Diário de Estocolmo – opus 97


Decorria o biénio de 2002, talvez princípios de 2003. O Natal por terras boreais é gélido e o frio é incisivo, todavia os homens do sul têm uma apetência libidinosa por loiras suecas, o que faz com que as hormonas, mais precisamente a testosterona, canalizem os homens latinos para o norte da Europa. E assim foi comigo, demovi-me de Lisboa em 2002 para encontrar a Luz divina e a revelação. A minha vida em Lisboa era cinzenta, triste e melancólica, influenciada fortemente pelo fado e pela saudade, sentimentos que à data de hoje considero nefastos para o meu bem-estar, mas estes sentimentos indubitavelmente, construíram aquilo que hoje sou. Saio de Lisboa para Estocolmo em setembro de 2002. Apanho o voo da TAP e ao meu lado vai um casal heterodoxo, ela era brasileira, provavelmente programadora, e ele era um sueco velho e ébrio, e ainda gordo, todavia bastante simpático. Ele passou o tempo todo a pedir uísques 20 anos à hospedeira, ela propalava umas barbaridades lusófonas lá da terra dos seus pais no interior de Portugal, já ele estranhava ainda como os portugueses eram doidos, desregrados e irresponsáveis. Durante o voo, o primeiro voo em que desabrochava e me afastava da clausura lusa, civilizacional, social, antropológica, parental e familiar, olhava inquietantemente para o relógio para tentar aferir se demorávamos muito para aterrar. Um voo repleto de suecos e portugueses que se deslocavam de Lisboa para Estocolmo num dia divino de setembro de 2002, data capicua. Chego a Estocolmo e deparo-me imediatamente com a mala no aeroporto à chegada, e penso para mim: estes suecos trabalham bem. O voo havia sido bem cedo, como tal chego a Estocolmo creio eu ao princípio da tarde. Chego ao aeroporto e apanho a mala. Tinha falado com o casal que me acompanhara, sobre qual a melhor forma de ir do Aeroporto de Estocolmo, Arlanda, para a cidade. Ele havia-me falado das maravilhas da linha férrea que unia o aeroporto à cidade, um meio rápido, cómodo e prático, porém ela, ao ver um pobre desgraçado estudante que iniciava o seu programa Erasmus aconselhou-me vivamente o autocarro, pois era muito mais barato, e não ia propriamente cheio de dinheiro na carteira.

Nada sabia da Suécia até partir da Portela. No dia anterior havia visto um filme tão estranho pós-modernista na RTP2, sobre um amor qualquer que adolescentes suecos nutriam entre si. O filme era sueco e o estilo era uma espécie de dadaísmo cinematográfico. Só retive esta cena: um rapaz de cerca de 12 anos, que persegue uma miúda que ama, mas que se afunda numa camada fina de gelo por onde caminhava. Ele grita, grita quando o gelo se quebra sob os seus pés, grita mas não entra em pânico pois já estava bem habituada ao clima e ao habitat gélido boreal. Grita, levanta-se, prossegue caminho e percorre a rapariga que amava. Nesse mesmo momento intriguei-me com os suecos e a Suécia, peguei na Enciclopédia Luso-Brasileira que tinha em casa, que na altura ia em 20 volumes, e procurei pelo verbete Estocolmo naquele ambiente sombrio em que se encontrava a minha sala. Era de madrugada, estava escuro, partia no dia seguinte para Estocolmo, todavia, a ansiedade era tanta que mal conseguia dormir, então decidi ler o verbete Estocolmo na enciclopédia em papel que estava lá por casa. Mal me lembro do que li, pois era tanta informação tão densa e tão pouco prática, que pouco retive, lembro-me apenas de ler que a percentagem de imigrantes em Estocolmo era mais de dez por cento. Adormeci e acordei sem problemas, tal era a ansiedade do voo. Levantei-me, vesti-me, já estava tudo preparado do dia anterior. Sentei-me no sofá amarelo que tinha no quarto, ouvi fado e chorei. Foi dos poucos momentos em que chorei na vida: a vida é para ser vivida, e chorar e rir faz parte dessa vivência. Quando oiço fado, talvez Dulce Pontes, Mariza ou Amália  – não foi fado, agora me lembro, foi mesmo Madre Deus – sinto-me inebriado com aquela melancolia. Ouvi aquela sonoridade, sabia que ia partir para bem longe durante muito tempo, previa-o, perscrutava-o na alma, e ao ouvi-lo, chorei. Parti para o aeroporto, apanhei o avião e cheguei a Arlanda.

Cheguei a Arlanda e comprei um bilhete de autocarro numa bilheteira convencional do aeroporto. Era uma mulher que me havia atendido. Dirigi-me para o autocarro e entrei. O autocarro, que era um daqueles com três eixos de rodas e com um fole no meio, estava repleto e para azar meu quando entrei tive de me sentar na zona central, onde não existem janelas. Eu queria ver aquela paisagem estival de Estocolmo, edénica e paradisíaca. Estávamos mesmo no princípio de setembro e ainda era verão e o ambiente era verdejante, viçoso, belo e tranquilo. Eu, todavia, estava enfiado na zona central de um autocarro com fole, onde devido ao próprio fole, não existem quaisquer janelas para se poder contemplar as vistas. O trajeto entre Arlanda e a cidade é lindo no verão, e eu nada via. Sentia um ímpeto por vislumbrar toda aquela riqueza da natureza boreal por tempos estivais, mas eu nada via. Levantava-me para tentar ver algo, mas não conseguia pois todos os lugares estavam ocupados. De repente, vejo dois bancos lado a lado, em que o de dentro está vazio. Junto à janela estava uma rapariga nova sueca, loira e olhos azuis, que me deixou extremamente intrigado. Aproximei-me, questionei-a se me podia sentar e ela acedeu ao meu pedido. Foi então, que sentado ao seu lado no banco de autocarro, pude contemplar a beldade da paisagem sueca pela altura do verão. Tudo tão verdejante, tudo tão viçoso, tudo tão verde, lembro-me de nunca ter contemplado nada similar em toda a minha vida. Vários fatores o providenciavam: o primeiro é que havia entrado no portão da liberdade, já não tinha o poder parental, já não tinha a censura moral e social que me acorrentava o comportamento; o segundo é que contemplava uma paisagem bela e paradisíaca ao entrar em Estocolmo, e a porta de entrada de qualquer cidade é sempre tão importante, o início de qualquer fenómeno é sempre tão influente; e o terceiro fator é que tinha mesmo ao meu lado, sentada do meu lado direito junto à janela, uma das mulheres mais belas que havia visto na vida, loira, estatura mediana, com um corpo atraente, olho azuis e uma face alva, cândida e pueril. Mas eu havia vindo do sul, como tal, a ousadia estava no meu código genético, e pela primeira vez em toda a minha vida – devido aos fatores expostos – abordei seriamente uma rapariga, com a mais ínfima e mais remota e latente intenção de a seduzir.

Não há aproximações ingénuas, qualquer aproximação de um homem a uma mulher que desconhece, tem cariz erógeno. O macho jovial enquanto está sob o poder parental, obedece aos preceitos de quem o alimenta, após esta fase, o macho procura uma fêmea para procriar, e tal está bem vincado nos mamíferos. Ora, quando procura uma fêmea, aproxima-se de si num ritual de sedução, o mais sublime possível. O ser humano, muito mais complexo, elabora também os seus próprios rituais de sedução. A mulher, numa humanização social, não quer apenas um macho que consigo conceba e que a abandone, quer um macho que a promova segurança, assim como qualquer fêmea; e segurança nos dias que correm revela-se no sucesso profissional e financeiro. A mulher, primariamente falando, foi divinamente criada para conceber. O homem, primariamente falando, foi criado para a conceber. Depois vem o intelecto e o divino que concedem ao homem e à mulher pensamento, ou seja, o sopro divino de Deus, a alma. E neste jogo de sedução, num ritual complexo e latente de atração libidinal, o homem ataca sempre de uma forma sublime, inocente, pueril, pois a mulher é dotada de nobres e divinais pensamentos e na sua procura por estabilidade e segurança emocional, não quer se deixar levar pelo primeiro homem mais arrojado que aparece, pois ela, racionalmente sabe, que esse tipo de homens só as querem para divertimento. E se a mulher for sueca, e o homem português, este paradigma acentua-se. Mesmo assim, ciente destas questões filosóficas que Schopenhauer tão bem evoca na sua metafísica do amor, ousei dirigir a palavra a esta bela sueca que ia sentada ao meu lado no autocarro até à cidade. Pouco me lembro dos pormenores da conversa, até porque o meu inglês na altura era deveras fraco, para alguém que saía do país e era estudante. O meu nível de inglês era fraco, pois havia aprendido somente cinco anos na escola pública, em turmas de putos rebeldes criados em bairros sociais e bairros de barracas. A professora de inglês era austera e nada ensinava, a minha colega de carteira era má aluna, tudo isto no ensino no terceiro ciclo. Depois, no secundário, tinha a meu lado na secretária das aulas de inglês, um tipo bem mais velho, repetente por diversas vezes, que carecia bastante de amor ao próximo e de espírito crítico, que encarava a escola e o ensino como um martírio. Ora os cinco anos de inglês, além de poucos, eram claramente insuficientes para ter uma conversa elaborada com esta semi-deusa boreal. Aliás, a rapariga havia vindo recentemente dos estados unidos, sendo que ia para as terras do tio sam com frequência. Assim sendo a conversa que elaborei com ela, foi ousada, mas não elaborada. Lembro-me de ela me falar das famosas lojas de bebidas alcoólicas, detidas pelo estado sueco. Falámos pouco mais sobre conversas informais, mas lembro-me da rapariga ser loira e bela, jovial e cândida.

Próximo capítulo recentemente – opus 98

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