Ainda sobre a xenofobia e a psicologia evolutiva



A xenofobia foi positiva para o Homem no Paleolítico

De acordo com os estudos antropológicos mais recentes, consta que no Paleolítico o Homem vivia em tribos, ou grupos, e de acordo com alguma literatura, que fez o estudo ao número de indivíduos em várias comunidades de primatas, cada tribo no Paleolítico tinha aproximadamente cerca de 200 indivíduos. É preciso assinalar que a xenofobia ou qualquer grupo-fobia foi de facto vantajosa no Paleolítico, daí a termos herdado evolutivamente, estando bem vincada no nosso sistema límbico. E a xenofobia foi vantajosa porque os da outra tribo (etnia ou grupo étnico; porque normalmente a um cristão devoto não lhe indigna ver um muçulmano louro de olhos azuis), eram estatisticamente aqueles que copulavam com as nossas fêmeas, raptavam as nossas crianças, roubavam os nossos recursos alimentares e ocupavam o nosso território. Se o Homem da atualidade, cívica e culturalmente evoluído e apetrechado com jurisdição que rege as relações internacionais, ainda é territorial, e tem-no plasmado no conceito de soberania territorial, muito mais territorial o eram os hominídeos no Paleolítico. Um bom exemplo é o caso das relações entre indivíduos de aldeias diferentes no meio rural, ou da relação de vários indivíduos de famílias diferentes na mesma aldeia. O "sangue" ao qual pertencemos, através da emoção, toma um papel extremamente importante nas decisões que tomamos. O nosso território deveria por conseguinte ser expurgado e protegido de ameaças exógenas, num tempo em que havia apenas barreiras naturais, e quando estas não existiam, restava ao Homem, a força, a violência e a agressividade, para que possa defender "a sua casa e os seus". Qualquer eventual compaixão de um membro do nosso grupo perante esses outros, deveria ser fervorosamente abolida e reprimida, em prol do interesse grupal. Daí por exemplo, a miscigenação, do ponto de vista estatístico, continuar a ser uma raridade no universo matrimonial, porque é contra-natura. 

Mas todavia já não nos indignamos contra os criadores do automóvel, mesmo que mate mais de um milhão de seres humanos por ano, incluindo obviamente os da nossa tribo, da nossa família, exatamente porque não havia automóveis no Paleolítico, da mesma forma que não nos indignamos contra os criadores da bomba atómica. Porém, ficamos temerosos perante vespas gigantes (que possuem veneno que poderia ser fatal), tememos eventuais situações noturnas em densas florestas enubladas (nos homens devido ao perigo eminente de ataque de fera ou de elementos de outra tribo; nas mulheres o mesmo, acrescentando-se ainda o medo latente de violação de um outro que "poluiria" o sangue da tribo), tememos por lidarmos com mortos (questões de salubridade na presença de cadáveres, por isso desde há cem mil anos que enterramos os mortos) ou por termos a sensação de que o nosso território está a ser invadido por outros indivíduos que não partilham connosco os mesmos traços físicos ou fenotípicos. Surge-nos então um sentimento irracional, proveniente do sistema límbico e catapultado na presença das massas, que nos transmite cumulativamente medo e ódio, perante esse referido invasor. À luz desse sentimento primário, juntamo-nos a exércitos arriscando a própria vida, pois em última análise estamos a salvar a pátria, cujo termo congénere no Paleolítico era apenas o território; mesmo que para salvar a pátria tenhamos de combater a milhares de quilómetros de casa, como fizeram os alemães em Estalinegrado ou como fazem agora os americanos na Coreia do Norte ou fizeram no Vietname. 

Um exemplo muito interessante de atestar na atualidade o legado do Paleolítico, é verificar que o turismo na Europa declinou abruptamente devido aos ataques terroristas, continuando todavia em alta no Brasil. Mas enquanto na Europa morreram 170 pessoas no ano passado devido a ataques terroristas, no Brasil existem 60 mil homicídios por ano. Pergunto-me então, o que é mais seguro para um americano, mediana e intelectualmente não muito prodigioso, e que passa o dia a visualizar a comunicação social para as massas, se visitar a Europa ou o Brasil. No Paleolítico a maioria dos assassinatos deveria ocorrer entre membros de tribos diferentes, tal como hoje continua a acontecer entre membros de famílias diferentes. Logo, a um estrangeiro, estatisticamente, é muito mais perigoso visitar o Brasil que a Europa, e todavia o turismo tem declinado bastante na Europa e não no Brasil. Outro exemplo é atestar que muitas pessoas têm medo de andar de avião, porque o meio natural do Homem é o solo, todavia o automóvel mata muito mais pessoas que a aviação, mesmo considerando mortes por quilómetro percorrido. O Paleolítico deixou-nos um legado psicológico, que é muito fácil de verificar no comportamento das massas.

Na civilização, a xenofobia é além de anacrónica, perigosa

A palavra civilização vem do Latim, civitas, ou seja, cidade. E de facto as cidades foram o berço da civilização, processo que se deu após a Revolução do Neolítico, quando o Homem descobriu a agricultura e passou a domesticar animais, tendo-se tornado sedentário. Ao tornar-se sedentário, pois já não precisava de migrar na busca de alimentos ao longo das diversas estações do ano, ou de seguir as rotas migratórias dos animais que caçava, o Homem, que antes vivia em clãs ou tribos, passou a viver em aldeias. Com o sedentarismo, surgiu a escrita, a arte, a lei, as primeiras profissões e a hierarquia institucionalizada. Mas no início do Neolítico, que ocorreu aproximadamente em 10.000 aC, apesar de já estar sedentário e ter meios de subsistência para o ano todo, o Homem ainda vivia em comunidades em aldeias, que partilhavam os mesmos traços étnicos. A tribo tinha apenas ficado sedentária. As primeiras cidades surgiram todavia apenas na Suméria em cerca de 5.500 aC., mas foram os clássicos gregos e romanos que deram às cidades, a noção de civilização que hoje conhecemos. Em Português temos palavras interessantes, que provêm desse étimo de cidade, como cívico, urbanidade ou civismo, qualidades que se exigem aos cidadãos ou políticos, ou seja, respetivamente os habitantes da cidade romana ou grega.

Com o surgimento das cidades por certo surgiu um problema muito delicado de gerir por parte do governador. Como lidar com a presença de pessoas de etnias ou clãs diferentes, que outrora viviam nas suas aldeias separadas? A religião e os costumes foram, de facto, os primeiros aglomeradores para a integração cultural. Os cristãos não eram bem vistos na Roma Antiga, essencialmente porque prestavam culto a um Deus que não representava os deuses oficiais do estado. O mesmo sentiam os judeus, quer na civilização grega, quer romana. Todavia, os romanos e gregos, com a sua noção clássica de Lei e Ordem, que de certa foram foram os pilares fundadores para o muito posterior estado de direito, conseguiram preservar amiúde a Paz nos territórios por si ocupados. As referidas leis romana e grega, estratificavam e discriminavam os habitantes em função da nacionalidade, do género, da riqueza pessoal ou da prestação de serviço militar, mas não o faziam normalmente em função da etnia. O cidadão na Grécia antiga era apenas o homem livre adulto e nascido na pólis. Na Roma antiga, em acréscimo, exigia-se ao cidadão o cumprimento do serviço militar. Mas sabe-se que na Roma antiga, uma forma de pacificar o Império, foi atribuir nacionalidade romana a todos os indivíduos das colónias, que eram nascidos de cidadão romano, normalmente militares destacados. Os mesmos critérios de atribuição de cidadania, eram normalmente válidos em todo o Império, independentemente da etnia. Obviamente que era difícil a alguém que nascesse escravo, obter a liberdade, mas não era raro que tal acontecesse. O mesmo para a civilização grega.

Com o surgimento das cidades e por conseguinte a civilização, surge então pela primeira vez a convivência regular de pessoas com traços fenotípicos e de etnias diferentes. Sentimentos xenófobos obviamente que sempre existiram, mesmo nas civilizações, mas normalmente foram sempre catapultados e usados por líderes demagogos para fazer a guerra entre as referidas cidades, tal como por exemplo as guerras púnicas entre Roma e Cartago, ou entre Esparta e Atenas. Mas o sentimento de pertença já não eram normalmente o fenotípico ou étnico, era normalmente o cultural ou religioso. Pela mesma razão os impérios Português e Espanhol, conseguiram expandir de forma tão eficaz a sua hegemonia cultural em povos com etnias tão distintas, ou seja, porque fizeram uso da religião. Pela mesma razão o Islão, espalhou-se de forma tão eficaz, de África à Indonésia. A cultura (em Alemão a palavra die Kultur tanto significa cultura como civilização), onde a religião tomou um papel fundamental, passou a ser o traço identitário de um povo, mesmo que o referido povo fosse, do ponto de vista étnico, bastante heterogéneo. Os sentimentos xenófobos, apesar de encontrarem os seus fundamentos nos traços fenotípicos de natureza étnica, passaram a ser canalizados para questões de natureza religiosa ou cultural, mesmo, paradoxalmente do ponto de vista evolutivo, entre pessoas da mesma etnia.

O que fez singrar a civilização, foi por conseguinte a imposição de Ordem e Lei, que para funcionarem de forma eficaz, tinham de preservar de forma o mais pacífica o quanto possível, a convivência no mesmo espaço público, de indivíduos de etnia diferentes, algo impensável no Paleolítico. Talvez para resolver este paradoxo evolutivo, é também no Neolítico que surge pela primeira vez a noção de propriedade privada. Posso conviver com o outro que abomino, mas a Ordem Cívica deve pelo menos garantir-me, um espaço que me pertence e onde o outro está interdito de entrar. Todavia, no espaço público, a convivência entre indivíduos de etnias diferentes, teve de ser uma condição essencial para a preservação da ordem pública. Caso assim não fosse, considerando que todos partilhavam a mesma cidade ou a mesma pólis, a guerra civil seria uma inevitabilidade, e por conseguinte a cidade, no caos, jamais conseguiria prosperar. Por conseguinte, com a criação da cidade, o sentimento xenófobo, apesar de ter sido positivo no Paleolítico, passou a ser contraprodutivo na cidade, tendo sido normalmente prostrado pela Lei. Posteriormente o Iluminismo e o Racionalismo, foram mais longe, ao introduzirem a Laicidade. Com a laicidade, a religião deixou de ser o cânone que molda os traços comuns que definem um povo, tendo obviamente ficado o seu legado. Mas o republicanismo precisou também do simbolismo para definir os ícones comuns dos membros que pertencem à mesma pátria, entre os quais, a figura quase deificada do presidente, a bandeira, o hino, e obviamente, normalmente a língua.

Já no início do século XX, com o surgimento das sociedades da comunicação e de propaganda, líderes extremamente astutos e demagógicos, conseguiram fazer uso do sentimento primário, que é a xenofobia, e que é exatamente catapultado pela presença de massas, para não só chegarem ao poder, mas para levar os seus países para a guerra. A história da Europa do século XX é um exemplo paradigmático, de tal mecanismo. Porque a comunicação para massas que difundem sentimentos xenófobos, terá sido o "alerta perante o invasor", que o nosso antepassado remoto no Paleolítico, por certo fazendo uso de berraria sonora, usaria para avisar a tribo, que estaríamos a ser invadidos. E perante esse estado de alerta, a nossa reação imediata só pode ser a agressividade e a violência, para estarmos preparados para uma feroz batalha para a defesa da nossa família e do nosso território. Mas se o nosso antepassado, com o seu estridente grito de alerta, conseguia avisar apenas as pessoas até onde o poder da sua voz alcançava, a comunicação social do séc. XX, conseguiu espalhar de forma nunca antes vista, a mensagem de alerta, deixando todo um povo em estado permanente de agressividade e prontidão. Este processo foi claro e evidente na Alemanha Nazi, ou na União Soviética Estalinista, e não muito diferente nos EUA, nos mecanismos que despoletaram o ódio do povo americano perante os povos cujo território os EUA invadiram.

A xenofobia continua em cada um de nós, que ninguém duvide. Como diz um provérbio japonês, é mais fácil mover rios e montanhas que a natureza humana. A xenofobia continua latente no nosso sistema límbico, a parte do nosso cérebro evolutivamente mais antiga, porque não destituímos um sentimento em 5 mil anos, que foi o resultado de pelo menos 200 mil anos de evolução. E perante um "grito de alerta", é-nos praticamente impossível não reagir. Resta-nos como seres civilizados, usarmos os nosso lobos frontais, e analisarmos de forma fria e crua, quão perigoso é de facto tal evento cujo o alerta denuncia. E perante o próximo, com traços fenotípicos diferentes dos nossos, devemos pensar cruamente que o referido indivíduo não é de todo perigoso, nem para nós, nem muito menos para a nossa tribo, e que por certo mais perigoso para todos nós, são as alterações climáticas ou o arsenal bélico das grandes potências. Mas esses, nunca foram um perigo no Paleolítico, e por isso, infelizmente, não os tememos na devida proporção.

Einstein: um europeísta e rebelde pacifista


Hoje li um livro comprado em Havana, presumivelmente de uma editora nacional cubana, de uma série sobre "vidas rebeldes", que abordava a vida de Albert Einstein. No livro faz-se em primeiro lugar uma crítica à revista Time, que apesar de fazer de Einstein na sua edição de 1999 a figura do século XX, tem perante a sua figura um ideal condescendente e quase idílico em relação ao cariz rebelde, pacifista e alegadamente socialista de uma das maiores, senão mesmo a maior, figura da Ciência do séc. XX. Por conseguinte, neste texto farei uma abordagem política à figura de Einstein e aos seus ideais, e não uma abordagem científica à sua obra.

Poucos sabem por exemplo que, desde que Einstein chegou aos EUA em dezembro de 1932, desde cedo começou a ser investigado quer pelo FBI, quer mais tarde pela CIA (criada em 1947), devido aos seus ideais alegadamente subversivos. O arquivo de Einstein junto do FBI e da CIA, chegou a conter cerca de 1800 páginas, que relatavam o seu quotidiano, considerando que o seu correio era inspecionado, as suas cartas eram lidas, os seus telefonemas escutados e o seu dia-a-dia vigiado. Recorde-se que apesar de Einstein nunca ter visitado a União Soviética e de ser um opositor ao Estalinismo, logo a seguir ao final da segunda grande guerra passou-se a viver em plena Guerra Fria e no período por alguns denominado de "caça às bruxas". Qualquer não alinhamento com a política militarista e nacionalista americana, poderia ser encarado como subversivo por parte das autoridades federais. E se tal poderia ser ignorado num cidadão comum sem voz, tal não poderia ser desconsiderado no mais importante cientista da época e laureado com o prémio Nobel da Física de 1921. Einstein apoiou várias organizações pacifistas, e apesar de ser um defensor da liberdade, dava muito pouco crédito à retórica capitalista do bem maior plasmado no "mercado livre". Defendeu o salário mínimo nacional para combater a pobreza e uma indústria regulada pelos estados, para o planeamento a longo prazo da economia em função das necessidades da sociedade. Condenou fortemente os bombardeamentos de Hiroxima e Nagasaki considerando-os desnecessários e que serviriam apenas a mera "querela politiqueira" entre os EUA e a União Soviética, considerando que a União Soviética tinha declarado guerra ao Japão e invadido a sua soberania continental no mesmo mês de agosto de 1945.

Era por conseguinte um opositor fervoroso do militarismo, do serviço militar obrigatório e do nacionalismo. Denominava o nacionalismo como "o sarampo da Humanidade" e o militarismo como "a mancha pestilenta da civilização". Referia que os estados, quando soberanos e providos de poder militar, invariavelmente conduziam o seu país à guerra, sendo que a questão não era se mas quando. Referia, como qualquer humanista, como em A Ameaça da Destruição Total (1947), que "o medo e a ansiedade gerais criam ódio e agressividade", e que num clima social dessa natureza "o pensamento humano, objetivo e inteligente não surte qualquer efeito, sendo mesmo suspeito e perseguido por ser não-patriótico". Por conseguinte, era mesmo opositor da total soberania nacional dos estados, defendendo um governo supranacional, ao qual os estados nacionais deveriam delegar parte da sua soberania, como forma de se preservar a já por Kant tão ansiada Paz Perpétua. Num artigo publicado em 1945, escreve:

"Temo eu a tirania de um governo mundial? Claro que sim. Mas temo ainda mais a chegada de mais uma guerra das guerras. É certo que qualquer governo é maléfico até certo ponto. Mas um governo mundial é preferível à mais suprema maléfica das guerras, particularmente com as suas massivas destruições." 

Todavia na época da Guerra Fria o desígnio de um governo mundial, mesmo que democraticamente eleito como defendia Einstein, era encarado no Ocidente como uma conspiração comunista, plasmada na profusa e difundida Internacional; já na União Soviética os apelos de Einstein mais não eram encarados como uma fachada para a imposição de um governo mundial de índole imperialista e capitalista dominado pela alta burguesia. Por isso, os apelos de Einstein, apesar da sua reputação, foram ignorados. E porque refiro eu então que Einstein era também europeísta e por conseguinte muito provavelmente um defensor da atual União Europeia? Em 1914, no início da Primeira Grande Guerra, noventa e três proeminentes intelectuais, artistas e clérigos alemães assinaram um Manifesto ao Mundo Civilizado onde justificavam que o militarismo alemão e a invasão da Alemanha à neutral Bélgica, serviria não só para preservar a cultura germânica mas também a cultura do mundo civilizado. Einstein, juntamente com apenas mais outros três cientistas, assina uma contra declaração, denominada Manifesto aos Europeus, onde apela para a criação de uma Liga de Europeus para que esta possa "fundir o continente num todo orgânico".

Não é a União Europeia o sonho supremo de Einstein, plasmado no seu manifesto de 1914? Uma Liga de Europeus, num "todo orgânico", democraticamente eleita, desprovida de capacidade militar e de exército, e que preservou a Paz na Europa durante os seus sessenta anos de regência? Mas não sejamos ingénuos, pois a República de Weimar durou apenas quinze anos, e foi corrompida pelo, denominado por Einstein, "lado negro" da civilização. Não tenhamos por conseguinte quaisquer dúvidas: enquanto a União Europeia existir, haverá Paz na Europa. Sem a União Europeia, com os nacionalismos exacerbados e catapultados pelo "medo e ansiedade", parafraseando Einstein e recordando a história europeia do séc. XX, a questão bélica na Europa será sempre quando e não se.

O socialismo motorizado



Um dos melhores indicadores para a qualidade de uma infraestrutura ou modo de transporte, havendo vários à disposição dos utilizadores, é de facto, a sua utilização e repartição modal, respetivamente, independentemente dos critérios burocráticos usados para mensurar a sua qualidade. É típico, por exemplo, um governo ou um município dizer que fez imensos investimentos em ciclovias, mas que por motivos culturais, climatéricos ou topográficos, as pessoas não usam a bicicleta. Ou o mesmo governo dizer que fez imensos investimentos em transportes públicos, mas porque as pessoas são "preguiçosas", não os usam e continuam a preferir o automóvel particular. Esquecem que a questão principal, normalmente nem é a cultural, a topográfica nem a climatérica. Caso os utilizadores tivessem à sua disposição uma infraestrutura ou modo de transporte, que fosse mais barato, seguro, conveniente e célere que o automóvel, usá-lo-iam. Mas caso o estado invista milhares de milhões em rodovia, como investiu no séc XX no Ocidente, de pouco valem os esforços financeiros na construção de ciclovias ou melhoramento em transportes coletivos, porque o sistema de transportes funciona como os produtos comerciais dentro de um determinado mercado, ou seja, os transportes competem e concorrem entre si, e os utilizadores e consumidores escolhem o que mais lhes convém para as suas necessidades em função dos fatores anteriormente referidos, como tempo, custo ou acessibilidade. 

Por isso, após anos de investigação nesta matéria, não tenho a menor dúvida, que no último século, no Ocidente, vivemos um verdadeiro socialismo motorizado, onde o Estado, numa visão tirânica e impositiva de mobilidade, praticamente forçou todos os consumidores a adotar o automóvel como meio de transporte, fazendo com que o sistema de transportes coletivos de passageiros, a bicicleta ou mesmo andar a pé, se tornassem ou mais perigosos ou menos competitivos. É por conseguinte um gigantesco paradoxo, que o país que mais aplicou tal socialismo motorizado, é aquele que se arroga mais liberal, ou seja, os EUA. Mas não é assim por exemplo na Holanda, um país liberal em vários domínios, mesmo no setor dos transportes. Mas não julgue o caro leitor que na Holanda o automóvel é impedido de circular, pelo contrário, há mais gente a usar o carro na Holanda que a bicicleta ou os transportes públicos. O que a Holanda simplesmente não faz, é bloquear quem quer que seja, de adotar a bicicleta como meio de transporte, pois aplica um modelo onde existe equilíbrio concorrencial entre os vários modos de transporte. E não há meio de transporte mais libertário que a bicicleta, na medida que não estamos dependentes da tirania fiscal do estado, nem do planeamento urbano que o estado impôs às cidades, com as suas avenidas e sentidos de circulação unicamente pensados na fluidez do tráfego motorizado. A cidade aumenta drasticamente a sua porosidade viária, quando nos sentamos em cima de um selim.

Capacidade de Corredor: definição no setor dos transportes


A Capacidade de Corredor, no setor dos transportes, faz referência à quantidade de pessoas  - e não de veículos, pois o objetivo nuclear da mobilidade de passageiros é transportar passageiros e não transportar meios de transporte - que se conseguem transportar por unidade de tempo ao longo de uma via de largura fixa. O seu conceito congénere na Física, é o fluxo. Considerando um caso particular dos meios de transportes que conhecemos e uma via com largura de 3,5 metros, o resultado é o que se vê na imagem, considerando as pessoas transportadas ao longo de uma hora.

A bicicleta tem por conseguinte uma capacidade de corredor sete vezes superior ao automóvel; o elétrico convencional onze vezes superior ao automóvel, e espantosamente, a ferrovia cinquenta vezes superior ao automóvel. Agora comparai na área metropolitana de Lisboa, os binómios da Autoestrada A5 vs. Linha de Cascais ou do IC19 vs. Linha ferroviária de Sintra. Isto quer dizer, que se os governos tivessem investido mais nos acessos ferroviários aos grandes centros urbanos e menos nos rodoviários, por certo, teríamos muito maior fluxo de pessoas, com muito menos trânsito e congestionamento e com muito menor impacto nas populações por onde essas vias passam.

Fonte: Changing course of urban transport, página 55; e
H. Botma and H. Papendrecht. 1991. Traffic Operation of Bicycle Traffic. In Transportation Research Record 1320.
TRB. Washington, D. C.: National Research Council, and based on GTZ calculations (2009).

Um lamento, um exemplo


Sobre a notícia do JN com o título "Cadastrado em fuga à GNR viola e mata rapariga de 18 anos", de 17 de março de 2017, lamento muito. Pobre rapariga, porque perdeu a vida. Porém, se andasse na via pública mais vestida, que aliás muitas outras raparigas da sua idade evitam fazer, ainda hoje estaria viva. Espero que sirva de exemplo, porque muitas vezes as raparigas dificultam a vida aos homens. As roupas servem justamente para a proteção decorosa de quem as utiliza.

A Energia: a da Ciência e a do Esoterismo


Um amigo meu numa conversa de café, amigo esse que tem uma formação académica fortemente científica, fazia uma crítica acérrima à terminologia adotada pelas denominadas ciências esotéricas, pois segundo ele, toda aquela terminologia e conceitos, não passavam de uma "treta". Expliquei-lhe; considerando que apesar de também ter uma forte formação académica na área científica, não sou um cético nestas matérias; que para o caso do conceito de "energia", na Ciência e no Esoterismo, apesar de fazerem uso da mesma palavra, os conceitos são distintos mas não incompatíveis. Referi-lhe que o termo energia no Esoterismo não é para ser interpretado no sentido da Física ou da Mecânica Clássica (calor, massa e velocidade, mensurada em Joules), mas no sentido psicológico. Apresentei-lhe então uma metáfora de café.

- "Quando vês uma “gaja muita boa”, mesmo que seja ao longe, existe uma “energia” transmitida por ela, que mexe e remexe no teu corpo, sem que todavia tivesse havido contacto. Essa “energia” que dela provém, atravessa o "éter” do espaço que vos separa e entra na tua “alma”, e pelo facto de mexer contigo, de te criar por vezes convulsões ou alterações de humor, denomina-se “energia”, porque te provocou alterações ou movimentos. É sempre nesse sentido mais lato ou poético se quiseres, ou até mesmo psicanalítico, de “energia”, em que se baseiam quase todas as pseudociências. As "más energias" são estímulos que por vezes são funestos ou malignos, já as "boas energias" são estímulos que são benignos, que nos trazem pensamentos positivos ou que nos oferecem tranquilidade ou felicidade".

Continuei: - "Mas claro, dou-te razão, numa linguagem estritamente científica e rigorosa à luz dos princípios da Física na qual o conceito de energia é rigoroso e está bem definido, este tipo de argumentos justificativos do Esoterismo, não têm qualquer validade. Para a Ciência, foram apenas meros fotões que provindos de uma fonte de luz, no corpo da mulher refletiram, e que viajando a uma velocidade de 300 mil quilómetros por segundo até ti, foram absorvidos pelas tuas retinas, cuja informação correspondente foi processada pelo teu córtex visual, estabelecendo padrões e cores. Milhões de anos de evolução desde os primeiros hominídeos e o teu sistema límbico reconheceu, através das suas feições corporais, que havia altas probabilidades de ser uma mulher profícua para reprodução, e assim sendo, o teu corpo, através do teu sistema endócrino e despoletado pela tua orientação sexual, reagiu em conformidade".

Concluí então: - "Ou seja, temos duas explicações para a mesma coisa, sendo que a primeira é mais fácil de explicar a leigos".

Os antieuropeístas xenófobos são, taxonomicamente, nacional-socialistas


À luz dos critérios taxonómicos da Ciência Política,
o partido de Geert Wilders, o PVV, é considerado
um partido de centro ao longo do eixo esquerda-direita.
Já Marine Le Pen é claramente de esquerda. 
Um dos erros comuns da elite política portuguesa, assim como de muitas pessoas que opinam no espaço público, é considerar que os movimentos políticos extremistas na Europa, que têm um discurso marcadamente xenófobo e antieuropeísta, são de extrema-direita. Tal não poderia ser mais enganador. Lemos Rui Tavares no jornal Público ou vemos Francisco Louçã no seu espaço de comentário televisivo a criticar estes movimentos, alegadamente de extrema-direita, para assim, estando lá longe no outro extremo, se distanciarem desse tipo de movimentos político-partidários que promovem a xenofobia e a intolerância perante os estrangeiros ou certo tipo de minorias religiosas.

Todavia, é preciso enquadrar politicamente estes movimentos à luz de critérios científicos o mais rigorosos quanto possível, dentro da ciência política. Reduzir um certo ideal a um eixo ideológico esquerda-direita, é além de redutor, cientificamente incorreto tal a complexidade do ideário dos partidos na atualidade. A noção de esquerda e direita no espectro político surge com a revolução francesa, quando os representantes da sociedade, na recém-criada assembleia republicana, se dividiam em função do estrato da sociedade. Do lado esquerdo sentavam-se os representantes do povo e do lado direito os representantes da aristocracia. Desde então tendeu-se a associar que a esquerda teria uma maior comiseração e solidariedade perante os mais pobres e que a direita teria uma visão mais centrada na economia ou nos detentores do capital. Mas à luz dos pressupostos históricos contemporâneos do século XX, é fácil encontrar alguns regimes tirânicos que se enquadram em dipolos opostos no eixo político esquerda-direita, tal como o estalinismo ou o fascismo. Estes dois regimes, além de estarem em dipolos ideológicos opostos, eram militarmente inimigos; mas ambos tinham algo em comum, nos dois funcionava um regime tirânico onde as liberdades individuais dos cidadãos, como de pensamento, de livre associação ou de movimento, não eram respeitadas pelo estado.

Percebemos com o caso anterior, que é necessário estabelecer um segundo eixo político, que mensura não só a influência que o estado deve ter na economia da sociedade, mas também o quão liberal ou conservador se deve ser nos costumes ou na forma como o estado lida com o cidadão. Além disso, mesmo nesta análise politicamente o mais imparcial possível, muitas vezes a forma como os partidos lidam com o antieuropeísmo ou com a xenofobia, não está propriamente bem enquadrada na taxonomia político-ideológica. Ou seja, um partido pode ser enquadrado em qualquer ponto no espectro político-ideológico e todavia ter ou não ter uma visão xenófoba ou intolerante perante o estrangeiro. Mas há um padrão claro, parece-me. Em todos estes movimentos protecionistas e antieuropeístas na Europa, de facto, se quisermos ser cientificamente rigorosos com referência à Ciência Política, denotamos que estes partidos, como de Marine Le Pen na França ou de Geert Wilders na Holanda, não são de extrema-direita, são de facto, nacional-socialistas. Muitas das propostas da Frente Nacional em França são exatamente iguais ou mais ousadas ainda que as da extrema-esquerda, como o controlo do banco central, a redução da idade da reforma para os 55 anos, o aumento substancial dos salários na função pública ou a redução do horário de trabalho para as 30 horas por semana. A Frente Nacional não é de extrema-direita, é totalmente incorreto do ponto de vista taxonómico, assim categorizá-la. A Frente Nacional de Marine Le Pen é marcadamente antiliberal, protecionista e com uma visão em que deve ser o estado a ter controlo hegemónico na economia e na política monetária, podendo-se assim afirmar, e tal não o é afirmado publicamente pois além de ser ilegal é politicamente incorreto, que a Frente Nacional tem um ideário marcadamente nacional-socialista. É isso que estes partidos antieuropeístas normalmente são: nacional-socialistas. Defendem um estado muito presente na economia e na vida dos cidadãos, estado que supostamente redistribui diversos apoios sociais a nacionais, e ao mesmo tempo com um ideário de ideologia marcadamente nacionalista e xenófoba. 

Logo, no plano político-ideológico com dois eixos, em que no horizontal temos esquerda-direita, sendo a esquerda defensora de políticas com maior presença do estado e a direita defensora de maior soberania financeira dos cidadãos em questões fiscais e económicas; e no plano vertical o eixo que define a vertente conservadora-liberal, podemos, se quisermos ser rigorosos, dizer que Wilders ou Le Pen, são de centro ou mesmo de esquerda, mas com um visão mais conservadora da sociedade. Ou seja, lamento desiludir as pessoas de esquerda, mas ideologicamente falando, os extremistas xenófobos que temos visto ascender na Europa não são de extrema-direita, muitas vezes são de centro ou de extrema-esquerda, o que os distingue dos demais partidos, não é o eixo da esquerda-direita, mas o eixo do liberalismo-conservadorismo. Neste aspeto há claramente um denominador comum em todos estes movimentos, e esse denominador comum é o populismo. E o populismo consegue ser maximizado numa ideologia que busque o que há de mais populista em todo o espectro político. Assim, estes movimentos nacional-socialistas, tal como o seu original nazi, obtêm quer ideais da extrema-esquerda na noção de que o estado deve servir de garante social para todos os cidadãos nacionais independentemente das suas ações ou produtividade, quer ideais do nacionalismo xenófobo, protecionista e intolerante à diferença. É esta mescla populista e pouco racional, de maximizar junto das massas o populismo em todas as frentes ideológicas, que definiu o nacional-socialismo e que define estes movimentos antieuropeístas.

Dizem que o co-r-po é po-r-co


Dizem que o corpo é porco
e se queres ver o teu porco
abre o teu corpo,
é que o anagrama do corpo
que se obtém do porco
que humilha o turco
o qual não conspurco
faz do porco o corpo
do bárbaro suíno
que cadáveres ingere
que reza a deus e ao trino
que a gula não mede
e tampouco
conhece o seu corpo

Abre o porco e o ingere
dias sem vez
e quanto mais o degola
mais porco se fez,
arroga-se acima do porco
pois reza a deus e aos três,
mas não passa dum porco
que para gula do corpo
racional nem tão pouco
e nem o porco é tão louco
conspurcando, se fez
um católico português

Degola-os o porco outra vez
com vil mesquinhez
na senda da gula
de um porco burguês,
arroga-se austero
católico, português,
e com cadáveres no prato
conspurcam-se à vez.
Sim, são vocês,
será malcriadez
com plena nitidez
criticar o carniceiro
o javardo festeiro
e um porco burguês?

Mas Deus é Grande
digo-o outra vez
sem mesquinhez
com mui sensatez,
e de cancro e maleitas
pela barbárie que fez
por não conhecer o seu corpo
chacinando o seu porco
criando-os à vez
num matadouro soez
para no prato, já morto
saciarem a gula
dum porco burguês,
que se arroga
superior
por rezar a deus e aos três!

Pois Deus,
Aquele que vos fez
na sua magna lucidez
imputa ao porco burguês
cancros, enfartes e AVCs
por este chacinar
qual massacre de Fez
a Criação animada
do Criador que lhe fez

Se queres conhecer o teu corpo,
o animalesco e grotesco,
chacina o teu porco,
trucida-o, esquarteja-o,
tortura-o, massacra-o,
fatia-o, degola-o,
decapita-o, ingere-o,
apunhala-o no pescoço
bebe o seu sangue
trinca o seu osso
e serás pois mais louco,
mais animalesco,
ainda mais javardo,
e mais grotesco
que esse mesmo porco

Pelo contrário
tal como no anagrama
se queres conhecer o teu coração
luta e combate
conhece a Razão
e ama
os entes animados
consagrados
que te oferendou
a Criação!

And as such, I quit from being Wikipedia contributor


After thousands of contributions to Wikipedia for several years in several languages, I quit of contributing to Wikipedia. Not because I think that some articles are not trustworthy, because they are in many fields, like maths and physics where passions and ideals do not play an important role, but I definitely do not want to lose my time contributing to a project, which in many fields, is nothing but a post-truth digital leaflet of american historical propaganda.

I refer particularly to the article for the "atomic bombings of Hiroshima and Nagasaki", which is written strictly from the american side. Till here, no big issue, since Wikipedia works from contributions from donors, i.e., people like me that used to write for several articles enlarging them, so, it is not so uncommon that an article lacks a neutral point of view as the person who wrote it, might have had a biased approach. But as I tried to improve the article, providing reliable sources for the sentences I was adding, trying to confer more neutrality to such article, in a harsh debate (let's hope they will not delete it, as is is also typical sometimes), every step I made, in every sentence, was blocked by a bunch of "american patriotic" editors that seemed to think that dropping a weapon of mass destruction upon civilians does not raise an ethical issue. It's incredible ridiculous, but it is from this self-evident truism that the verbal tension arose. 

It was a tremendous huge and harsh debate, as I was simply trying to include this sentence, which was blocked:

The ethical justification for the bombings of Hiroshima and Nagasaki is still debated to this day, due to several reasons including the number of casualties provoked by the bombings or the alleged militarily unnecessary, though other bombings such as on Tokyo have killed more people; but also due to the usage of weapons of mass destruction upon civil population.

I cite my last and final sentence to that debate:

Do we really need the other article [about the ethical debate of the bombings] to include such evident truism, so that it can be included here? Do we need sources for a truism? Even if we needed, I gave you as a source, a book with 552 pages that respects WP:SOURCE whose title is "Ethics and Weapons of Mass Destruction", which mentions several times Hiroshima? What do you need more to accept such sentence? If you want to convert WP in the digital leaflet of US post-truth historical propaganda, feel free, I'm out of WP as contributor, I quit. And I definitely, as a reader will stick to physics and math, as we based ourselves there on ''facts'' and not on patriotic ideals, and above all we do not make cherry picking (this article is cherry picking based from start to end), and I will give zero credibility to any article referring to US History or anything connected to US. You're a bunch of History re-writers, not better than Stalin's scripters.

Das declarações do eurodeputado polaco sobre a igualdade de género


      Nada é tão belo como a Verdade
              Boileau

Um eurodeputado polaco afirmou, no Parlamento Europeu, que as mulheres deveriam ganhar menos do que os homens pois são, no seu entender, "mais fracas, mais pequenas e menos inteligentes", tendo o referido eurodeputado facultado alguns dados estatísticos, como os resultados nas olimpíadas ou no xadrez, para alegadamente demonstrar que as mulheres são, em média, mais fracas fisicamente e menos intelectualmente capazes. Cumpre-me apenas apresentar quatro pontos.

1) Sancionar o eurodeputado por dizer o que pensa, como foi pedido por vários eurodeputados e membros da sociedade civil, é mais um ataque gritante à liberdade de expressão, levada a cabo pela vox populis e pela ditadura do politicamente correto, por muito que discordemos das suas opiniões, principalmente num lugar onde a liberdade deveria ser um dos magnos pilares, ou seja, no Parlamento Europeu, tendo em consideração em acréscimo a diversa jurisprudência que o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem tem levado a cabo com referência à liberdade de expressão.

2) Por muito animalesco que seja o referido deputado nas suas declarações, ele apresentou factos estatísticos que justificam o porquê da desigualdade salarial. As mulheres, em média, devido à evolução antropológica, têm uma inteligência espacial mais baixa que os homens (no Paleolítico as mulheres ficavam na tribo enquanto os homens saiam para caçar, e a necessidade de caça foi o que providenciava aos animais capacidades abstratas e espaciais de inteligência), têm menor nível de musculatura (pela mesma razão), e são menos agressivas, o que explica em parte o menor número de mulheres nas lideranças das empresas ou dos países. Têm todavia as mulheres, em média, maior inteligência social (tendo ficado mais tempo junto dos outros membros da tribo, obrigou-as a otimizar as relações sociais e interpessoais com os demais membros da tribo), maior criatividade, maior capacidade para cuidar (são elas que no Paleolítico praticamente sozinhas cuidavam dos filhos) e muito maior resistência à dor (devido ao parto). Por isso são usadas amiúde e preferencialmente por estados e empresas para cargos diplomáticos, relações públicas, recursos humanos, cargos onde se envolve a psicologia, ensino ou cuidados médicos.

3) Acima das questões físicas, genéticas, fenotípicas ou evolutivas, e podemos também usar estes argumentos para justificar a desigualdade entre raças, etnias, estrato social, idade, nacionalidade ou orientação sexual, porque elas existem; está o respeito pelos Direitos Humanos, à luz dos quais, qualquer ser humano deve ser tratado pelo estado e pelos outros sem qualquer tipo de discriminação, aliás, tal como plasmado na Constituição da República, no artigo com referência ao princípio da igualdade, princípio que defendo veementemente. Ou seja, antes da genética, da evolução, da estatística ou do preconceito, está, no desígnio de um princípio civilizacional, a Carta dos Direitos do Homem, na qual está patente que todos devemos ser tratados de forma equalitária. Nesse sentido, declarações públicas como as proferidas por um alto membro do Parlamento Europeu, são no mínimo, muito pouco delicadas.

4) As feministas têm essencialmente, no meu entender, de encarar o seguinte paradoxo, na senda da defesa da igualdade de géneros, a qual, naturalmente também defendo. Caso as mulheres defendam medidas de discriminação positiva, estão de facto, a assumir que a estatística e a genética são importantes, e que existe à priori uma diferença entre géneros que debilita as mulheres, e que, por conseguinte deve o legislador, tal como já faz para pessoas com debilidades físicas, enveredar por políticas de discriminação positiva. E acima de tudo, julgo, que então deveríamos também enveredar por políticas que evitassem a discriminação entre raças ou etnias. O Parlamento Português e o Parlamento Europeu, não têm, e devo confessar que o considero no mínimo muito estranho, um único deputado negro.

Concluo que, por muito animalescas, na forma, que sejam as declarações do sr. eurodeputado, elas baseiam-se em alguns factos estatísticos verdadeiros. Mas acima da estatística ou da genética, está a carta dos direitos humanos, à luz da qual todo o ser humano deve ser encarado com respeito, liberdade e igualdade, pelo estados e pelos outros.

Do "machismo" gramatical da língua portuguesa


A morfologia do Português é patriarcal

Recentemente o Prof. de linguística João Veloso, antigo presidente da Associação Portuguesa de Linguística, no seu blogue, fez uma análise científica, refutando a ideia de que a língua portuguesa seja "machista" e "heteropatriarcal". Refere o académico que a concordância, no caso do Português em género e em número, é uma propriedade universal de todas as línguas, e que declinando as palavras, servem para categorizá-las todas num mesmo grupo, grupo esse cujos elementos partilham denominadores comuns. Dá o seguinte exemplo:

       O novo professor inglês de Matemática chegou ontem

Repare-se que estando "o professor" no masculino singular, ou seja, o substantivo; também o artigo definido "o", e os adjetivos "inglês" e "novo", concordam em género e número com a palavra "professor", sendo que normalmente nas línguas, é o género do substantivo quem dita o género das palavras ao qual estão associadas. Repare-se todavia, que apesar de a concordância poder existir em abstrato em todas as línguas do mundo, ela é, de facto, transparente no Inglês. Usando do próprio exemplo do académico, na língua inglesa ter-se-ia:

       The new English teacher of Math arrived yesterday

Não há informação nesta frase em Inglês, sobre o género das palavras, apenas sobre o número, e mesmo no número não há lugar a concordância porque em Inglês os adjetivos (e por norma os nomes) não declinam em função de género ou número. 

Já em Alemão, existem três géneros (der, die, das), o que evita em grande parte a denominada gramática "heteropatriarcal", visto que existe em acréscimo o género neutro. Obviamente que quando se trata de pessoas, a declinação existe também em género e em número, existindo também o facto de que, num grupo onde haja apenas um elemento do sexo masculino, a declinação do substantivo é a masculina. No caso da palavra cidadão, que deu tanto que falar devido à polémica lançada por um partido político que mencionava que a palavra cidadão era masculina, logo machista, e que por conseguinte se deveria mudar o cartão de cidadão para cartão de cidadania, temos em Alemão também as quatro variantes em função do género e do número:

       der Bürger | die Bürgerin  Pl.: die Bürger, die Bürgerinnen

Mas interessantemente, em Alemão, o artigo definido plural é único, não havendo no plural variação em função do género, sendo que é igual ao artigo definido feminino no singular, ou seja die. O mesmo fenómeno acontece para o pronome pessoal feminino singular, ou seja, sie, que é igual ao pronome pessoal no plural, que também é único e não depende do género, ou seja, sie. Isto é, para a "pluralidade", em Alemão, adotou-se o feminino e não o masculino.

Já no neerlandês, e nas línguas nórdicas germânicas, num processo evolutivo, o género feminino foi fundido com o género masculino criando um género "hermafrodita", tendo todavia permanecido nestas línguas, o género neutro. Assim, em neerlandês diz-se de vrouw e de man para "a mulher" e "o homem" respetivamente. Já, "a criança", tal como em Alemão das Kind, adota o género neutro, neste caso em neerlandês, het kind. Ou seja, apesar de no neerlandês e nas restantes línguas nórdicas germânicas haverem dois géneros, esses dois géneros não são de facto o masculino e o feminino, são um que resulta da fusão do masculino e do feminino, sendo que o outro é o neutro. Logo, diria que numa análise sintática mais objetiva, pode-se afirmar que de facto existe uma certa gramática "patriarcal" na língua portuguesa e restantes línguas neolatinas, visto que são línguas que têm apenas dois géneros, sendo que é o género masculino quem domina.

Ainda em relação à questão do termo "género gramatical", o académico refere que é apenas uma infelicidade taxonómica de um legado antigo indo-europeu e que deve ser abandonada. Parece-me todavia que o autor quis acima de tudo incutir no público uma visão politicamente correta e não discriminatória da língua Portuguesa. De facto, o género gramatical é um legado do proto-indo-europeu que não pode ser ignorado, como está patente na grande maioria das palavras que fazem referência a seres animados providos de género biológico, como em gato e gata, menino e menina, porco e porca, galo e galinha, cão e cadela, etc., sendo que, a grande percentagem das palavras em Português assinalam o género gramatical em função da letra [o] ou [a], sendo as palavras sofisma, problema, tribo ou planeta, apenas raras exceções. Em Português aliás, esse género estritamente morfológico é mais evidente devido à própria terminação da palavra com as letras [o] ou [a], que são mais determinantes para a definição do género gramatical, do que propriamente a atribuição zoomórfica ou antropomórfica de marcas animadas e humanas a entes inanimados ou não humanos, plasmados em tal palavra.

Uma análise psicanalítica à ortografia

Todavia, permiti-me, porque também me interesso muito pelo estudo da psicanálise, uma análise gráfica mais profunda sobre a questão psicanalítica da ortografia, mais concretamente com referência ao género. Na língua portuguesa, claramente que a letra [A], é a letra que marca maioritariamente o género feminino, sendo que a letra [O], marca o género masculino, sendo que estas duas vogais são usadas amiúde para assinalar o género de quase todas as palavras, declinando-as, independentemente das funções sintáticas de tais palavras. Mas se analisarmos graficamente com minúcia e detalhe, repararemos que a letra [A], do ponto de vista gráfico e psicanalítico, obedece a uma estrutura fálica, sendo assim masculinizada. Pelo contrário, a letra [O], por ser graficamente e constantemente curvilínea, obedece, não tendo qualquer protuberância fálica, do ponto de vista psicanalítico, a uma estrutura visual efeminada.

Assim, permiti-me a observação, mas de facto, numa análise estritamente morfológica, pode-se afirmar que a língua Portuguesa, assim como o Espanhol, é uma língua "heteropatriarcal". Todavia, numa análise mais psicanalítica (alguns diriam mais críptica), estas línguas são na realidade "matriarcais", pois concedem a virilidade máscula e fálica, tradicional e culturalmente associadas ao poder e autoridade, ao género feminino. Dito de uma forma mais plebeia e pouco rigorosa do ponto de vista científico, pode-se afirmar que a língua portuguesa, do ponto de vista exotérico (visto de fora) é uma língua marcadamente patriarcal, dada a sua semântica e morfologia, mas do ponto de vista esotérico (visto de dentro), pode-se afirmar, considerando a questão gráfica e do que se conhece da psicanálise, que a língua portuguesa é de facto matriarcal.

Do modelo para o melhoramento da Democracia


Muito se tem escrito sobre os defeitos das democracias contemporâneas, e como estas aparentemente não conseguem cativar muito do eleitorado que se manifesta descontente com o regime político. Claramente, tendo em consideração os registos histórico-políticos, pode-se afirmar que o descontentamento da população perante a classe dirigente está sempre relacionado com questões de natureza económica que geram pobreza e desemprego, podendo ser acentuadas com aspetos adicionais de natureza relevante mas todavia com menor impacto, como migrações de povos culturalmente diferentes. Havendo bem-estar, pleno emprego e alto nível de vida, por norma os povos demonstram pouco descontentamento perante a classe política dirigente, independentemente dos regimes políticos em vigor. Os regimes democráticos tendem naturalmente a atenuar tais descontentamentos populares pois o sufrágio permite ao eleitorado fazer escolhas, mas muitas das escolhas que parte do eleitorado de facto prefere ver instaladas em momento de crise, são contrárias aos princípios constitucionais de um estado de direito, logo, o regime democrático não tende a resolver os problemas subjacentes a questões desta natureza. A democracia não pode tolerar que haja escolhas que sejam antidemocráticas, sob pena de o próprio regime democrático ficar posto em causa.

Todavia não mencionarei neste texto as questões de natureza económica, ou tantas outras, que provocam euforia consumista, bem-estar social ou pleno emprego; ou as suas antagónicas que por seu lado provocam pobreza e desemprego, e que são de facto os principais fatores para a insatisfação popular com o regime político e com as classes dirigentes; tentarei todavia neste texto apresentar, após reflexão, medidas que visem melhorar o regime democrático tornando-o mais imune a fenómenos que corroem o princípio da liberdade, da tolerância democrática, do pluralismo e do próprio estado de direito. No meu entender as graves falhas da democracia contemporânea representativa estão relacionadas, quer com uma visão extremamente ingénua, utópica e quase pueril do comportamento humano, quer por outro lado, com uma visão extremamente vil e maquiavélica por parte de algum setor das classes económica e política.

Julgo que as falhas conceptuais do regime democrático estão mais vinculadas ao paradigma inquestionável do modelo de sociedade ocidental, que achamos que, tal como o otimista no Cândido de Voltaire, é o melhor dos mundos possíveis. Nunca nos questionamos porque razão os fundadores da Democracia, os Gregos, não escolheram o modelo representativo, mas o direto, em que cada cidadão vota em cada decisão do executivo, mas em que cidadão é considerado apenas o homem livre maior de idade e natural da pólis. É certo que o modelo grego advém de uma visão elitista da sociedade em que apenas os melhores deviam decidir (aristo-cracia, ou seja, poder aos melhores), mas foi exatamente por terem essa visão pragmática de escolherem apenas os “melhores” e os naturais, que no meu entender, a democracia pôde ser instituída e funcionar normalmente. Todavia, mesmo no regime grego, hipoteticamente dirigido apenas pelos melhores, desde cedo surgiu nas assembleias a figura do demagogo, ou seja, o líder das massas, que num discurso carregado de pathos (emoção) e com pouco de logos (conhecimento), atraía as massas para decisões espontâneas e irracionais. Talvez devido ao argumentário que Aristóteles posteriormente plasmou nas suas obras e que de certa forma plasmava o ideário grego sobre a diferença de géneros, é que as mulheres não podiam votar. De acordo com Aristóteles as mulheres demovem-se exacerbadamente muito mais pela emoção do que pela razão, e embora a emoção popular tenha tido um papel importante para os diversos processos revolucionários que fizerem o Homem evoluir, são todavia demasiadamente prejudiciais no dia-a-dia das decisões dos poderes executivo e legislativo.

Os Romanos todavia adotaram um modelo democrático, que além do elitismo grego de apenas aceitarem homens livres e cidadãos naturais das províncias romanas, exigiram requisitos adicionais como o cumprimento do serviço militar. Em acréscimo, os Romanos entenderam que o peso de cada voto, deveria ser proporcional àquilo que cada cidadão contribui através da carga fiscal, tal como sucede hoje nas assembleias de votos dos acionistas de uma empresa. Quando muitos séculos mais tarde os Britânicos reinstauraram a democracia, fizeram-na de forma representativa, e aqui, surge no meu entender, uma das maiores hipocrisias dos tempos contemporâneos, pois os princípios subjacentes da democracia representativa, de facto, implicam que o eleitorado precisa de procuradores para os representarem nas diversas decisões executivas e legislativas.

Entender os casos em Alemão (parte II) - o Hino do Brasil


Noutro texto havia explicado, de modo geral, o motivo da existência dos casos em Alemão. De forma sintética pode-se dizer, que em Alemão, tal como por exemplo no Latim, nas línguas Eslavas ou no Grego, os casos, fazendo uso de declinações, servem para assinalar a função sintática da palavra; isto é, se a dita palavra ou conjunto de palavras representam o sujeito, o complemente direto, complemente indireto, etc. Tal mecânica sintática, permite atribuir maior liberdade à posição das palavras, sem que o significado da oração se torne críptico. Embora em Português, a regra da posição das palavras seja menos restrita, fica por vezes complexo identificar numa determinada frase, a função sintática de cada uma das palavras, quando estas fogem à ordem a qual estamos habituados a ouvir.

Um caso que acho muito interessante refere-se à letra do hino do Brasil, mais particularmente às duas primeiras estrofes:
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heroico o brado retumbante
Faço uma pergunta ao caro leitor: consegue de forma imediata, identificar nos versos acima, o sujeito, o complemento direito e indireto? Caso todavia reordenemos as palavras para a posição mais comum que têm considerando as suas funções sintáticas, fica mais fácil a compreensão da oração:
As margens plácidas do Ipiranga ouviram 
o brado retumbante de um povo heroico 
É um clássico na Poesia, reordenar o sentido normal das palavras, sendo que a língua Portuguesa é muito flexível no que toca às regras para as posições das palavras, como se constata nos dois versos acima. Mas também é um facto que quando reordenamos uma frase em Português, tornamo-la por vezes críptica ou em certos casos quase impercetível. Ora vejamos um exemplo. Nas seguintes frases com o mesmo significado, quantas combinações sintáticas podemos estabelecer sem alterar o significado da oração. 
Posso recomendar-te uma boa bicicleta
Uma boa bicicleta posso recomendar-te
Recomendar-te posso uma boa bicicleta
Uma bicicleta boa recomendar-te posso
Em Alemão, pelo facto de se fazer uso de casos com declinações, as frases, mesmo reordenadas, ficam sempre claras. Não esquecer todavia que em Alemão, o verbo surge sempre na segunda posição.
Ich kann dir ein gutes Fahrrad empfehlen
Ich kann ein gutes Fahrrad dir empfehlen
Ein gutes Fahrrad kann ich dir empfehlen
Dir kann ich ein gutes Fahrrad empfehlen
Embora alguns dos exemplos acima sejam menos usados, estão gramaticalmente corretos e são claros não levantando ambiguidade. Os casos, tal como no Latim, têm assim a vantagem sintática, de permitir maior combinatória das diversas palavras numa determinada oração, sem perda inerente de clareza. No exemplo acima, o nominativo, ou seja, sujeito, é a palavra "eu" (Ich), o verbo é "poder recomendar" (empfehlen können), "a bicicleta" é o predicado, complemente ou objeto direto, estando assim no acusativo (das Fahrrad); sendo "tu" (dir), o complemente ou objeto indireto, estando logo no dativo.

Voltando ao exemplo inicial do Hino do Brasil, podemos assim referir que "as margens", sendo o sujeito, estariam no nominativo; "o brado retumbante" no acusativo; e quer o "Ipiranga", quer o povo heróico estariam no genitivo, pois fazem referência a posse, ou seja, possuem respetivamente "as margens" e "o brado retumbante". Assim, uma tradução possível para Alemão seria:
Die gelassene Ufer des Ipirangas hörten
den dröhnenden Schrei eines heroischen Volks
Considerando que grito em Alemão, tal como em Português, é uma palavra masculina (der Schrei), fica no caso acusativo den Schrei. Repare-se como em Ipiranga, adiciona-se a letra [s] no final, para se fornecer o caso genitivo, um pouco como em Inglês com o [s] seguido de apóstrofo; tendo eu assumido neste caso que Ipiranga seria uma palavra masculina, pois é um riacho (der Wasserlauf). Já no caso da palavra "povo" (das Volk), não basta adicionar o [s] no final, considerando que a palavra é antecedida do artigo indefinido "um" (ein), e como em Alemão a declinação faz-se, para cada caso, quer no artigo, quer no adjetivo (neste caso heroisch), quer no nome, fica então neste caso eines heroischen Volks. 

Recorde-se a parte I deste artigo onde apresento a tabela para as diferentes combinações para os artigos, adjetivos e nomes, em função de género, caso e número. Agora, havendo declinação para cada palavra, considerando a respetiva função sintática, pode-se então reordenar as palavras dos dois versos, sem perda de sentido, respeitando assim o espírito original da letra do Hino do Brasil.
Des Ipirangas hörten die gelassene Ufer
eines heroischen Volks den dröhnenden Schrei

A propósito do custo das ciclovias de Lisboa


Aprecio a exigência financeira, de alguma direita portuguesa, nas contas públicas e na forma como cada político ou cidadão deve lidar com os dinheiros públicos, desde o erário público das administrações centrais à gestão financeira do poder local. Tal revela uma exigência e rigor, à qual a cultura mediana portuguesa não está propriamente habituada, não é por acaso que muitas vezes nos países nórdicos somos conotados como perdulários. No entanto, bem mais grave que ser perdulário, é fazer passar-se por financeiramente rigoroso, e ser todavia mais perdulário que aqueles aos quais acusamos de serem perdulários. Foi o caso do PSD-Lisboa que acusou a edilidade de alegadamente gastar 5 milhões de euros em 210 km ciclovias, quando um simples túnel com 1,7 km custou aos cofres públicos cerca de 27 milhões de euros, ou seja mais de 5 vezes mais. Caso para perguntar: rigor financeiro ou hipocrisia?



A Metafísica do Humor: uma análise evolutiva e psicanalítica


Freud explicava no meu entender bem o funcionamento do humor, e mais concretamente das piadas. Adoto doravante o termo piada para qualquer mecanismo que faça o outro indivíduo rir-se. Para Freud a piada era um sinal primário e encriptado enviado para a mente, sinal que denigre ou humilha os demais ou que tem um cariz instintivo. Quando falamos de primário falamos de estímulos psicológicos normalmente de cariz sexual ou escatológico, relacionadas com certas características de determinados indivíduos ou grupos.

Diferença entre um riso forçado e verdadeiro.
A protuberância das bochechas e os músculos na zona
ocular fazem a diferença. Fonte: URL.
Quando descodificamos através do pensamento, mais concretamente através dos lóbulos frontais, o que está encriptado, rimo-nos. A mensagem chega primeiramente aos lóbulos frontais, a parte responsável pela fala e pela interpretação da linguagem. Quando os lóbulos frontais a descodificam, usando do pensamento abstrato, a mensagem de repente revela possuir um carga primária extremamente forte o suficiente para canalizar informação neuronal para o sistema límbico, o lado evolutivamente mais antigo no cérebro humano, tendo como retorno o prazer. António Damásio explica muito bem, em O Erro de Descartes, que não conseguimos estimular conscientemente certos músculos das zonas ocular e oral, e que os mesmos são apenas estimulados quando nos rimos de forma verdadeira, sendo a estimulação ou não de tais músculos o que distingue, numa análise da face do outro indivíduo, o riso verdadeiro do falso. Perante uma "boa" piada, a mensagem após ser descodificada, por ter uma carga primária forte, é enviada para o sistema límbico, o sistema cerebral mais primário, que por sua vez ativa essa zona muscular por debaixo dos olhos. 

Aceitamos socialmente a humilhação dos demais porque essa humilhação é latente e não patente. Um exemplo interessante foi quando o humorista famoso Ricardo Araújo Pereira no programa semanal Governo Sombra referiu que "gostava de brincar à apanhada com Schäuble". De forma reflexiva e imediata, falamos de coisas tão pueris como "brincar à apanhada", algo que se faz em criança e por conseguinte não associamos a maldade, logo de forma imediata não poderemos associar brincar à apanhada com um político a algo negativo. Isto é, quando analisamos a mensagem de forma estritamente reflexiva, ou seja, a que nos remete para um reflexo, estamos perante algo pueril e que demonstra que desejamos o melhor para o referido membro da classe política e que até gostamos tanto dele que até gostaríamos de brincar à apanhada consigo. Mas quando refletimos, ou seja, quando a abordagem deixa de ser a reflexiva, e passa a ser a refletiva, ou seja de reflexão, percebemos que o Sr. Schäuble é paraplégico e jamais poderia brincar à apanhada com ninguém porque está imobilizado numa cadeira de rodas. O "embrulho" que a mensagem traz é estritamente pueril e inofensivo, mas o conteúdo secreto que lá no fundo carrega, é primariamente forte, ou fazendo uso das próprias palavras do humorista, é "javardo", estando relacionado com emoções primárias e instintivas de natureza sexual, humilhação ou maledicências de indivíduos, enfermidades, questões de natureza escatológica, ou mesmo humilhação de grupos, por norma minoritários. 

Quando uma piada não está suficientemente encriptada, dizemos que é de mau gosto. Quando uma piada está bem encriptada, mas a mensagem inerente não é suficientemente primária ou forte, dizemos que é uma piada "seca", ou uma má piada. Na língua Portuguesa faz-se uso do adjetivo "seco" para categorizar as más piadas, sendo esse adjetivo antónimo do adjetivo "molhado" ou "húmido", termo que também tem conotação psicanalítica com matérias de natureza sexual e que por inferência faria referência às "boas" piadas, ou seja, uma boa piada é a piada "húmida". O "bom gosto" dependerá sempre do nível intelectual do indivíduo e por norma do seu estrato social ou do grupo onde se insere. Apenas o Homem se ri, mais nenhum animal tem este tipo de mecanismo psicológico, pois a piada envolve uma comunicação complexa, como a oral, escrita ou mesmo multimédia, como um cartoon ou um sketch. Mais uma vez de salientar que adoto a terminologia piada para qualquer tipo de mecanismo que faça o outro rir.

O seu propósito evolutivo, no meu entender, pelo que tenho lido sobre psicologia evolutiva, foi exatamente o da estratificação social em função do intelecto e de características psicológicas comuns, ou seja, de fazer com que os indivíduos com o mesmo nível de capacidade intelectual ou com denominadores psicológicos comuns, se juntassem sociabilizando-se. Desenvolveu-se naturalmente numa fase tardia do Paleolítico, ou seja quando surge a fala, quando já somos Homo Sapiens. Permitiu que os grupos se tornassem coesos e no meu entender teve um papel muito importante no desenvolvimento do intelecto. Nas piadas de natureza sexual ditas entre dois e com o intuito do acasalamento, permitiu que macho e fêmea partilhassem alguns denominadores comuns, evitando por conseguinte a prejudicial miscigenação. Explico noutro texto, em Os três graus da atração: Amor, Paixão e Desejo, onde distingo paixão de desejo, porque motivo a miscigenação teria sido prejudicial evolutivamente para o grupo étnico, por conseguinte estando relacionada com a seleção de grupo. Creio que a piada teve o mesmo propósito social, ou seja, de estratificar ou gentrificar o Homem e dividi-lo em função das suas características psicológicas comuns. Por isso ainda usamos a piada para denegrir minorias, evolutivamente os membros das outras tribos potencialmente inimigas; ou pessoas das quais temos um certo repúdio comum, evolutivamente pessoas dentro da tribo com as quais fazíamos alianças para as destronar. Schäuble é um homem poderoso, por isso a piada de Ricardo Araújo Pereira é também "boa", porque ridiculariza o socialmente proibido. Devido à questão da seleção de grupo e da estratificação étnica, hoje em dia mesmo com a sociedade globalizada, os humores continuam a variar em função da cultura de cada povo. Os brasileiros, povo de "sangue quente", têm piadas de natureza primária muito mais forte e por vezes pouco encriptadas, que para um natural do norte da Europa poderão parecer excessivas ou de mau gosto; já os povos do norte da Europa têm piadas demasiadamente encriptadas e com pouca carga primária, que para muitos povos do sul, são consideradas simplesmente sem graça.

A piada é tão melhor quanto mais primária, encriptada e proibida for. A "piada perfeita", se é que ela existe, leva estas três variáveis ao extremo. Mas para a descodificar, é preciso que o indivíduo tenha inteligência para tal. Se demorar demasiado tempo para ser descodificada, perde o poder primário que leva ao riso, e após a descodificação, transmite apenas admiração e espanto. Certo dia num bar em Estocolmo um sueco contou-me uma piada típica de povo nórdico, a qual consegui descodificar apenas no dia seguinte. Por essa altura, quando habitava em Estocolmo, fumava e entrei no referido bar a fumar. Na entrada estava o referido sueco com dois amigos, e tinha uma cerveja na mão estando extremamente embriagado. Eu ao entrar, o sueco diz-me muito rapidamente em Inglês, num estado ébrio e rindo-se para mim e os seus dois amigos, sem me dar qualquer hipótese de reação: "não devias fumar, é mau para o fígado". Não tive qualquer reação e segui, pois julguei no instante que se tratasse apenas de uma frase sem sentido de um bêbado. Os estímulos num bar são demasiados e intensos e não permitem uma análise por parte dos lóbulos frontais demasiadamente alongada. No dia seguinte percebi que ele estava a chamar-se a si próprio ébrio e festivo, e como estava com mais dois amigos, estava latentemente a discriminar-me pelo facto de eu num bar nórdico, estar a fumar e não a beber, remetendo-nos para a piada sobre o indivíduo que compõe uma minoria. Mas a piada era tão críptica, que apenas no dia seguinte percebi o seu significado. Mas permitiu que o sueco e os seus amigos, naquele instante, porque o humor nórdico adota aquele padrão, se rissem de mim. Ou seja, a piada permitiu evolutivamente estabelecer laços sociais de natureza críptica, cuja interpretação estaria ao alcance apenas dos membros da uma etnia ou grupo, aquilo que hoje em dia se define por gentrificação, mas aqui num sentido mais lato e evolutivo. Considero que evolutivamente a Paixão teve exatamente o mesmo propósito.

Sobre Ricardo Araújo Pereira

Não julgo que o humorista Ricardo Araújo Pereira, que conta excelentes piadas, seja um génio, é sim trabalhador e metódico. É possível fazer-lhe uma análise superficial de natureza psicanalítica e impessoal apenas pela forma como se expressa na televisão. Quando fala nunca fala com fluidez, tem várias pausas, gagueja mesmo, e tal serve para pensar e refletir no que especulativamente dirá para fazer o outro rir. É um artista no sentido clássico do termo, na medida que domina uma arte, ou seja, um ofício cuja experiência lhe permite estabelecer os encadeamentos lógicos corretos que farão o outro rir-se. Por certo desconhece por completo a abstração freudiana ou teórica do riso, mas é um excelente artesão cujo conhecimento adquiriu por experiência e não por estudo estritamente teórico. Aliás, tal como acontece com a grande maioria dos grandes artesãos, ou seja, dominam uma técnica pela experiência e conhecimento empírico e não pelo estudo teórico dos seus mecanismos. Cristiano Ronaldo perceberá por certo muito pouco de mecânica clássica, por certo nem saberá sequer quem foi Newton, mas não deixa de dominar de forma soberba no seu dia a dia as mais basilares leis da física.

Carteiros antigos de Lisboa


Na década de 1920, quando o brio profissional na apresentação dos funcionários públicos era uma exigência fundamental para o cargo, consta que estes funcionários públicos na foto, que davam pelo nome de boletineiro, ou seja, que entregavam boletins cuja natureza do serviço envolvia uma certa brevidade na entrega; estes austeros e fleumáticos funcionários públicos com uma indumentária de excelente apresentação, não encontravam no suor, nas colinas, nas intempéries ou no eventual baixo estatuto que os velocípedes envolvem, qualquer constrangimento social ou pragmático para fazerem uso diário da bicicleta no seu dia-a-dia profissional. 

Ironia da História e como muda o pensamento mundano! Hoje, qualquer indigente ou favelado, ainda considera que só os paupérrimos ou os pequeno-burgueses de esquerda, fazem uso diário da bicicleta, e para se obter o estatuto de "gente", é quase obrigatório possuir um automóvel. Mas felizmente, que as mentalidades mudam.

Boletineiros ou carteiros em Lisboa no Terreiro do Paço, princípio do século XX.
Foto do acervo iconográfico da Fundação Portuguesa das Comunicações,
 e colorida pelo técnico de fotografia Hayk Alaverdyan.

As injustiças do sistema eleitoral de Portugal


Tem-se referido mais uma vez a questão da iniquidade do sistema judicial estadunidense - gentílico de facto correto de acordo com os lexicógrafos, pois os canadianos também são norte-americanos - considerando que mais uma vez ganha um candidato que tem menos votos. Apesar de Portugal usar o método d'Hondt e haver apenas uma câmara com voto direto, não é propriamente também um sistema muito justo, se considerarmos alguns indicadores interessantes. A título de exemplo, comparando algumas forças político-partidárias que se apresentaram a eleições em 2015, constata-se que o PAN (Pessoas Animais Natureza), por exemplo, elegeu apenas um deputado mas teve 75140 votos, dando então cerca de 75 mil votos por deputado. Já o PPD/PSD.CDS-PP teve 1993921 votos tendo tido direito a 102 deputados, resultando então num rácio de cerca de 19500 votos por deputado, um valor quase quatro vezes menor. Já a relação entre demografia e números de deputados por círculo eleitoral, aparenta ser equitativa.

Como o método d'Hondt e os círculos eleitorais beneficiam os grandes partidos

Votos por deputado nas eleições legislativas de 2015;
fonte: Comissão Nacional de Eleições

O problema neste sistema não está propriamente no método d'Hondt, pois este é apenas um método para alocar a distribuição de deputados e outros representantes eleitos na composição de órgãos de natureza colegial. A questão é que os colégios eleitorais em Portugal estão divididos por círculos plurinomimais, que correspondem em Portugal continental aos distritos, mais dois círculos para a Madeira e Açores e mais um para a Europa e outro para fora da Europa, tal como pode ser visto no respetivo quadro da Comissão Nacional de Eleições (CNE). Todavia o princípio do círculo plurinomimal para a eleição de membros de um órgão colegial, tem por base, que cada círculo representa os interesses, em teoria, de uma classe social, de uma religião, região demográfica ou de uma outra qualquer partição da sociedade. Em Portugal, como em muitos outros países, adotou-se a divisão geográfica, ou seja, cada círculo representa, em teoria, os interesses políticos de uma determinada população residente numa determinada região. 

De Donald Trump e da Psicologia Evolutiva


As sondagens para as eleições presidenciais estadunidenses foram um fiasco, tal como foram todas as sondagens onde há um candidato de direita ou de extrema direita. Explicarei porquê. Quando perguntado à pessoa através do telefone qual o candidato onde irá votar, a mesma poderá ter receio em referir "voto em Trump", pois tal não "fica bem", é indecoroso e revela intolerância, principalmente para os denominados indecisos. Mas no momento do voto, considerando que o mesmo é totalmente secreto e sem censura social, o eleitor deixa-se dominar pelo medo primitivo, aquele que provém do sistema límbico, sistema esse que compõe a parte do cérebro evolutivamente mais antiga, e comum a todos os mamíferos.

Pois Donald Trump mexeu com os medos mais primários das massas, e no comportamento das massas reina sempre a psicologia evolutiva, que é extremamente poderosa no controlo do comportamento das massas, e que é e foi usada por todos os regimes e sistemas políticos, dos socialistas aos fascistas, passando pelas técnicas de marketing dos sistemas capitalistas. As minorias e os estrangeiros, os de raça e etnia diferentes, são aqueles que na imaginação primária do sistema límbico, copulam com as nossas fêmeas, roubam-nos os recursos e os alimentos e que nos ocupam o território, sendo por conseguinte uma grande ameça à sobrevivência da tribo e da comunidade. Esses sentimentos primários foram de facto vantajosos no Paleolítico. É-nos difícil retirar esses sentimentos do sistema límbico, a parte mais primitiva do cérebro, e cujas ligações neuronais são mais influentes para as atitudes mundanas, do que aquelas provenientes dos lóbulos frontais, a região cerebral que nos confere a lógica e a razão. De facto esses sentimentos racistas e xenófobos revelaram-se através da evolução, seleção natural e acima de tudo seleção de grupo, positivos para a preservação da tribo e da etnia. A verdade é que é através da evolução e da seleção de grupo, e não da seleção natural, que os sentimentos xenófobos e racistas provêm. E é da seleção de grupo e não da seleção natural, pois o meio envolvente, ou seja, a natureza, não foi o fator seletivo mais relevante, tal como nos aponta o darwinismo clássico, tendo o fator seletivo relevante sido todavia a preservação do grupo ou da comunidade contra uma ameaça exógena da mesma espécie, mas de etnia ou raça diferentes.

Resta-nos enquanto homens e mulheres civilizados usar os lóbulos frontais e perceber o quão anacrónico é, enquanto seres humanos pertencentes a uma sociedade altamente sofisticada do ponto de vista tecnológico e de relações sociais, deixarmo-nos conduzir por esses instintos primários. Rogo para que leia este texto que escrevi há tempos, onde explico porque razão estes sentimentos primários que no Paleolítico foram extremamente úteis, se tornaram na contemporaneidade, anacrónicos e mesmo perigosos. E no seguimento desse texto, o mesmo pode ser generalizado à xenofobia e racismo. É muito mais periogoso para a espécie e para o grupo, na medida que são fatores que tomam proporções epidémicas ou catastróficas, as alterações climáticas, a poluição do ar e dos recursos naturais, o sedentarismo e respetiva obesidade da sociedade, a sinistralidade rodoviária ou a má alimentação; do que quaisquer imigrantes ou minorias ou atos perpetrados por estes. Mas no Paleolítico nenhum destes problemas se colocava, o Homem não influenciava o clima, não poluia o ar nem os recursos e era caçador-recoletor. Resta-nos assim enquanto cidadãos conscientes, tomar posições racionais e não nos deixarmos nunca condicionar pelo medo.

As injustiças e insustentabilidades da Segurança Social


Há alguns deputados e membros da sociedade civil que têm recentemente mais uma vez alertado para a insustentabilidade da Segurança Social, considerando que o Orçamento de Estado de 2017 irá novamente transferir, desta vez 430 milhões de euros, dos impostos gerais para a Segurança Social (S.S.). Mas em Portugal o que é óbvio nunca colhe. Recordo que de acordo com a Lei de Bases da S.S., esta deve ser auto-sustentável, ou seja, o pagamento aos atuais pensionistas deve provir, em teoria, apenas das contribuições dos atuais trabalhadores e demais contribuidores. Mas não é o que acontece, pelo contrário o atual governo agrava essa insustentabilidade ao efetuar o aumento das pensões sem que haja crescimento do lado das contribuições.

Quando a S.S. foi criada havia 5 trabalhadores para um beneficiário, agora esse rácio chegou a 1,2, sendo este de longe o fator mais importante para a sustentabilidade da S.S., ou seja, a demografia, agravada no nosso caso pela emigração. E quem diz que a S.S. está assegurada nas próximas décadas está a ser muito falacioso, pois tal depende sempre do que os atuais contribuidores irão receber no futuro. Aliás, a própria OCDE já refere que 40% das contribuições para a S.S. dos atuais trabalhadores já devem ser consideradas apenas como "impostos" porque nunca os vão receber no futuro; tudo para que os atuais beneficiários recebam pensões que não refletem de todo aquilo que contribuíram.

Providencio vários exemplos de injustiças e de ardis que colocaram em causa a sustentabilidade da S.S. A ordem é meramente indicativa.

1 - Os ex-combatentes que durante o serviço militar em África nunca colocaram um cêntimo no sistema, têm esses anos considerados como descontos. Caso a zona tenha sido de conflito, os anos são considerados a dobrar. Uma medida populista de Paulo Portas, que satisfez assim as exigências dos ex-combatentes sem tocar no Orçamento de Estado.

2 - Os desempregados, que enquanto desempregados estão, além de já receberem da S.S., o tempo de desemprego é considerado como descontos. Há estimativas que referem que apenas nesta parcela, o défice imposto ao sistema, ronde mais de 5 mil milhões de euros por ano.

3 - Os funcionários públicos que a partir de 2005 estão inseridos na S.S. e não na Caixa Geral de Aposentações (CGA), mas em que o Estado não coloca no sistema as respetivas contribuições referentes a esses funcionários, o que qualquer entidade patronal é obrigada a fazer. Uma medida ardilosa de Sócrates para baixar o défice sem alarido social, que além de ter colocado em causa a própria sustentabilidade da CGA a curto prazo, colocou problemas de sustentabilidade na S.S. a longo prazo, pois dentro de décadas teremos em teoria, funcionários públicos que receberão uma pensão, sem que a sua entidade patronal, o Estado, tenha colocado um cêntimo no sistema referente a esses funcionários.

4 - Aos autarcas, deputados ou juizes e restantes elites de certos previligiados, um ano de descontos, conta como três, cinco ou mais, dependendo das regalias atribuídas a essas classes.

5 - A aquisição por parte do Estado de fundos de pensões aos privados (banca e CTT), apenas para obter receita imediata e para assim enganar o défice junto de Bruxelas, sem considerar que no futuro os encargos com pensões desses funcionários serão muito superiores ao dinheiro amealhado. Medidas levadas a cabo pelo governo de Durão Barroso com Manuela Ferreira Leite nas Finanças  (CTT) e pelo governo de Sócrates (banca). Ironia do destino que o Estado veio posteriormente a colocar na banca um valor muito superior àquele que amealhou com esta operação.

6 - Durante muitos anos, o valor da pensão não refletia toda a carreira contributiva, mas apenas os melhores 10 dos últimos 15 anos. Tal gerava situações de extrema injustiça, como funcionários em que nos últimos 10 anos o seu salário era empolado pelas chefias, ou mesmo empresários, que podem definir o seu próprio salário, que se aumentavam nos últimos 10 anos antes da pensão.

7 - E claro, como já foi mencionado, o fator mais importante, a demografia, agravada pelo benigno aumento da esperança média de vida dos pensionistas, e pela emigração em massa.

Independentemente das injustiças e ardis da classe política, a S.S. será sempre sustentável, mas tal dependerá sempre do que vierem a receber os futuros pensionistas com referência às suas contribuições. Se daqui a 50 anos a S.S. pagar ao prato de sopa, garanto aos prezados leitores que teremos uma S.S. sustentável por muitos séculos. A título de comparação, na Suécia há uma fórmula robusta e imune aos populismos da classe política, que a cada ano, em função dos indicadores económicos e demográficos, estabelece o valor das pensões e a idade de reforma. Na Noruega há um fundo de pensões que obtém receitas do setor petrolífero nacional, por sinal o maior fundo do mundo, com cerca de 750 mil milhões de euros, cerca de 4 vezes o PIB de Portugal, para pagar pensões num país com metade da população portuguesa.

Escutados os especialistas em cálculo atuarial, e as recomendações imediatas são óbvias. Independentemente dos aspetos macroeconómicos e demográficos que têm uma dinâmica muito lenta e cujas soluções são complexas, a S.S. deve funcionar como funcionam os regimes privados, mas obviamente de natureza pública e com uma vertente social e assistencial. Ou seja, cada contribuidor deve ter uma conta associada, como funcionam as contas poupanças ou os PPR, devendo ter conhecimento a cada instante qual o valor total amealhado e correspondente valor de pensão em função da idade de reforma. E obviamente, todo o tipo de regalias e ardis políticos, que beneficiam quem não coloca dinheiro no sistema, devem ser abolidos e removidos da legislação.

Em Portugal como é comum desde a Magna e Egrégia Fundação em 1143, vamos vivendo de expedientes pontuais. De facto, excetuando os Descobrimentos, cuja madeira para as caravelas e naus, consta, terá sido mandada plantar ainda por Afonso III no Pinhal de Leiria; para que uma campanha fosse bem sucedida alguns séculos depois, desconhecem-se em nove séculos de História demais projetos bem sucedidos de longo prazo, nesta ínclita nação dos Lusos.

Bendita a laicidade!


Quando é preciso um fluxograma para perceber a guerra na Síria, constata-se que a questão é tudo menos linear! As potências ocidentais combatem o Estado Islâmico e a Frente Al-Nusra, mas o Estado Islâmico combate a Frente Al-Nusra, ambos os grupos combatendo as forças do regime sírio apoiado pela Rússia, pelo Irão e o Hezbollah. Já os Curdos combatem o Estado Islâmico e a Frente Al-Nusra, combatendo ainda a Turquia, Turquia essa que combate o Estado islâmico e a Frente Al-Nusra. Já a Frente Islâmica e o Exército da Libertação da Síria, combatem ambos o governo sírio e por conseguinte combatem a Rússia, o Irão e o Hezbollah, mas combatem também o Estado Islâmico, sem combater a Frente Al-Nusra.

Uma autêntica mescla étnico-político-religiosa, que apenas trouxe guerra, morte, fome e caos. Benditos os estados laicos onde uma opinião, etnia ou religião diferente não implica que se tenha de chacinar quem quer que seja!

Fluxograma com as diferentes relações dos intervenientes do conflito da Síria.