Homem-hora no SNS


Por um lado vemos os jornalistas a reportarem o caos diário no Serviço Nacional de Saúde (SNS), e por outro vemos os membros do governo referindo que nunca houve tanto investimento e tanto pessoal contratado para o mesmo SNS. Mas será que ninguém sabe fazer contas ao homem-hora, ou pessoa-hora para ser inclusivo? Quando um programador dedica uma hora a desenvolver um determinado programa informático, resulta no mesmo número de homens-hora, que dois programadores a dedicarem cada um meia-hora. Qualquer gestor de projetos ou empresa, em que um dos ativos principais sejam os ativos humanos, tem plena consciência do factor pessoa-hora alocado aos projetos e quanto custa, em média, cada pessoa-hora. Com a passagem das 40 horas para as 35 horas semanais, o número de pessoas-horas no SNS baixou 12%. E é o número de pessoas-horas o activo humano mais importante em qualquer serviço ou produto onde a contribuição humana seja o ativo mais importante, desde o desenvolvimento de um programa informático até à prestação de serviços de consultoria. No SNS é um ativo valioso, senão o mais valioso, na medida que os profissionais, isto é, o seu tempo alocado ao serviço, são o ativo mais importante no SNS. Se com a passagem para as 35 horas, o número de pessoas-hora baixou 12%, a ministra da saúde diz-nos que "o SNS teve um acréscimo de 10.816 pessoas, um aumento de 9%". Portanto não chega para compensar o decréscimo no número de pessoas-hora, isto é, o sistema continua com menos pessoas-horas em relação ao governo anterior. 

Como o SNS tem menos pessoas-hora em relação ao governo anterior, a qualidade do serviço prestado aos utentes piorou. E o governo também tem razão, porque com a passagem para as 35 horas, o salário mensal manteve-se, querendo isto dizer que o salário horário aumentou 12%, significando portanto que a despesa com pessoal aumentou significativamente para o mesmo número de homens-hora, considerando demais que o governo contratou mais pessoal. Quem afinal tem razão, o governo ou a oposição? Ambos! Mas tal revela de forma cristalina quais foram ab initio as prioridades deste governo: saciar as reivindicações do funcionalismo à custa da degradação dos serviços públicos. Embora a esquerda seja tradicionalmente ateia, convém lembrar-lhes que o ateísmo deve ser alargado às contas públicas, isto é, da mesma forma que Jesus não multiplicou os pães e os peixes, porque não há milagres, Centeno também não consegue multiplicar os euros onde não existem. A Política é feita de opções, opções legítimas na maior parte dos casos; mas há gente politicamente medíocre e demagoga que ainda não está disposta a enfrentar as consequências das opções políticas que defende.

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