António Borges e a moderação salarial


As questões de fundo podem ser válidas,
mas é preciso moralidade para proferi-las
Veio recentemente a público, o professor António Borges referir que a redução de salários em Portugal é uma urgência. Tal comentário, causou uma enorme celeuma entre os sectores da esquerda, dos sindicatos, mas também da direita parlamentar portuguesa. Muito tenho defendido, considerando a produtividade nacional, e ainda as benesses que o Estado concede aos cidadãos, que me parece que os salários em média em Portugal são razoáveis. O problema filosófico que se coloca, é que invariavelmente comparamos os nossos salários com o resto da Europa rica do norte. Gostamos muito de comparar os salários portugueses com os da Alemanha por exemplo, mas a questão é que o PIB per capita dos restantes países da Europa ou mesmo da zona Euro são deveras superiores ao português. Por isso devo dizer que considero que a questão de fundo evocada pelo prof. António Borges é pertinente e é sensata. Não me refiro a baixar o ordenado mínimo, pois este coloca os seus assalariados no limiar da pobreza, mas também não se referia António Borges a baixar o salário mínimo ou de quem ganha perto de 500 euros por mês. Todavia existe uma elite pública numerosa, que é muito bem paga para o nível produtivo que apresenta, e nesse sentido só posso estar favorável aos argumentos do prof. António Borges. Se a título de exemplo o Estado pudesse baixar 15% nos salários a todos os funcionários públicos (média salarial de 1250€/mês), considerando que existem presentemente cerca de 500 mil funcionários públicos, o Estado teria margem financeira para contratar novos 88 mil funcionários públicos na mesma média salarial, reduzindo a taxa de desemprego em 1,7%, considerando o atual número de desempregados

(1.250€*500.000)/(85%*1.250€)-500.000=88.000 funcionários em acréscimo
(820.000-88.000)/5.500.000=13,3% de desemprego, 15%-13,3%=1,7%

Ou seja, as contas são simples e o raciocínio não é complicado, se baixarmos os salários, o Estado e as empresas têm margem financeira para contratar novos funcionários e assim solucionar em parte o problema do desemprego, um flagelo nacional que afeta milhares de famílias. Tal constata-se com simples cálculos matemáticos. Os portugueses gostam de comparar os seus ordenados com os restantes países da Europa, continente onde o país se integra, mas evocando agora a proximidade geográfica, porque não comparar os seus ordenados com os de Marrocos? Tal como Marrocos, Portugal não tem um sector produtivo forte, e recorre essencialmente ainda, tal como o país do Magrebe, à produção artesanal e ao turismo, como uma das fontes principais de receitas para o estado. Rogo aos portugueses que não comparem os seus ordenados com os da Alemanha, pois Portugal não tem nem uma Grundig, nem uma Opel, ou uma Schindler, uma BMW, uma Mercedez, uma VW, uma Porsche, uma Siemens, uma Bosch, uma Henkel, uma Miele ou uma Audi, entre outras. Todas estas marcas nos são familiares e muitos portugueses com os seus recursos financeiros adquirem produtos destas marcas que compram aos alemães, consequentemente não temos o direito de pedir aos nossos governantes melhores salários, tal é matemática pura.

Se em relação à questão de fundo o prof. António Borges tem razão, já em relação à moralidade para proferir tal comentário, não tem. Considerando que existem mais de 600 mil pessoas em Portugal a auferir o ordenado mínimo, que concede ao assalariado condições que o colocam no limiar da pobreza; e considerando que o prof. António Borges auferiu 225 mil euros completamente livres de impostos, ou seja, líquidos ou limpos, as considerações do prof. António Borges tangem assim o pornográfico. É de uma indecência e de uma insensatez impúdica vir alguém que aufere 38 ordenados mínimos - ganha o mesmo que 38 pessoas das 600 mil supra referidas o que dá para pagar os salários numa empresa de média dimensão - vir referir que é urgente baixar salários.

225000€/12 meses/485€=38,6 pessoas

Ou seja, ouvir António Borges pedir moderação salarial é equivalente a ouvir Ciccionlina pedir educação sexual nas escolas: a questão de fundo até pode ser premente e válida, mas vindo de quem vem só pode ser encarada como indecente e pornográfica.

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