Algumas notas matemáticas sobre o IRS para 2018



Tentarei não fazer política, mas apenas pedagogia matemática. Aristóteles, e bem, mencionou que o Homem é um animal político, pois transmite ideias e pensamentos através dos seus meios de comunicação, normalmente a oralidade ou a escrita. Todavia tentarei cingir-me à pedagogia matemática. O partido socialista, com o apoio dos partidos da esquerda que formam a denominada geringonça, pretende alterar os escalões do IRS, mormente desdobrar o segundo escalão, sem que tal afete muito a receita fiscal deste imposto, que rende ao Orçamento de Estado, cerca de 12 mil milhões de euros. Como, por opções políticas, a margem orçamental não é elevada para a redução deste imposto que incide essencialmente sobre o trabalho, e o PS pretende cumprir a sua promessa eleitoral de aumentar o número de escalões, existirá por conseguinte um problema técnico-jurídico, que me parece, que mais uma vez, revela o ardil com que este governo aborda os assuntos de natureza política. Ainda sobre o mito da progressividade e do número de escalões, recomendo ao leitor que leia este artigo que escrevi em sede própria, que demonstra, que mais escalões não implica obrigatoriamente mais progressividade. Tal é uma premissa matemática.

Caso o governo desdobre o segundo escalão, criando um escalão adicional com uma taxa mais baixa, tal significa que todos os escalões acima desse escalão, beneficiarão com esse abaixamento, pois esse é o princípio básico de qualquer imposto progressivo. Imagine, em teoria, que há apenas dois escalões de taxação para rendimentos mensais, um de 10% até €1000 por mês, e outro de 20% a partir de €1000 por mês. Logo, alguém que ganhe €500 por mês, paga €50 de imposto, ou seja, 10%. Mas alguém que ganhe €2000 por mês, paga 10% sobre os primeiros €1000, e 20% sobre o valor restante, ou seja, paga €100 mais €200 euros, perfazendo €300. Neste caso, a taxa de imposto efetiva será de €300 sobre os €2000, ou seja, 15%. Caso o governo; em teoria considerando este regime fiscal mencionado; desdobre o primeiro escalão, criando um escalão adicional de 5% até €500, alguém que ganhe €500 por mês passará a pagar apenas 5% de €500, ou seja, €25, ao contrário dos anteriores €50. É uma boa medida, porque as pessoas que ganham menos, passarão a pagar ainda menos. Mas tal implica obrigatoriamente, que uma pessoa que ganhe €1000, pela própria natureza do IRS, passe também a pagar apenas €25 de imposto pelos primeiros €500, e €50 pelos restantes, perfazendo €75, ao contrário dos €100 anteriores. E similarmente, alguém que ganhe €2000, passará a pagar €25, mais €50, e mais €200; ou seja, €275 em vez dos anteriores €300. Tal resulta numa taxa efetiva de €275 sobre €2000, ou seja, 13,75%, em vez dos anteriores 15%. Desdobrar o IRS, implica obrigatoriamente, pelas próprias premissas plasmadas no Código do IRS, baixar a fiscalidade para todos os escalões superiores ao escalão que é beneficiado. Tal é um princípio geral de qualquer imposto de natureza progressivo.

Mas o ministro das finanças, já veio referir que não pretende baixar a fiscalidade para os escalões mais altos, para que não haja perda de receita fiscal, e porque provavelmente os partidos da esquerda que apoiam o governo, não concordam com tal medida. Assim, das duas uma, e isto é uma premissa jurídico-matemática. Ou o governo aumenta as taxas dos escalões mais altos, para compensar a perda de receita, fazendo com que os escalões nos rendimentos mais altos paguem a mesma taxa efetiva de IRS. Neste caso, a medida terá impacto político negativo, pois, de facto, para a opinião pública passará a imagem que o governo aumentou os impostos, pois aumentou os valores das taxas de IRS, e conhecendo António Costa, homem ardiloso e advogado de profissão cuja Verdade é o seu último objetivo político, tal é pouco crível. Ou então, o governo cria alíneas e adendas ao Código do IRS, que estabelece que para os escalões mais altos não se aplicarão as alterações fiscais dos escalões mais baixos. Mas neste caso, trata-se claramente, no meu entender, de uma medida obviamente inconstitucional, pois o artigo 104.º da constituição refere explicitamente que o imposto sobre o rendimento pessoal é único, ou seja, não pode haver dois impostos, isto é, duas curvas de taxação em função dos critérios políticos do legislador. Considerando que o tribunal constitucional, pela própria jurisprudência constitucional, está muito politizado à esquerda, e considerando o ardil nato dos membros do governo nas questões de relações públicas, parece-me claramente que o governo optará pela segunda opção, criar um mecanismo jurídico-fiscal claramente inconstitucional, para que possa cumulativamente referir que baixou os impostos para as camadas mais baixas da população, sem afetar a fiscalidade efetiva nas camadas mais altas, para que o impacto na receita fiscal não seja relevante. Veremos!

A razão psicoevolutiva e social para a Imaculada Conceição


O dogma, a fábula e o embuste

Filosófica, sociológica e cientificamente há três terminologias que podemos adotar para a crença cristã na Imaculada Conceição. A primeira terminologia é o dogma, imposto Papa Pio IX em 1854, em sua bula Ineffabilis Deus, sendo que todavia essa crença já era aceite pela comunidade cristã muito antes do século XIX. Como qualquer dogma, é uma crença sobre a qual não se debate nem se discute, é aquilo que comummente se denomina por matéria tabu. Do ponto de vista sociológico, é uma fábula cristã, como tantas outras fábulas em tantas outras culturas religiosas ou pagãs, mesmo existentes na modernidade, como o Pai Natal (Papai Noel) ou a estória das cegonhas que trazem os bebés. As fábulas são excelentes mecanismos sociológicos para que a grande maioria da população, cientificamente iletrada, possa compreender de forma simplista, alguns fenómenos naturais ou biológicos. Aliás, para tal compreender, basta ler sobre como; de acordo com as mitologias greco-romana, nórdica, egípcia ou da Mesopotâmia; a Terra se formou, o Homem foi criado, ou porque motivo o sol nasce diariamente. O Homem precisa de ter explicações para os fenómenos naturais, e quando não sabe, especula. Quando não tem à sua disposição, ou não quer ter, ferramentas cientificas que o ajudam nessa análise, especula de acordo com as suas crenças e convicções. Como o cristão mediano não consegue sequer imaginar que Maria, a própria Mãe de Deus, de acordo com a Santíssima Trindade, copulou, ou seja, incorreu num ato sexual, a mitologia cristã adotou a prática de qualquer outra mitologia pagã, ou seja, como o próprio nome indica, criou um mito, o mito da imaculada conceição. Do ponto de vista político-científico, trata-se tão-somente de um embuste. Um embuste, do ponto de vista político, difere da burla ou da simples mentira, porque é extremamente bem orquestrado, está alargado na sociedade como sendo credível, tem aceitação por parte de muitas elites e pessoas com impacto mediático e tem muita obra publicada a seu respeito. Mas não deixa de, do ponto de vista científico, ser apenas um embuste.

O motivo psicoevolutivo para o embuste

Através da evolução, para evitar o incesto que é prejudicial à espécie, e moldado pela seleção sexual e natural, pois as crias de incesto têm por vezes problemas congénitos graves, a nossa mente, através da psicologia evolutiva, faz do sexo dos nossos familiares mais próximos (pais e irmãos, normalmente), matéria tabu. Consegue o caro leitor mesmo imaginar como foi concebido? Refiro-me propriamente à cena física da cópula! Custa-lhe, intelectualmente, mentalizar-se sobre tal ato sexual, porque lhe causa natural repugnância psicológica, sendo que essa repugnância, como tantos outros sentimentos primários, não advém dos lobos frontais, mas do sistema límbico. Essa repugnância foi o resultado da evolução para evitar o nefasto incesto, visto que, como explicado, as relações incestuosas resultaram em indivíduos menos aptos. A seleção natural e sexual escolhe os mais aptos (aptidão ou fitness) e não os mais fortes, como erradamente se possa julgar.

Logo, sendo Maria a mãe de Jesus e concebida pelo Espírito Santo, é compreensível que a Santíssima Trindade represente a própria familia cristã: em primeiro lugar o Pai, em segundo o Filho, e em terceiro Aquele que concebeu o Filho, ou seja, o Espírito Santo não esquecendo que foi Maria também quem O "concebeu". E por conseguinte é impensável para a comunidade cristã, imaginar que Maria, "a sua mãe", ou "avó", visto que Jesus e o Pai são a mesma entidade metafísica, tivesse efetuado um ato sexual para que pudesse gerar Cristo. Da mesma forma que é inconcebível para o leitor, imaginar que a sua mãe copulou para que tivesse nascido. E mais inconcebível é para si caro leitor, imaginar como a sua avó concebeu para que a sua mãe ou pai tivessem nascido, porque no caso de um parente direto em segunda geração, há uma dupla repulsa psicológica, ou seja, a repulsa do incesto e a repulsa sexual por indivíduos mais velhos (esta que também tem origens na seleção sexual, visto as pessoas mais velhas são menos fecundas ou mesmo inférteis).

Da diferença e da igualdade de sexo


O ser humano é um animal político

Tenho refletido muito sobre a questão da denominada igualdade de género, e claramente trata-se, posta a questão nesses termos, de uma questão meramente político-ideológica e com uma abordagem muito pouco científica, mormente quando falamos do ramo da Biologia e da Psicologia Evolutiva. É natural e compreensível que os indivíduos inseridos numa sociedade tendam a promover a paz social e a igualdade, e por conseguinte, a plasmar princípios ideológicos na doutrina política. Assim, é natural que pessoas com mediatização tendam a aproximar o discurso público, a um discurso politicamente ponderado, visto que tais manifestações públicas são auscultadas por muita gente, particularmente tanto homens como mulheres. O "politicamente correto" não deve ser encarado de forma pejorativa, pois trata-se muitas vezes de expressar as ideias de forma um pouco mais diplomática. Mas negar as diferenças biológicas ou psicocognitivas, em média e em termos estatísticos, entre homens e mulheres, é simplesmente negar as evidências científicas a bem do status quo político-ideológico.

Os homens, em média, são mais altos que as mulheres

Distribuição normal da altura de homens e mulheres.
Fontes: [1] [2] Departamento Americano de Saúde.
Para que possamos entender esta abordagem estatística, adoto aqui uma variável que, julgo, não provoca qualquer celeuma político-ideológico. Os homens são, em média, mais altos que as mulheres. Mas a expressão "em média", precisa de ser tida em consideração, para que não façamos generalizações universais, e para que não caiamos no ruído ideológico. O facto de o homem ser, em média, mais alto que a mulher, não impede, tal como é visível no gráfico, que haja muitas mulheres mais altas que muitos homens. Aliás, tal como pode ser visto no gráfico, pode-se dizer grosso modo, que há cerca de 1/3 de mulheres que são mais altas que 1/3 de homens. Falamos das mulheres que têm mais de 1,70 metros de altura, sendo que há cerca de 1/3 de homens que tem menos de 1,70 metros de altura, tal como se pode ver a partir do ponto de interseção das duas linhas. Esta métrica ideologicamente neutra, serve de base para toda a abordagem seguinte, ou seja, a palavra média deve ser tida em conta, em relação ao seu significado biológico e científico, sem nunca menosprezar que as médias não são generalizações universais, são indicadores meramente estatísticos.

O homem médio e a mulher média são bastante diferentes

Os homens e as mulheres, em média, são diferentes, psicológica e morfologicamente. As diferenças são tantas e tão evidentes, que a lista de diferenças é enorme. E não se resumem naturalmente apenas à genitália. Os homens, em média, têm mais altura, musculatura e capacidade de raciocínio abstrato e analítico; e as mulheres, em média, têm mais capacidades sociais e maior tolerância à dor, devido ao parto. As referidas diferenças devem-se a motivos unicamente antropoevolutivos. O homem saía para caçar, tinha pois por conseguinte de procurar caminhos e não se poderia perder no labirinto da floresta, tendo apenas sobrevivido aqueles que conseguiram a capacidade abstrata para encontrar o caminho correto. A mulher ficava no local da tribo, junto dos outros em comunidade, e também em momentos de crise, o que lhe permitiu ser uma ótima gestora de conflitos e de interações sociais. A função primária do homem era caçar e combater para proteger a prole, daí a força, agilidade e musculatura; já a função primária da mulher, era procriar e cuidar da prole, daí ser mais baixa, para baixar o centro de massa aquando da gestação do feto. Devido ao facto da mulher gerar uma criança durante nove meses, e precisar do homem para a proteção da criança, fez com que a mulher, em média, nas relações amorosas, se tornasse mais dependente do homem. Devido ao facto do homem poder conceber um número elevado de mulheres num curto espaço de tempo, se força, agressividade e musculatura tivesse para tal, para vencer os outros machos rivais, fez com que o homem fosse, em média, menos apegado a relações amorosas. 

Certos estudos relacionais, ditam portanto que, em média, as mulheres procuram homens que lhes confiram segurança e estabilidade; assim como os homens procuram mais aspetos físicos da mulher. Ou seja, enquanto os homens tendem a ser mais carnais na relação amorosa, as mulheres tendem a ser mais sentimentais. Tal diferença remete-nos mais uma vez para motivos antropológicos. O homem poderia conceber com um número elevado de mulheres enquanto que a mulher, sendo concebida por um homem, precisaria sempre da sua guarida, pois na selva, jamais sobreviveria sozinha com uma cria, considerando ademais que outros homens jamais aceitariam cuidar de um filho que não era seu, considerando a evolução por seleção sexual. Assim, a única proteção que a mulher encontrou, foi o apego ao homem, através do ardil e não da força, para que este pudesse ficar consigo protegendo-a. Assim também se explica, que em média, as mulheres aceitem com maior complacência o adultério, que os homens, assim como se explica que certas culturas punam de forma totalmente desproporcionada o adultério, em função do sexo do adúltero. No Paleolítico, a poliginia era a norma e não a exceção. Assim, também se explica, que os maiores consumidores de pornografia sejam homens, e que os maiores consumidores de música, dita romântica, sejam mulheres. Não é pois de estranhar também que estudos estatísticos sobre divórcios ditem que as mulheres, em média, dão como motivo principal para o divórcio, o facto do marido não cuidar financeiramente da família, ou seja, a clássica proteção que outrora era feita com os músculos, nas sociedades contemporâneas é feita com o sucesso profissional e com o capital; sendo que os homens dão como razão principal para o divórcio, o facto de não sentirem mais atração pelas suas mulheres, ou seja, tendo já concebido uma fêmea, o macho sente o desejo primário de procurar outra fêmea para conceber. 

Não falar destas diferenças estatísticas em nome do politicamente correto, é de facto, faltar à verdade científica. Até porque estes dados e estudos fazem-se desde o princípio do século XX, principalmente por antropólogos ao serviço de empresas de publicidade. Sempre me estranhou o facto, de as grandes empresas de publicidade terem nos seus quadros antropólogos qualificados. Mas a resposta após muita leitura, é bem evidente. O caso da indústria automóvel é paradigmático. Enquanto o carro desportivo tem obrigatoriamente de ser desenhado para o homem, relevando sinais como virilidade, o carro feminino deve ser mais pequeno e compacto, relevando a mulher autónoma e atraente que pode escolher o seu homem, pela via da seleção sexual no ato da aceitação ou recusa. Darwin apresentou-nos a seleção natural, em que os mais aptos eram selecionados em função do meio envolvente, mas pouco depois desenvolveu-se claramente a noção da seleção sexual, característica obviamente dos seres sexuados, havendo seleção ativa, pela via da procura que o homem faz por mulheres, e a seleção passiva, pela via da recusa ou aceitação que a mulher faz de homens que a procuram. A felicidade que o sistema capitalista oferenda ao indivíduo pela via da publicidade, remete-nos por conseguinte sempre para a psicologia evolutiva. A mulher feliz, a que usa determinado produto ou serviço, é a mulher atraente e voluptuosa, e por conseguinte é aquela que atrai muitos homens; sendo que o homem feliz, é aquele atraente e musculado que pode escolher várias mulheres para conceber.

Profissional e estatisticamente, constata-se também, que em média, há mais enfermeiras, educadoras de infância e amas mulheres, e há mais polícias, militares, taxistas e matemáticos homens. Estando a mulher mais tempo junto da tribo, e sendo a mulher que no Paleolítico cuidava sozinha das crias, é natural que evolutiva e profissionalmente tenha alcançado maior aptidão para o cuidado ao próximo, daí a caridade e o cuidado serem características femininas, havendo muitas mais enfermeiras, educadoras de infância ou hospedeiras mulheres, do que homens. Já a diferença entre o número de matemáticos e matemáticas é tão clara e evidente, que tal diferença não se pode dever apenas a motivos culturais ou heteropatriarcais. A diferença, de facto, deve-se unicamente a motivos biológicos e evolutivos. A matemática envolve uma enorme capacidade de raciocínio abstrato e espacial, para que diversos encadeamentos lógicos possam fazer sentido num determinado hiperespaço racional. Pela mesma razão, a diferença no número de taxistas homens e mulheres, é ela também colossal, que não pode apenas ser explicada pela via da cultura. Como anteriormente explanado, na tribo, durante o Paleolítico, era o homem quem caçava, e para caçar, precisaria de sair da zona ou do local da tribo. Há mesmo estudos antropológicos que referem que a própria inteligência e coordenação surgiu com a necessidade de caça, pois é necessário efetuar predições e cálculos para estabelecer possíveis movimentos futuros da presa. É certo que vários animais não racionais caçam, mas o Homem foi o único animal a caçar outros animais com porte bem superior ao seu. E da mesma forma que os roedores, apesar de serem não racionais, têm uma enorme capacidade para encontrar caminhos em labirintos, pois sempre viveram em galerias subterrâneas labirínticas, também no caso dos seres humanos, a seleção natural escolheu os homens que caçavam de forma mais eficiente, e aqueles que melhor conheciam os trilhos e os meandros da zona. Por isso, no caso de mapas e por conseguinte de taxistas, apesar de muitos taxistas terem um nível académico muito baixo, é impressionante a capacidade que têm para otimizar percursos ou para conhecer as diversas vias de uma determinada urbe. E a grande maioria são homens. E é também essa capacidade espacial, que permite ao homem, em média, ser mais douto na matemática e na física, ciências que exigem uma enorme capacidade abstrata e espacial.

Somos todos iguais, pois somos todos seres humanos

Mas acima de tudo somos todos seres humanos. E nesse ponto somos iguais. Felizmente que a sociedade evoluiu bastante desde o Paleolítico, e um dos marcos fundamentais das sociedades ocidentais após o Iluminismo, que nos trouxe o Humanismo, foi exatamente o princípio da igualdade. Resume-se então tudo à velha máxima de todos diferentes, todos iguais. Por conseguinte devemos ser todos tratados pelo estado da mesma forma, e, logo, considero que quaisquer diferenças apresentadas pelo estado ou alguma instituição em função do sexo, são desapropriadas. Por questões de justiça e de humanismo. Por questões de justiça, pois como vimos pelo gráfico que apresentava a distribuição estatística das alturas em função do sexo, a média é uma métrica muito torpe, visto que há muitas mulheres muito mais dotadas que muitos homens em vários domínios. Há muitas mulheres mais racionais, mais altas, mais fortes e com maior capacidade espacial, que muitos homens. A média é apenas uma métrica e todas as diferenças acima plasmadas, são sempre consideradas em média, sem qualquer generalização universal. Por questões de humanismo, pois somos todos seres humanos e o estado e as instituições devem tratar todos por igual à luz dos princípios constitucionais da igualdade. 

A Natureza e o capitalismo já incutem as suas diferenças, por isso os negros, em média, têm salários mais baixos que os brancos, assim como as mulheres, em média, têm salários mais baixos que os homens, pois as mulheres têm, em média, menor propensão biológica para liderar (no mundo dos primatas, não há fêmeas alfa). Todavia, não precisamos por conseguinte, de, na senda do Humanismo, acentuar tais diferenças a priori, porque elas existirão, em médiaa posteriori. O Estado deve, assim, tratar todos os seres humanos de forma totalmente igualitária, e jamais deve fazer quaisquer discriminações em função do sexo. Mas também jamais devemos, em função da ideologia, negar a Ciência.

Do neoliberalismo e da anarquia


Há muitas pessoas que se questionam constantemente, porque motivo os estados recentemente tiveram de proceder a diversos cortes de apoio social ou ou nos restantes itens do orçamento de estado. A forma mais fácil é atribuir o epíteto de neoliberal, a tais medidas ou a tais políticos, que tentam travar o aumento gradual da despesa pública. Parece-me, que com a evolução da língua e das diversas crises político-económicas, a palavra neoliberal, adotou a mesma terminologia pejorativa que a palavra anarquia recebeu no princípio do século XX.  Quando os primeiros movimentos anarquistas surgiram no princípio do precedente século, obtiveram, justamente no meu entender, algum apoio popular, porque de facto, havia uma enorme exploração dos trabalhadores e da restante classe operária. O patronato e o grande capital, ao depararem-se que a tomada de poder pelas massas descontroladas, poderia gerar o caos e a desordem, e porque esses grandes detentores dos meios de produção poderiam ficar sem as suas posses, lentamente, começaram a associar, através da respetiva propaganda, a palavra anarquia à ausência de regras ou a ausência de leis e ao consequente caos. 

A Anarquia funciona, mas com regras inteligentes

A anarquia não implica a ausência de regras, nem muito menos o caos, longe disso. Tenho para mim, que uma anarquia para funcionar, aliás, necessita de regras bem mais inteligentes e mais bem estruturadas, que um sistema político convencional. A palavra anarquia vem do Grego, e significa tão-somente sem líder, e em termos latos, é definida apenas como uma forma de governação, onde não haja um líder ou uma entidade governativa centralizada. Num caso extremo, advoga mesmo o fim do Estado, pois este representa o poder centralizado no seu auge. Mas há diversos sistemas anárquicos, principalmente nas comunidades da Internet, que funcionam perfeitamente e com resultados extremamente promissores. O caso da plataforma stackexchange, onde milhares de voluntários respondem a qualquer tema de forma gratuita; a Wikipédia; diversos fóruns da Internet; ou mesmo a divisa Bitcoin; são tudo formas e sistemas, onde não há um líder centralizado que define que direção deve tomar o grupo ou a comunidade. Mas não há ausência de regras, nem ausência de hierarquia. Longe disso, as regras estão muito bem definidas, e a hierarquia atinge-se por mérito, através de trabalho prestado à comunidade. Mas ao contrário de uma organização convencional, pública ou privada, não há nenhum líder (em Grego archos), nem nenhum conselho de administração, nem muito menos governo. As decisões são tomadas pela comunidade, através de meios eletrónicos. Aquilo que era quase impossível de fazer, devido a limitações técnicas, torna-se assim, hoje em dia, através de plataformas cibernéticas para o efeito, realizável. E os resultados são um sucesso.

A divisa Bitcoin é, por exemplo, um sucesso de um modelo anárquico. Sem um banco central que dite a quantidade de moeda que existe no mercado, e por conseguinte, sem um banco central que dite qual será a taxa de juro aplicada à referida divisa em cada ano, a Bitcoin tem regras muito bem definidas, sendo que para a obtenção desta divisa, é necessário "miná-la", através de processadores de sinal para o efeito. Mas à medida que a minagem é realizada, e que a obtenção de divisas aumenta, a complexidade da minagem também aumenta, como que para se obter o ouro de uma mina, fosse necessário escavar cada vez mais fundo. Ademais, as regras do Bitcoin ditam que há um limite físico, algures a ser alcançado no próximo século, para o número máximo de unidades em circulação. Assim como há um limite físico da quantidade de ouro que há no mundo, quer em circulação, quer por minar. Ao contrário do caos, esta divisa trouxe confiança e segurança para os seus detentores, porque não depende de uma organização como um banco central, que imprime moeda segundo critérios muitas vezes dúbios ou herméticos, considerando ademais que o padrão ouro para as divisas há muito que foi abandonado. Neste modelo anárquico de política monetária, um único Bitcoin vale neste momento que escrevo, cerca de 2700 euros. As regras anárquicas da divisa Bitcoin, inteligentemente, simulam um ativo raro existente na natureza, e o respetivo comportamento humano perante o mesmo. 

Outro exemplo de como a anarquia é um excelente modelo, quando as regras estão bem definidas, está na anteriormente referida, plataforma stackexchange. Nesta plataforma de perguntas e respostas, onde se abordam todos os temas, desde Matemática, Programação, Língua Portuguesa ou Aviação, há cerca de 500 mil utilizadores registados. Mas ao contrário do Facebook, cuja natureza da interação social, normalmente se resume ou a opinar de forma curta ou a observar frivolidades, e cujos servidores são detidos por uma empresa privada sediada nos estados unidos; na plataforma comunitária do stackexchange, os membros fazem perguntas de natureza relevante, e outros apresentam as respetivas respostas. As respostas são avaliadas pela comunidade e pelo consulente, e à medida que as respostas de um certo utilizador são apreciadas de forma positiva pelos demais utilizadores, este vai recebendo créditos, estabelecendo-se assim a hierarquia dentro da comunidade. Estes créditos não podem ser comparáveis ao dinheiro, porque os referidos créditos são pessoais e intransmissíveis, muito menos são vendáveis ou herdáveis. Para se atingir créditos, e por conseguinte, uma alta hierarquia, é preciso ser-se reconhecido, de forma gradual pela comunidade, através das respetivas contribuições. E mesmo as decisões de natureza macro, são sempre tomadas pela própria comunidade e não por uma entidade centralizada. Ou seja, este modelo anárquico funciona, porque há regras bem definidas, mas acima de tudo, inteligentes, que incentivam a contribuição construtiva do indivíduo para a comunidade, e acima de tudo, que premeiam de forma justa, objetiva e transparente, aqueles que mais contribuem para a comunidade.

Do neoliberalismo e da sua conotação pejorativa

Da mesma forma que há "medo" perante a anarquia, existe um "medo" generalizado perante o neoliberalismo. O medo, em Grego fobia, provém numa sociedade, quase sempre da ignorância. A título de exemplo, a deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua, num debate televisivo e a propósito da crise na Venezuela, referiu que a culpa da pobreza na América Latina e em África, estava no neoliberalismo. Apesar de, no meu entender, esta afirmação não fazer qualquer sentido, pois muitos dos problemas económico-sociais que afetam estes dois continentes são estruturais e endémicos, revela que o próprio termo político-ideológico está a tomar proporções de natureza pejorativa, associando-se o neoliberalismo a um regime ou modelo político, onde impera o caos, a ganância, os instintos selváticos dos indivíduos, a competição sem escrúpulos, e a incomensurável exploração dos mais pobres e dos mais fracos. Da mesma forma que a anarquia não significa caos ou falta de regras, o neoliberalismo não significa uma selva financeira. Mas o método da imposição do medo nas massas acéfalas, é o mesmo, ou seja, é associar qualquer ideologia ao caos e à desgraça. O neoliberalismo de facto, na sua génese, tentou ser a terceira via nos remotos anos 1930, para a dualidade que então vigorava entre o liberalismo clássico menos regrado do século XIX, e o intervencionismo estatal que se veio a concretizar em quase todos os países da Europa a partir dessa década de 1930, através do fascismo, nazismo e socialismo. O neoliberalismo procurou assim, estabelecer um modelo político, onde cada indivíduo tem a liberdade para estabelecer as relações de natureza económica que bem entender, com a mínima intervenção do estado, e obviamente, sempre dentro do quadro legal. Mas ao contrário do liberalismo oitocentista, o neoliberalismo estabelece entidades reguladoras, que servem exatamente para estabelecer regras sob as quais os intervenientes económicos devem atuar.

Um país com uma forte tradição neoliberal, onde o neoliberalismo funciona desde há várias décadas, é a Holanda. Na Holanda, não há SNS público e a saúde funciona apenas através de seguros privados, mas o estado assegura que quem não tem condições financeiras, possa ter um seguro de saúde. Na Holanda, não há juntas de freguesia ou instituição equivalente, obedecendo à premissa de "menos estado". Na Holanda, quem regula o trânsito, verifica multas de estacionamento ou limpa o espaço público, são empresas privadas com mandato público. As empresas de transporte público são geridas por entidades privadas, sob concurso público. Todos os carteiros, são profissionais liberais, ou seja, recebem por carta e usam a sua própria bicicleta para as entregas. Os holandeses têm uma legislação laboral muito mais liberal que a portuguesa, e até estranhamente no que concerne à idade, pois pode-se trabalhar a partir dos 14 anos de idade. Todavia, na Holanda o salário médio líquido mensal é cerca de 2150 euros, que compara com cerca de 850 euros para Portugal. Na Holanda, o salário mínimo é cerca de 1400 euros mensais. Estão em sétimo lugar no mundo no índice de desenvolvimento humano da ONU. Como pode então um país com uma forte tradição neoliberal ter um índice de desenvolvimento humano tão alto? De referir que o índice de desenvolvimento humano não mensura apenas a riqueza de um país, mas analisa também a sua distriuição social ou os níveis de escolaridade.

O neoliberalismo não advoga o fim do estado social

Há quem repetidamente associe o neoliberalismo ao fim e à decadência dos apoios sociais. Mas quem o refere, quer apenas incutir medo nas pessoas, da mesma forma que o patronato incutiu medo nas massas, quando associou a anarquia ao caos e à desordem. O neoliberalismo, de facto, promove a menor despesa pública através de medidas de contenção orçamental, ou através da atribuição a privados de tarefas que tradicionalmente estavam no domínio público. Mas muitas dessas medidas, na realidade, não têm uma génese em opções de natureza ideológica, mas de natureza pragmática. Os seguintes gráficos mostram, respetivamente; a coleta fiscal do estado português, total e por alguns impostos, ajustada às variações do PIB; e o número de pensionistas. Em relação ao primeiro gráfico, pode-se afirmar em termos latos, que se apresenta um bom indicador da carga fiscal que o estado aplica à economia, pois os valores estão ajustados à variação anual do PIB. No segundo gráfico, pode-se constatar claramente que o aumento da despesa pública provocada pela pressão que as pensões estabelecem no orçamento de estado, coloca além de um problema orçamental difícil de gerir, um problema de natureza democrática, pois os pensionistas tenderão a votar nos governantes que aumentem essa mesma despesa pública.

A laranja está a receita total do Estado desde 1980 a preços constantes,
ou seja, já ajustada à variação anual do PIB.
Fonte: PORDATA.

Em 1970, em plena época de expansão económica e com crescimentos acentuados,
havia cerca de 400 mil pensionistas. Em 2016, há cerca de 3,6 milhões, um aumento de 9 vezes.
Fonte: PORDATA.

As políticas neoliberais através da austeridade orçamental, na realidade, não tentaram reduzir o estado social em termos financeiros absolutos, na maioria dos casos, mais não fizeram que travar o crescimento acentuado que a despesa pública tem tido nas últimas décadas, tal como se pode constatar no primeiro gráfico.

Da terminologia

Os homens e as mulheres da Ciência não temem a terminologia nem lhe atribuem epítetos de cariz emocional, se esta for rigorosa. Anarquia, comunismo, teocracia ou neoliberalismo, são, em abstrato, teorias políticas que, em determinadas condições, podem surtir efeito positivo na comunidade. Ou, tal como advogada o otimista em Cândido de Voltaire, podem representar, em determinado local ou época, o melhor dos mundos possíveis. Acima de tudo há, no meu entender, que não aplicar no campo científico, terminologia de cariz pejorativa. A terminologia pejorativa, deve cingir-se ao meio coloquial e jamais ao meio académico. Para um académico, a terminologia deve ser rigorosa, científica e objetiva, e não permitir desvios linguísticos levados a cabo pela retórica emocional, pela demagogia ou pela propaganda.

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Orgulhosamente incompetentes


Jamais teço comentários de natureza nacionalista ou xenófoba, muito menos comentários arrogantes que atentem contra qualquer nacionalidade, muito menos a minha. Mas há coisas que me deixam profundamente perplexo. A propósito do caso do incêndio de Pedrógão Grande, que ceifou a vida a mais de sessenta pessoas, e sobre a alegada ineficácia técnica do sistema de emergência SIRESP, o debate em Portugal reduziu-se imediatamente a questões de natureza ideológica. A culpa, alegadamente, é da parceria privada do SIRESP, e o Bloco de Esquerda fez imediatamente uma proposta de lei, para renunciar o referido contrato. Já Francisco Louçã, no seu espaço televisivo, atacou o monopólio, subentenda-se capitalista, das empresas de celulose. Mas o Bloco de Esquerda, já não criticou com o mesmo entusiasmo, nem as corporações de bombeiros, nem a GNR, que são entidades públicas, e que também tiveram enormes responsabilidades operacionais. Francisco Louçã tem plena razão quando refere que é manifestamente um exagero referir que "o estado colapsou". Não colapsou, mas foi manifestamente incompetente, e Francisco Louçã apressar-se-ia imediatamente a criticar as referidas entidades, mormente GNR e bombeiros, se estas, em remota teoria, fossem geridas por entidades privadas a mando do estado. 

Por outro lado, a direita referiu que as empresas de celulose têm as suas áreas bem preservadas, mas ignorou que muitos pequenos proprietários usam os seus terrenos para vender eucaliptos a essas empresas. A direita, revelou igualmente uma cegueira ideológica assustadoramente gritante, e em nenhuma linha da imensa prosa que publicou para atacar o governo, mencionou um fator mais que evidente, o aquecimento global, que naturalmente tem efeitos em Portugal. Já pensastes porque motivo não há floresta em Marrocos e há-a com tanta viçosidade no centro e norte da Europa? O clima, a fauna e a flora da Terra, sempre mudaram desde há 4,5 mil milhões de anos, quando o nosso planeta se formou. Mas nunca o Homem teve um papel tão importante nessa alteração. O rigor dos números que certa direita usa para atacar a demagogia orçamental da esquerda, é sobejamente ignorado, quando os números reportam a qualquer ciência que não a economia ou as finanças. Por isso, a noção enganadora que a direita é científica e matematicamente mais letrada que a esquerda, não passa de um autêntico embuste mediático. Tal é manifestamente patente nas áreas do ambiente.

O debate político em Portugal, torna-se assim, profundamente pobre. Após a tragédia, nem sequer há "trancas à porta", há apenas alarido ideológico, como se a Ciência precisasse de alarido emocional. A comunicação social por seu lado, raramente convida especialistas, convida políticos. Quando um nosso filho está profundamente doente, consultamos um médico ou o presidente da junta de freguesia? Porque não manifestamos o mesmo interesse pela pátria e pelo território? A Ciência precisa de evidências, teorias e estudo. E muito poucos políticos percebem de Ciência, mas podem ser sábios o suficiente para delegar essas decisões aos técnicos, independentemente das consequências políticas. Já a Ideologia, ao contrário da Ciência, baseia o seu impulso nas massas através da emoção, e ainda bem que assim o é, pois só assim se fizeram revoluções. Uma Revolução é sempre ideológica e emocional, e naturalmente o ser humano não deve declinar a emoção, mas, usando de uma metáfora filosófica muito bem enquadrada, ninguém consegue "ter a cabeça fria quando os seus pés estão a arder".

Exige-se por conseguinte mais racionalismo ao debate político em Portugal. Pacheco Pereira ou Ricardo Araújo Pereira por exemplo, este último que obtém rendimentos a criar emoções nos demais, têm todavia muita razão, quando fazem críticas acérrimas às redes sociais, por estas alinharem a sua dinâmica, na denominada pela psicologia coletiva, dinâmica da manada. Cabe à classe política, não se deixar influenciar pelo que pensam as redes sociais, mas não é isso que acontece, e como se sabe, António Costa, preza mais pelo que a opinião pública pensa dele, do que por aquilo que de facto o seu governo faz de errado. É altamente demagógico e ingénuo, atacar um governo por este governar "para as sondagens". Todos o fazem. Mesmo ao nível individual, nós agimos, parcialmente, em função dos outros. Apenas os ascetas e os bichos, agem sem considerar a opinião dos demais. Somos animais evolutivamente coletivos, e por conseguinte, agimos em função do que os outros pensam de nós. E gostamos por conseguinte, que o que dizemos ou fazemos, seja apreciado pelo grupo. Não há maior regozijo para um comediante, que o riso da plateia. Não há maior regozijo para um artista, que uma salva de palmas. E não há maior regozijo para um utilizador de uma rede social, do que ter muitos "gostos". Mas essa ditadura dos "gostos", molda-nos egoisticamente o pensamento, e pouco a pouco, perdemos a verdadeira individualidade e o verdadeiro livre pensamento. Por isso, Jean-Paul Sartre recusou o prémio Nobel. Porque não quis que o prémio e o facto de a crítica considerar o seu trabalho brilhante, moldasse o seu livre pensamento, porque tinha bem ciente, como homem douto que que era, que a opinião do grupo, influencia a forma como agimos e pensamos. A Liberdade não pode ser deturpada ou condicionada pela egoística satisfação que um aplauso ou milhares de "gostos" nos trazem.

E ainda a propósito de Pedrógão Grande e da incompetência, a SIC apresentou um excelente documentário sobre o incêndio, e no referido documentário, além do que já é sabido, de que o sistema de emergência falhou por diversas ocasiões, ficamos também a saber que uma carrinha de emergência nem sequer tinha combustível. Como pode um veículo de emergência não ter combustível? Muito antes da ideologia vêm as pessoas e as suas valências técnicas e de competência. A administração pública em Portugal, em determinadas situações e circunstâncias, é crónica e assustadoramente, incompetente. E não há ideologia que torne um incompetente num competente. Mas há ideologias que promovem os competentes e despromovem os incompetentes. Mas essa ideologia não medra no estado. A incompetência por parte da administração pública em Portugal, é histórica e endémica. Vede a propósito também esta excelente reportagem da SIC sobre o ataque de um submarino alemão, o U35, perto de Sagres, sobre diversas embarcações de países aliados, aquando da Primeira Grande Guerra. Lembremo-nos que ao contrário da Segunda Grande Guerra, na primeira, Portugal participou do lado dos aliados. E que embarcação envia Portugal para fazer frente ao dito submarino alemão? Uma traineira de pesca, munida com um pequeno canhão! O "desenrasca" é por vezes tido como uma virtude, e é-o em situações inesperadas, mas profissionalmente é uma tragédia. Os profissionais jamais podem fazer dessa metodologia de trabalho, o seu dia-a-dia. O profissionalismo, atinge-se com a prática, o estudo, a metodologia, a organização e o planeamento, ou, citando um qualquer jogador de futebol, com "muito trabalho". Assim o é na Arte, na Política e na Ciência.  Como vedes, a incompetência não é de hoje. E a competência é feita pelos homens, não pela ideologia ou instituições. A montante dos debates ideológicos, estão sempre as pessoas. Mas acredito que há sistemas que promovem a competência, no setor público, ou no privado. Cabe aos cidadãos exigir e primar pela competência dos governantes. Portugal não deu mundos ao mundo, sendo governado por incompetentes. Bem pelo contrário, e Sagres é prova disso!

O jornalismo trauliteiro


Todos sabemos que os jornalistas estão desesperados por cliques nas suas notícias. Se assim já o é evidente em declarações feitas em Português, onde a utilização das aspas do ipsis verbis é cada vez mais mal utilizada, com declarações totalmente fora de contexto; mais grave e notório o é quando as declarações são em língua estrangeira. Tal foi claro com as famosas declarações do presidente do Eurogrupo, em que na prática, devido ao frenesim da comunicação social do sul, ficou na opinião pública em geral a noção que Dijsselbloem acha que os países do sul gastam apenas o dinheiro "em gajas e vinho". Mas o mau jornalismo continua, pela boca de Frau Merkel, a propósito do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O que disse Angela Merkel ipsis verbis:

"Für mich ist die Ehe im Grundgesetz die Ehe von Mann und Frau"

que traduzido literalmente quer dizer:

"Para mim, o casamento na Constituição, é o casamento de homem e mulher"

E como foi publicado em toda a comunicação social em Portugal, comunicação social essa que usa e abusa das aspas, colocando na boca dos intervenientes, frases que não proferiram? Ora vede a resposta, por exemplo da SIC. Todos os outros meios de comunicação social, imprensa escrita inclusive, seguiram o mesmo mau exemplo. 


Merkel não faz uso do artigo indefinido, pois usa von e não vom (contração de von com dem), e menciona claramente que a sua opinião se baseia, na interpretação que faz da Constituição, ou Lei Fundamental, no sentido mais lato que tem a palavra Grundgesetz. Bem sei que a palavra tradução, tem a mesma raiz etimológica que a palavra traição, mas roga-se mais zelo aos tradutores que trabalham para a comunicação social, e mais deontologia jornalística por parte da comunicação social portuguesa. 

Ponte Vasco da Gama vs. Ponte do Øresund




A reação imediata do leitor comum, poderá ser evocar os salários na Dinamarca ou na Suécia, em comparação com os de Portugal, para tentar justificar a diferença colossal entre as portagens destas duas obras de arte da engenharia civil. Mas não, não há Paridade-Poder-de-Compra que justifique um rácio de praticamente 30 vezes entre o preço da portagem ida-e-volta na Ponte do Øresund entre Copenhaga e Malmö, e as portagens da Ponte Vasco da Gama entre Lisboa e o Montijo. Não somos assim tão pobres e os dinamarqueses não são assim tão ricos para um rácio de 29 entre o trajeto de ida-e-volta ao longo das referidas pontes. O salário mensal médio líquido de Portugal é de 846 euros, enquanto na Dinamarca é de 3100 euros, dando um rácio de cerca de 3,6 vezes, que compara com um rácio de 29 vezes com referência ao custo das portagens, para uma viagem ida-e-volta. Podemos assim concluir, já considerando as assimetrias salariais, que atravessar a Ponte de Øresund é oito vezes mais caro que atravessar a Ponte Vasco da Gama. 

Esta dualidade comparativa é muito interessante de atestar, porque foram duas pontes praticamente construídas na mesma altura, a Vasco da Gama em 1998 e a de Øresund em 2000, tendo os tabuleiros de ambas sido colocados pela mesma empresa. Quando a referida empresa concluiu os seus trabalhos na Ponte Vasco da Gama, dirigiu-se então para o estreito de Øresund, para começar a nova ponte entre Copenhaga e Malmö. O estreito de  Øresund separa a ilha dinamarquesa de nome Zelândia, onde se situa Copenhaga, do condado da Escânia na Suécia, onde se situa Malmö. Há todavia algumas diferenças construtivas. A ponte Vasco da Gama, com os seus 12,3 km de comprimento, que se dividem em 0,8 km de ponte principal e 11,5 km de viadutos, é considerada a mais longa ponte da Europa e uma das mais extensas do mundo. Já a Ponte de Øresund, tem apenas 7,8 km, tendo todavia em acréscimo do lado dinamarquês, uma ilha artificial com cerca de 4 km, mais um túnel submarino com 3,5 km, perfazendo o complexo no total, um comprimento de 16 km, tal como na Ponte Vasco da Gama. Ademais, a Ponte de Øresund, tal como a Ponte 25 de Abril em Lisboa, é uma estrutura rodoferroviária.

Mas a grande diferença é mesmo a cultural: enquanto os dinamarqueses e suecos não sacralizam o automóvel, para muitos portugueses, o carro é tão-somente uma continuação do próprio corpo. Por conseguinte, para muitos portugueses, taxar o automóvel e a sua utilização, independentemente dos seus custos ou externalidades, é como taxar a própria respiração.

O PayPal e a Amazon tornaram-se cambistas


Voltaire, em Cândido, diz-nos implicitamente, que existe uma espécie de parasitas da sociedade, a que se dá o nome de cambistas; pois Cândido, após voltar rico das suas viagens, fica pobre ao despender toda a sua fortuna acumulada em agiotas, judeus, usurários e cambistas. Poucas pessoas nos dias de hoje, no espaço da União Monetária que é o Euro, consideram as taxas implícitas que os cambistas aplicam, porque não têm que lidar com as mesmas. Mas é um negócio de milhões, que ademais permite mascarar o lucro, publicitando, como é comum, que a conversão é grátis e que não se aplicam quaisquer taxas. É comum, durante a aplicação de taxas de conversão entre várias moedas, observar que as casas de câmbio anunciam publicamente que não aplicam quaisquer taxas, e tal sempre me questionou desde criança. Como pode um negócio subsistir, se não se aplicam taxas e se os seus serviços são gratuitos?

Como o caro leitor bem saberá, o negócio do cambista não se baseia numa taxa fixa que aplica pela operação, mas na própria taxa de câmbio que aplica, que é sempre desfavorável para o cliente. Tornou-se desde há muito o negócio principal do PayPal. Têm havido várias queixas na Internet de lesados do PayPal, que fazendo negócios entre várias moedas, têm sido largamente lesados devido às taxas de câmbio aplicadas entre diferentes moedas, taxas essas altamente lesivas para o cliente. Dou-vos o exemplo da minha última compra. Adquiri um serviço anual de um servidor de Internet, e paguei cerca de 120 dólares americanos, que segundo o Google naquele momento, equivalia a 107 euros. Mas o PayPal cobrou-me 116 euros, mais 9 euros que o valor tradicional do câmbio. Ou seja, o intermediário, numa simples aquisição de um serviço, cobrou-me cerca de 8% de comissão apenas pelo facto de as moedas do prestador do serviço e do cliente, serem diferentes.

A Amazon agora também já entrou no mercado dos cambistas, e já é comum vender produtos na moeda do comprador, mesmo que o vendedor venda o produto noutra moeda. Aquilo que parece uma facilidade para o utilizador, na realidade é uma fraude, porque a taxa de câmbio aplicada é sempre desfavorável ao consumidor. Mas enquanto o negócio da Amazon vai muito para lá das meras questões financeiras, o PayPal faz disso o seu negócio, sob a capa de "tax free service". Assim, o meu conselho é para que faça sempre compras com cartão de crédito, na moeda do vendedor. Naturalmente que os bancos também aplicam taxas de câmbio que são lesivas para o cliente, mas são muito mais favoráveis que aquelas aplicadas pelo PayPal ou pela Amazon. 

E estes episódios, ademais, dão-me força para continuar a defender o projeto da Moeda Única, pois não imaginais a quantidade de gente que, sem produzir propriamente alguma coisa de tangível, faz milhões apenas neste tipo de transações entre diferentes divisas. O que também não deixa de ser um paradoxo, ser a esquerda político-partidária, quem mais ataca o Eurogrupo, tendo sido de facto o Euro, quem findou com o negócio dos cambistas dentro dos países da Moeda Única. Bem sei que a esquerda se opõe ao Euro por muitos outros motivos, mas pensai sempre, que com o Escudo, teríamos mais uma série de "parasitas capitalistas" para alimentar, sempre que quisésseis adquirir qualquer produto ou serviço fora de Portugal, num qualquer dos outros dezoito estados membros da União Europeia que adota a Moeda Única. Por este e outros motivos, hoje encerrei a minha conta do PayPal, e passarei a fazer compras na Internet apenas usando o cartão de crédito. No futuro, ou na Utopia de Thomas Moore, haverá apenas uma moeda mundial, e por conseguinte não será necessário suster cambistas. Mas será interessante observar como se conciliará a mesma moeda entre economias tão díspares como a Noruega ou a Etiópia.

Sousa Tavares, um boçal pequeno-burguês filho da Poetisa


Sousa Tavares, em mais uma genial verborreia retórica, e porque propala as suas ideias no jornal da noite, cujo público alvo obedece ao que pensa a vox populi, debitou, qual penedo falante, mais uma série de preconceitos contra o turismo e contra a mobilidade ativa, não tendo os transportes públicos sequer fugido à voraz saga visceral do "comentador". Começa, na referida peça por – e bem – dizer que Lisboa tem um problema de excesso de automóveis, para, poucos segundos mais à frente, referir que Medina "declarou uma guerra total ao automóvel" (sic). Oh Tavares, como é que se combate o automóvel sem prejudicar os automobilistas? Também ficamos a saber com a referida "peça", que Tavares considera inaceitável, que havendo em Alcântara, a "sua zona", quatro cervejarias, que uma das referidas cervejarias tenha fechado. Um verdadeiro escândalo, que na sua sanha, só pode ser culpa ou dos turistas ou dos ciclistas, o fecho de uma das quatro cervejarias onde Tavares deglutia o líquido herético para os seguidores do Islão; pois os lisboetas, apenas se deslocam às cervejarias, alegadamente, de automóvel. O clássico anátema civilizacional do "se conduzir não beba", é sobejamente olvidado pelo filho da magna Poetisa de ascendência dinamarquesa.

Tavares também se indignou, de forma exacerbada, com as restantes preocupações de pequeno-burguês motorizado, ao considerar que "Lisboa é só para turistas", como se as zonas nobres da cidades estivessem vedadas aos lisboetas, e que os autóctones na capital do Império não passassem de párias e excomungados sem o sacro direito ao usufruto da cidade que viu partir as caravelas. Por fim, Tavares fica extremamente indignado com a inaceitável e intolerável fila para a compra dos pasteis de nata em Belém, um verdadeiro escândalo lesa-pátria, visto que a referida pastelaria está inundada de turistas, dando a entender Tavares, que os naturais do burgo, qual apartheid pós-moderno, estão interditos por bula papal de degustar tal doçaria conventual. O que Tavares não referiu, num processo de memória seletiva que Freud tão bem explicaria, é que a grande maioria dos turistas, tal como nos seus países civilizados de origem, usa os transportes coletivos para deslocações urbanas, e para confirmar tal proposição, basta andar em Lisboa de autocarro durante a época estival. O luso, cavernícola e com salários a tanger os de Casablanca, enche as rodovias urbanas com os seus enlatados onerosos, poluidores, espaçosos e ruidosos importados da Alemanha, já o Alemão, entre o Cais do Sodré e o Parque das Nações, usa o 728. É a egrégia simbiose entre o catolicismo mediterrânico de pacotilha e o socialismo motorizado egocomodista da pequeno-burguesia nova-rica pós-Abril, tão bem plasmado na retórica preconceituosa de Tavares. O Alemão, o Dinamarquês ou o Francês, assim com os lisboetas cosmopolitas que bem conhecem o conceito de cidade, andam a pé, de transportes públicos e de bicicleta. Já Tavares, um homem que afirma com pompa em público que gosta de uma boa caçada e de uma boa tourada, daquelas mesmo à espanhola – não me refiro ao sexo intermamário, mas à lide – daquelas em que o animal sangra na arena até morrer, para gáudio dos animais que a observam, considera Tavares, qual pequeno-burguês egocomodista que só se desloca sobre quatro-rodas, que a cidade lhe "está vedada"; como se para chegar ao Cais do Sodré, épico local lisbonês onde marinheiros e marialvas afagavam epidermes curvilíneas, tivesse de cruzar fronteiras altamente vigiadas entre as freguesias da cidade, e invadir por conseguinte a soberania territorial de Santa Maria Maior.

Oh Tavares, e que tal andares, tal como os teus antepassados no meio rural andavam nem há muitas décadas, e como o Homem se locomove desde que é Homem, ou seja, a pé? E que tal apanhares um táxi, ou um uber, tal como fazia o também burguês Vasco Polido Valente, quando às sextas-feiras viajava entre o Gambrinos no centro da cidade e os estúdios de Queluz da TVI, para deleite retórico-luxuriante de Moura Guedes? Com tanta sapiência que propalas em horário nobre, que é tão nobre na TV quão José Castelo Branco é nobre para a monarquia britânica, por certo que não seria assim tão oneroso apanhares um táxi para ires até à tua cervejaria favorita em Alcântara, na "tua zona". Achar que uma cidade se devolve aos cidadãos, aos naturais, com mais acessos rodoviários e mais carros, é como acreditar que a frequência de masturbação dos rapazes se mensura pela topografia das palmas das suas mãos. E a av. Duque d'Ávila, Tavares, não te diz nada? Uma artéria que restringiu fortemente o tráfego automóvel, e que por conseguinte, o seu comércio fervilha e foi deveras incrementado, tendo mais pessoas de terceira idade e "ociosos" a desfrutar do espaço público. E a Rua Augusta, não te diz nada Tavares, pecado mortal na retórica tavariana, pois além de estar repleta de turistas, não permite tráfego motorizado? Quantos comerciantes gostariam de ter a sua loja na Rua Augusta, Tavares? Já na rua Morais Soares, que mais parece uma rua de Mogadíscio nos anos 60 do precedente século, um nojo viário repleto de lataria no passeio e com rodovias a invejar a quinta avenida noviorquina, tal a largura concedida a esse tirano pós-moderno ao qual nos devemos sacrificar, denominado de "tráfego"; já na Morais Soares, fecham lojas todas as semanas. Até aprecio, confesso, ouvir Tavares a falar de política internacional, mas quando a "peça" vocifera para se pronunciar sobre caça, touradas, futebol ou bicicletas, cria-se uma ligação neuronal direta entre os seus intestinos e os lobos frontais, e tudo o que difunde doravante por aquele canal oral de putativo escritor, é apenas ódio e preconceito. Que fazer? O populismo está na moda!

Como o automóvel transfigurou as nossas cidades


O caso de Roterdão

Imagem de Roterdão, antes da segunda grande guerra.
De acordo com a fonte citada, a cidade era ainda mais
agradável que Amesterdão, tendo mais canais e mais ruelas.
Fonte: likemag.com
Roterdão no pós-guerra.
Fonte: deleeuwvanweenen.nl
Muitas pessoas que nunca visitaram a Holanda, por certo consideram que, além do país ser essencialmente todo plano, as cidades obedecem todas ao mesmo desenho urbanístico e arquitetónico, obedecendo o edificado das cidades quase sempre ao mesmo padrão. Tal é verdade para cidades como Amesterdão, Delft, Maastricht ou Utrecht, com os seus idílicos e bucólicos canais que rasgam a cidade, as suas arcaicas e clássicas pontes pedonais, as suas igrejas do tempo do catolicismo posteriormente convertidas em templos Calvinistas após a Reforma, as milhares de bicicletas, os caminhantes e andantes nos seus afazeres diários, os gatos e demais animais domésticos que pela rua vagam, e os milhares de comerciantes locais, que colocam a sua montra na rua para desta forma atraírem a clientela que a pé passa. Nestas clássicas cidades holandesas, um pouco tal como naquela Lisboa que atrai paixões, sonhos, poetas e escritores; o edificado, os planos urbanísticos ou o traçado viário, obedece, quer às circunstâncias um pouco caóticas dos construtores locais, que iam edificando em função do espaço disponível e das necessidades ao longo da artéria viária, quer à mente de um urbanista que jamais imaginaria que a grande maioria do povo se deslocaria essencialmente através de uma máquina metálica de uma tonelada que ocupa para locomoção vários metros quadrados. Daí em cidades como Amesterdão, Delft, Maastricht ou Utrecht, encontrarmos ainda aquele espírito citadino humano de antigamente, que nos faz sentir em casa mesmo sendo estrangeiros. O espírito urbano e bairrista que jamais terá Roterdão, essa épica e clássica cidade onde nasceu Erasmo, que perdeu muito do seu brio no pós-guerra.

Parece-me claro, que Roterdão passou por duas fases urbanísticas trágicas ao longo da sua história. Durante a segunda grande guerra, foi violentamente bombardeada pelas tropas alemãs, tendo sido mesmo usado pela primeira vez na cidade, um recente e inovador método de bombardeamento em massa, que fazia, através da coordenação da força aérea, um varrimento de bombas ao longo de uma determinada superfície. Este método (carpet bombing em Inglês) permitia aumentar o nível de destruição no solo, sem recurso a bombas de alto calibre e peso, tornando assim o bombardeamento mais barato e eficaz em toneladas de TNT equivalente por quilómetro quadrado. O bombardeamento nazi foi tão mortífero e destruidor, que foi adicionado à vasta lista de crimes de guerra do regime nazi. Paradoxalmente Hiroxima não consta na referida lista, mas já se sabe, que os ganhadores tendem a escrever a história e fazer jurisprudência nos crimes de guerra. Mas neste caso, o crime de guerra terá sido alegadamente pelo facto de a cidade de Roterdão ter-se rendido antes dos bombardeamentos nazis. Mais tarde os oficiais da Luftwaffe alegaram que a comunicação de rendição da cidade, não chegou a tempo aos operadores do voo e aos pilotos dos bombardeiros. Certo é que a cidade de Roterdão foi severamente destruída por diversos bombardeamentos primeiramente nazis, mas também posteriormente pelos aliados. Tendo ficado a cidade sob o regime alemão do Terceiro Reich, e havendo em alguma camada da população holandesa alguma aceitação política perante os ocupantes, tendo a Alemanha também deslocado alguns equipamentos fabris para a cidade, e tendo a cidade já na altura um dos mais importantes portos da Europa, a cidade foi também um alvo para os bombardeamentos aliados. Como resultado, a cidade de Roterdão, como muitas outras cidades industriais do norte da Alemanha, ficou praticamente toda destruída e em ruínas. Findada a guerra, era possível então construir uma cidade de raiz, sem os constrangimentos das artérias viárias e do edificado um pouco caótico das cidades medievais. 

Como um modelo de negócio molda as cidades

A grande questão é que em 1945, o Ocidente, os respetivos urbanistas e a grande maioria dos políticos, já estavam embrenhados com os alegados benefícios do automóvel, como propulsor do crescimento económico, do emprego e da putativa mobilidade dos cidadãos. Henry Ford tinha começado a produzir o seu Ford-T algumas décadas antes, com bastante sucesso, e as cidades americanas de então, já estavam preparadas para acolher, aquilo que muitos consideravam ser o progresso e o futuro das cidades. Os peões; termo aliás pejorativo na própria língua Portuguesa, pois peão era o indivíduo que andava a pé na guerra, normalmente da classe mais baixa e com menos estatuto, não tendo o linguista, o legislador ou o político adotado expressões no meu entender bem mais adequadas, como andante ou caminhante; foram literalmente empurrados pela legislação viária para as laterais das artérias, para que o grosso da superfície viária pudesse ser entregue ao novo modelo de crescimento económico e de progresso, os automóveis. A cidade, do Latim civitas, que desde os Clássicos era encarada como o apogeu e o magno altar para o cidadão, do Latim, habitante da cidade, passou a ter claramente um propósito de natureza económica e industrial. A cidade, já não deveria servir apenas os cidadãos, deveria servir antes um modelo de negócio, deveria ser instrumentalizada e desenhada para acolher as máquinas que promoviam o crescimento económico e que alimentavam a indústria do petróleo, na altura e ainda hoje através do sistema petrodólar, controlada pela administração americana. 

One fifth of net wage in the UK goes to automobile


One of the reasons to use the bicycle or the public transit in the daily life is cost, i.e., to save money. According to the OECD the median net income in the UK is around £18,700 a year and according to autocosts.info, which takes into account all the inputs from the users, disregarding statistical outliers, the average total costs for the British motorist is roughly £4,000 per year. Therefore the average British driver spends about 1/5 of their net income, only to own and operate their automobile. With the bicycle or the public transit when available, you can save really a lot of money, specially regarding those items related to running costs.

This data is taken from autocosts.info/UK.

Ivanka Trump and the English grammar


An interesting issue of the English grammar, mainly its vocabulary, is that it comprises several words for many combinatorial or daily-life situations which for example other Romance languages do not seem to have. Remember is different from remind, between is not the same as amongst, switch is slightly different from swap, and lend and borrow are the opposite things. Within the same logic grammatical reasoning any literate mind knows the the word latter is different from the word last. The Oxford Dictionary tells us that latter means "the second or second mentioned of two people or things" while last means "coming after all others in time or order". Therefore when the group comprises two elements or alternatives orderly presented latter shall be used for the last element, while when the group comprises more than two elements one shall refer last. An interesting parallel might be found with between and amongst. Nonetheless as Ivanka Trump was in Germany for a conference, when asked what was her official role as daughter of the president and presented with three different possibilities she replied "surely not the latter". Wanted to be grammatically snob, and made a grammatical mistake. As we say in my mother tongue "tal pai, tal filha"!

Ainda sobre a xenofobia e a psicologia evolutiva



A xenofobia foi positiva para o Homem no Paleolítico

De acordo com os estudos antropológicos mais recentes, consta que no Paleolítico o Homem vivia em tribos, ou grupos, e de acordo com alguma literatura, que fez o estudo ao número de indivíduos em várias comunidades de primatas, cada tribo no Paleolítico tinha aproximadamente cerca de 200 indivíduos. É preciso assinalar que a xenofobia ou qualquer grupo-fobia foi de facto vantajosa no Paleolítico, daí a termos herdado evolutivamente, estando bem vincada no nosso sistema límbico. E a xenofobia foi vantajosa porque os da outra tribo (etnia ou grupo étnico; porque normalmente a um cristão devoto não lhe indigna ver um muçulmano louro de olhos azuis), eram estatisticamente aqueles que copulavam com as nossas fêmeas, raptavam as nossas crianças, roubavam os nossos recursos alimentares e ocupavam o nosso território. Se o Homem da atualidade, cívica e culturalmente evoluído e apetrechado com jurisdição que rege as relações internacionais, ainda é territorial, e tem-no plasmado no conceito de soberania territorial, muito mais territorial o eram os hominídeos no Paleolítico. Um bom exemplo é o caso das relações entre indivíduos de aldeias diferentes no meio rural, ou da relação de vários indivíduos de famílias diferentes na mesma aldeia. O "sangue" ao qual pertencemos, através da emoção, toma um papel extremamente importante nas decisões que tomamos. O nosso território deveria por conseguinte ser expurgado e protegido de ameaças exógenas, num tempo em que havia apenas barreiras naturais, e quando estas não existiam, restava ao Homem, a força, a violência e a agressividade, para que possa defender "a sua casa e os seus". Qualquer eventual compaixão de um membro do nosso grupo perante esses outros, deveria ser fervorosamente abolida e reprimida, em prol do interesse grupal. Daí por exemplo, a miscigenação, do ponto de vista estatístico, continuar a ser uma raridade no universo matrimonial, porque é contra-natura. 

Mas todavia já não nos indignamos contra os criadores do automóvel, mesmo que mate mais de um milhão de seres humanos por ano, incluindo obviamente os da nossa tribo, da nossa família, exatamente porque não havia automóveis no Paleolítico, da mesma forma que não nos indignamos contra os criadores da bomba atómica. Porém, ficamos temerosos perante vespas gigantes (que possuem veneno que poderia ser fatal), tememos eventuais situações noturnas em densas florestas enubladas (nos homens devido ao perigo eminente de ataque de fera ou de elementos de outra tribo; nas mulheres o mesmo, acrescentando-se ainda o medo latente de violação de um outro que "poluiria" o sangue da tribo), tememos por lidarmos com mortos (questões de salubridade na presença de cadáveres, por isso desde há cem mil anos que enterramos os mortos) ou por termos a sensação de que o nosso território está a ser invadido por outros indivíduos que não partilham connosco os mesmos traços físicos ou fenotípicos. Surge-nos então um sentimento irracional, proveniente do sistema límbico e catapultado na presença das massas, que nos transmite cumulativamente medo e ódio, perante esse referido invasor. À luz desse sentimento primário, juntamo-nos a exércitos arriscando a própria vida, pois em última análise estamos a salvar a pátria, cujo termo congénere no Paleolítico era apenas o território; mesmo que para salvar a pátria tenhamos de combater a milhares de quilómetros de casa, como fizeram os alemães em Estalinegrado ou como fazem agora os americanos na Coreia do Norte ou fizeram no Vietname. 

Um exemplo muito interessante de atestar na atualidade o legado do Paleolítico, é verificar que o turismo na Europa declinou abruptamente devido aos ataques terroristas, continuando todavia em alta no Brasil. Mas enquanto na Europa morreram 170 pessoas no ano passado devido a ataques terroristas, no Brasil existem 60 mil homicídios por ano. Pergunto-me então, o que é mais seguro para um americano, mediana e intelectualmente não muito prodigioso, e que passa o dia a visualizar a comunicação social para as massas, se visitar a Europa ou o Brasil. No Paleolítico a maioria dos assassinatos deveria ocorrer entre membros de tribos diferentes, tal como hoje continua a acontecer entre membros de famílias diferentes. Logo, a um estrangeiro, estatisticamente, é muito mais perigoso visitar o Brasil que a Europa, e todavia o turismo tem declinado bastante na Europa e não no Brasil. Outro exemplo é atestar que muitas pessoas têm medo de andar de avião, porque o meio natural do Homem é o solo, todavia o automóvel mata muito mais pessoas que a aviação, mesmo considerando mortes por quilómetro percorrido. O Paleolítico deixou-nos um legado psicológico, que é muito fácil de verificar no comportamento das massas.

Na civilização, a xenofobia é além de anacrónica, perigosa

A palavra civilização vem do Latim, civitas, ou seja, cidade. E de facto as cidades foram o berço da civilização, processo que se deu após a Revolução do Neolítico, quando o Homem descobriu a agricultura e passou a domesticar animais, tendo-se tornado sedentário. Ao tornar-se sedentário, pois já não precisava de migrar na busca de alimentos ao longo das diversas estações do ano, ou de seguir as rotas migratórias dos animais que caçava, o Homem, que antes vivia em clãs ou tribos, passou a viver em aldeias. Com o sedentarismo, surgiu a escrita, a arte, a lei, as primeiras profissões e a hierarquia institucionalizada. Mas no início do Neolítico, que ocorreu aproximadamente em 10.000 aC, apesar de já estar sedentário e ter meios de subsistência para o ano todo, o Homem ainda vivia em comunidades em aldeias, que partilhavam os mesmos traços étnicos. A tribo tinha apenas ficado sedentária. As primeiras cidades surgiram todavia apenas na Suméria em cerca de 5.500 aC., mas foram os clássicos gregos e romanos que deram às cidades, a noção de civilização que hoje conhecemos. Em Português temos palavras interessantes, que provêm desse étimo de cidade, como cívico, urbanidade ou civismo, qualidades que se exigem aos cidadãos ou políticos, ou seja, respetivamente os habitantes da cidade romana ou grega.

Com o surgimento das cidades por certo surgiu um problema muito delicado de gerir por parte do governador. Como lidar com a presença de pessoas de etnias ou clãs diferentes, que outrora viviam nas suas aldeias separadas? A religião e os costumes foram, de facto, os primeiros aglomeradores para a integração cultural. Os cristãos não eram bem vistos na Roma Antiga, essencialmente porque prestavam culto a um Deus que não representava os deuses oficiais do estado. O mesmo sentiam os judeus, quer na civilização grega, quer romana. Todavia, os romanos e gregos, com a sua noção clássica de Lei e Ordem, que de certa foram foram os pilares fundadores para o muito posterior estado de direito, conseguiram preservar amiúde a Paz nos territórios por si ocupados. As referidas leis romana e grega, estratificavam e discriminavam os habitantes em função da nacionalidade, do género, da riqueza pessoal ou da prestação de serviço militar, mas não o faziam normalmente em função da etnia. O cidadão na Grécia antiga era apenas o homem livre adulto e nascido na pólis. Na Roma antiga, em acréscimo, exigia-se ao cidadão o cumprimento do serviço militar. Mas sabe-se que na Roma antiga, uma forma de pacificar o Império, foi atribuir nacionalidade romana a todos os indivíduos das colónias, que eram nascidos de cidadão romano, normalmente militares destacados. Os mesmos critérios de atribuição de cidadania, eram normalmente válidos em todo o Império, independentemente da etnia. Obviamente que era difícil a alguém que nascesse escravo, obter a liberdade, mas não era raro que tal acontecesse. O mesmo para a civilização grega.

Com o surgimento das cidades e por conseguinte a civilização, surge então pela primeira vez a convivência regular de pessoas com traços fenotípicos e de etnias diferentes. Sentimentos xenófobos obviamente que sempre existiram, mesmo nas civilizações, mas normalmente foram sempre catapultados e usados por líderes demagogos para fazer a guerra entre as referidas cidades, tal como por exemplo as guerras púnicas entre Roma e Cartago, ou entre Esparta e Atenas. Mas o sentimento de pertença já não eram normalmente o fenotípico ou étnico, era normalmente o cultural ou religioso. Pela mesma razão os impérios Português e Espanhol, conseguiram expandir de forma tão eficaz a sua hegemonia cultural em povos com etnias tão distintas, ou seja, porque fizeram uso da religião. Pela mesma razão o Islão, espalhou-se de forma tão eficaz, de África à Indonésia. A cultura (em Alemão a palavra die Kultur tanto significa cultura como civilização), onde a religião tomou um papel fundamental, passou a ser o traço identitário de um povo, mesmo que o referido povo fosse, do ponto de vista étnico, bastante heterogéneo. Os sentimentos xenófobos, apesar de encontrarem os seus fundamentos nos traços fenotípicos de natureza étnica, passaram a ser canalizados para questões de natureza religiosa ou cultural, mesmo, paradoxalmente do ponto de vista evolutivo, entre pessoas da mesma etnia.

O que fez singrar a civilização, foi por conseguinte a imposição de Ordem e Lei, que para funcionarem de forma eficaz, tinham de preservar de forma o mais pacífica o quanto possível, a convivência no mesmo espaço público, de indivíduos de etnia diferentes, algo impensável no Paleolítico. Talvez para resolver este paradoxo evolutivo, é também no Neolítico que surge pela primeira vez a noção de propriedade privada. Posso conviver com o outro que abomino, mas a Ordem Cívica deve pelo menos garantir-me, um espaço que me pertence e onde o outro está interdito de entrar. Todavia, no espaço público, a convivência entre indivíduos de etnias diferentes, teve de ser uma condição essencial para a preservação da ordem pública. Caso assim não fosse, considerando que todos partilhavam a mesma cidade ou a mesma pólis, a guerra civil seria uma inevitabilidade, e por conseguinte a cidade, no caos, jamais conseguiria prosperar. Por conseguinte, com a criação da cidade, o sentimento xenófobo, apesar de ter sido positivo no Paleolítico, passou a ser contraprodutivo na cidade, tendo sido normalmente prostrado pela Lei. Posteriormente o Iluminismo e o Racionalismo, foram mais longe, ao introduzirem a Laicidade. Com a laicidade, a religião deixou de ser o cânone que molda os traços comuns que definem um povo, tendo obviamente ficado o seu legado. Mas o republicanismo precisou também do simbolismo para definir os ícones comuns dos membros que pertencem à mesma pátria, entre os quais, a figura quase deificada do presidente, a bandeira, o hino, e obviamente, normalmente a língua.

Já no início do século XX, com o surgimento das sociedades da comunicação e de propaganda, líderes extremamente astutos e demagógicos, conseguiram fazer uso do sentimento primário, que é a xenofobia, e que é exatamente catapultado pela presença de massas, para não só chegarem ao poder, mas para levar os seus países para a guerra. A história da Europa do século XX é um exemplo paradigmático, de tal mecanismo. Porque a comunicação para massas que difundem sentimentos xenófobos, terá sido o "alerta perante o invasor", que o nosso antepassado remoto no Paleolítico, por certo fazendo uso de berraria sonora, usaria para avisar a tribo, que estaríamos a ser invadidos. E perante esse estado de alerta, a nossa reação imediata só pode ser a agressividade e a violência, para estarmos preparados para uma feroz batalha para a defesa da nossa família e do nosso território. Mas se o nosso antepassado, com o seu estridente grito de alerta, conseguia avisar apenas as pessoas até onde o poder da sua voz alcançava, a comunicação social do séc. XX, conseguiu espalhar de forma nunca antes vista, a mensagem de alerta, deixando todo um povo em estado permanente de agressividade e prontidão. Este processo foi claro e evidente na Alemanha Nazi, ou na União Soviética Estalinista, e não muito diferente nos EUA, nos mecanismos que despoletaram o ódio do povo americano perante os povos cujo território os EUA invadiram.

A xenofobia continua em cada um de nós, que ninguém duvide. Como diz um provérbio japonês, é mais fácil mover rios e montanhas que a natureza humana. A xenofobia continua latente no nosso sistema límbico, a parte do nosso cérebro evolutivamente mais antiga, porque não destituímos um sentimento em 5 mil anos, que foi o resultado de pelo menos 200 mil anos de evolução. E perante um "grito de alerta", é-nos praticamente impossível não reagir. Resta-nos como seres civilizados, usarmos os nosso lobos frontais, e analisarmos de forma fria e crua, quão perigoso é de facto tal evento cujo o alerta denuncia. E perante o próximo, com traços fenotípicos diferentes dos nossos, devemos pensar cruamente que o referido indivíduo não é de todo perigoso, nem para nós, nem muito menos para a nossa tribo, e que por certo mais perigoso para todos nós, são as alterações climáticas ou o arsenal bélico das grandes potências. Mas esses, nunca foram um perigo no Paleolítico, e por isso, infelizmente, não os tememos na devida proporção.

Einstein: um europeísta e rebelde pacifista


Hoje li um livro comprado em Havana, presumivelmente de uma editora nacional cubana, de uma série sobre "vidas rebeldes", que abordava a vida de Albert Einstein. No livro faz-se em primeiro lugar uma crítica à revista Time, que apesar de fazer de Einstein na sua edição de 1999 a figura do século XX, tem perante a sua figura um ideal condescendente e quase idílico em relação ao cariz rebelde, pacifista e alegadamente socialista de uma das maiores, senão mesmo a maior, figura da Ciência do séc. XX. Por conseguinte, neste texto farei uma abordagem política à figura de Einstein e aos seus ideais, e não uma abordagem científica à sua obra.

Poucos sabem por exemplo que, desde que Einstein chegou aos EUA em dezembro de 1932, desde cedo começou a ser investigado quer pelo FBI, quer mais tarde pela CIA (criada em 1947), devido aos seus ideais alegadamente subversivos. O arquivo de Einstein junto do FBI e da CIA, chegou a conter cerca de 1800 páginas, que relatavam o seu quotidiano, considerando que o seu correio era inspecionado, as suas cartas eram lidas, os seus telefonemas escutados e o seu dia-a-dia vigiado. Recorde-se que apesar de Einstein nunca ter visitado a União Soviética e de ser um opositor ao Estalinismo, logo a seguir ao final da segunda grande guerra passou-se a viver em plena Guerra Fria e no período por alguns denominado de "caça às bruxas". Qualquer não alinhamento com a política militarista e nacionalista americana, poderia ser encarado como subversivo por parte das autoridades federais. E se tal poderia ser ignorado num cidadão comum sem voz, tal não poderia ser desconsiderado no mais importante cientista da época e laureado com o prémio Nobel da Física de 1921. Einstein apoiou várias organizações pacifistas, e apesar de ser um defensor da liberdade, dava muito pouco crédito à retórica capitalista do bem maior plasmado no "mercado livre". Defendeu o salário mínimo nacional para combater a pobreza e uma indústria regulada pelos estados, para o planeamento a longo prazo da economia em função das necessidades da sociedade. Condenou fortemente os bombardeamentos de Hiroxima e Nagasaki considerando-os desnecessários e que serviriam apenas a mera "querela politiqueira" entre os EUA e a União Soviética, considerando que a União Soviética tinha declarado guerra ao Japão e invadido a sua soberania continental no mesmo mês de agosto de 1945.

Era por conseguinte um opositor fervoroso do militarismo, do serviço militar obrigatório e do nacionalismo. Denominava o nacionalismo como "o sarampo da Humanidade" e o militarismo como "a mancha pestilenta da civilização". Referia que os estados, quando soberanos e providos de poder militar, invariavelmente conduziam o seu país à guerra, sendo que a questão não era se mas quando. Referia, como qualquer humanista, como em A Ameaça da Destruição Total (1947), que "o medo e a ansiedade gerais criam ódio e agressividade", e que num clima social dessa natureza "o pensamento humano, objetivo e inteligente não surte qualquer efeito, sendo mesmo suspeito e perseguido por ser não-patriótico". Por conseguinte, era mesmo opositor da total soberania nacional dos estados, defendendo um governo supranacional, ao qual os estados nacionais deveriam delegar parte da sua soberania, como forma de se preservar a já por Kant tão ansiada Paz Perpétua. Num artigo publicado em 1945, escreve:

"Temo eu a tirania de um governo mundial? Claro que sim. Mas temo ainda mais a chegada de mais uma guerra das guerras. É certo que qualquer governo é maléfico até certo ponto. Mas um governo mundial é preferível à mais suprema maléfica das guerras, particularmente com as suas massivas destruições." 

Todavia na época da Guerra Fria o desígnio de um governo mundial, mesmo que democraticamente eleito como defendia Einstein, era encarado no Ocidente como uma conspiração comunista, plasmada na profusa e difundida Internacional; já na União Soviética os apelos de Einstein mais não eram encarados como uma fachada para a imposição de um governo mundial de índole imperialista e capitalista dominado pela alta burguesia. Por isso, os apelos de Einstein, apesar da sua reputação, foram ignorados. E porque refiro eu então que Einstein era também europeísta e por conseguinte muito provavelmente um defensor da atual União Europeia? Em 1914, no início da Primeira Grande Guerra, noventa e três proeminentes intelectuais, artistas e clérigos alemães assinaram um Manifesto ao Mundo Civilizado onde justificavam que o militarismo alemão e a invasão da Alemanha à neutral Bélgica, serviria não só para preservar a cultura germânica mas também a cultura do mundo civilizado. Einstein, juntamente com apenas mais outros três cientistas, assina uma contra declaração, denominada Manifesto aos Europeus, onde apela para a criação de uma Liga de Europeus para que esta possa "fundir o continente num todo orgânico".

Não é a União Europeia o sonho supremo de Einstein, plasmado no seu manifesto de 1914? Uma Liga de Europeus, num "todo orgânico", democraticamente eleita, desprovida de capacidade militar e de exército, e que preservou a Paz na Europa durante os seus sessenta anos de regência? Mas não sejamos ingénuos, pois a República de Weimar durou apenas quinze anos, e foi corrompida pelo, denominado por Einstein, "lado negro" da civilização. Não tenhamos por conseguinte quaisquer dúvidas: enquanto a União Europeia existir, haverá Paz na Europa. Sem a União Europeia, com os nacionalismos exacerbados e catapultados pelo "medo e ansiedade", parafraseando Einstein e recordando a história europeia do séc. XX, a questão bélica na Europa será sempre quando e não se.

O socialismo motorizado



Um dos melhores indicadores para a qualidade de uma infraestrutura ou modo de transporte, havendo vários à disposição dos utilizadores, é de facto, a sua utilização e repartição modal, respetivamente, independentemente dos critérios burocráticos usados para mensurar a sua qualidade. É típico, por exemplo, um governo ou um município dizer que fez imensos investimentos em ciclovias, mas que por motivos culturais, climatéricos ou topográficos, as pessoas não usam a bicicleta. Ou o mesmo governo dizer que fez imensos investimentos em transportes públicos, mas porque as pessoas são "preguiçosas", não os usam e continuam a preferir o automóvel particular. Esquecem que a questão principal, normalmente nem é a cultural, a topográfica nem a climatérica. Caso os utilizadores tivessem à sua disposição uma infraestrutura ou modo de transporte, que fosse mais barato, seguro, conveniente e célere que o automóvel, usá-lo-iam. Mas caso o estado invista milhares de milhões em rodovia, como investiu no séc XX no Ocidente, de pouco valem os esforços financeiros na construção de ciclovias ou melhoramento em transportes coletivos, porque o sistema de transportes funciona como os produtos comerciais dentro de um determinado mercado, ou seja, os transportes competem e concorrem entre si, e os utilizadores e consumidores escolhem o que mais lhes convém para as suas necessidades em função dos fatores anteriormente referidos, como tempo, custo ou acessibilidade. 

Por isso, após anos de investigação nesta matéria, não tenho a menor dúvida, que no último século, no Ocidente, vivemos um verdadeiro socialismo motorizado, onde o Estado, numa visão tirânica e impositiva de mobilidade, praticamente forçou todos os consumidores a adotar o automóvel como meio de transporte, fazendo com que o sistema de transportes coletivos de passageiros, a bicicleta ou mesmo andar a pé, se tornassem ou mais perigosos ou menos competitivos. É por conseguinte um gigantesco paradoxo, que o país que mais aplicou tal socialismo motorizado, é aquele que se arroga mais liberal, ou seja, os EUA. Mas não é assim por exemplo na Holanda, um país liberal em vários domínios, mesmo no setor dos transportes. Mas não julgue o caro leitor que na Holanda o automóvel é impedido de circular, pelo contrário, há mais gente a usar o carro na Holanda que a bicicleta ou os transportes públicos. O que a Holanda simplesmente não faz, é bloquear quem quer que seja, de adotar a bicicleta como meio de transporte, pois aplica um modelo onde existe equilíbrio concorrencial entre os vários modos de transporte. E não há meio de transporte mais libertário que a bicicleta, na medida que não estamos dependentes da tirania fiscal do estado, nem do planeamento urbano que o estado impôs às cidades, com as suas avenidas e sentidos de circulação unicamente pensados na fluidez do tráfego motorizado. A cidade aumenta drasticamente a sua porosidade viária, quando nos sentamos em cima de um selim.