o antieuropeísmo ou com a xenofobia, não está propriamente bem enquadrada na taxonomia político-ideológica. Ou seja, um partido pode ser enquadrado em qualquer ponto no espectro político-ideológico e todavia ter ou não ter uma visão xenófoba ou intolerante perante o estrangeiro. Mas há um padrão claro, parece-me. Em todos estes movimentos protecionistas e antieuropeístas na Europa, de facto, se quisermos ser cientificamente rigorosos com referência à Ciência Política, denotamos que estes partidos, como de Marine Le Pen na França ou de Geert Wilders na Holanda, não são de extrema-direita, são de facto, nacional-socialistas. Muitas das propostas da Frente Nacional em França são exatamente iguais ou mais ousadas ainda que as da extrema-esquerda, como o controlo do banco central, a redução da idade da reforma para os 55 anos, o aumento substancial dos salários na função pública ou a redução do horário de trabalho para as 30 horas por semana. A Frente Nacional não é de extrema-direita, é totalmente incorreto do ponto de vista taxonómico, assim categorizá-la. A Frente Nacional de Marine Le Pen é marcadamente antiliberal, protecionista e com uma visão em que deve ser o estado a ter controlo hegemónico na economia e na política monetária, podendo-se assim afirmar, e tal não o é afirmado publicamente pois além de ser ilegal é politicamente incorreto, que a Frente Nacional tem um ideário marcadamente nacional-socialista. É isso que estes partidos antieuropeístas normalmente são: nacional-socialistas. Defendem um estado muito presente na economia e na vida dos cidadãos, estado que supostamente redistribui diversos apoios sociais a nacionais, e ao mesmo tempo com um ideário de ideologia marcadamente nacionalista e xenófoba. 

Logo, no plano político-ideológico com dois eixos, em que no horizontal temos esquerda-direita, sendo a esquerda defensora de políticas com maior presença do estado e a direita defensora de maior soberania financeira dos cidadãos em questões fiscais e económicas; e no plano vertical o eixo que define a vertente conservadora-liberal, podemos, se quisermos ser rigorosos, dizer que Wilders ou Le Pen, são de centro ou mesmo de esquerda, mas com um visão mais conservadora da sociedade. Ou seja, lamento desiludir as pessoas de esquerda, mas ideologicamente falando, os extremistas xenófobos que temos visto ascender na Europa não são de extrema-direita, muitas vezes são de centro ou de extrema-esquerda, o que os distingue dos demais partidos, não é o eixo da esquerda-direita, mas o eixo do liberalismo-conservadorismo. Neste aspeto há claramente um denominador comum em todos estes movimentos, e esse denominador comum é o populismo. E o populismo consegue ser maximizado numa ideologia que busque o que há de mais populista em todo o espectro político. Assim, estes movimentos nacional-socialistas, tal como o seu original nazi, obtêm quer ideais da extrema-esquerda na noção de que o estado deve servir de garante social para todos os cidadãos nacionais independentemente das suas ações ou produtividade, quer ideais do nacionalismo xenófobo, protecionista e intolerante à diferença. É esta mescla populista e pouco racional, de maximizar junto das massas o populismo em todas as frentes ideológicas, que definiu o nacional-socialismo e que define estes movimentos antieuropeístas.

Dizem que o co-r-po é po-r-co


Dizem que o corpo é porco
e se queres ver o teu porco
abre o teu corpo,
é que o anagrama do corpo
que se obtém do porco
que humilha o turco
o qual não conspurco
faz do porco o corpo
do bárbaro suíno
que cadáveres ingere
que reza a deus e ao trino
que a gula não mede
e tampouco
conhece o seu corpo

Abre o porco e o ingere
dias sem vez
e quanto mais o degola
mais porco se fez,
arroga-se acima do porco
pois reza a deus e aos três,
mas não passa dum porco
que para gula do corpo
racional nem tão pouco
e nem o porco é tão louco
conspurcando, se fez
um católico português

Degola-os o porco outra vez
com vil mesquinhez
na senda da gula
de um porco burguês,
arroga-se austero
católico, português,
e com cadáveres no prato
conspurcam-se à vez.
Sim, são vocês,
será malcriadez
com plena nitidez
criticar o carniceiro
o javardo festeiro
e um porco burguês?

Mas Deus é Grande
digo-o outra vez
sem mesquinhez
com mui sensatez,
e de cancro e maleitas
pela barbárie que fez
por não conhecer o seu corpo
chacinando o seu porco
criando-os à vez
num matadouro soez
para no prato, já morto
saciarem a gula
dum porco burguês,
que se arroga
superior
por rezar a deus e aos três!

Pois Deus,
Aquele que vos fez
na sua magna lucidez
imputa ao porco burguês
cancros, enfartes e AVCs
por este chacinar
qual massacre de Fez
a Criação animada
do Criador que lhe fez

Se queres conhecer o teu corpo,
o animalesco e grotesco,
chacina o teu porco,
trucida-o, esquarteja-o,
tortura-o, massacra-o,
fatia-o, degola-o,
decapita-o, ingere-o,
apunhala-o no pescoço
bebe o seu sangue
trinca o seu osso
e serás pois mais louco,
mais animalesco,
ainda mais javardo,
e mais grotesco
que esse mesmo porco

Pelo contrário
tal como no anagrama
se queres conhecer o teu coração
luta e combate
conhece a Razão
e ama
os entes animados
consagrados
que te oferendou
a Criação!

And as such, I quit from being Wikipedia contributor


After thousands of contributions to Wikipedia for several years in several languages, I quit of contributing to Wikipedia. Not because I think that some articles are not trustworthy, because they are in many fields, like maths and physics where passions and ideals do not play an important role, but I definitely do not want to lose my time contributing to a project, which in many fields, is nothing but a post-truth digital leaflet of american historical propaganda.

I refer particularly to the article for the "atomic bombings of Hiroshima and Nagasaki", which is written strictly from the american side. Till here, no big issue, since Wikipedia works from contributions from donors, i.e., people like me that used to write for several articles enlarging them, so, it is not so uncommon that an article lacks a neutral point of view as the person who wrote it, might have had a biased approach. But as I tried to improve the article, providing reliable sources for the sentences I was adding, trying to confer more neutrality to such article, in a harsh debate (let's hope they will not delete it, as is is also typical sometimes), every step I made, in every sentence, was blocked by a bunch of "american patriotic" editors that seemed to think that dropping a weapon of mass destruction upon civilians does not raise an ethical issue. It's incredible ridiculous, but it is from this self-evident truism that the verbal tension arose. 

It was a tremendous huge and harsh debate, as I was simply trying to include this sentence, which was blocked:

The ethical justification for the bombings of Hiroshima and Nagasaki is still debated to this day, due to several reasons including the number of casualties provoked by the bombings or the alleged militarily unnecessary, though other bombings such as on Tokyo have killed more people; but also due to the usage of weapons of mass destruction upon civil population.

I cite my last and final sentence to that debate:

Do we really need the other article [about the ethical debate of the bombings] to include such evident truism, so that it can be included here? Do we need sources for a truism? Even if we needed, I gave you as a source, a book with 552 pages that respects WP:SOURCE whose title is "Ethics and Weapons of Mass Destruction", which mentions several times Hiroshima? What do you need more to accept such sentence? If you want to convert WP in the digital leaflet of US post-truth historical propaganda, feel free, I'm out of WP as contributor, I quit. And I definitely, as a reader will stick to physics and math, as we based ourselves there on ''facts'' and not on patriotic ideals, and above all we do not make cherry picking (this article is cherry picking based from start to end), and I will give zero credibility to any article referring to US History or anything connected to US. You're a bunch of History re-writers, not better than Stalin's scripters.

Das declarações do eurodeputado polaco sobre a igualdade de género


      Nada é tão belo como a Verdade
              Boileau

Um eurodeputado polaco afirmou, no Parlamento Europeu, que as mulheres deveriam ganhar menos do que os homens pois são, no seu entender, "mais fracas, mais pequenas e menos inteligentes", tendo o referido eurodeputado facultado alguns dados estatísticos, como os resultados nas olimpíadas ou no xadrez, para alegadamente demonstrar que as mulheres são, em média, mais fracas fisicamente e menos intelectualmente capazes. Cumpre-me apenas apresentar quatro pontos.

1) Sancionar o eurodeputado por dizer o que pensa, como foi pedido por vários eurodeputados e membros da sociedade civil, é mais um ataque gritante à liberdade de expressão, levada a cabo pela vox populis e pela ditadura do politicamente correto, por muito que discordemos das suas opiniões, principalmente num lugar onde a liberdade deveria ser um dos magnos pilares, ou seja, no Parlamento Europeu, tendo em consideração em acréscimo a diversa jurisprudência que o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem tem levado a cabo com referência à liberdade de expressão.

2) Por muito animalesco que seja o referido deputado nas suas declarações, ele apresentou factos estatísticos que justificam o porquê da desigualdade salarial. As mulheres, em média, devido à evolução antropológica, têm uma inteligência espacial mais baixa que os homens (no Paleolítico as mulheres ficavam na tribo enquanto os homens saiam para caçar, e a necessidade de caça foi o que providenciava aos animais capacidades abstratas e espaciais de inteligência), têm menor nível de musculatura (pela mesma razão), e são menos agressivas, o que explica em parte o menor número de mulheres nas lideranças das empresas ou dos países. Têm todavia as mulheres, em média, maior inteligência social (tendo ficado mais tempo junto dos outros membros da tribo, obrigou-as a otimizar as relações sociais e interpessoais com os demais membros da tribo), maior criatividade, maior capacidade para cuidar (são elas que no Paleolítico praticamente sozinhas cuidavam dos filhos) e muito maior resistência à dor (devido ao parto). Por isso são usadas amiúde e preferencialmente por estados e empresas para cargos diplomáticos, relações públicas, recursos humanos, cargos onde se envolve a psicologia, ensino ou cuidados médicos.

3) Acima das questões físicas, genéticas, fenotípicas ou evolutivas, e podemos também usar estes argumentos para justificar a desigualdade entre raças, etnias, estrato social, idade, nacionalidade ou orientação sexual, porque elas existem; está o respeito pelos Direitos Humanos, à luz dos quais, qualquer ser humano deve ser tratado pelo estado e pelos outros sem qualquer tipo de discriminação, aliás, tal como plasmado na Constituição da República, no artigo com referência ao princípio da igualdade, princípio que defendo veementemente. Ou seja, antes da genética, da evolução, da estatística ou do preconceito, está, no desígnio de um princípio civilizacional, a Carta dos Direitos do Homem, na qual está patente que todos devemos ser tratados de forma equalitária. Nesse sentido, declarações públicas como as proferidas por um alto membro do Parlamento Europeu, são no mínimo, muito pouco delicadas.

4) As feministas têm essencialmente, no meu entender, de encarar o seguinte paradoxo, na senda da defesa da igualdade de géneros, a qual, naturalmente também defendo. Caso as mulheres defendam medidas de discriminação positiva, estão de facto, a assumir que a estatística e a genética são importantes, e que existe à priori uma diferença entre géneros que debilita as mulheres, e que, por conseguinte deve o legislador, tal como já faz para pessoas com debilidades físicas, enveredar por políticas de discriminação positiva. E acima de tudo, julgo, que então deveríamos também enveredar por políticas que evitassem a discriminação entre raças ou etnias. O Parlamento Português e o Parlamento Europeu, não têm, e devo confessar que o considero no mínimo muito estranho, um único deputado negro.

Concluo que, por muito animalescas, na forma, que sejam as declarações do sr. eurodeputado, elas baseiam-se em alguns factos estatísticos verdadeiros. Mas acima da estatística ou da genética, está a carta dos direitos humanos, à luz da qual todo o ser humano deve ser encarado com respeito, liberdade e igualdade, pelo estados e pelos outros.

Do "machismo" gramatical da língua portuguesa


A morfologia do Português é patriarcal

Recentemente o Prof. de linguística João Veloso, antigo presidente da Associação Portuguesa de Linguística, no seu blogue, fez uma análise científica, refutando a ideia de que a língua portuguesa seja "machista" e "heteropatriarcal". Refere o académico que a concordância, no caso do Português em género e em número, é uma propriedade universal de todas as línguas, e que declinando as palavras, servem para categorizá-las todas num mesmo grupo, grupo esse cujos elementos partilham denominadores comuns. Dá o seguinte exemplo:

       O novo professor inglês de Matemática chegou ontem

Repare-se que estando "o professor" no masculino singular, ou seja, o substantivo; também o artigo definido "o", e os adjetivos "inglês" e "novo", concordam em género e número com a palavra "professor", sendo que normalmente nas línguas, é o género do substantivo quem dita o género das palavras ao qual estão associadas. Repare-se todavia, que apesar de a concordância poder existir em abstrato em todas as línguas do mundo, ela é, de facto, transparente no Inglês. Usando do próprio exemplo do académico, na língua inglesa ter-se-ia:

       The new English teacher of Math arrived yesterday

Não há informação nesta frase em Inglês, sobre o género das palavras, apenas sobre o número, e mesmo no número não há lugar a concordância porque em Inglês os adjetivos (e por norma os nomes) não declinam em função de género ou número. 

Já em Alemão, existem três géneros (der, die, das), o que evita em grande parte a denominada gramática "heteropatriarcal", visto que existe em acréscimo o género neutro. Obviamente que quando se trata de pessoas, a declinação existe também em género e em número, existindo também o facto de que, num grupo onde haja apenas um elemento do sexo masculino, a declinação do substantivo é a masculina. No caso da palavra cidadão, que deu tanto que falar devido à polémica lançada por um partido político que mencionava que a palavra cidadão era masculina, logo machista, e que por conseguinte se deveria mudar o cartão de cidadão para cartão de cidadania, temos em Alemão também as quatro variantes em função do género e do número:

       der Bürger | die Bürgerin  Pl.: die Bürger, die Bürgerinnen

Mas interessantemente, em Alemão, o artigo definido plural é único, não havendo no plural variação em função do género, sendo que é igual ao artigo definido feminino no singular, ou seja die. O mesmo fenómeno acontece para o pronome pessoal feminino singular, ou seja, sie, que é igual ao pronome pessoal no plural, que também é único e não depende do género, ou seja, sie. Isto é, para a "pluralidade", em Alemão, adotou-se o feminino e não o masculino.

Já no neerlandês, e nas línguas nórdicas germânicas, num processo evolutivo, o género feminino foi fundido com o género masculino criando um género "hermafrodita", tendo todavia permanecido nestas línguas, o género neutro. Assim, em neerlandês diz-se de vrouw e de man para "a mulher" e "o homem" respetivamente. Já, "a criança", tal como em Alemão das Kind, adota o género neutro, neste caso em neerlandês, het kind. Ou seja, apesar de no neerlandês e nas restantes línguas nórdicas germânicas haverem dois géneros, esses dois géneros não são de facto o masculino e o feminino, são um que resulta da fusão do masculino e do feminino, sendo que o outro é o neutro. Logo, diria que numa análise sintática mais objetiva, pode-se afirmar que de facto existe uma certa gramática "patriarcal" na língua portuguesa e restantes línguas neolatinas, visto que são línguas que têm apenas dois géneros, sendo que é o género masculino quem domina.

Ainda em relação à questão do termo "género gramatical", o académico refere que é apenas uma infelicidade taxonómica de um legado antigo indo-europeu e que deve ser abandonada. Parece-me todavia que o autor quis acima de tudo incutir no público uma visão politicamente correta e não discriminatória da língua Portuguesa. De facto, o género gramatical é um legado do proto-indo-europeu que não pode ser ignorado, como está patente na grande maioria das palavras que fazem referência a seres animados providos de género biológico, como em gato e gata, menino e menina, porco e porca, galo e galinha, cão e cadela, etc., sendo que, a grande percentagem das palavras em Português assinalam o género gramatical em função da letra [o] ou [a], sendo as palavras sofisma, problema, tribo ou planeta, apenas raras exceções. Em Português aliás, esse género estritamente morfológico é mais evidente devido à própria terminação da palavra com as letras [o] ou [a], que são mais determinantes para a definição do género gramatical, do que propriamente a atribuição zoomórfica ou antropomórfica de marcas animadas e humanas a entes inanimados ou não humanos, plasmados em tal palavra.

Uma análise psicanalítica à ortografia

Todavia, permiti-me, porque também me interesso muito pelo estudo da psicanálise, uma análise gráfica mais profunda sobre a questão psicanalítica da ortografia, mais concretamente com referência ao género. Na língua portuguesa, claramente que a letra [A], é a letra que marca maioritariamente o género feminino, sendo que a letra [O], marca o género masculino, sendo que estas duas vogais são usadas amiúde para assinalar o género de quase todas as palavras, declinando-as, independentemente das funções sintáticas de tais palavras. Mas se analisarmos graficamente com minúcia e detalhe, repararemos que a letra [A], do ponto de vista gráfico e psicanalítico, obedece a uma estrutura fálica, sendo assim masculinizada. Pelo contrário, a letra [O], por ser graficamente e constantemente curvilínea, obedece, não tendo qualquer protuberância fálica, do ponto de vista psicanalítico, a uma estrutura visual efeminada.

Assim, permiti-me a observação, mas de facto, numa análise estritamente morfológica, pode-se afirmar que a língua Portuguesa, assim como o Espanhol, é uma língua "heteropatriarcal". Todavia, numa análise mais psicanalítica (alguns diriam mais críptica), estas línguas são na realidade "matriarcais", pois concedem a virilidade máscula e fálica, tradicional e culturalmente associadas ao poder e autoridade, ao género feminino. Dito de uma forma mais plebeia e pouco rigorosa do ponto de vista científico, pode-se afirmar que a língua portuguesa, do ponto de vista exotérico (visto de fora) é uma língua marcadamente patriarcal, dada a sua semântica e morfologia, mas do ponto de vista esotérico (visto de dentro), pode-se afirmar, considerando a questão gráfica e do que se conhece da psicanálise, que a língua portuguesa é de facto matriarcal.

Do modelo para o melhoramento da Democracia


Muito se tem escrito sobre os defeitos das democracias contemporâneas, e como estas aparentemente não conseguem cativar muito do eleitorado que se manifesta descontente com o regime político. Claramente, tendo em consideração os registos histórico-políticos, pode-se afirmar que o descontentamento da população perante a classe dirigente está sempre relacionado com questões de natureza económica que geram pobreza e desemprego, podendo ser acentuadas com aspetos adicionais de natureza relevante mas todavia com menor impacto, como migrações de povos culturalmente diferentes. Havendo bem-estar, pleno emprego e alto nível de vida, por norma os povos demonstram pouco descontentamento perante a classe política dirigente, independentemente dos regimes políticos em vigor. Os regimes democráticos tendem naturalmente a atenuar tais descontentamentos populares pois o sufrágio permite ao eleitorado fazer escolhas, mas muitas das escolhas que parte do eleitorado de facto prefere ver instaladas em momento de crise, são contrárias aos princípios constitucionais de um estado de direito, logo, o regime democrático não tende a resolver os problemas subjacentes a questões desta natureza. A democracia não pode tolerar que haja escolhas que sejam antidemocráticas, sob pena de o próprio regime democrático ficar posto em causa.

Todavia não mencionarei neste texto as questões de natureza económica, ou tantas outras, que provocam euforia consumista, bem-estar social ou pleno emprego; ou as suas antagónicas que por seu lado provocam pobreza e desemprego, e que são de facto os principais fatores para a insatisfação popular com o regime político e com as classes dirigentes; tentarei todavia neste texto apresentar, após reflexão, medidas que visem melhorar o regime democrático tornando-o mais imune a fenómenos que corroem o princípio da liberdade, da tolerância democrática, do pluralismo e do próprio estado de direito. No meu entender as graves falhas da democracia contemporânea representativa estão relacionadas, quer com uma visão extremamente ingénua, utópica e quase pueril do comportamento humano, quer por outro lado, com uma visão extremamente vil e maquiavélica por parte de algum setor das classes económica e política.

Julgo que as falhas conceptuais do regime democrático estão mais vinculadas ao paradigma inquestionável do modelo de sociedade ocidental, que achamos que, tal como o otimista no Cândido de Voltaire, é o melhor dos mundos possíveis. Nunca nos questionamos porque razão os fundadores da Democracia, os Gregos, não escolheram o modelo representativo, mas o direto, em que cada cidadão vota em cada decisão do executivo, mas em que cidadão é considerado apenas o homem livre maior de idade e natural da pólis. É certo que o modelo grego advém de uma visão elitista da sociedade em que apenas os melhores deviam decidir (aristo-cracia, ou seja, poder aos melhores), mas foi exatamente por terem essa visão pragmática de escolherem apenas os “melhores” e os naturais, que no meu entender, a democracia pôde ser instituída e funcionar normalmente. Todavia, mesmo no regime grego, hipoteticamente dirigido apenas pelos melhores, desde cedo surgiu nas assembleias a figura do demagogo, ou seja, o líder das massas, que num discurso carregado de pathos (emoção) e com pouco de logos (conhecimento), atraía as massas para decisões espontâneas e irracionais. Talvez devido ao argumentário que Aristóteles posteriormente plasmou nas suas obras e que de certa forma plasmava o ideário grego sobre a diferença de géneros, é que as mulheres não podiam votar. De acordo com Aristóteles as mulheres demovem-se exacerbadamente muito mais pela emoção do que pela razão, e embora a emoção popular tenha tido um papel importante para os diversos processos revolucionários que fizerem o Homem evoluir, são todavia demasiadamente prejudiciais no dia-a-dia das decisões dos poderes executivo e legislativo.

Os Romanos todavia adotaram um modelo democrático, que além do elitismo grego de apenas aceitarem homens livres e cidadãos naturais das províncias romanas, exigiram requisitos adicionais como o cumprimento do serviço militar. Em acréscimo, os Romanos entenderam que o peso de cada voto, deveria ser proporcional àquilo que cada cidadão contribui através da carga fiscal, tal como sucede hoje nas assembleias de votos dos acionistas de uma empresa. Quando muitos séculos mais tarde os Britânicos reinstauraram a democracia, fizeram-na de forma representativa, e aqui, surge no meu entender, uma das maiores hipocrisias dos tempos contemporâneos, pois os princípios subjacentes da democracia representativa, de facto, implicam que o eleitorado precisa de procuradores para os representarem nas diversas decisões executivas e legislativas.