Por que o Ubuntu é muito melhor que o Windows


Apesar do Ubuntu/Linux ser totalmente gratuito, ser mais rápido,
mais seguro, mais fácil de manter e mais robusto, continua a ter,
paradoxalmente, uma quota de mercado muito reduzida.
Fonte: StatsCounter
Antes de mais, perdoar-me-á o leitor a eventual arrogância, mas tenho de neste texto, considerando a elevada (des)informação que existe hoje em dia na Internet, de, na trilogia retórica, apresentar algum ethos, e referir que sou engenheiro eletrotécnico e de computadores pela Universidade Técnica de Lisboa, tendo vários anos de experiência de Windows e Ubuntu na ótica, quer de programador, quer de utilizador. Relevo por conseguinte que as grandes, conceptuais e substanciais diferenças entre estes dois sistemas operativos, e os engenheiros sabem-nas bem avaliar, não estão na aparência nem na interface gráfica (GUI – Graphic User Interface), mas no núcleo do próprio sistema operativo e nos próprios modelos de negócio e de distribuição. Farei uma pequena análise comparativa onde tentarei não entrar em detalhes demasiado técnicos, com uma linguagem que apesar de simples, espero que não perca o rigor informativo. Ademais, faço a comparação apenas entre o Windows e o Ubuntu (sucessor de diversas versões de Linux), pois aplico estes conceitos apenas a sistemas operativos para computadores pessoais, quer portáteis (laptop), quer fixos de secretária (desktop).

O Ubuntu é totalmente grátis

Certo dia, curioso que estava por saber qual a distribuição destes dois sistemas operativos pelas grandes superfícies e as respetivas quotas de mercado, dirigi-me a duas grandes superfícies na área de Lisboa que vendem computadores portáteis ao grande público (Worten e Fnac). Perguntei aos funcionários se vendiam computadores com Ubuntu instalado e a resposta deixou-me surpreso. Em variados modelos de computadores pessoais, das mais variadas marcas e feitos, não tinham nenhum modelo onde o Ubuntu estivesse instalado de raiz, repito nenhum, zero. A resposta ingénua de um dos funcionários de uma dessas lojas foi referir-me que o Windows era “oferecido” aquando da compra do equipamento. Nada tenho contra o lucro, sou liberal (economicamente também), mas as empresas não oferecem nada a ninguém. Nenhuma empresa, com visão lucrativa que é o que define a atividade empresarial, oferece alguma coisa a alguém. As empresas têm o seu modelo de negócio, que implica sempre uma visão lucrativa e especulativa na maximização do lucro dentro do quadro legal. É portanto, se quisermos, um exercício de otimização matemática, na medida que se pretende maximizar uma variável dentro de certas restrições, e nessa otimização, a verdadeira gratuitidade é sempre indesejável e improcedente. Logo, nunca há gratuitidade empresarial. O que sucede é que o preço do Windows vem embutido no preço que o consumidor paga pela máquina, e por certo que o revendedor tem uma pareceria com a Microsoft para que assim o seja.

Portanto, quando eu digo que o Ubuntu é grátis, significa isso mesmo, grátis. Bem sei que para o brasileiro e português comuns, sejam conceitos raros e difíceis de apreender dada a prostituição semântica que a palavra “grátis” obteve, mas significa isso mesmo: grátis, custo zero e sem condicionantes; ou seja, não é grátis “à la facebook”, que além de nos encher a tela com publicidade, por certo vende a nossa informação pessoal. É isso mesmo: grátis e sem condicionantes! Não há publicidade, não há licenças limitadas, nem no domínio de utilização nem no tempo, e se comprar uma máquina com Ubuntu numa loja não estará lá qualquer custo embutido para o sistema operativo (poderá estar eventualmente na instalação por parte do técnico). Logo, não há versão pro, versão light nem versão ultimate. Totalmente grátis! E é-o porque foi um sistema operativo de raiz concebido quer por académicos quer por voluntários que não visavam o lucro. Obviamente que, sendo académicos ou técnicos altamente especializados, têm os seus rendimentos nas suas profissões remuneradas, mas os paradigmas de distribuição são totalmente opostos. Enquanto o Windows, propriedade da Microsoft, funciona num modelo de negócio unicamente lucrativo tendo a contribuição única de programadores remunerados para o efeito, o Ubuntu funciona num modelo de partilha grupal e comunitária de informação e de conhecimento, doada por académicos, funcionários qualificados que o faziam nos tempos livres ou simples contribuidores anónimos com conhecimentos técnicos. O Ubuntu além de gratuito, tem uma licença livre e aberta, ou seja, o seu código raiz é público e totalmente partilhável.

O Ubuntu é muito mais seguro

A grande maioria dos servidores da Internet usa um sistema operativo nuclear, que é a base sobre o qual o Ubuntu assenta. Essa base nuclear do sistema operativo Ubuntu dá pelo nome de Unix. A Estação Espacial Internacional, a Uber ou a Tesla também usam Ubuntu, e acreditai que não é por questões ideológicas. A grande maioria do pessoal qualificado, profissional, empresarial e com vasta experiência em servidores ou em vários tipos de máquinas para sistemas críticos ou em tempo-real, usa apenas o Unix no seu dia a dia, e não por qualquer motivo político ou ideológico, mas porque de facto é mais seguro e mais confiável. Apesar de o Windows ter também uma lógica de administradores e de vários utilizadores, ela é muito pobre e redutora. No Ubuntu essa lógica é muito mais robusta, complexa, objetiva e clara. Existe por norma um super-utilizador raiz (root), que tem acesso a tudo, sendo normalmente a pessoa que faz a instalação do sistema operativo, e posteriormente existem vários utilizadores e vários grupos de utilizadores, sendo que cada utilizador tem acesso às mais variadas pastas e ficheiros, sendo tudo configurável quer pelo super-utilizador, quer pelos utilizadores que têm acesso para alterar as permissões dessas mesmas pastas e ficheiros. A estrutura de grupos de utilizadores e acessos que cada grupo tem a cada pasta e ficheiro, é também muito mais robusta e flexível no Ubuntu, como também são muito mais robustas no Ubuntu as ações que os proprietários de cada ficheiro e de cada pasta, podem executar.

Ademais, protocolos encriptados (por exemplo ssh) ou chaves de acesso são a prática e não exceção em sistemas operativos com base no Unix, ao contrário do que acontece no Windows. Toda esta estrutura hierárquica de utilizadores e as mais variadas formas de acesso a cada elemento do sistema operativo, faz do Ubuntu um sistema muito mais seguro que o Windows. Não deixa de estranhar portanto, que nunca conheci ninguém que tivesse que instalar um anti-vírus no Ubuntu ou um anti-malware, ou um anti-spyware, que além de consumirem recursos permanentes tornando o computador mais lento, em muitos dos casos não são gratuitos. Reparem que não digo que o Ubuntu é impenetrável, refiro apenas que o modelo subjacente e estrutural fazem do Ubuntu um sistema operativo muito mais seguro de operar que o Windows, e por isso mesmo, muitas das grandes empresas de software assim como aquelas que lidam com informação sensível ou crítica, fazem na sua maioria, uso do Ubuntu ou do Unix.

O Ubuntu é muito mais rápido e mais leve

Na maioria dos testes de desempenho, o Ubuntu "vence",
perdendo apenas para o desempenho em videojogos.
Fonte: geeknizer.
Embora o Windows tenha sido desenhado inicialmente para máquinas pouco potentes para os padrões de agora, teve desenvolvimentos posteriores que se basearam em máquinas cada vez mais potentes, com mais capacidade de processamento (CPU) e de memória. A base nuclear do Ubuntu (kernel), como teve sempre de ser robusta a suficiente para todo o tipo diferente de máquinas, não apenas computadores pessoais, mas nas mais diversas áreas da engenharia, fez com que tivesse desenvolvimentos que o tornaram muito mais robusto e rápido na capacidade de processamento e na forma como lida com os recursos. E o teste é fácil de operar por parte de um utilizador convencional, basta cronometrar o tempo que demora cada um dos sistemas operativos a arrancar. Experimente fazer você mesmo a experiência, caso possa, e verá que a diferença é abissal. Não só o Windows, como exposto anteriormente, tem por norma uma série de programas “necessários” que correm em pano de fundo (background) e que consomem recursos ao processador, como anti-vírus, sistemas automáticos de verificação e limpeza de disco (como o CCleaner) ou de “otimização do desempenho”, na grande maioria dos casos o Ubuntu prescinde de todas essas ferramentas, que são no Ubuntu, por norma, totalmente supérfluas.

O sistema de ficheiros do Ubuntu é também muito mais robusto e bem estruturado do que o sistema de ficheiros do Windows, e por essa razão, na maior parte dos casos, não é necessário desfragmentar os ficheiros no Ubuntu. O sistema de ficheiros de um sistema operativo lida com a forma, em como a informação dos ficheiros está organizada no meio de armazenamento, por exemplo, um disco rígido. Um único ficheiro não tem a sua informação unicamente no mesmo lugar ou setor no disco, mas tem o conteúdo espalhado em vários setores no disco, ou seja, tem o seu conteúdo fragmentado. A forma como o Windows organiza os seus ficheiros é tão má, quando comparada com a do Ubuntu, que é necessário recorrentemente desfragamentar todo o disco num processo moroso, tarefa que o Ubuntu na maior parte dos casos prescinde, devido à própria organização informativa. Por todos estes motivos, para a mesma máquina, o Ubuntu é muito mais rápido, consome menos memória e é mais eficiente na forma como lida com a informação.

O Ubuntu é suficiente e intuitivo para 95% das pessoas

O centro de programas do Ubuntu, tal como em Android,
tem toda uma série de excelentes programas completamente
gratuitos, que são suficientes para a grande maioria das pessoas.
Lembro-me perfeitamente das primeiras versões de Linux (grosso modo, o predecessor do Ubuntu), cuja interface gráfica deixava muito a desejar, e principalmente lembro-me dos vários comandos que tive de executar na linha de comandos, para poder utilizar uma simples pen drive. Os editores de texto, na ótica do utilizador, eram paupérrimos, e os próprios programas estavam desenhados para especialistas, e não para leigos. O paradigma alterou-se substancialmente com a introdução do Ubuntu. O Ubuntu oferece a interface gráfica e intuitiva, que era a vantagem inegável do Windows, ou seja, o Ubuntu providencia menus intuitivos e fáceis de usar; uma caixa intuitiva de pesquisa de informação; editores de texto que equiparam com o Microsoft Word, como o LibreOffice; clientes de e-mail; navegadores de Internet; tocadores de música; e acima de tudo, toda uma panóplia de programas (drivers) para diversos tipos de equipamentos que já vêm pré-instalados no Ubuntu. Ou seja, o Ubuntu permitiu a boa e intuitiva experiência de utilização em que o Windows de longe vencia ao Linux, com a solidez, a robustez e a segurança em que o Unix, a base nuclear do Ubuntu, foi sempre pioneiro.

E porquê ainda usar Windows?

Como o Windows baseia o seu modelo de negócio numa lógica unicamente empresarial e lucrativa, continua a ser útil para certo tipo de profissionais, pois há muitos programas que funcionam apenas em Windows, como o AutoCad (apesar de haver uma série de alternativas, gratuitas obviamente), ou programas semi-profissionais de edição de vídeo, como o Sony Vegas. O Windows continua ainda a ser de longe o líder em videojogos para PC, pois como é natural, os produtores de jogos sempre obedeceram a lógicas lucrativas, dada a complexidade gráfica envolvida e ao modelo de negócio das produtoras de videojogos. Mas o que é mais paradoxal é que uma grande maioria das pessoas que joga videojogos em Windows, fá-lo de forma completamente ilegal. Da mesma forma que o Windows enquanto tal, se espalhou muito na década de 1990, porque fez uso de um mecanismo de pirataria generalizada em massa, com o consentimento da Microsoft. A pirataria permitiu espalhar o sistema operativo pelas massas, de forma aparentemente de borla, sendo que a ilegalidade informática nunca foi uma preocupação para o utilizador convencional, mas essa massificação generalizou a utilização e a popularidade do Windows no público, fazendo com que várias empresas ou mesmo os estados, enveredassem pelo Windows, considerando que muitas pessoas já estavam habituadas em casa ao seu ambiente de trabalho. Assim, numa lógica conivente de ilegalidade massificada, a utilização do Windows generalizou-se pelo público.

Conclusão

Abstraia-se dos seus preconceitos, e pense que caso não faça uso de videojogos, ou caso não tenha uma necessidade de um programa muito específico cuja distribuição existe apenas para Windows, e seja apenas mais um mero utilizador convencional, como são 95% dos utilizadores pelo mundo, o Ubuntu é ideal para si. É totalmente gratuito, é tão intuitivo na utilização quanto o é o Windows, é muito mais leve, mais rápido e mais robusto para a mesma máquina, e é bem mais seguro na forma como lida com a sua informação.

João Pimentel Ferreira
Engenheiro Eletrotécnico e de Computadores

4 comentários:

  1. Subscrevo completamente a exortacao deste artigo. So' falta mesmo a nossa admnistracao publica tambem deitar fora o Windows para com isso pouparmos mais uns milhoes em licencas.

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    1. Tens noção quanto ganha a Microsoft com o estado português? Fica sabendo que uma das medidas da troika era a implantação do Ubuntu para poupar nos custos.

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  2. Excelente artigo. Tenho ambos sistemas operativos e de facto o Windows é algo que vamos podendo evitar. Também para processamento de texto existem opções gratuitas e muito boas

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    1. O LibbreOffice não fica nada atrás do MsWord para a grande maioria das tarefas que se exigem a um editor e processador de texto complexo.

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